Section II: Implementing the Dayton Agreement
3.2 Security and Security-Related Arrangements
3.2.1 Authority over Security Implementation
Por ser a triagem psicológica, mesmo em sua acepção tradicional, um momento de recepção de clientes e por já se configurar como serviço psicológico, tem fronteiras tênues, do ponto de vista conceitual, com outras modalidades de atendimentos clínicos. Por um lado, conforme mencionado, a literatura que aborda entrevistas iniciais em processos psicoterápicos contribui com os estudos sobre triagem na compreensão dos elementos utilizados para alcançar os esclarecimentos psicológicos necessários e por debaterem conceitos tais como demanda, queixa, motivação, diagnósticos clínicos, entrada em terapia ou análise, dentre outros tópicos em intersecção. Referem-se, entretanto, ao início de um atendimento, não necessariamente o momento da recepção institucional.
Além desta interface, as triagens interventivas têm proximidades conceituais com duas modalidades de atendimentos difundidas nas clínicas de nosso meio, a saber, Plantão Psicológico e Psicoterapia Breve. Cada qual guarda especificidades em relação às origens, finalidades, procedimentos técnicos e amplitudes teóricas, embora tenham o sentido comum de proporcionar acolhimento em um período de tempo delimitado.
A idéia do encontro transformador é referida na literatura sobre Plantão Psicológico, prática de caráter breve, que visa oferecer suporte clínico no momento em que o cliente necessita e auxiliar em questões emergenciais, considerando que nem sempre as pessoas querem ou precisam de acompanhamento prolongado, embora possa gerar um encaminhamento (Bartz, 1997; Furigo, 2006; Kovács, 2001; Mahfoud, 1987; Morato, 1999; Rabelo & Santos 2006; Yehia, 2004). Diferentemente da triagem, não se originou com o propósito de receber e distribuir a clientela, mas de ser em si espaço de acolhimento. Pelo modo como se iniciou, a prática do Plantão está, na literatura brasileira, freqüentemente associada às noções de Aconselhamento Psicológico e, em especial, filiadas às idéias de Rogers (Morato, 2006). Morato (2006) define o Plantão como uma prática de fronteira, não podendo ser considerada nem triagem nem atendimento:
Contudo, importa dizer que, além das interferências deste funcionamento institucional, a própria proposta clínica do Plantão gerava dificuldades de compreensão. Isto porque o Plantão Psicológico é uma modalidade de prática psicológica que se inaugura num terreno fronteiriço, não podendo se apresentar ao lado de outras práticas usualmente tidas como „porta de entrada‟ ao atendimento psicológico, como triagem, nem tampouco pertencente àquelas dedicadas a processos de psicoterapia. (p. 42).
A autora critica a ocorrência de um automatismo da ação possível no exercício da atividade do Plantão, alertando o fato de que uma conduta automática pode levar a que o
mesmo se torne uma triagem. A comparação estabelecida pela autora aponta as diferenças mais tradicionais das concepções destes dois tipos de serviços, um como atendimento e, o outro, como coleta de dados e inscrição.
Em relação a processos de triagem que ocorrem com retornos, guardadas as diferenças, a triagem também tem uma linha fronteiriça com os atendimentos em Psicoterapia Breve (PB), prática estudada por autores, alguns já mencionados na apresentação - Bellak e Small (1980), Ferreira e Yoshida (2004), Fiorini (1978), Hegenberg (2004), Kahtuni (1996), Lowenkron (1993), Simon (1989, 2005); Wolberg (1979), Yoshida (2008). Uma PB lida com um tempo definido e delineamento de trabalho com começo, meio e fim (um primeiro momento para a definição da queixa e dos focos ou metas a serem trabalhadas e um segundo momento para que as metas sejam trabalhadas). Ocorre uma assistência pontual e com participação ativa do psicólogo. Deve ocorrer apenas quando há indicação para um atendimento breve, sendo que casos mais graves (com maiores prejuízos subjetivos), no geral, requerem acompanhamentos mais delongados (Simon, 2005; Kahtuni, 1996). Podem ocorrer com mais de um referencial clínico, sendo denominada Psicoterapia Breve Psicodinâmica as filiadas à psicanálise (Cordioli, 2008; Yoshida, Santeiro, Santeiro & Rocha, 2005).
O debate sobre Triagem Interventiva, fez explicitar em um terreno clinicamente mais árido e costumeiramente depositário da concepção de ser uma atividade meramente técnica, algo que é próprio de uma atividade clínica significativa. Quando restrita à inscrição, está longe da fronteira conceitual com as propostas do Plantão Psicológico e de Psicoterapia breve. Quando tomada, entretanto, em sua acepção de escuta, ato interventivo ou de encontro que pode se concluir clinicamente (uma escuta e uma finalização que podem construir alguma nova configuração subjetiva), passa a existir a aproximação entre as propostas. Tais práticas encontram-se no campo da assistência em saúde, visando atender uma pessoa que recorre a uma instituição com a intenção de lidar com alguma situação subjetiva (sofrimento, angústia, desenvolvimento, crise, etc.) que escapa ou escapou da sua possibilidade de lidar. Existem diferenças entre objetivos, finalidades, fundamentos e indicações para cada uma destas práticas, o que não exclui intersecções, diálogos e, em especial o estudo daquilo que têm em comum, por serem atos clínicos. S. Ancona-Lopez (2009) utiliza a expressão Intervenção Breve para designar ação clínica que não se categoriza, necessariamente, no enquadre de um atendimento específico:
A expressão Intervenções Breves (IB) designa diferentes modalidades de atendimento breve, incluindo as psicoterapias. (...) utilizo esta expressão para discutir uma forma de atuar na clínica psicológica que não se caracteriza como psicoterapia, embora apresente momentos terapêuticos. Dispor-se a um atendimento em IB é colocar-se como psicólogo clínico geral
permanecendo disponível às diferentes demandas que se apresentarem, sem enquadrá-las em procedimentos tradicionalmente consagrados e sem a obrigatoriedade de percorrer determinados passos para prosseguir no atendimento. A atuação caracteriza-se mais por ser uma disposição mais do que uma técnica ou, melhor ainda, uma pré-disposição para a abertura e recepção do que se apresentar. Em termos práticos, quando o cliente vem à procura de amparo psicológico ele quer ser atendido em suas necessidades, pouco importando sob que nome este atendimento se realize15.