Entre os novos temas, meio ambiente é o que aparece mais conectado à cobertura feita pela revista sobre o Brasil. Os primeiros textos aparecem em 1989 e a temática estabelece-se como uma das mais relevantes. Desde o final dos anos 1970 a Economist vinha se posicionando de forma mais progressista diante de alguns temas. Relativamente ao Brasil, por exemplo, mudou a forma de abordar a questão dos direitos humanos, posicionando-se de forma mais crítica às situações de violação que aconteceram durante o regime militar e que continuavam a ser denunciadas. Neste sentido, supomos que a questão ambiental também compõe o quadro de atualização de algumas posturas políticas assumidas pela publicação.
Naturalmente, é a preservação da Amazônia que primeiro chama a atenção. Ao noticiar a construção de uma rodovia que ligaria o Acre ao Peru, deu destaque à preocupação de senadores americanos, entre eles, Al Gore. Segundo a revista: “Dr Tom Lovejoy, of Washington’s Smithsonian Institution, who was with the senators, believes the road would be ‘the beginning of the end’ for the Amazon”527. Mais do que isso, acreditava que o sistema
legal e fiscal fazia do desmatamento um negócio rentável:
In 1988 Brazil lost an area of tropical rain forest larger than Switzerland, and one of its leading crusaders against deforestation, Francisco Mendes, was murdered by cattle ranchers. Deforestation is more easily explained in land hungry countries like India where the pressure of population is intense. But Brazil has a comparatively low population density and boasts plenty of good farmland. Why then do settlers rush to the Amazon where land is poor and farm income meagre?528
A resposta de Hans Binswanger, economista do Banco Mundial era que as atividades agrícolas na Amazônia tornaram-se artificialmente rentáveis através dos incentivos dados pelo governo federal. De acordo com a Economist, entre 1975 e 1986, foram gastos cerca de um bilhão de dólares, “the biggest known subsidy in history of ecological destruction”529. Ou
seja, o Estado subsidiava vastamente o desmatamento da Amazônia530.
A revista falava também na possibilidade da cobrança de taxas sobre as emissões de carbono. Apesar de levantar a discussão, conclui que isso poderia ser inviável: “by the amount of cash needed to bribe Brazil to keep its trees”531. Assim, é possível perceber que há um
descrédito sobre o posicionamento do país na questão ecológica.
527 A back door into the Amazon. 11 fev. 1989. p. 76 e ss.
528 How Brazil subsidises the destruction of the Amazon. 18 mar. 1989. p. 111. 529 Ibid.
530 Growth can be green (ed.). 26 ago. 1989. p. 14 e ss. 531 A tax to keep cool (ed.). 13 mai. 1989. p. 19 e ss.
Em julho de 1989, a reunião do G-7 em Paris foi chamada de The first green summit. A partir daí o Brasil firmava-se como protagonista do debate internacional sobre preservação e desenvolvimento, a exemplo do que já tinha acontecido depois da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano de 1972:
Because only seven leaders will be at the summit, they will be sorely tempted to tell the 160 other countries what they should do about their environments. That would be a mistake. The Brazilians do not take kindly to lectures about the Amazon from rich countries that used to think nothing of cleaning their own forests532.
A Economist percebia que o Brasil era um país em desenvolvimento que estava adquirindo consciência da importância de seu patrimônio ecológico e muda o tom. Era possuidor de um terço das florestas tropicais do mundo: “Some of the indignations directed against Brazil has been deeply hypocritical. No government can say, hand on heart, that it has not encouraged a bit of environmental thuggery in its time”533.
Junto a isso, deixava clara sua posição diante da importância da questão amazônica asseverando que as queimadas na região representavam 25% das emissões de carbono no mundo e que muitos cientistas estavam chegando a conclusão de que o dióxido de carbono lançado na atmosfera estava causando o aquecimento da terra. Na diversidade da flora Amazônica poderiam ser encontradas a cura para muitas doenças e as respostas para o combate às pragas e outras formas de melhorar a agricultura. Enquanto deixava evidente que a região era objeto de interesse internacional considerava exagerado o medo sobre a internacionalização da Amazônia. Mas, por outro lado enfatizou: “Whether Brazil likes it or not, though, the rest of the world has a legitimate interest in what happens in Amazonia”534.
Assim, a revista encontrava maneiras de justificar o interesse internacional na floresta. Entretanto, conclui que o país já havia percebido como a questão era importante e que o discurso da preservação e as práticas de manejo da floresta poderiam ser também vantajosos:
Brazil could make a better living from keeping its forest and exploiting it sensibly than from destroying it. Botanists-turned-economists, studying the value of forest products in local markets, reckon that fruit, nuts and rubber may be worth more than twice as much as the same land logged or turned into cattle pasture535.
532 The first green summit (ed.). 15 jul. 1989. p. 14 e ss. 533 The month Amazonia burns (ed.). 9 set. 1989. p. 15 e ss. 534 Ibid.
