Kapittel 4. Når par er i ferd med å gå fra hverandre - mekling
4.4 Barns deltakelse i mekling
A Sra. Matilde, 64 anos, casada, com grau de instrução equivalente ao 3º grau completo, não possui doença crônica não transmissível, mas apresenta incontinência urinária, ao esforço. Na avaliação de enfermagem e, também, na avaliação médica, a sua classificação no teste de marcha e equilíbrio foi de baixo risco para quedas, totalmente independente para as atividades de vida diária e para as atividades instrumentais de vida diária, não faz uso de nenhuma medicação, a aferição de glicemia 70 mg/dL em jejum, colesterol total 164 mg/dL (dentro dos valores de normalidade) e quanto aos níveis pressóricos 150x80 mmHg (um pouco elevado para os parâmetros estabelecidos pela Sociedade Brasileira de Cardiologia).
Quanto à avaliação nutricional, a sua classificação de índice de massa corporal de 30,1 Kg/m2, caracterizando obesidade grau I, circunferência abdominal acima do preconizado 92 cm. Na avaliação psicológica apresentou aspectos cognitivos preservados e sem indícios de traços depressivos. E na avaliação social sem queixas intervencionais aparente.
Na reunião de equipe para proposta de intervenção e encaminhamentos para a devolutiva, chegamos à conclusão que deveríamos encaminhá-la para o acompanhamento nutricional, além de pedir para ela verificar continuamente a pressão arterial e anotar, caso notasse que continuava alta, agendar consulta com o cardiologista. Encaminhamos, ainda, para a atividade física, coral e dança de salão.
Muito participativa, a Sra. Matilde, já freqüentava inúmeras atividades antes de ingressar no Programa. Ela, imediatamente após ter recebido a carta convite da operadora de planos de saúde, ligou para agendar a sua AGA. Com a devolutiva e os encaminhamentos propostos, essa senhora se inseriu nas atividades do Programa e, diga-se de passagem, contribuiu muito com as dinâmicas, trazendo as vivências de outros grupos dos quais participa. Vale dizer, também, que ela é uma das senhoras mais animadas nas festas comemorativas.
Seguindo a mesma linha de raciocínio que empreguei nas análises anteriores, trago, abaixo, o caminho da interpretação dos dados coletados na entrevista com a Sra. Matilde:
32 A senhora acha importante passar em consulta com uma equipe multiprofissional? Por quê? 33 O que a senhora achou da avaliação realizada? Por quê?
34 Como a senhora observou o trabalho desempenhado pelo profissional enfermeiro? 35 O que mudou após a sua inserção no programa? Explique a sua resposta.
TRECHOS DOS RELATOS CÓDIGOS
Questão 132
“abrange todos os aspectos da pessoa humana né.”
Integralidade
Questão 233
“bastante produtiva bastante útil porque é uma forma de conscientizar”
__________________________________ “Preocupada com a vida do dia a dia [...]
acaba esquecendo de se cuidar”
Educação para saúde
__________________________________ Autocuidado negligenciado
Questão 334
“o fator tempo também que você pode ... vamos dizer assim, se abrir melhor com a enfermeira.”
_________________________________ “ponte entre o paciente, a pessoa necessitada e o médico, o papel do enfermeiro”.
Escuta aberta
__________________________________
Mediador
Questão 435
“é uma somatória né, o corpo humano a pessoa, nós somos uma parte física, mental, psicológica, tudo então a gente
Ao agrupar os códigos, obtiveram-se os seguintes subtemas e temas:
Diferente dos demais sujeitos, esta senhora não apresentava nenhuma doença crônica e nem fazia uso de qualquer medicamento. Nos seus movimentos à procura de maior bem-estar, ela incluiu a participação nas atividades do Programa “Viva melhor a melhor idade” (que envolve o fluxo da AGA, acompanhamento profissional, se necessário, e participação nos grupos). Depois de realizar o exercício de interpretação, explicitado nos quadros acima, passei a considerar que a insistência do tema “integralidade no cuidar” revela a importância que a Sra. Matilde atribuiu à articulação entre a AGA e as outras atividades do Programa. Ao colocar ênfase, por exemplo, na necessidade do profissional enfermeiro de se preparar não somente tecnicamente para
tem que se avaliar como um todo né.”
