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2 Erling Vegusdals beiarbøker

2.3 Atterklang fra gammeltida

Como o trabalho procura identificar possíveis relações entre crime e espaço urbano, houve uma necessidade de se conhecer as características morfológicas do espaço em estudo. No âmbito da cidade, a morfologia estuda e analisa a aparência urbana, procurando compreender como as pessoas interagem no contexto, considerando sua forma e função.

A análise urbana a princípio estudava apenas a forma dos elementos topográficos do espaço construído, havia uma deficiência com relação ao processo histórico e às relações estabelecidas nessa forma urbana. Ao longo dos últimos anos, a Morfologia Urbana passou a abordar o planejamento da cidade, o parcelamento do solo, a imagem urbana e o edifício, as permanências e rupturas através de uma visão da história urbana. A edificação passou a ser um elemento relevante nos estudos morfológicos.

Existem diferentes tipos de abordagem do comportamento morfológico dos lugares, analisados por diversos pesquisadores, dentre tais abordagens, temos: a Escola de Chicago e Jane Jacobs, que avaliam as expectativas psicossociais, identificando como os indivíduos reagem e se comportam no ambiente; Choay e Barthes, que enfocam as expectativas da informação, em que se trabalha com o significado de símbolos e signos; Kevin Lynch e Gordon Cullen, que abordam a análise topoceptiva da imagem mental; além de outros pesquisadores, que trabalham com estudos das cidades e seus elementos constituintes, mediante análises tipológicas, trama urbana, entre outras abordagens.

A Morfologia Urbana, portanto, estuda a forma da cidade ou dos aglomerados humanos, colocando-se em evidência a paisagem e a estrutura global das cidades, sendo definida em: solo, lote, quarteirão, logradouro, conjunto edificado, fachada, rua, traçado, praça, monumento, vegetação, mobiliário, entre outros elementos que são articulados entre si e definem os lugares que constituem o espaço urbano.

Um dos elementos primordiais a ser observado nesse estudo é a rua, pois é nesse espaço citadino onde acontece a maioria das ocorrências criminais que integraram nosso estudo. Na visão de Roberto da Matta (1997), a rua é um local ocupado por categorias sociais que ali vivem como se estivessem em casa, porém, segundo a visão do antropólogo, há uma diferença de comportamento na casa e na rua: no primeiro existe um senso de coletividade, não se admite contradição, todos que se apropriam desse espaço participam de uma relação próxima de afinidade; enquanto que a rua é o local da individualização, cada

um está por si. A rua é o local do desconhecido, „terra que pertence ao governo ou ao povo‟, terra de ninguém.

[...] até hoje a sociedade parece fiel à sua visão interna do espaço da rua como algo movimentado, propício a desgraças e roubos, local onde as pessoas podem ser confundidas com indigentes e tomadas pelo que não são. (MATTA, 1997: 58)

Nesse pequeno trecho, o autor expõe a „rua como algo movimentado‟, onde se realizam ações, porém, ao mesmo tempo, algo perigoso, desconhecido, onde o indivíduo pode ser confundido com indigente ou marginal. Com isso, a rua, além de ser um elemento formal do espaço urbano, também é um local funcional, sendo seus espaços um fator importante na dinâmica da cidade.

Estudando a questão formal e funcional da cidade, Bill Hillier (2007: 113) entende que “a maneira como organizamos o espaço em determinada configuração é a chave tanto para as formas da cidade, quanto para a maneira como os seres humanos funcionam nas cidades” 9. O autor identifica as cidades como sistemas de meios e fins, onde os meios são

físicos e os fins funcionais, todavia ressalta-se uma ignorância no modo como as cidades estão sendo analisadas e planejadas, pois não existe um compartilhamento de decisões entre o objeto físico e espacial e os processos funcionais, ocasionando uma desestruturação urbana.

No estudo morfológico da criminalidade, Hillier distingue dois processos interdependentes que apresentam características específicas. São eles: o movimento natural e a Sintaxe Espacial.

