Em 1978, Immanuel Wallerstein fundou um “Centro Fernand Braudel” na Universidade do Estado de Nova York em Binghamton e , por ocasião da visita de Braudel à universidade, organizou um colóquio sobre a in uência desse grande historiador e da revista Annales: Economies, Sociétés, Civilisations, por ele herdada de seus fundadores, Marc Bloch e Lucien Febvre. Meus comentários sobre a in uência da história francesa na Inglaterra são reproduzidos de Review, 1 (inverno-primavera de 1978), pp. 157-62. Esses comentários fazem uma ponte entre o capítulo anterior e o seguinte.
Desejo acrescentar uma ou duas notas de rodapé à recepção dos Annales na Inglaterra.
A primeira observação que gostaria de fazer é a de que, na medida em que podemos falar de in uência, o que foi in uente na Inglaterra não foi tanto os Annales especi camente quanto o que poderia ser chamado de nouvelle vague francesa na história. Os Annales são uma parte disso e, naturalmente, uma parte cada vez mais importante, graças ao tríplice signi cado de Fernand Braudel. Primeiro, exerceu in uência como autor de um grande livro — e aqui acho que discordo de Peter Burke — que era lido com grande entusiasmo por muitos de nós, quase a partir do momento em que surgiu, e foi in uente em sentidos ainda não muito fáceis de de nir. Segundo, a partir de certo período, ele nos marcou como diretor da revista dos
Annales. E terceiro, e talvez mais importante, foi ele quem transformou, no prazo de uma
geração, a VIe Section da École Pratique, que é hoje a Escola de Altos Estudos nas Ciências
Sociais, no principal centro dinâmico das ciências sociais francesas. Ao fazer isso, pouco a pouco integrou à história francesa a maior parte daquilo que acabei de chamar de nouvelle
vague e vinculou-a ao âmbito dos Annales e desse grupo.
Não digo isso simplesmente para expressar — o que gostaria de fazer de passagem — meu agradecimento pessoal a Fernand Braudel, e meu agradecimento por longos anos de amizade consigo, mas como uma explicação sobre por que estamos falando do impacto dos Annales, conquanto, de fato, estamos lidando com o impacto de um fenômeno mais amplo na história francesa. Para dar um exemplo, soubemos que, na Polônia, Labrousse e Braudel e gente como eles eram mencionados ao mesmo tempo. Aos olhos dos poloneses, não havia distinção muito clara entre eles. No geral, isso é verdade também para a Inglaterra. Em certos sentidos, Labrousse era tão citado quanto Marc Bloch e mais que Lucien Febvre; Georges Lefebvre tanto quanto Braudel. Eram todos considerados por nós como parte de uma escola francesa que admirávamos, e que muitos de nós na Inglaterra pensávamos ser a coisa mais interessante na historiogra a. Mas é claro que essa historiogra a cada vez mais se concentrou e xou nos
Annales.
Esse é um ponto importante, mas existe um segundo. Acho que Peter Burke exagera um pouco o atraso na recepção dos Annales e dos principais historiadores franceses na Inglaterra. Imagino que alguns de nós, pelo menos em Cambridge, líamos os Annales já nos anos 1930. Além do mais, quando Marc Bloch veio e conversou conosco em Cambridge — ainda me lembro disso como o grande momento que então parecia ser e foi —, foi-nos apresentado como o maior medievalista vivo, a meu ver, com toda justiça. Talvez isso se devesse
especi camente a um fenômeno local, a existência em Cambridge de Michael Postan, que então ocupava a cadeira de história econômica, um homem de raras a nidades cosmopolitas e vasto conhecimento. Mas também se devia a outro fenômeno já mencionado antes por participantes deste colóquio, ou seja, a curiosa con uência, via história econômica, entre o marxismo e a escola francesa. Foi no terreno da história econômica e social, evidente no título- insígnia da Annales original, que nos encontramos. Os jovens marxistas daqueles tempos descobriam que a única parte da história o cial que fazia algum sentido para eles, ou pelo menos que podiam utilizar, era a história econômica, ou a história econômica e social. Dessa forma, foi por meio dela que a junção foi feita.
Devo acrescentar também que foi principalmente via história econômica, ou história econômica e social, que se deu a in uência, a in uência e relação direta entre o grupo dos
Annales e a história britânica, até a geração de Peter Burke. Em determinados sentidos, a
organização da história econômica no mundo, mediante a organização da Associação Internacional de História Econômica e seus congressos, durante muito tempo foi um condomínio anglo-francês, e os franceses nele estavam representados, em grande medida, precisamente pelas pessoas com quem os historiadores econômicos ingleses em geral acharam mais fácil colaborar, ou seja, Fernand Braudel e seus colegas, discípulos e alunos.
