Kapittel 3. Metode og datagrunnlag
3.9 Begrensning av datamaterialet
O evento mais marcante que ocorrera no ano anterior à encenação d’As Rãs foi a vitória na batalha naval de Arginusas, em Lesbos, a qual proporcionou o domínio de Atenas sobre o Egeu. Entretanto essa conquista só foi obtida por haver movido esforços muito grandes tanto de toda a cidade, com o recrutamento inclusive de escravos no fronte. Foi uma das expedições que causou maior perda de homens, com as exceções de Délio, em 424 e da catástrofe da Sicília.
Depois da Batalha de Cinossema, em 410 a.C. (cf. Tuc.8,104-5), Alcibíades foi demitido de seu cargo e mandado de volta ao exílio, e Conon então assumiu o comando da esquadra em Samos.56
No início de 406 a.C., Lisandro, líder espartano, passava o seu cargo para Calicrátidas, um general muito menos experiente do que ele. Sabendo do descontentamento por parte dos amigos de Lisandro, o novo comandante então fez um
54 A princípio, o governo dos 400 deveria ser transitório, enquanto a nova Constituição era estabelecida,
para que, depois disso, os Cinco Mil tomassem o poder. Segundo Aristóteles (Constituição de Atenas, 33), o governo dos 400 teve duração de aproximadamente quatro meses.
55 Dentre as fontes antigas, essas são as que apresentam um retrato de Terâmenes no que diz respeito aos
priὀἵipἳiὅΝἷvἷὀὈὁὅΝἷmΝὃὉἷΝἷlἷΝἷὅὈἷvἷΝἷὀvὁlviἶὁΝἳὈὧΝὁΝἳὀὁΝἶἳΝpὄimἷiὄἳΝἳpὄἷὅἷὀὈἳὦὤὁΝἶ’As Rãs. Deixo de lado as passagens apresentadas por Lísias, pois elas discutem eventos ocorridos após a primeira encenação da peça. Quanto às fontes modernas, apresento estudos os quais considero pertinentes para a discussão sobre Terâmenes e sobre o retrato que os antigos fazem dele. Tais estudos serão apresentados ao longo deste capítulo.
56 Sobre as reviravoltas na carreira de Alcibíades, falarei posteriormente, em outro capítulo, pois agora
interessa-nos saber que Conon foi quem assumiu o comando das frotas atenienses, para enfrentar os espartanos.
discurso, dizendo que faria o melhor que pudesse e que, se alguém tivesse uma solução melhor do que ele no poder, que a apresentasse (cf. Xenofonte, Helênicas i.6.5).
Calicrátidas sabia da necessidade em se mostrar um comandante eficiente e, para isso, transfere a base militar de Éfeso para Mileto, pois tinha um novo plano: Mileto, que se opunha à aliança com os persas, seria um bom local a obtenção de mais recursos. Assim Calicrátidas faz um apelo por contribuições, dizendo que os espartanos não deveriam ficar dependentes dos persas. O seu discurso tem um apelo tão grande que ele consegue bastante recursos. Pegando-os então, ele partiu para Mitimna, em Lesbos, que era hostil a eles. Lá, ele conseguiu mais recursos com a tomada da cidade, mas se recusou a vender os cidadãos como escravos, pois pretendia manter a sua promessa de tornar livres os homens gregos.
Calicrátidas utilizou-se então de um artifício para derrotar Conon: enviou-lhe uma carta, dizendo que acabaria com a supremacia dos atenienses por mar, desafiando-o. Embora Conon estivesse, durante esse tempo, melhorando as suas tropas, sabia que sua frota era muito inferior, em número, à de Calicrátidas. Entretanto Lesbos, que era a principal barreira dos espartanos para alcançar o Helesponto, estava sob ameaça e Conon viu-se obrigado a lutar. Mas quando Calicrátidas foi atrás dele, com sua frota numerosa, Conon fugiu para Mitilene, onde, logo no início, já perdeu 30 trirremes. Ele conseguiu se esconder na ilha, mas se viu em grandes apuros quando foi cercado por terra e por mar.
