Os preconceitos e atos discriminatórios de Félix contra outras personagens estão presentes em diversas de suas ações e discursos ao longo da narrativa. Como pontuado anteriormente, estes atos não são explícitos como os discursos de ódio que ele sofre, mas
estão diluídos em seus comentários no decorrer da trama. Ainda que naturalizados, os comentários acabaram adquirindo destaque, inclusive no relatório Obitel 2014.
Os ácidos comentários de Félix funcionavam como alívio cômico à trama repleta de reviravoltas e incidentes característicos da matriz melodramática. Tais comentários, em geral, reproduziam clichês e preconceitos e podiam produzir, em alguns casos, efeitos de estranhamento, levando o telespectador, como ocorre nos gêneros sério- cômicos (Bakhtin, 1993), tanto ao riso como à reflexão. Certamente, os sentidos produzidos pelos comentários de Félix variaram enormemente em razão do caráter polissêmico da linguagem televisiva. (LOPES, M.I.V., et al., 2014, p. 148, grifos da autora).
A misoginia e o sexismo são duas das principais formas de preconceito e discriminação exercidas por Félix ao longo da narrativa. Um dos exemplos mais evidentes destas ações é a forma como Félix se dirige à secretária Simone (Vera Zimmermann), chamando-a de “cadela” – o que além de discriminação é um ato de assédio moral. Em uma
das conversas, após assumir a presidência do hospital, ele tripudia da funcionária “como vai, cadela?” (REDE GLOBO, 2013a, cap. 131). Dias depois, cobra o fato de Simone ter lhe
fotografado97.
Félix: Fala, cadela.
Simone: Doutor Félix, assim o senhor me deixa nervosa.
Félix: Odeio mulher que fica nervosa à toa. Fala, cadela. Aliás, se gostasse de
mulher, tinha virado ginecologista. (REDE GLOBO, 2013a, cap. 149, grifos da autora).
À exceção da mãe, todas as demais mulheres são desprezadas por Félix e adquirem alcunhas jocosas. O desprezo através da hierarquização de homens e mulheres na sociedade aparece de forma evidente na maneira como Félix se refere as pessoas do gênero feminino. Félix não só odeia mulheres que ficam nervosas – após serem insultadas e ultrajadas – como parece ter enorme desprezo pelo gênero feminino, de forma geral. Esta atitude é demonstrada
quando ele afirma que “se gostasse de mulher tinha virado ginecologista”, reproduzindo uma
lógica de redução da mulher aos seus órgãos genitais e reprodutores – em uma concepção de que a função feminina é a de servir, única e exclusivamente aos prazeres masculinos, presentes nas construções sociais desde a formação dos primeiros relacionamentos e formas
97
No episódio em que a secretária tentava auxiliar César na investigação sobre o desaparecimento de Paulinha ao nascer.
de constituição familiar (MELLO, 2005).
A profusão de termos através da linguagem e de estigmas jocosos é uma das formas pelas quais o poder se perpetua. Enquanto a norma masculina não precisa ser questionada, justamente por ser a regra e como tal naturalizada, o gênero feminino é alvo de discriminação frequente e problematização recorrente. Assim, tal qual acontece com a homossexualidade no regime heteronormativo, no que se refere ao gênero há uma abundância de sentidos produzidos sobre o gênero feminino que não encontram similar quando se tratam de pessoas do gênero masculino. Neste sentido, parece inconcebível que Félix fizesse piada similar com homens afirmando, por exemplo, que deveria ser urologista.
O desdém pelas mulheres se estende ao desprezo pela luta feminista. Em outra oportunidade, ao recriminar Simone por ter tentado ajudar Lutero – na investigação sobre o superfaturamento de contratos – Félix ameaça demiti-la. Diante da intimidação, Simone implora para não ser demitida e, nervosa, começa a chorar.
Félix: Ah, não, sai. Mulher que chora na frente do patrão é uó. Vocês lutaram tanto
por direitos iguais para chorar na frente do patrão? Sai da minha frente e toma cuidado ou te demito. Ai, salguei a santa ceia para ter uma secretaria que chora na minha frente? (REDE GLOBO, 2013a, cap. 19, grifos da autora).