Menciono isso de passagem, mas gostaria também de mencionar ainda outra coisa de passagem: o curioso fato também referido por oradores anteriores de que havia uma relação entre os Annales e os marxistas. Como diz Peter Burke, em geral os marxistas pensavam estar combatendo do mesmo lado que os Annales, muito embora houvesse momentos, como, por exemplo, na França dos anos 1950, em que nós, fora da França, estávamos sendo criticados por colaboração com reacionários pelos companheiros das seções mais sectárias do Partido Comunista Francês. Curiosamente, contudo, isso nunca foi uma opinião relevante na Grã- Bretanha. E isso é estranho porque, em termos históricos, o mais provável era que os marxistas se distinguissem e destacassem o quanto diferiam das escolas não marxistas e por que estas estavam equivocadas, e não que se vissem convergindo ou, de algum modo, trabalhando em paralelo com elas. Entretanto, como K. Pomian mencionou e Peter Burke con rmou — e pessoas como Rodney Hilton, eu mesmo e outras também confirmarão — em diversos países, a relação entre a esquerda marxista e os Annales, por motivos que talvez valha a pena investigar, foi bem mais amistosa e cooperativa. Talvez por essa razão, quando fundamos Past and Present, certamente em nosso primeiro número nos referimos aos Annales; não que eu pense que em outros aspectos fôssemos visivelmente in uenciados pela revista dos Annales. Estávamos tentando um tipo diferente de exercício, e, no entanto, respeitávamos muitíssimo e desejávamos demonstrar nosso respeito para com esse grande predecessor naquilo que vocês poderiam chamar de “história de oposição”, história antiestablishment. É claro que, no momento em que fomos fundados, não eram mais antiestablishment; haviam vencido. Mas isso é uma outra história.
Entretanto, acho que existe uma razão mais concreta pela qual Annales e seu grupo exerceram realmente uma in uência signi cativa — ou, pelo menos, estímulo — na Grã- Bretanha, talvez mais do que a que Peter Burke está disposto a admitir. Nos anos após a guerra, a França me parecia ter sido o único país no qual havia um esforço consistente e sistemático de explorar o que hoje sabemos ter sido — Wallerstein será o primeiro a
concordar — um período crucial no desenvolvimento do mundo moderno, a saber, a economia dos séculos XVI e XVII. Claro que o grande livro de Braudel não é meramente um monumento ao seu interesse; em certo sentido, ele também exagerou sobre o período. Mas não foi o único. Muitos outros na França também se dedicavam ao mesmo — estou pensando em coisas como o famoso artigo de Pierre Vilar na época, “Le Temps de Quichotte”, que, de um modo diferente, também estava interessado no problema similar do século XVI, a crise, a mudança para o século XVII. E não há dúvida de que foi nos Annales e por meio deles que essa concentração francesa das energias históricas (intelectuais, se preferirem), essa fase histórica, encontrou sua expressão mais signi cativa. Com certeza, isso se deu graças ao interesse pelo século XVI, tanto de Febvre quanto de Braudel.
Era algo comparativamente novo. Os Annales originais, nos anos 1930, não tinham esse interesse particular como centro de suas preocupações. E talvez valha a pena investigar a razão pela qual o interesse surgiu. Sei por que surgiu entre os marxistas. Foi claramente bem no início dos anos 1950, no curso de discussões sobre os Estudos sobre o desenvolvimento do
capitalismo, de Maurice Dobb. O famoso debate Sweezy-Dobb girava essencialmente em torno
da questão sobre onde exatamente estávamos entre os séculos XV e XVIII, qual o signi cado desse período para o desenvolvimento da economia do mundo moderno. E, na investigação desse problema complexo, muitos de nós nos vimos naturalmente atraídos por pessoas que na França haviam começado, a partir de um ponto de vista diferente — e espero que Fernand Braudel me perdoe por sublinhar o fato de que ele não é um marxista —, a se preocupar com o mesmo. Até eu em breve me vi arrastado em uma excursão, de meu próprio século para a crise do século XVII, e revendo os artigos que escrevi, descubro um número enorme de referências aos Annales, a artigos nos Annales, a pessoas dos Annales, a Braudel, a Meuvret, a gente assim. Onde mais naquela época se poderiam obter as referências? E, de fato, quando o tema foi colocado em discussão na época, lembro-me de Hugh Trevor-Roper dizendo que não era nenhuma novidade. Os franceses o estavam fazendo o tempo todo.