Para termos uma dimensão da importância que o assunto vinha adquirindo, em 1989 dez editoriais mencionaram o Brasil. Desses, quatro trataram da questão ambiental. Apenas o debate sobre as ambições nucleares do país em meados dos anos 1970 recebeu atenção concentrada dessa forma. O novo tema, meio ambiente, estava definitivamente entre as pautas de relevância. A partir de então, inclusive textos com abordagens mais econômicas começaram a convergir para a temática ambiental. Aquecimento global, mudança climática e créditos de carbono, expressões até então majoritariamente desconhecidas começam a figurar com cada vez mais frequência e as referências ao Brasil, que sediaria a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992, eram inevitáveis536.
A combinação preservação do meio ambiente e desenvolvimento e a forma como o Brasil encarava essa equação continuavam a preocupar. A revista lembrou que a criação de gado na Amazônia tinha sido fortemente fomentada por subsídios e isenção de impostos e que, em seu governo, Fernando Collor havia acabado com esse tipo de crédito. Contudo, isso só resolveria parte do problema. A publicação enfatizava que preservar a floresta e ao mesmo tempo desenvolver a região era uma tarefa assustadoramente difícil:
To protect the Amazon properly means discouraging the development of the north. It means fewer tax breaks for farmers everywhere in Brazil, less federal support for investment in the north, and lots of spending on policing vast chunks of rainforest from incursion. Already, voter’s in Brazil’s northern provinces detest such ideas. Stand up the western politician who would willingly take on so much, even for the sake of the environment537.
Desta maneira, o periódico parece olhar para a questão ambiental de forma bem realista. Tinha clareza de que o país não se convenceria facilmente de que o assunto interessava para além de suas próprias fronteiras, por isso insistia em convencer a opinião pública internacional e, por reverberação, a interna de que preservar era meritório. É o que propõe no editorial “New ways to run the world” em que a revista demonstra-se preocupada com os novos temas. E quanto à questão ambiental, afirmava que a avaliação mundial fazia cada vez mais diferença. Tratar determinados assuntos apenas como afeitos à esfera interna dos estados já não era mais suficiente. Segundo a Economist, meio ambiente e defesa, relacionada ao risco do terrorismo, eram temas que demandariam uma atuação cada vez mais enfática das organizações multipolares538.
536 The charm of green money (ed.). 5 mai. 1990. p. 19 e ss.; Warm world, cool heads (ed.). 27 out. 1990. p. 13 e ss.; Sootbusters (ed.). 12 out. 1991. p. 19 e ss.; The hot-air summit (ed.). 7 dez. 1991. p. 15.
537 Trees don't grow on money (ed.). 10 ago. 1991. p. 11. 538 New ways to run the world (ed.). 9 nov. 1991. p. 11 e ss.
Referenciava-se o Brasil em artigos sobre poluição atmosférica e extinção de espécies ao mesmo tempo em que questionava-se sua capacidade em lidar com a questão e servir de sede para a mais importante discussão internacional sobre o tema do meio ambiente539.
Ao avaliar a Rio-92, a revista concluiu que esta acabou se tornando uma conferência muito mais sobre recursos financeiros e soberania do que sobre a temática ambiental. Afirmou que ao passo que os países ricos estavam dispostos a pagar pela disponibilidade dos países pobres em preservar, esses nem sempre admitiam que o uso dos recursos naturais deveria ser matéria de apreciação internacional. Alertava para o fato de que, dessa maneira, as discussões na Conferência tendiam a reduzir o problema ecológico a recursos financeiros e que boa parte da solução viria do pagamento que os países ricos fariam aos países pobres pela preservação ambiental. No entanto, para a publicação, era importante ter em mente que os problemas ambientais afetavam seriamente os países menos desenvolvidos - poluição atmosférica, poluição das águas, erosão e falta de saneamento básico eram ainda bastante graves - assim como afirmava que as cidades mais sujas do mundo não estavam nos Estados Unidos e na Alemanha, mas sim no Brasil ou na China540.
Lamentava que os ministros da economia não estivessem na conferência. Segundo a Economist, boa parte dos danos ambientais era causada pela venda, a baixo custo, de recursos naturais. Elevar o preço da energia elétrica, ou da água usada para irrigação daria melhores resultados e tornaria políticas ambientais mais rentáveis que dispendiosas. A ligação das questões ambientais e econômicas era inevitável. Tanto que o Banco Mundial que seria responsável por gerir o fundo de financiamento para projetos de preservação criado na Rio- 92, o Brasil receberia, a princípio, trinta milhões de dólares541.
A realização da Conferência e a emergência da questão ambiental trouxe o Brasil aos holofotes. O país não apenas foi a sede de importantes discussões sobre o tema mas era objeto dessas discussões. As fronteiras do desenvolvimento esbarravam na maior floresta tropical do mundo, em um dos maiores mananciais de água doce, na maior diversidade de fauna e flora do globo. O embate desenvolver ou preservar ganhava ainda mais relevância.
539 Species galore (ed.). 14 set. 1991. p. 17.; Cough city. 16 mar. 1991. p. 74.; Shoot the pianist. 28 mar. 1992. p. 82 e ss.; Blushing. 30 mai. 1992. p. 66 e ss.
540 Root of evil at Rio (ed.). 13 jun. 1992. p. 14 e ss.; Does greener mean richer? (ed.). 5 dez. 1992. p. 16 e ss. 541 Root of evil at Rio (ed.). 13 jun. 1992. p. 14 e ss.; Buying diversity (ed.). 2 out. 1993. p. 18.