A luta histórica de mulheres pelo reconhecimento dos mesmos direitos é ignorada e minimizada pela personagem, em um tom de ironia e desdém pelas desigualdades sociais entre homens e mulheres. Os momentos de separação ou briga com Edith são outras oportunidades em que o desrespeito de Félix pelas mulheres aflora, principalmente quando o
administrador a chama de “vadia” ou “piranha”. Até mesmo Glauce, a quem Félix admira
pela personalidade forte e maquiavélica, é vítima de seu machismo. Quando conhece a médica, no episódio em que os principais dirigentes do hospital investigavam o registro de
Paulinha, Félix diz: “nunca vi uma mulher tão inteligente”, e acaba sendo repreendido por César: “não seja preconceituoso, Félix” (REDE GLOBO, 2013a, cap. 18). A crítica é um
paradoxo, já que César é uma das personagens mais preconceituosas e discriminadoras na trama e reconhecido pelas demais personagens pelo perfil machista.
O preconceito também se estende para as tarefas que usualmente são socialmente atribuídas aos indivíduos. Ao perder os recursos financeiros e ver todos os amigos se distanciarem, a única pessoa que o acolhe é Márcia. No dia em que se prepara para sair em
busca de emprego, mesmo com todo o acolhimento recebido, reclama da forma como ela cuidou de suas roupas.
Márcia: Espero que tenha ficado bom.
Félix: Mas que colarinho é esse? Está um desastre esse colarinho.
Márcia: Melhor você passar, não passar roupa direito, ainda mais uma camisa cara,
deste jeito.
Félix: Eu? Passar roupa? É o apocalipse. (REDE GLOBO, 2013a, cap. 163). O preconceito de gênero se entrecruza com o de classe, pois mesmo tendo perdido os recursos financeiros e privilégios que possuía, Félix não aceita realizar tarefas do cotidiano como o cuidado com as próprias roupas. A tarefa, aos olhos do administrador, deve ser exercida por mulheres, que precisam ter a competência para realizá-las – dado que culturalmente compreendidas como femininas. Ou seja, é duplamente impensável que se dedique as tarefas consideradas inadequadas para homens de classe alta.
O preconceito de classe não é algo que emerge somente quando Félix perde os recursos econômicos. Enquanto administrador do hospital e integrante, financeiramente, da classe média alta, em diversas oportunidades ele desdenha de pessoas oriundas de classes populares e não titubeia em demonstrar um grande temor a qualquer possibilidade de perder os recursos financeiros. Um destes momentos acontece quando busca empréstimo em uma instituição bancária, logo após assumir a presidência do hospital.
Gerente: Mais um empréstimo, doutor Félix? O senhor ainda tem um que está
pendente aqui no banco.
Félix: Que estou pagando aos poucos. Só que agora, sou presidente do hospital. Eu
tive novas despesas, tenho que comprar ternos novos e o terno, hoje em dia, custa mais que um apartamento (risos).
Gerente: Não exagere, senhor Félix. Se bem que os ternos que o senhor veste
custam tanto quanto um quarto na periferia
Félix: Imagina, só se for um quartinho mixuruca. Me dá uma alergia só de ouvir
falar em periferia (REDE GLOBO, 2013a, cap. 148, grifos da autora).
O diálogo é uma das demonstrações da ojeriza de Félix por integrantes das classes
populares. A “alergia” de Félix pela periferia é uma expressão do desdém por integrantes de
classes populares, com os quais convive apenas como subalternos enquanto administrador e presidente do hospital. Mesmo quando perde os recursos financeiros, Félix lembra as personagens de classe popular que ainda os considera inferiores, em decorrência dos privilégios que teve ao longo da vida.
Não somente mulheres e integrantes de classes populares são hostilizados, como pessoas com idade mais avançada também são alvos de discriminação por Félix. A personagem que mais sofre com as opressões é o médico Lutero, a quem Félix não se cansa de lembrar a idade como forma de insinuar inaptidões físicas e mentais. Lutero reclama das atitudes de Félix para César, durante uma reunião da diretoria da empresa, na qual o administrador também desdenha da idade do advogado Rafael (Reiner Cadete) – pelo motivo contrário, por ser jovem demais.
Félix: Estou ficando com claustrofobia. O senhor sabe o que é claustrofobia,
excelentíssimo causídico?
Rafael: Claustrofobia é o estado psicopatológico pelo medo de estar ou passar por
lugares fechados.
