A escrita apurinã é baseada em um sistema alfabético, segundo Facundes (2002), essa escolha foi feita em virtude da língua portuguesa, que é falada e até escrita por muitos apurinã, possuir uma representação gráfica alfabética. Então, segundo esse autor, se membros da comunidade-alvo já foram alfabetizados em português, a elaboração de uma ortografia da língua-alvo assemelhada ao português certamente facilitará a alfabetização em apurinã e poupará esforços dos alunos em aprender concomitantemente ou em momentos diferentes escritas completamente diferentes.
Como vimos no capítulo anterior (3.5), o alfabeto apurinã se baseia na fonologia da língua, utilizando uma representação biunívoca: um fonema-um grafema. Os grafemas usados são aqueles usados de forma, em geral, biunivocamente em Português; do contrário, faz-se uso de símbolos do IPA mais acessíveis por meio dos teclados de computadores. Exceções à bi-univocidade são as variantes condicionadas pela fonologia não automática (isto é, processos fonológicos condicionados por ambientes gramaticais), em que as formas fonológicas superficiais (os morfofonemas) são representadas (3.3). Essa decisão fundamenta- se na teoria fonológica, segundo a qual o processamento cognitivo de variações fonológicas condicionadas por ambientes não fonológicos é mais complexo e, portanto, mais demorado do que aqueles pertinentes à fonologia automática.
115 O único diacrítico usado é o til, o qual marca o contraste nasal nas vogais (3.5.1-3.5.2); diferentemente do Português (que também faz uso de consoantes para grafar vogais nasais, ex. “canto”, “ombro” etc.). Naturalmente, o uso generalizado do til facilita a aprendizagem da escrita. Por outro lado, ele também cria a inconveniência ao digitar-se dados da língua no computador, visto que mesmo nos teclados atuais de computadores o acesso ao til sobre “e”, “i”, “u” e “y” não é facilitado. No futuro, caberá aos apurinã decidir se devem simplificar mais o sistema de escrita de modo a torná-lo de uso mais prático. A razão de não se usar consoantes nasais, como ocorre em Português, deve-se à frequente ocorrência de vogais em posições adjacentes nas palavras (ex. awãaĩ „nome de pajé‟, axipitỹare „ser estreito‟, katxĩũãry „manipuera‟ etc.), cuja grafia seria repleta de ambiguidades se vogais nasais fossem marcadas por consoantes nasais (ex. awanain „nome de pajé‟, axipitynare „ser estreito‟, katxinunanry „manipuera‟ etc.).
O acento não é usado para distinguir significados na língua e segue um padrão paroxítono, apenas quebrado quando a última sílaba na palavra contém um ditongo ou uma vogal nasal (ex. „tsumy „minhoca‟, tsumy‟ã, „Rio Tumiã (rio da minhoca)‟, ki‟kiu „roçado‟etc.), casos em que a sílaba recai na última sílaba. Dada essa predizibilidade da posição do acento na palavra, ele não é representado na grafia da língua.
4.1.2.2. Apurinã: L1 ou L2
Considerar o status da língua apurinã para os próprios Apurinã e como esse status muda de comunidade para comunidade implicará, entre outras coisas, a escolha de um corpus mais adequado aos diferentes contextos de uso ou status que a língua apurinã assume entre as diferentes comunidades.
116 Como antecipamos em 4.1.1.1 ao tratarmos da questão da aquisição da escrita, se a comunidade tem o apurinã como L1, falada fluentemente por eles, é mais funcional apresentar-lhes um material didático que vise ao ensino da modalidade escrita apresentando não apenas o sistema de escrita apropriado à língua, mas também estimulando a construção de uma metalinguagem própria para falar-se da língua, sem a necessidade de recorrer a terminologia do português.
Contudo, se a comunidade em questão for a de um grupo de pessoas que já usa apenas a língua portuguesa em detrimento da língua apurinã, é mais adequado preparar um material com um corpus, que em vez de apenas ensinar o sistema de escrita apurinã, apresentasse um corpus no qual as interações do cotidiano dessas pessoas em língua apurinã fossem contempladas, não apenas como uma tradução, mas como essas relações de interação podem sofrer modificações dependendo do contexto, ou seja, a variação de escolhas lexicais, por exemplo, podem ocorrer de maneira distinta entre pessoas dependendo do sexo, da idade e das funções sociais dos indivíduos.
4.1.2.3. Faixa-etária
Em relação à faixa-etária, o corpus deverá sofrer modificações a depender da idade média dos alunos de cada turma. É relevante, por exemplo, escolher textos que abordem situações ou realidades vividas por cada grupo etário. Um texto que trate, por exemplo, de relacionamento entre um homem e uma mulher na comunidade apurinã pode se tornar desinteressante e até complicado de ser entendido por um grupo de crianças. Portanto, um material didático tanto para o ensino da língua apurinã como primeira língua ou como segunda língua ou como língua estrangeira deve ser elaborado a partir de considerações também sobre a faixa-etária daqueles para quem o livro for destinado.
117 4.1.2.4. Especificidades culturais: adequação do corpus
No subtópicos 4.1.1.3, foi explanado sobre o modo pelo qual o conhecimento cultural e linguístico são repassados de pai para filho. Em relação, ao corpus é importante ter ciência do fator cultural, haja vista que os temas tratados e apresentados em um livro didático não podem ser descontextualizados das práticas culturais dos alunos. Isso quer dizer que um texto só fará sentido e será interessante de ser estudado ou lido se este tratar sobre assuntos que pertençam à realidade dos apurinã. Além disso, muitas palavras ou expressões podem não ser passiveis de tradução, pois não existem na língua apurinã, nem mesmo como estrangeirismo. Para tanto, então, um corpus devidamente contextualizado às práticas sociais desse povo deve ser cuidadosamente elaborado e aplicado em materiais de ensino/aprendizagem. O objetivo é de que essa seleção possa ser realizada pelos próprios índios.