_________________________________
“uma coisa que eu achava que jamais eu ia conseguir porque eu não leio partitura, não sei partitura, mas aqui não há necessidade de saber nada”.
_________________________________
Superação de dificuldade
CÓDIGOS SUBTEMAS TEMAS
Integralidade Ampliação do olhar
para a saúde
Integralidade no cuidar
Educação para saúde Dimensões
subjetiva e social do cuidar Educação para o autocuidado em saúde Autocuidado negligenciado
Escuta aberta Intervenção
profissional
Integralidade no cuidar
Mediador
Integralidade Olhar dirigido para
potência
Descoberta de potencialidade Superação de dificuldade
intervir no processo saúde e doença, mas abrindo sua escuta para as demandas dos idosos, foi que observei que, para ela, se configurou a proposta de interação entre esses contextos. Note-se: o papel de mediação que ela atribui ao enfermeiro, está atrelado a uma consideração sobre a sua possibilidade (ou não) de arranjar um ”tempo” (que, implicitamente, o médico não teria!) para, de fato, acolher a necessidade que o idoso tem de ”se abrir”. Isso porque, diz ela, “o fator tempo também que você pode ... vamos dizer assim, se abrir melhor com a enfermeira”. Gostaria de chamar a atenção para o duplo sentido que o termo ”tempo” parece adquirir na sua fala: ele nos remete à sucessividade cronológica e, também, ao modo como, nessa seqüência, se produz um corte para que um sujeito se abra (esse tempo é necessariamente lógico, e não cronológico).
A Sra. Matilde, ao afirmar que “é uma somatória né, o corpo humano a pessoa, nós somos uma parte física, mental, psicológica, tudo então a gente tem que se avaliar como um todo né”, condiciona a possibilidade de se autoavaliar (e, conseqüentemente,
de se autocuidar) numa dimensão mais integral, à natureza do olhar que o profissional dirige à sua saúde. O autocuidado tem, segundo sua ótica, íntima relação com esse “confronto” de olhares (como também afirmou a Sra. Clarice). Ela, a meu ver, inclui um outro ingrediente no encaminhamento desta reflexão, quando assinala que esse olhar mais integral inclui um desvelar o que há de potência (encoberta para o próprio sujeito) para tornar a vida mais saudável (principalmente quando se leva em conta a dimensão de bem-estar no conceito de saúde): “uma coisa que eu achava que jamais eu ia conseguir porque eu não leio partitura, não sei partitura, mas aqui não há necessidade de saber nada”.
Não posso deixar de pontuar, ainda, que me surpreende a parte final da sua afirmação, “aqui não há necessidade de saber nada”. Será que ela estaria se referindo a uma possível passividade, mais em consonância com a posição destinada ao aprendiz no modelo tradicional de educação em saúde? Arrisco-me a dizer que os dados falam ao contrário disso. Talvez o que esteja em causa é o fato de que os saberes podem/devem ser compartilhados nos espaços que se abrem para encontros ... O que ela descobriu de capacidade encoberta talvez esteja mais em sintonia com esse “não [...] saber nada”. Descobrir-se no “saber do outro” parece ter sido um dos maiores ganhos assinalados por esta senhora na entrevista. Acontecimento que atualiza uma afirmação de Ayres (2004, p. 27), qual seja: “a própria construção das identidades individuais, as quais plasmam os
projetos de felicidade em cujas singularidades se deve transitar na perspectiva do Cuidar, se faz [...] na interação com o outro”.
• Resultados obtidos:
A análise, realizada anteriormente, deixou ver que há dois eixos que norteiam a discussão desses sujeitos idosos relativamente ao que seriam ações promotoras de sua saúde: (1) integralidade no cuidar; (2) assunção, pelos profissionais da saúde, de uma posição de escuta que inclua a dinâmica entre os sujeitos implicados no processo de cuidado. É preciso colocar em relevo que a lógica da integralidade está associada ao delineamento de uma escuta que excede saberes técnico-científicos fragmentados. Isso nos leva a concluir que o encontro dos profissionais de saúde com os sujeitos a quem dispensam cuidados é marcado pela complexidade da abordagem do humano, o que requer, do meu ponto de vista, diálogo entre e além das disciplinas que cada um deles representa, somando aí a incorporação de “saberes populares”, aliados a sutilezas subjetivas, que, como vimos no entrecruzamento das falas nas entrevistas e dos dizeres dos meus relatos, atravessam o processo de cuidar da saúde.