Bem, ele tinha razão. Os franceses o estavam fazendo o tempo todo, e a menção de Trevor- Roper mostra que esse problema não estava con nado simplesmente a uma escola de historiadores britânicos, mas afetava diversas escolas. Por quê? Mais uma vez me parece, olhando para trás, que podemos perceber que os séculos XVI e XVII são um período crucial no desenvolvimento do mundo moderno, mas o motivo pelo qual nessa etapa desenvolvemos essa concentração no período continua a ser um assunto um tanto nebuloso. Certamente, nos anos iniciais de Past and Present, constatávamos que, dos artigos que nos eram apresentados, a grande maioria abordava os séculos XVI e XVII. Era, por assim dizer, uma questão quente naquela época. E penso que foi devido à preocupação com esse problema — que, no modo obscuro pelo qual operam as disciplinas e ciências da erudição, passava a ser o centro de interesse, pelo menos entre pessoas dotadas de interesses econômicos e sociais de longo prazo — que se produziu certa junção entre o marxismo e os Annales.
Mas chega de excursões de volta na história e na memória sobre a recepção dos Annales na Grã-Bretanha. Gostaria agora de dizer umas poucas palavras sobre o que os Annales estão fazendo agora, sobre o que há para ser feito, ou melhor, o que deveriam estar fazendo. Não cabe a nós dizer aos Annales o que deveriam fazer. Realmente não desejo dizer muito sobre a atual crise nos Annales. Acho que não é exagero chamá-la assim. Revel mencionou-a numa
forma, Peter Burke mencionou-a quando disse que os Annales não estavam falando uma, mas diversas línguas, entre as quais nem sempre há inteligibilidade mútua completa. Seja como for, parece-me que esse grande periódico está passando no momento por uma crise de meia-idade, mas o caráter preciso dessa crise é algo que talvez possa ser discutido em outro lugar.
Em vez disso, desejo dizer algo no contexto das referências muito interessantes — e penso que muito úteis — de Peter Burke ao problema da história das mentalidades. Realmente não importa como vocês chamem o tema. Nós o chamamos de história das mentalidades para mais uma vez evidenciar nossa dívida para com os franceses que sistematicamente se preocuparam com ela, embora eu não acredite que isso signi que que os historiadores franceses a tenham praticado mais que outros historiadores. Certamente, a despeito do valor enorme das contribuições de pessoas ligadas aos Annales, não acredito que na Inglaterra as pessoas que praticam a história das “mentalidades” devam muita coisa diretamente aos Annales, exceto no campo da Idade Média, onde Bloch me parece claramente fundamental. Diria, por exemplo, que mesmo algumas das pessoas mais bem-sucedidas na França nesse campo, pelo menos para o período mais recente, não pertencem ao grupo dos Annales, embora pouco a pouco tenham sido atraídas para mais perto do mesmo. Vovelle é um autor que hoje está visivelmente, por assim dizer, integrado, mas que absolutamente não começou nos Annales e nem mesmo próximo ao grupo. Tampouco Agulhon, cujo nome, a meu ver, precisa ser mencionado. E nem podia ser diferente. Acho que uma das grandes forças da escola dos Annales é precisamente o fato de que tem sido grande o bastante para receber quem quer que faça contribuições originais. Certamente, na Inglaterra, O grande medo, de Georges Lefebvre, teve um signi cado desproporcional em atrair nossa atenção — daqueles de nós que praticávamos a história da gente comum, história dos movimentos populares — para o problema das mentalidades.
Mas, além dessas in uências estrangeiras, houve importantes in uências locais ou, se preferirem, internacionais. Houve Marx e o marxismo, incluindo aí Gramsci. Em primeiro lugar, o marxismo sublinhou a conexão absolutamente essencial entre o mundo das ideias e sentimentos e a base econômica, ou, se preferirem, o modo pelo qual as pessoas obtêm seu sustento na produção. Em segundo, o modelo marxista da base e superestrutura, apesar do que possam pensar a seu respeito, implica, a nal de contas, uma consideração da superestrutura também como uma base, ou seja, a importância das ideias. Não é amplamente reconhecido que, na discussão da Revolução britânica do século XVII, foram marxistas como Christopher Hill que constantemente insistiram contra os deterministas economicistas sobre a importância do puritanismo, como algo em que as pessoas acreditavam, e não simplesmente como uma espécie de espuma no topo das estruturas de classes ou movimentos econômicos.
Da mesma forma, o marxismo insistia sobre a questão levantada por Peter Burke, a saber, a importância crucial da estrutura de classes, da autoridade, dos múltiplos interesses de governantes e governados e as relações entre eles também no campo das ideias. Além desse elemento marxista, acho que há a in uência dupla à qual Peter Burke se referiu. Em primeiro lugar, temos uma tradição, cultivada em casa, no estudo da cultura em um sentido quase antropológico, conforme representada por pessoas como Raymond Williams ou mesmo Edward Thompson, em seus textos sobre a cultura do século XIX, tanto a alta cultura quanto a média. Eles generalizaram essa cultura em uma história das mentalidades. Porém, mais especi camente, há a importância da antropologia social. Isso foi mencionado por Peter
Burke. Na Grã-Bretanha, a antropologia social foi a disciplina crucial nas ciências sociais, pelo menos a única na qual alguns historiadores, entre os quais me incluo, descobriram um interesse consistente, e da qual constantemente temos conseguido nos valer. Não só Evans- Pritchard, mas toda espécie de pessoas, Max Gluckman e seu grupo, toda variedade de antropólogos sociais, que em certo sentido nos ensinaram ou instigaram, muito embora eu ache que bem poucos historiadores tenham assumido os modelos da antropologia social por atacado. Na verdade, frequentemente os criticávamos, e ainda o fazemos, por sua falta de compreensão da evolução histórica. Apesar disso, o conceito de uma sociedade e suas interações, inclusive suas interações mentais, é um conceito que descobrimos ser altamente estimulante.