1.5.1 O Movimento Natural

O termo movimento natural, foi uma expressão adotada por Hillier (1993, 1996/2007) para explicar a relação entre o movimento na cidade e a configuração da malha urbana. Este movimento é a capacidade de deslocamento dentro de uma estrutura urbana através de suas rotas de acesso, que podem ser mais ou menos acessíveis dependendo da maior ou menor ligação com outras rotas de uma mesma malha urbana.

9 Do origi al e i glês: Ho e organize space into configuration is the key both to the forms of the city, and

ho hu a ei gs fu tio i ities. Tradução do texto Edja Trigueiro e D. Pereira, para uso em sala de aula. (p.3)

As pessoas apreendem os espaços urbanos e interagem com ele de acordo com as suas impressões: de proximidade ou distância dos percursos que pretendem tomar; dos lugares mais acessíveis; dos lugares mais seguros; dos espaços a se evitar; de como acham a cidade inteligível, dentre outras intenções e referências de quem se locomove. Porém, há um fator em comum, pertinente em todas as cidades às „forças socioeconômicas‟, que são definidas pelo movimento natural e pela estrutura da malha urbana: o primeiro influencia na configuração espacial, e o segundo é o elemento definidor da circulação de pedestres e/ou veículos, como argumenta Hillier (1996/2007). Esse movimento independe dos atrativos físicos ou de magnetos, ele é determinado, apenas, pela configuração da malha urbana, sendo esta definida pelas rotas de acesso, vias de circulação.

Para Hillier o fator fundamental de correlação com a configuração espacial é o movimento e os dois estão intrinsecamente relacionados: enquanto o movimento dita a configuração do espaço na cidade, a configuração espacial, por sua vez, determina o movimento, permite a circulação, favorece a relação de copresença entre os diversos grupos que interagem em um espaço urbano, possibilitando a presença e a observação dos que estão dentro e fora desses lugares. Como Jacobs (2009) já argumentava, o movimento é um potencial de segurança e de pertinência com o lugar.

Tudo parece relacionar-se com espaço, e, portanto com movimento de alguma forma: comércio varejista, densidade edilícia, a maioria dos tipos de uso do solo parece ter uma lógica espacial que pode ser expressa como uma relação estatística entre as medidas espacial e funcional. Até mesmo crime pode ser espacialmente correlacionado. (HILLIER, 2007: 124)10

Hillier identifica “uma fissura entre compreensão e projetação, entre pensamento e ação.” (2007: 111)11. Para ele não existe uma preocupação em promover a interação entre o

elemento edificado e o urbano, entre o físico e o funcional; não se avalia o movimento natural. As decisões projetuais, mesmo pequenas, constroem espaços que serão lidos e apreendidos por seus usuários, na sua configuração, como um conjunto de potencialidades, porém o mau conhecimento das propriedades espaciais pode gerar lugares vulneráveis, perigosos, inseguros e desurbanos.

10 Do origi al e i glês: e erythi g see s to relate to spa e, and therefore to movement in some way: retail,

building densities, indeed most types of land use seem to have some spatial logic which can be expressed as a statistical relation between spatial and functional measures. Even crime can be spatially correlated. Tradução do texto Edja Trigueiro e D. Pereira, para uso em sala de aula. (p.11)

11 Do origi al e i glês: a split et ee u dersta di g a d desig , et ee thought a d a tio . Tradução

Com o intuito de compreender as características que definem um espaço, Hillier, juntamente com outros estudiosos, desenvolveu a teoria da sintaxe espacial, que tem como um de seus componentes a noção de movimento natural. Tal pesquisador argumenta que não só as tipologias edilícias relacionam-se com o espaço urbano, o crime também pode ser analisado pelas propriedades espaciais. Sendo assim, o trabalho utilizou como ferramenta a sintaxe espacial juntamente com dados criminais, com o intuito de identificar alguma correlação entre a estrutura da malha urbana e o crime.

1.5.2 A Sintaxe do Espaço e o Crime