Em Frame Analysis38, GOFFMAN utiliza-se de uma outra abordagem para pensar as interações. Nesse livro, o autor elabora uma crítica a sua concepção das interações humanas como uma dramaturgia. Não há um abandono do olhar dramatúrgico, mas uma outra forma de perceber as conexões entre os atores sociais quando em cena. O foco não é mais a representação de um papel e como, em seus desdobramentos, esse repercute na criação de zonas de fachada e de fundos.
37 A tradução do inglês Frame para o francês cadre preserva o sentido literal e cotidiano do uso do termo nos dois idiomas: quadro, moldura, caixilho e armação. A opção que serviu a Cibele Rizek, tradutora do livro Erving Goffman e a Microsociologia, foi o termo quadro. Acredito, entrentanto, que o termo “quadro” é menos apropriado por não remeter a dupla acepção existente em inglês e ensejada por GOFFMAN para quem o Frame não é apenas um estado, uma natureza, mas, simultaneamente, uma condição criada e estabelecida, fabricada. Essa duplicidade é ressaltada por GOFFMAN que considera o
Frame um dispositivo operacional no qual os indivíduos se inserem numa configuração movida e
movente pelos sujeitos em suas implicações interacionais. O termo quadro pode fazer perder essa força que o termo enquadre possui e que se encontra consagrado na literatura psi para se referir às molduras nas quais as conformações sociais se operacionalizam. Feitas essas ressalvas, utilizo aqui os vários termos já consagrados pela literatura contanto que não se perca de vista a dupla acepção que o termo possui em inglês.
38 Utilizo o título do original em inglês (GOFFMAN, 1986), mas o li em sua versão francesa intitulada
Les Cadres de l’experience (GOFFMAN, 1991). A edição americana serve para cotejar alguns termos
Diz:
Le terme d´interaction peut ainsi s’aplliquer à une foule de phénomènes qu’il faudrait distinguer; Ce sont les cadres et non les interactions que doivent avant tout nous préoccuper. (GOFFMAN, 1991, 135)
A mudança de foco da interação como ação dramatúrgica para o enquadre se encontra in nuce presente já na teorização anterior, quando o autor se propõe a pensar a dramaturgia como a manutenção de um “quadro de referência” acerca da impressão que as equipes de atores desejam causar na platéia (GOFFMAN, 1975, 229). É com esse registro que tomo aqui as suas contribuições no campo da dramaturgia. Esse tratamento, entretanto, encontra-se eclipsado por uma concepção ainda arraigada em um viés funcionalista no qual a adesão dos indivíduos aos papéis sociais é definidor da encenação a ser expressa. Por isso sua concepção de coesão ainda permanece tributária de uma unidade da ação, conforme postula PARSONS, que é constituída pelos atores sociais no interior dos quadros institucionais de referência. A ação se faz, portanto, ainda que matizada por seu caráter sociointeracionista, pela onipresença das lógicas institucionais que capturam o indivíduo. Essa démarche é emblemática quando o autor se refere aos mecanismos de criação dos quadros de referência nos quais se dá a interação.