De fato, um dos resultados desse empreendimento de análise se traduz na necessidade de problematizar, no campo de promoção da saúde do idoso, a base de formação dos profissionais que a realizam em especial a do profissional enfermeiro. Este trabalho nos indica um caminho, qual seja o da interdisciplinaridade:
é no âmbito da interdisciplinaridade que grandes desafios epistemológicos – teóricos e metodológicos – se colocam. Daí seu papel estratégico de estabelecer a relação entre saberes, propor o encontro entre o teórico e o prático, entre o filosófico e o científico, entre a ciência e a tecnologia, apresentando-se, assim, como um saber que responde aos desafios do saber complexo (DOCUMENTO DE ÁREA CAPES, 2009, p. 6).
O exercício da Enfermagem no século XXI não pode deixar à margem o que se revelou, também neste estudo, como demanda para sua realização: uma escuta voltada para a complexidade da dinâmica em causa na sustentação da vida, não só como uma condição biológica, mas também existencial (o que traz à cena a relação entre bem/mal- estar na cultura e bem/mal-estar subjetivo). O “encontro entre o teórico e o prático” que o
compromisso com a educação em saúde – base para a sua promoção – exige, parece reclamar que se dê ênfase a abordagens dialógicas, tanto do ponto de vista teórico, quanto do ponto de vista prático. É essa conclusão que recolho das falas dos sujeitos relativamente ao papel que atribuíram a este profissional, tanto no que diz respeito ao fluxo da AGA, quanto à sua importância para acolher e promover suas demandas de bem-estar.
Sobre a configuração e os efeitos da utilização da AGA no Programa “Viva melhor a melhor idade”, deve-se dizer que nenhum dos quatro entrevistados observou que ela poderia ter uma existência independente de um conjunto de atividades sociais. Isso nos faz reconhecer que o “ampla” que qualifica a avaliação geriátrica proposta por Warren deve comportar o sentido de “entrosamento (diálogo interdisciplinar)” para orientar “interação” entre intervenções clínicas e não-clínicas. De fato, o adjetivo já referido exige a ultrapassagem de um olhar e escuta fragmentados.
Tomo como exemplar o fato de que, nas avaliações psicológicas, se tenha recolhido como resultado, a partir dos instrumentais utilizados, uma tendência insistente de manifestação de “traços depressivos”: três dos quatros sujeitos receberam este diagnóstico, mas apenas um deles foi acompanhado individualmente pela psicóloga. Isso significa que o instrumento, tomado nele mesmo, não é decisivo para o desenrolar do processo de cuidado. Há “algo mais” que determina o modo como cada um, em sua singularidade, será acolhido. Disso depende o sucesso (ou não) do empreendimento que envolve o cuidar de seres humanos. Se o dispositivo instrumental é sustentado pelo ideal de generalização, a “escuta”, da qual insistentemente falamos, é guiada pela singularidade.
Nessa perspectiva, é que se imprime, com força, o ideal de cuidado veiculado pelo “modelo dialógico”: de ambos os lados (do profissional incumbido da tarefa e daquele a quem dispensam cuidados) há um sujeito. Não faz mesmo sentido falar em “prescrição” de normas de conduta (para um ou para outro) já que no educar um sujeito se identifica (ou não) com a mensagem (a ser) transmitida. Aproveito para assinalar que há, explicitamente colocado, para todos os sujeitos da pesquisa, o reconhecimento de que a AGA, quando articulada a um programa de atividades que mobilizam sujeitos para a conquista de bem-estar, se torna um importante instrumento de promoção da saúde do idoso. Como vimos, o Programa constituiu-se num lugar de resgate subjetivo e social, na medida em que ali os sujeitos, para usar expressão da Sra. Cecília, encontram uma possibilidade de “sair do anonimato”. Note-se aí o valor que esses idosos dão ao
reconhecimento de suas capacidades (potências) pelo outro, transformando isso num ganho para sua saúde: cuidar-se como efeito do cuidado dispensado pelo outro.