E isso me remete ao último ponto. Talvez devido a esse, digamos, viés da antropologia social (no sentido britânico), eu pessoalmente ache que o futuro dos estudos da mentalidade será diferente do futuro daqueles que foram praticados, pelo menos por alguns de nossos colegas franceses. Ele não é simplesmente o estudo da alteridade da mentalidade, mencionado por Peter Burke. Você não precisa ser um adepto da dualidade de Lévy-Bruhl para achar que as pessoas no século XVI visivelmente pensavam de modo muito diferente. Essa descoberta da alteridade é importante. É relevante notar, por exemplo, como era diferente o sentido do tempo no período pré-industrial, como Edward Thompson e outros tentaram mostrar, para descobrir como era diferente o sentido da história, como Moses Finley tentou destacar ao analisar os clássicos. Isso é muito importante, e até que o tenhamos descoberto não poderemos realmente fazer muita coisa com o passado.
Porém, muito menos útil é a busca de estruturas profundas e particularmente a busca por la
conscience. Pode ser que eu seja inteiramente heterodoxo, mas não acho que os historiadores
tenham muito que aprender com Freud, que foi um mau historiador, sempre que efetivamente escreveu algo sobre a história. Não tenho nenhuma opinião sobre a psicologia de Freud, mas de modo algum considero a descoberta tardia de Freud na França, cerca de quarenta anos depois do resto do mundo, como um sinal positivo absoluto. Parece-me ser um sinal negativo, na medida em que desvia a atenção da coesão, eu não diria consciente, mas, de qualquer modo, da coesão lógica, para as estruturas inconscientes ou profundas. Ela negligencia o sistema. Em minha opinião, o problema das mentalidades não é apenas o de descobrir que as pessoas são diferentes, e como são diferentes, e fazer os leitores sentirem a diferença, como tão bem o faz Richard Cobb. É encontrar uma conexão lógica entre várias formas de comportamento, pensamento e sentimento, para vê-las como mutuamente coerentes. Se preferirem, é ver por que faz sentido, por exemplo, que as pessoas acreditem em ladrões famosos que são invisíveis ou invulneráveis, mesmo que obviamente não o sejam. Devemos encarar tais crenças não apenas como reação emocional mas como parte de um sistema coerente de crenças sobre a sociedade, sobre o papel daqueles que acreditam e o papel daqueles em relação aos quais tais crenças são mantidas. Tomemos, por exemplo, a questão dos camponeses. Por que os camponeses exigem terra, por que exigem apenas terra para a qual acreditam possuir certos tipos de direitos legais ou morais? Qual a natureza dessas reivindicações? Por que não escutam as pessoas que lhes pedem para exigir terras em outras bases, tais como, por exemplo, aquelas propostas por modernos políticos radicais? Por que aparentam simultaneamente sustentar argumentos em favor da terra ou da justiça que nos parecem incompatíveis? Não é porque são
estúpidos. Não é porque não conheçam nada melhor. É porque deve haver alguma coesão. Acredito que o programa, para a história das mentalidades, não seja tanto o de descoberta quanto o de análise. O que eu gostaria de fazer não é simplesmente, como Edward Thompson, salvar o meeiro ou o camponês, mas também o nobre e o rei do passado, da condescendência dos historiadores modernos que pensam estar melhor informados, que pensam saber o que é argumento lógico e teórico. O que eu gostaria de fazer e o que acho que devemos fazer é encarar a mentalidade como um problema não de empatia histórica ou de arqueologia, ou, se preferirem, de psicologia social, mas da descoberta da coesão lógica interna de sistemas de pensamento e comportamento que se adéquam ao modo pelo qual as pessoas vivem em sociedade em sua classe particular e em sua situação particular da luta de classes, contra aqueles de cima, ou, se preferirem, de baixo. Gostaria de restituir aos homens do passado, e principalmente os pobres do passado, o dom da teoria. Como o herói de Molière, estiveram falando trivialidades o tempo todo. Apenas com a diferença de que, enquanto o homem em Molière não o sabia, acho que eles sempre o souberam, mas nós não. E acho que deveríamos saber.