Com alguma dificuldade, entretanto, Conon consegue escapar. Quando as notícias do que lhe havia acontecido chegaram a Atenas, os atenienses foram ao seu resgate. Para isso, eles precisaram reunir todos os recursos ainda possíveis: a frota ateniense, que contava com cerca de 40 navios, conseguiu ser aumentada ao número de 110 navios. Porém não era somente a escassez de navios o problema dos atenienses, os cofres públicos também estavam vazios.
Para arrecadar fundos para reconstruir a sua frota, Atenas viu-se obrigada a derreter a estátua de ouro de Niké e reunir dos cidadãos ouro e prata. Mas esse não era o único problema que eles tinham, pois faltavam-lhes bons soldados, uma vez que os melhores já haviam sido recrutados para acompanhar a frota de Conon em Mitilene. Reuniram então todos os cidadãos em idade militar e também escravos, a quem lhes foi concedida a cidadania. Partiram, com 110 navios para Samos, onde conseguiram mais 40 navios e mais alguns outros dos demais aliados, chegando ao número de pouco mais de 150 navios (cf. Xenofonte, Helênicas i.vi.24-9).
Mesmo em número muito menor do que as frotas espartanas, os atenienses conseguiram vencer a batalha que se deu em Arginusas, mas para isso, perderam 25 navios com toda a tripulação. É preciso ressaltar aqui que, como foi relatado, os atenienses utilizaram os últimos recursos que tinham para reerguer essa frota e que, portanto, a perda de 25 navios, por menor que seja, é muito significativa nesse momento.
Depois da vitória, o Conselho se reuniu e decidiu que era preciso resgatar os náufragos na batalha, estivessem eles vivos ou mortos, para que lhes fosse dado o funeral adequado. Terâmenes e Trasíbulo ficaram responsáveis por essa missão.
Entretanto, conforme o relato de Xenofonte (Helênicas, i.vi.35), mesmo querendo seguir as ordens dadas, o mau tempo não permitiu que o resgate fosse feito. Obviamente, o não cumprimento da missão desagradou muito os generais que a haviam ordenado.
Quando as notícias de que os náufragos não haviam sido resgatados chegou a Atenas, isso causou um grande alvoroço na população, de modo que, ao final, os seis generais que voltaram para Atenas – Péricles, Diomedonte, Lísias, Aristócrates, Trásilo e Erasinides – foram condenados à morte. Dois deles, Protômaco e Aristógenes, sequer arriscaram-se a voltar. Xenofonte aponta Terâmenes como o principal responsável por essa condenação, enquanto Diodoro Sículo apresenta um retrato mais ameno do comandante. Discutirei esta questão mais adiante, em momento mais oportuno.
Nesse contexto, portanto, Aristófanes escreve As Rãs. Depois de tais acontecimentos, o estado de pobreza em que se encontravam os atenienses era tal que, provavelmente no ano de 406, deu-se início à divisão da coregia entre duas pessoas, uma vez que não era fácil encontrar um cidadão que sozinho tivesse os recursos suficientes para custear essa liturgia57. Somado a isso, há também uma possível pobreza da produção cultural, mais especificamente, a carência de bons tragediógrafos, depois da morte dos três canônicos, se considerar-se que há algo de verdadeiro na reclamação de Dioniso, no iὀíἵiὁΝἶ’As Rãs, mesmo descontando-se os exageros cômicos.
Durante décadas, as competições dramáticas foram dominadas por Sófocles e Eurípides. Sófocles era o mais bem sucedido e Eurípides o mais controverso, porém ambos eram muito conhecidos, até mesmo internacionalmente. Com a morte de Eurípides, em 406 a.C. e com a idade avançada de Sófocles, que tinha aproximadamente
57Dentre as formas de liturgia - funções determinadas aos cidadãos mais ricos, como uma espécie de
imposto – a coregia é aquela sobre a qual se tem mais informação. Tratava-se da manutenção e preparação de um coro para os festivais dramáticos. O corego – cidadão responsável pela coregia – era escolhido pelo arconte-epônimo, devendo ter mais de 40 anos e ser um cidadão bem abastado. Para mais detalhes acerca dessa liturgia, vide Pickard-Cambridge (1953).