Dado o fato de que o indivíduo efetivamente projetar uma definição da situação quando chega à presença dos outros, podemos supor que venham a ocorrer, durante a interação, fatos que contradigam, desacreditem ou, de qualquer outro modo, lancem dúvidas sobre esta projeção. Quando esses fatos perturbadores ocorrem, a própria interação pode sofrer interrupção
confusa e embaraçosa. Algumas das suposições sobre as quais se baseavam
as reações dos participantes tornam-se insustentáveis e os participantes se descobrem envolvidos numa interação para a qual esta situação havia sido erradamente definida e agora não está mais definida. Em tais ocasiões o indivíduo cuja representação tenha sido desacreditada pode se sentir constrangido enquanto os outros presentes podem tornar-se hostis e tanto um quanto os outros podem se sentir pouco à vontade, confusos, envergonhados, embaraçados, experimentando o tipo de anomia gerado quando o minúsculo sistema social da interação face a face entra em colapso. (GOFFMAN, 1975, 20s) (Grifos meus)
Essa concepção fecha o quadro de referência posto que se assenta numa perspectiva funcional de inserção da lógica da ação na lógica do sistema que passa a servir de referente como valores institucionais. Entra-se em estado anômico através da interrupção e do embaraço dos sentidos atribuídos à ação pelo quadro de referência que perde validade. Não é, portanto, casual que GOFFMAN utilize-se do tripé da sociologia de Chicago: personalidade, interação e sociedade. E mesmo após acrescentar a esses o “conceito de si mesmo”, como um diferencial, conduz sua análise a uma bipolaridade,
pois, de um lado, os papéis desempenhados pelos atores são a interiorização da regra e, por outro lado, a ação se faz contra a instituição e suas regras.39
Já a posição assumida pelo autor em Frame Analysis é de outra ordem. Há uma superação da polaridade acima referida e a adesão a uma concepção mais próxima a manifestada por DUBET para quem a lógica de integração e a lógica estratégica se interpenetram e não se excluem. A interação não é mais apenas a constituição de uma unidade da ação perspectivada dramaturgicamente, mas uma experiência do indivíduo em se constituir, através da ação, como ator social ao tomar para si um quadro de referência no qual se enquadra sua percepção de mundo. Esse enquadre, portanto, tem um forte componente subjetivo por participar dos códigos nos quais se ancoram a percepção de si e do mundo mantida pelo indivíduo em situações sociointerativas. Mas o enquadre também possui um marcante traço objetivo, pois não há código que não possua um referente institucional que lhe dê concretude existencial e no qual se materialize.40.
O que há de distinto é que tanto os lugares demarcados pelas regras de operacionalização da instituição, como as posições subjetivas ocupadas pelos indivíduos nesses respectivos lugares, compartilham, por meio do enquadramento, de uma moldura que lhe é comum como exigência para a manutenção de uma permanência das lógicas de integração do indivíduo no interior dos sistemas sociais. O que faz com que o Frame
39
É sintomático que, no texto de 1975, haja um conjunto de personagens que permanecem a margem dos protagonistas a lhes servirem de escada por não estarem reservados papéis principais na dramaturgia encetada pelo enquadre a serviço da lógica do sistema: o delator, o cúmplice, o farol, a claque, o observador, o vira-casaca, o intermediário, o especialista, o confidente, o colega. Todos esses papéis são considerados discrepantes por evidenciarem sua marginalidade dramática.
40
O ponto de partida de GOFFMAN é o pragmatismo de JAMES que, como visto no capítulo primeiro, serviu a MEAD para elaborar sua crítica ao behaviorismo watsoniano. O valor do pragmatismo para os sociointeracionistas, como MEAD e GOFFMAN, é de que a realidade se apresenta à consciência sobre outras bases que as propugnadas pelo realismo ingênuo de que a consciência é uma cópia fiel da realidade e vice-versa. Essa posição faz com que GOFFMAN se pergunte sobre a questão central que move as proposituras interacionistas de compreender a realidade como uma construção efetivada pelas interações dos indivíduos. Essa posição, anteriormente já presente na obra goffmaniana, acentua-se em sua concepção do Frame, mas não o torna um subjetivista, pois a realidade não é tratada como um construto mental. Basta aqui se referir a sua concepção de que as regras sociais ou da natureza podem ser compartilhadas socialmente porque já se encontram estruturadas anteriormente à efetiva interação dos indivíduos que poderá lhes dar, ou não, os sentidos correspondes e propugnados por elas. GOFFMAN não desconhece a função da socialização primária exercida pelas instituições familiares e escolares que, em seu caráter basilar de vir a constituir o ser social, acentua a interiorização das regras como salvo-conduto a segunda natureza. No entanto, essa interiorização só pode ser vivida como internalização, conforme propugna os interacionistas, pois o indivíduo não apenas vivência as regras como essas se dão, mas as redireciona socialmente.
possua outros elementos que ampliam as postulações anteriores apresentadas em A Representação do Eu na Vida Cotidiana.
JOHNSTON (2002), ao caracterizar o Frame, enfatiza o seu caráter
eminentemente interacionista ao apontar elementos tanto subjetivos, como objetivos que o constituem.
