O modelo de assentamentos rurais adotado no Brasil tem apresentado um viés economicista, uma vez que a viabilidade econômica e o produtivismo dos assentamentos são indicadores fundamentais para a classificação do empreendimento como sucesso ou fracasso. Assim, para que os assentados sejam considerados “eficientes”, eles precisam tornar-se capitalistas, inserindo-se de maneira efetiva no mercado e acumulando capital.
No entanto, é importante considerar que a viabilidade econômica é importante, mas não é o único ponto positivo da Reforma Agrária. Assim, os movimentos de luta pela terra visam à transformação social por meio da resistência ao capital e suas formas de exploração, buscando novos meios de sucesso econômico por meio de iniciativas solidárias e cooperativistas, mas que vão além da questão econômica, ou seja, criam laços de pertencimento entre si e com a terra conquistada.
O modelo de produção que tem sido implantado nesses assentamentos se identifica com os movimentos que se articulam dentro do capitalismo frente à crise do emprego (não apenas no meio rural, mas também urbano) e representam propostas alternativas para a organização de um conjunto amplo de atividades econômicas (BERTUCCI; LOUREIRO; MONTE-MÓR 2004, p. 2).
A fase do acampamento em uma área pleiteada é um momento importante, pois as ações cooperativistas em assentamentos rurais são resultados de um processo construído e contextualizado durante esse período.
Os integrantes, por exemplo, de cooperativas formadas em assentamentos de reforma agrária compartilharam por vários anos acampamentos à beira de estradas e ocupações de fazendas, choques com a polícia etc. Como vimos antes, uma empresa solidária surge não só para permitir ganhos aos sócios, mas como criação de trabalhadores em luta contra o capitalismo. É uma opção ao mesmo tempo econômica e político-ideológica. Ela exige dos seus integrantes uma opção contra os valores dominantes da competição individual e da primazia do capital sobre o trabalho (SINGER, 2000, p. 21).
O cooperativismo praticado e pensado pelos movimentos de luta pela terra tem como objetivo a busca pela autonomia em relação ao Estado, e eficiência econômica e representatividade política do movimento perante as instituições, à sociedade e aos assentados. Assim, as experiências alternativas de produção realizadas com base nas cooperativas são importantes, pois possibilitam, ao mesmo tempo, a inclusão social e econômica dos sujeitos assentados. Nesse sentido, as ações coletivas das organizações populares têm caráter emancipatório e buscam a autonomia da população excluída pelo sistema capitalista.
No campo brasileiro, desde a década de 1980, são diversas as experiências relacionadas ao trabalho cooperativo. Dentre as inúmeras cooperativas construídas em assentamentos, podemos citar a COOPTAR (Cooperativa de Produção Agropecuária Cascata LTDA), localizada no Assentamento Treze de Março, no município de Pontão (RS). As famílias cooperadas iniciaram suas atividades produtivas baseadas no plantio de milho, soja e trigo, reproduzindo assim a matriz produtiva implantada pela Revolução Verde. Entretanto, após discussões entre o grupo, foi decidido que seria fundamental diversificar a produção e, assim, passaram a criar suínos, bovinos e a cultivar outras lavouras. É importante destacar a criação de agroindústria com o objetivo de agregar valor aos produtos e aumentar a renda das famílias participantes (BONAMIGO, 2001).
Outra experiência importante a ser destacada refere-se aos assentamentos Marajó e Roncador, localizados no município de Quinta do Sol, Santa Rita, no município de Nova Tebas e Monte Alto, em Peabiru, no estado do Paraná. Esses assentamentos participam de um projeto desenvolvido pela Incubadora da Rede Unitrabalho/UEM (Universidade Estadual do Maringá), que contribui para a organização e acompanhamento da produção leiteira. O projeto consiste no armazenamento conjunto da produção leiteira, para que, dessa forma, o volume da produção seja maior, alcançando um melhor preço na comercialização e, como consequência, aumentando a renda das famílias envolvidas (INCUBADORA DA REDE UNITRABALHO / UEM, s/a).
No noroeste paranaense, no município de Paranacity, podemos citar o caso da COPAVI (Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória), onde os assentados comercializam sua produção porta-a-porta e são responsáveis por grande parte da arrecadação do ICMS (Imposto sobre Comercialização de Mercadorias e Serviços) do município (ALVES; PONTES, 2003).
A COAGRI (Cooperativa de Trabalhadores Rurais e Reforma Agrária do Oeste do Paraná), localizada no Assentamento Juquiá, no município de Cantagalo (PR), e a COOPTIL (Cooperativa de Produção Trabalho e Integração LTDA), localizada no Assentamento Conquista da Fronteira, no município de Hulha Negra (RS), também são experiências interessantes para pensarmos sobre a viabilidade do modelo cooperativo em áreas de Reforma Agrária (FRANCIOSI, 2007).
A construção da perspectiva cooperativista na organização tanto produtiva quanto política e social faz parte da realidade de inúmeros assentamentos pelo Brasil. Um exemplo a ser destacado desse modelo é o PA (Projeto de Assentamento) Sepé Tiarajú, localizado em Ribeirão Preto (SP), município conhecido nacionalmente por sua produção canavieira e relevante presença do agronegócio (SCOPINHO, 2006).
Nesse sentido, as cooperativas apresentadas demonstram que o cooperativismo implantado de maneira séria e responsável pode ser um modelo bastante interessante e exitoso nas práticas agrícolas. No entanto, é importante considerar que a região Sul do país, na qual estão localizadas as mais antigas cooperativas, foi influenciada, sobremaneira, pela imigração, ou seja, os moradores
dessa região apresentam uma relação mais “natural” e aceitável no que se refere ao trabalho coletivo, justamente pela bagagem histórica trazida de países europeus.
A implantação das cooperativas apresenta-se como instrumento importante para a territorialização da luta pela terra, uma vez que a mesma não se limita à conquista do lote. Assim, a materialização das associações e cooperativas é importante para o fortalecimento e resistência dos assentados frente ao capital do agronegócio, bem como para a dinamização dos municípios nos quais estão inseridas.
2.6 Do modelo à prática: cooperativismo nos movimentos de luta pela terra – Movimento dos