Félix: Mas quanta palavra difícil ele sabe.
César: Para de atormentar o doutor Rafael, Félix. Não é porque ele é jovem que é
ineficiente ou inculto.
Lutero: O Félix tem preconceito de idade, não é. Comigo por ser velho e com
doutor Rafael por ser jovem. Mas você vai ficar velho.
Félix: Nem sei o que vai acontecer, não tenho vocação para uva passa como o
senhor (REDE GLOBO, 2013a, cap. 43).
A geração tem um papel central na percepção de Félix sobre as demais personagens, de modo que ele insinua incapacidades intelectuais tanto dos mais jovens quanto de pessoas com idade mais avançada. A avó de Félix, Bernarda, acaba sofrendo um duplo preconceito, na
medida em que é mulher e tem idade mais avançada. A expressão “vovó periguete” é utilizada
para recriminar o relacionamento entre Bernarda e Lutero, em uma das demonstrações de descontentamento de Félix com o comportamento considerado inadequado para a terceira idade: vivenciar um relacionamento, especialmente sendo mulher.
Os preconceitos e discriminações contra mulheres, pessoas de classes populares e com idades distintas acontecem como demarcadores da identidade de Félix, que mostra sua diferença em relação aos demais. Neste sentido, seu preconceito também pode se estender para pessoas com identidade de gênero e sexuais não normativas, como travestis e transexuais. Como homossexual, ele acredita ser superior em relação às pessoas com identidade de gênero não normativa e em mais de uma oportunidade ele se refere às travestis de forma pejorativa. Em conversa com Eron, os dois homossexuais exprimem um sentimento de repulsa à vivência de travestis.
Eron: O filho da Amarilys é meu filho.
Félix: O filho da Amarilys é seu? Que recaída brava, hein Eron... Me surpreendi,
embora, pensando bem, a Amarilys tem uma cara de traveca.
Eron: Ela não tem uma cara de traveca. Ela é uma linda mulher. (REDE GLOBO,
2013a, cap. 22, grifos da autora)
Félix insinua o fato de que Eron é homossexual, logo poderia se interessar por uma travesti, em uma clara confusão entre orientação sexual e identidade de gênero. Eron poderia se interessar por uma travesti, por uma mulher ou por um homem, mas a fala de Félix recrimina a possibilidade de um relacionamento com pessoas trans e acaba por reforçar estigmas e confusões a respeito de gênero e sexualidade. Na resposta, Eron também contribui para escalonar a travestilidade como inferior, quando refuta a possibilidade de Amarilys “ter
cara de travesti”. A universalização e estigmatização das travestis se completa quando ele defende que Amarilys é uma “linda mulher”, ou seja, bastante distante de qualquer associação
com travestis.
Dentre as formas de preconceito e discriminação mais recorrentes culturalmente, o racismo é um dos mais invisíveis na narrativa. Uma das possíveis explicações é a de que, em um país formado por 56% de negros, uma pequena minoria de personagens é negra e Jayminho – a criança adotada por Niko e Eron – é o mais visível dentre eles. Outro fator de explicação para ausência dos preconceitos e discriminações raciais na fala de Félix é a que, ao contrário das demais formas de opressão apresentadas até o momento, o racismo é crime. De forma que, ainda que perpetuado em suas mais diversas formas, como as diferenças salariais e escolares entre brancos e pretos, a ausência de acesso aos recursos culturais e a perpetuação da violência contra a população negra, o racismo é praticamente inexistente em Amor à Vida. Esse aspecto, em meio a tantas formas de discriminação, pode ser percebido como mais uma forma de negação deste preconceito arraigado na cultura do país.
O racismo só foi constatado em uma das cenas da personagem Félix. Após colocar uma flor no cabelo para vender cachorro quente, ele é assediado por dois homens que
assoviam e, irritado, grita: “vão assoviar para suas negas, gentinha!” (REDE GLOBO, 2013a,
cap. 178). A expressão é bastante contestada pelo movimento negro por legitimar preconceitos e abusos contra mulheres negras, que em decorrência da raça e do gênero,
estariam mais vulneráveis para os assédios. Ao dizer “vão assoviar para suas negas”, Félix
remete a um sistema social no qual algumas pessoas estão disponíveis para o assédio: mulheres negras.
