Em 1979, Mehdi Bazargan já era um veterano da política iraniana, tendo passado cerca de trinta anos na oposição
.
Embora apresentasse fortes credenciais revolucionárias (havia participado do governo de Mossadegh, e após o retorno do Xá foi preso várias vezes por suas atividades de oposição política), ele se apresentava como um moderado que buscava a reconciliação entre islamistas e secularistas.
Ele já havia fundado o Comitê Iraniano para a Defesa da Liberdade e dos Direitos Humanos369 ARJOMAND, 1988, p. 147. 370 RUBIN, 1991, p. 142.
371 STANILAND, 1991, p. 102-103; FALK, 1979, p. 30. 372 FALK, 1979, p. 30.
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em 1977 e, como primeiro-ministro, buscou estabelecer uma ordem constitucional democrática
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373Bazargan logo percebeu que vinha competindo com o Conselho Revolucionário Islâmico (CRI), que havia começado a formar suas próprias instituições jurídicas e de segurança pelo país, na forma de cortes e guardas revolucionárias
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374 Esse sistema governativo binário criou um alto grau de confusão, visto que a divisão de poder entre o governo civil e os islamitas nem sempre era clara.
E ainda que Bazargan tenha tentado acomodar parte dos islamistas em seu governo, ele se mostrava incapaz de fazê-los dialogar com os secularistas.
Ao invés disso, seu governo na verdade ―served to emphasize the gap rather than the community of interests between the secular and the clerical forces‖.
375Khomeini continuava a empregar o antiamericanismo para deslegitimar o governo civil
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No Irã de 1979, o sentimento revolucionário era forte e afetava as decisões políticas de Bazargan, como descreveu Richard Falk: ―There is a kind of hated-predecessor syndrome at work in Iran today, which means that any regime, in order to survive and command respect, will naturally avoid resemblance to what came before it‖.
376 Quando os moderados acusaram o Conselho Revolucionário Islâmico deusar um sistema de justiça vingativa contra antigos membros do regime do Xá, Khomeini respondeu que pedidos por julgamentos públicos e advogados de defesa refletiam a ―Western sickness among us‖
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377 Em sua retórica, o governo tecnocráticode Bazargan era muito ocidental, o que cedia mais espaço para suas conhecidas estratégias de antiamericanismo
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No âmbito da política externa, Bazargan inicialmente se afastou dos Estados Unidos
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Como exemplo, logo depois que ele assumiu o poder, o Irã se juntou ao373 CHEHABI; DORRAJ, [2016]. 374 HIRO, 1985, p. 103-107 375 BAKHASH, 1990, p. 53. 376 FALK, 1979, p. 33. 377 BAKHASH, op. cit., p. 62.
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Movimento dos não Alinhados e cortou relações diplomáticas com aliados americanos, incluindo Israel e África do Sul
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378 O Irã ainda se retirou da Organizaçãodo Tratado Central (CENTO)379 e cancelou os acordos de defesa com os Estados Unidos que existiam há décadas
.
380 No geral, entretanto, ―relations between the U.
S.
and the new revolutionary regime were cool but not hostile‖
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381 Tanto o governo de Bazargan quanto o Departamento de Estado americano indicavam que estavam dispostos a retomar relações diplomáticas normais.
382 Como gesto de boa vontade,por exemplo, o ministro do exterior iraniano, Ebrahim Yazdi, interveio pessoalmente para defender a Embaixada Americana quando ela foi atacada por islamistas e grupos de esquerda em fevereiro de 1979
.
383 Reuniões ministeriais entre os dois países também foram retomadas.
Em outubro, o secretário de Estado americano, Cyrus Vance, se encontrou com o ministro Yazdi na Organização das Nações Unidas, afirmando que, para administração Carter, a era do Xá era considerada terminada e que os Estados Unidos tinham a esperança de trabalhar com o novo governo revolucionário contra o inimigo comum, a União Soviética.