Assim, pode-se compreender o Frame, segundo JOHNSTON, como:
Frames are interpretative schemata “that enable participants to locate, perceive, and label ocurrences” (Snow et al. 1986: 464) “selectively punctuating and encoding objects, situations, events, experiences, and sequences of action within one´s present or past enviromment.” (Sonw and Benford 1992: 137). In others words, in one´s scope of experience, frames indicate what to look at and what is important, and thereby indicate what is going on. (JOHNSTON, 2002, 64)
O Frame, portanto, permite compreender o enquadre no qual se efetivam as relações de interação entre os indivíduos, pois têm como referência o leitimotiv no qual se constitui a ação social em que se mobiliza a subjetividade do indivíduo e as situações por ele enfrentadas na afirmação de si como sujeito de sua experiência social. Ou, para se ater a concepção simmeliana, o enquadre se refere, simultaneamente, ao fluxo ininterrupto do mundo da vida e as formas encetadas pela sociação e que possibilitam que aquele se expresse socialmente e venha ser reconhecida enquanto tal. Sendo assim, o Frame compartilha elementos dessa bipolaridade e se constitui como mediador cultural dessa relação, pois, por um lado, disponibiliza os códigos sociais nos quais os indivíduos se expressam enquanto subjetividade e, por outro lado, alinha esses mesmos códigos e as experiências subjetivas em posições sociais constituidoras do ator social e das formas sociais nos quais ele se entifica.
JOHNSTON (2002, 64ss) aponta cinco aspectos que demarcam a constituição do
Frame:
1. Frame possui conteúdos: o enquadre orienta as expectativas baseando- se no acervo criado e disponibilizado pelas experiências passadas;
2. Frame é uma estrutura ou esquema cognitivo que pode ser hierarquizado;
3. Frame, como qualquer outro fator ideacional que forma o
comportamento humano, é, simultaneamente, uma condição individual e social. Ou seja, é um esquema que só pode ser aprendido pelo indivíduo por já se encontrar disseminado entre eles e que cada um lança mão para
canalizar seu comportamento de maneira compartilhada e modelada socialmente. A ação coletiva, portanto, serve como o canal que suporta essa identificação das individualidades em torno de um agir em comum a tecer-lhes lugares sociais distintos no interior da complexa malha social em que os sujeitos sociais se entificam;
4. Frame é, simultaneamente, um processo e uma estrutura cognitiva. Se a ênfase for no substantivo, Frame, ressaltam-se os aspectos estruturais no qual se acentuam os repertórios de participação dos indivíduos em seu vínculo com a ação social. Se a ênfase for no verbo, framming, descreve- se a ação social desses no alinhamento de suas condutas em torno a uma moldura que lhes sirva de modelo para ação.
5. Frame se baseia em textos. O termo texto, em um sentido amplo, refere-se à conduta simbólica e suas estruturas que se materializam em documentos escritos; condutas verbais e representações visuais. O acesso aos Frames é franqueado pela própria natureza das interações sociais, pois essas (1) se encontram necessariamente mediadas pela linguagem escrita ou falada, que faz com que (2) o enquadramento do Frame se encontre disponibilizado, portanto, em textos escritos e falados que servem (3) à verificação pelos pesquisadores de seus conteúdos simbólicos impregnados daquilo que os indivíduos dizem e fazem.
Os cinco pontos acima arrolados fazem antever como a análise do Frame se distancia de uma perspectiva dramatúrgica mais restrita e centrada no manuseio dos papéis sociais, pois a análise, por enfocar os conteúdos e os seus sentidos manifestos na interação, faz com que se passe a vê-la na sua filiação não apenas a uma determinada linha dramática, mas há um enquadre que pode abrigar diferentes e contraditórias dramaturgias sociais posto que a filiação não é mais restrita a uma ação dramatúrgica única. Assim, há, em um enquadre, uma compreensão ainda mais alargada da atuação social do indivíduo e uma ampliação da análise que não mais se prende ao exercício conferido ao papel social. Essa posição radicaliza a démarche goffmaniana por perceber as relações sociais em sua precariedade posto que a ruptura não mais se prende a uma perda de sentido de uma determinada ação para um determinado personagem, mas a constituição da própria possibilidade de vir a se alterar a rede de filiação dos papéis sociais, posto que esses não se encontram alinhados por uma única ação dramatúrgica.