No conjunto de cenas analisadas, o preconceito e discriminação reproduzidas por Félix demonstram que, por serem naturalizados, estão mais diluídos nas expressões da personagem do que as discussões sobre as opressões contra identidades sexuais e de gênero não normativas. Ao longo de toda a narrativa, o sexismo, o machismo, a misoginia, o classismo e o preconceito geracional aparecem em breves comentários da personagem e estabelecem relações de poder sobre os demais, considerados inferiores.
Os apontamentos demonstram a necessidade de uma reflexão interseccional sobre a constituição das identidades, de forma a não isolar gênero e sexualidade de outros marcadores que compõem as identidades dos indivíduos. Ao mesmo tempo em que Félix é oprimido por ter uma sexualidade que difere da norma, ele detém os demais privilégios sociais: é homem cisgênero, branco, de classe média alta e jovem, e exerce seu poder sobre os demais a partir destes marcadores identitários.
Brah (2006) aponta que as diferenças devam ser discutidas e articuladas dentro de um
contexto específico, sob pena de universalizar e essencializar experiências. “A procura por
grandes teorias que especifiquem as interconexões entre racismo, gênero e classe foi bem menos do que produtiva. Melhor construí-las como relações historicamente contingentes e
específicas a determinado contexto” (BRAH, 2006, p. 353). De forma que é impossível isolar
as identidades de gênero e sexual de modo a não refletir sobre outras formas de preconceito. A ponderação é necessária na medida em que não há registros, dentre as 11 pesquisas sobre LGBTs nas telenovelas, a constatação de personagens com identidade de gênero e sexuais não normativas que reproduzam formas de preconceito. Da mesma forma, as informações disponíveis nos sites de telenovelas da Rede Globo não remetem a estas reflexões. Mas, tendo em vista a multiplicidade de aspectos que compõem as identidades, é possível que a temática tenha emergido em outras narrativas e que não haja registros sobre estes aspectos, em função da centralização exclusiva das identidades LGBTs no gênero e na sexualidade e nos preconceitos e discriminações sofridas a partir destes marcadores.
Destaca-se que Félix é uma personagem complexa, capaz de justificar todos os crimes a partir dos preconceitos que sofreu, mas incapaz de perceber que a reprodução de discursos de ódio que dissemina. Sendo vítima e ao mesmo tempo propagador de discursos preconceitos e discriminatórios, Félix é personagem central na narrativa para refletir sobre os cruzamentos de marcadores identitários, que podem tornar os indivíduos simultaneamente oprimidos e
opressores.
Assim, a análise desta temática apresenta os paradoxos dos discursos da personagem Félix, que com sua sexualidade e gênero amplamente policiados e regulados durante a trama, é incapaz de refletir sobre os próprios discursos que higienizam e hierarquizam socialmente as demais personagens.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa empreendida nesta dissertação explicitou que as construções de sentidos produzidas nas narrativas midiáticas acerca da população LGBT são complexas e podem ser contraditórias, dentro do mesmo produto da cultura da mídia. Como representações mediadas, estas construções estão em constante processo de disputa e são capazes de, ao mesmo tempo, apresentar quebras de paradigmas ou manutenção de padrões estabelecidos acerca da população LGBT.
Ao escolher pesquisar os sentidos disponibilizados para circulação social a partir de narrativas ficcionais, compreendeu-se que, assim como os produtos jornalísticos, estes locais são espaços de disputas culturais, nos quais grupos hegemônicos e subalternos confrontam-se
por visibilidade. Conforme pontua Kellner (2001, p. 32), “não exatamente o noticiário e a
informação, mas sim o entretenimento e a ficção articulam conflitos, temores, esperanças e
sonhos de indivíduos e grupos que enfrentam um mundo turbulento e incerto”. No cenário
brasileiro, adotar como objeto de estudo uma telenovela foi uma decisão pela reflexão a partir do principal produto da cultura da mídia nacional, compreendendo a ampla repercussão dos significados que emergem a partir deste local.
Para compreender as representações de sujeitos LGBTs nas telenovelas, tornou-se necessário refletir sobre como foram construídas as normas que enquadram e hierarquizam indivíduos e grupos sociais a partir de valores estabelecidos socialmente ao longo dos séculos. Assim, aprofundou-se o conhecimento sobre as construções a respeito de gênero e sexualidade e, ao longo do percurso, adotou-se um posicionamento teórico interseccional, buscando deslocar-se de uma perspectiva universalizadora da população LGBT para uma reflexão a partir da articulação dos diversos marcadores identitários que compõem os sujeitos.