90 anos – e morreu no ano seguinte –, Aristófanes, como os demais atenienses, percebia que os grandes mestres trágicos estavam deixando Atenas sem nenhum sucessor à altura. ἠ’As Rãs, para resolver ao mesmo tempo os problemas literários e políticos pelos quais Atenas estava passando em 405 a.C., Dioniso, deus patrono do teatro, tem a ideia de resgatar Eurípides, para salvar a cidade e, ao mesmo tempo, para que Atenas voltasse a ter bons poetas. Entretanto, como se sabe, após uma disputa entre Ésquilo e Eurípides, no Hades, Dioniso decide-se por voltar com o primeiro, ao invés de Eurípides.58
Como discutirei melhor no último capítulo, os comentadores da peça concordam que não haja um critério literário que leve Dioniso a essa mudança de planos. Após o agón formal, segue-se a disputa entre os tragediógrafos, pois o deus do teatro não consegue ainda se decidir sobre qual deles é o melhor para a cidade. Assim, mesmo após a pesagem das palavras, permanece a dúvida. Somente a resposta acerca de uma questão política – sobre o retorno de Alcibíades – leva Dioniso a escolher, finalmente, Ésquilo.
Dessa maneira, olhando retrospectivamente, é possível encontrar alguns indícios de que, por meio de um critério político, e não literário, Dioniso prefere Ésquilo a Eurípides. Vários são os políticos zombados nesta comédia e começarei por Terâmenes, que, no agón, é associado diretamente a Eurípides.
58 As Rãs foram encenadas no governo do arconte Cálias, cujo mandato se deu do verão de 406 até o verão
de 405. Em uma inscrição de mármore, Marmor Parium, diz-se também que Sófocles morreu durante este arcontado. As Rãs fazem referência à sua morte no prólogo (vv. 76-82), no segundo prólogo (vv.787-94) e no êxodo (vv.1515-19). Estudiosos da peça debatem se sua a trama se deu devido à morte de Eurípides, no inverno de 407-406 ou à de Sófocles. Se a peça foi escrita enquanto Sófocles ainda estava vivo, até que ponto o texto foi alterado de última hora para se adequar a essa notícia? Russo (1964:198) acredita que a peça tenha sofrido alterações após a morte de Sófocles, e não que ela tenha sido construída completamente a partir dela. Russo apresenta alguns sinais, ao final da peça, de que houve improviso para que ocorresse a inserção de Sófocles. Toda a passagem compreendida entre os versos 1411-1533 é marcada por uma técnica rude: Hades surge em 1414 com versos bruscos, o trono da tragédia nunca é levado para cena, depois do verso 1476, Eurípides desaparece e a recepção de Hades em seu palácio parece forçada. Além disso, a ausência de Sófocles é notória, embora ele receba o trono da tragédia de Ésquilo. Nas últimas 50 linhas, Dioniso permanece mudo, totalmente ignorado. Entretanto essas improvisações não foram provavelmente recebidas como um problema pelo público, pois ele sabia da seriedade do caso. Russo também acredita que, inclusive a ressureição de Ésquilo tenha sido uma decisão tardia de Aristófanes, mas eu discordo dessa tese, pois, como demonstrarei ao longo deste estudo, as características da obra de Ésquilo e a época que ele representa, são muito importantes para a escolha de Dioniso. Além disso, como nota Dover (1997:6), o fato de haver alguma estranheza nas mudanças estruturais apresentadas na peça poderia levar ao questionamento da obra como um todo, como sendo toda ela uma revisão radical da primeira peça. Entretanto é preciso lembrar que uma das características mais fortes de Aristófanes é justamente a sua inovação, seu descarte das estruturas formais em favor da trama.