384No entanto, o Conselho Revolucionário Islâmico se opunha fortemente à reaproximação de Bazargan com os americanos, e Khomeini rejeitava os pedidos de Bazargan para que o Irã trabalhasse de maneira mais positiva com os Estados Unidos
378 CHEHABI, 1990, p. 270.
379 A Organização do Tratado Central (em inglês, CENTRAL TREATY ORGANIZATION –
CENTO), conhecida em seus primórdios como Pacto de Bagdá ou Tratado da Organização do Oriente Médio, foi uma aliança militar formada em 1955 entre Irã, Iraque, Paquistão, Turquia e Reino Unido, cuja formação dependeu de incentivos militares e econômicos americanos, além de participação direta dos Estados Unidos no Comitê Militar da organização a partir de 1958. O objetivo era a contenção da influência soviética na região. Devido a inúmeras razões, entre as quais a inação da organização nos conflitos árabe-israelenses e indo-paquistaneses, a expansão soviética entre Estados da região (Egito, Iraque, Síria, Iêmen, Somália e Líbia), além do fim das monarquias no Iraque e no Irã, é geralmente considerada como a menos eficientes das alianças da Guerra Fria. Cf. HADLEY, 1971.
380 RAMAZANI, 1990, p. 51-52. 381 SNYDER, 1991, p. 277. 382 COTTAM, 1988, p. 207. 383 CHEHABI, 1990, p. 271. 384 HIRO, 1985, p. 137.
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e a Europa
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385 Robert Snyder descreveu essa estratégia islamista de isolamento dosmoderados:
In waging conflict with the U.S., the radicals delegitimized the bourgeoisie‘s revolutionary and nationalist credentials, and they argued that drastic measures needed to be taken against the moderates to safeguard the revolution… Hostility toward the U.S. militarized the revolutions and mobilized the anomic masses, who formed the social base of each against the now potentially traitorous bourgeoisie.386
Eventos subsequentes iriam apenas encorajar as estratégias de externalização e diversionismo de Khomeini
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Em outubro de 1979, a administração Carter permitiu que o Xá entrasse nos Estados Unidos para realizar tratamento médico contra um câncer linfático.
Khomeini exigiu que o Xá fosse extraditado para o Irã para que pudesse ser julgado e aumentou seus ataques aos Estados Unidos, como mostra essa declaração feita em uma rádio de Teerã: ―All the problems of the East stem from these foreigners, from the West, and from America at the moment.
All our problems come from America.
All the problems of the Moslems stem from America‖.
387Aparentemente sem ter percebido o consenso de antiamericanismo que Khomeini havia criado, o primeiro-ministro Bazargan viajou para Argel no dia 1 de novembro, acompanhado do ministro do exterior, Ebrahim Yazdi, e do ministro da defesa, Mostafa Chamran, para participar das comemorações da independência da Argélia
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Lá, Bazargan se reuniu com o Assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Zbigniew Brzezinski, para discutir a retomada da venda de armamentos para o Irã.
388 Brzezinski era um reconhecido apoiador do Xá, e as notícias do encontro foram recebidas como uma ofensa no Irã.
Os islamistas usaram o rádio e a televisão para divulgar o acontecimento, acusando Bazargan de ser subserviente aos Estados385 BAKHASH, 1990, p. 47-50. Para mostrar sua objeção, Bazargan supostamente teria dito a
Khomeini que ―the world of diplomacy and the international arena are not the seminaries of Na jaf and Qom‖.
386 SNYDER, op. cit., p. 171 387 MOTTAHEDEH, 1980, p. 30.
388 SICK, 1985, p. 221-222. A transferência de armamentos continuous até a saída definitive do Xá,
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Unidos
.
Já no dia 2 de novembro, Khomeini convocou seus seguidores a ―expand your attacks against America and Israel with full force, and to compel the U.
S.
into extraditing this criminal, deposed Shah‖.
389 Dois dias depois, enquanto Bazarganainda estava fora do país, uma manifestação de estudantes e militantes islâmicos iranianos cercou a Embaixada Americana em Teerã, resultando em uma crise de reféns, quando cinquenta e dois cidadãos americanos foram mantidos reféns por 444 dias, até 20 de janeiro de 1981
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Khomeini explorou a crise dos reféns como meio para destituir o governo de Bazargan e, posteriormente, derrotar os moderados que ainda ousavam desafiar sua liderança