Neste sentido, tornou-se limitador pensar apenas sobre a presença de LGBTs nas telenovelas, mostrando-se imperativo refletir sobre de quais as maneiras se representava, incluindo as diferenças decorrentes do gênero, da raça, da classe social, da geração e da performatividade de gênero destas personagens nas tramas.
O aspecto mais saliente do panorama de personagens LGBTs na produção audiovisual seriada do período analisado foi a carência de diversidade sexual, pois é nítida a existência de uma representação predominante centrada em personagens gays. No que se refere às lésbicas, detectou-se que, diferentemente dos homens homossexuais, são personagens com uma
sexualidade mais regulada, nas quais somente aquelas com performatividade de gênero heteronormativa têm legitimidade para a vivência de relacionamentos. Bissexuais, travestis e transexuais foram praticamente invisíveis nas tramas, tendo adquirido exíguo aparecimento apenas nas últimas décadas.
Ao relacionar estas constatações com outros aspectos como a classe social e a performatividade de gênero, evidenciou-se que os homossexuais camp estão vinculados às classes populares, enquanto personagens de classe média e alta têm, geralmente, uma performatividade de gênero heteronormativa. Outra afirmação que se pode realizar a partir deste estudo é de que lésbicas geralmente aparecem nas tramas como pertencendo às classes média e alta. As travestis e transexuais, de forma geral, transgridem as normas ao apresentarem performatividade de gênero camp, mas que de forma geral têm sua sexualidade regulada, sem constituição de qualquer vínculo de relacionamento que possa ameaçar o status
quo. E não representação de homens transexuais.
Considerando raça e geração, há mais evidências da pouca pluralidade na representação destas personagens nas telenovelas da Rede Globo. Das 126 personagens LGBTs identificadas nas narrativas, apenas quatro são negras. E, no que se refere à questão geracional, uma nova forma de normatização das personagens pode ser percebida nas últimas décadas: jovens são, cada vez mais, protagonistas de temáticas LGBTs. Já as personagens com idade mais avançada têm tido a sexualidade mais restrita e raramente constituem relacionamentos.
A partir do momento em que se analisou as séries, percebeu-se um deslocamento das construções de sentido sobre LGBTs em comparação com as telenovelas. Exibidas em faixas de horário mais avançadas, estas ficções têm transgredido de forma mais acentuada as normas de gênero e sexualidade, produzindo narrativas nas quais transexuais e travestis adquiriram destaque, bem como lésbicas butch e personagens negras.
Na análise de Amor à Vida, estas concepções teóricas e recapitulações históricas mostraram-se extremamente necessárias para compreender como se desenvolveram as temáticas sobre LGBTs na telenovela. Amor à Vida está inserida em um contexto sócio- histórico e, como produto da cultura da mídia, demonstrou manter padrões e, ao mesmo tempo, transgredir a norma em diversas temáticas.
LGBTs. De forma geral, Amor à Vida inovou ao apresentar novamente um vilão com identidade sexual divergente da norma nas telenovelas da Rede Globo, visibilizando de forma significativa – e pouco usual – uma personagem com sexualidade não normativa. Outra quebra de paradigma foi a apresentação da busca por um processo de inseminação artificial por um casal de homossexuais.
A performatividade camp de um gay de classe média alta também se apresentou como inovação nas recentes representações de LGBTs nas telenovelas da Rede Globo. O estabelecimento do primeiro triângulo amoroso homossexual e a apresentação do primeiro beijo homossexual nesse tipo de narrativa na emissora tornaram-na marcante dentro do conjunto de representações sobre LGBTs nas telenovelas.
Amor à Vida deu continuidade às representações de LGBTs que privilegiam as
discussões sobre preconceitos e discriminações – contra homens homossexuais, de forma hegemônica – e de conflitos familiares. Estes debates, ao mesmo tempo em que são significativos, acabam por invisibilizar outras temáticas correlatas aos sujeitos com identidade de gênero ou sexual não normativas como, por exemplo, as discussões sobre a importância da