Ou seja, se anteriormente a coexistência de ações díspares para um mesmo personagem poderia fazer pensar em uma quebra da filiação a que estava condicionada a ação dramatúrgica, agora, no interior do Frame, pode-se organizar a ação social tendo em vista uma rede de filiações na qual os alinhamentos se sobrepõem sem eliminar os níveis hierárquicos.
Não que não se tratem de papéis sociais, mas esses são perspectivados por alinhamentos de outra ordem que não se restringem à manutenção de um set
dramatúrgico. O próprio espaço cênico e as outras marcações dramáticas se vêem atravessadas por marcos diferenciados de enquadres nos quais a ação e a atuação dos personagens sofrem influências incontestes. Nesse sentido, o que se anuncia em A Representação do Eu na Vida Cotidiana é, em Frame Analysis, adensado por uma perspectiva mais dinâmica das interações sociais. Deve-se, entretanto, relembrar que a precariedade propugnada por esse modelo teórico não elimina as estruturas sociais necessárias para que a rede de filiação se estabeleça. Afinal, como lembra SIMMEL, as formas servem para dar regularidade e estabilidade ao indivíduo e suas vivências — posição compartilhada por GIDDENS que se refere à segurança ontológica.
O enquadre, portanto, ajuda a compreensão de como se manifesta, por um lado, o mundo da vida em sua multiplicidade de sentidos e de como, por outro lado, essa mesma multiplicidade exige algum grau de adesão à determinadas linhas expressivas nas quais os indivíduos compartilham interesses e modelam suas ações sociais. Nas duas turmas pesquisadas, dava-se efetivamente uma sobreposição de funções que eram conferidas em uma mesma cena dramática à diferentes papéis sociais. Davam-se alterações na linha dramatúrgica considerada central, sem com que se efetivasse uma quebra de seu alinhamento e sem que se suspendesse a cena, mas, ao contrário, a cada momento mantinham-se, em um mesmo set e simultaneamente, distintas linhas dramáticas sem rupturas drásticas, mas com constantes retornos, quando necessário, aos modelos já esperados de ação.
GOFFMAN expressa essas alterações em sua distinção de modos (key) e modalização (keyings). Entretanto, para melhor precisar esses dois conceitos centrais em
sua teorização do enquadre, é necessário compreender como o Frame se organiza socialmente e se torna relevante como moldura para as interações sociais.41
Ele afirma que os Frames se organizam tendo em vista a capacidade operacional que podem vir a ocupar na orientação das condutas dos indivíduos que modulam a sua ação referindo-se a manutenção ou alteração daqueles quadros informacionais. Essa perspectiva se assenta na característica inelutável do indivíduo imprimir a sua experiência contornos socialmente relevantes ao compartilhar com outros indivíduos percepções e interpretações comuns à mesma realidade social. Conforme acentuado por JOHNSTON, são essas interpretações e percepções que conformam os quadros que referenciam e inscrevem a ação do indivíduo em um campo social no qual ele se localiza como ator social e portador de uma identidade. A experiência do ator social, entretanto, não é apenas uma ação que se faz cognitivamente, pois isso poderia fazer pensar que a experiência do ator se reduziria à tematização cartesiana da subjetividade ou à tematização habermasiana do consenso estabelecido congnitivamente entre as subjetividades. Trata-se, para GOFFMAN, de uma mediação social que se estrutura na agência da ação pelo ator social que, não apenas cognitivamente compartilha os mesmos códigos informacionais, mas age socialmente, segundo o modus operandi em curso na experiência.
Na experiência do ator encontra-se, portanto, um conjunto de acontecimentos que são orientados por quadros de referência já estabilizados socialmente e admitidos
como ipso facto pelos indivíduos. Para GOFFMAN, esses quadros são denominados de
primário por essa característica que os tornam pré-reflexivo por seu maior grau de estruturação. São pré-reflexivos por se encontrarem socialmente legitimados, poder-se-
41 GOFFMAN (1986), na edição americana, utiliza-se dos termos “key” e “keyings” que são vertidos para o francês por “modes” e “modalisations”. Em uma nota, entretanto, GOFFMAN (1986, 44n) demonstra sua insatisfação com esses termos, pois, segundo ele, não traduzem com fidedignidade o que pretendia afirmar. Aponta, inclusive, que “mode”, em inglês, seria mais adequado para configurar o universo semântico a que quer se referir, pois “key” pode fazer com que o sentido se aproxime de convenção ou regra. Compreensões com as quais possuía reserva. O tradutor do texto para o francês não explicita suas escolhas, mas, ao adotar os termos “modes” e “modalizations” indica que seguiu a orientação dada por GOFFMAN na nota de rodapé. Deve-se, entretanto, observar, que o tradutor, ao não explicitar suas escolhas, deixa a impressão que comete uma traição ao texto goffmaniano por não preservar na mesma nota traduzida para o francês as observações feitas pelo autor do texto — em GOFFMAN, 1991,53. Diante do dilema entre qual tradução adotar, resolvi verter os termos para modos e modalização. Segui, assim, a tradução em francês, por considerar os termos ingleses de difícil compreensão em português, enquanto modos e modalização são já bastante utilizados nas análises sociais de inspiração semioticistas feitas no Brasil.
ia dizer, naturalizados socialmente e que, segundo GIDDENS (2003), vão estar sob o abrigo da inconsciência. GOFFMAN denomina alguns desses quadros primários de naturais justamente por seu alto grau de internalização funcional para a conduta do indivíduo que, ao orientar sua ação, busca efetivá-las em reciprocidade às exigências e aspirações organizacionais já incorporadas institucionalmente. São acontecimentos não “pilotados”. Há outros acontecimentos, no interior ainda dos quadros primários, que podem ser denominados de “pilotados”, pois já exige algum grau de reflexividade por parte do agente que se posiciona valorativamente no exercício da ação. Isso, entretanto, não retira esses acontecimentos do âmbito do enquadramento primário de que fala GOFFMAN, pois permanecem inscritos em um grau de reflexividade que não rompe com a adesão inconsciente a alguns parâmetros já incorporados como verdadeiros pelos atores sociais. Isso, in extremis, permite que se analise todo o acontecimento enquadrado segundo um Frame social como partícipe de um Frame natural, basta que se tenha como foco o cumprimento das regras a serem seguidas pelos atores. São dessa ordem os acontecimentos que se prendem à realização de intenções por parte do ator, mas que se encontram distribuídas segundo regras já conhecidas por todos e avalizadas como necessárias a serem compridas, mesmo que, ao passarem pelo crivo decisório do agente, distribua o sujeito em lócus social distintos.
O caráter de pré-reflexividade, entretanto, não os retira da inflexão reflexiva da ação, mas, ao contrário, é essa capacidade reflexiva que pode vir a alterar sua conformação e reordená-lo segundo outra lógica. Os modos e a modalização se referem a essa capacidade de cada um reconfigurar os quadros primários, conferindo-lhes outros ordenamento sociais.
O que é decisivo e que deve ser levado em conta é o ponto de partida do pragmatismo incorporado pelas teorias interacionistas. O Frame, portanto, serviria para modular a constituição do Self por mediar, por um lado, a consolidação de um Mim incorporado pelo indivíduo na sua interação com o Outro generalizado, mas, por outro lado, a capacidade reflexiva do Eu o impede de aderir, por completo, ao conjunto de significados inscritos no Frame o que faz com que o Eu se interponha e dialogue com o
Mim na redefinição de posições subjetivas a reorganizar novos quadros informacionais mobilizados pela incompletude processual do Self.42
Ou seja, os modos e a modalização são articulados pela diferença ontológica que subsiste entre o Eu e o Mim e que corresponde à impossibilidade do indivíduo de se identificar com o personagem, pois isso resultaria no término da processualidade indicada pelas concepções meadianas e goffmanianas da interação. Esse término representaria, como diria SIMMEL, a defesa de uma socialização por completa do