A aplicação de questionários, para esta pesquisa, teve necessariamente de ser combinada com outros métodos de coleta de dados. Em se tratando de pesquisa em ciências humanas e sociais, em geral, é importante lembrar que “A consciência que as pessoas têm sobre suas crenças, valores, preconceitos e atitudes é às vezes surpreendentemente fraca” (LAVILLE e DIONNE, 1999, p. 185). E, assim, em um questionário,
[...] um interrogado pode escolher uma resposta sem realmente ter opinião, simplesmente porque ele sente-se compelido a fazê-lo ou não quer confessar sua ignorância. Ou então, tendo uma consciência limitada de seus valores e preconceitos, oferecerá respostas bastante afastadas da realidade. (LAVILLE e DIONNE, 1999, p. 185)
Portanto, após a coleta, tabulação das respostas e análise inicial dos dados, foram realizadas três sessões de grupos focais, de cerca de 1 hora e 50 minutos, cada encontro, com o objetivo de aprofundar a compreensão das respostas obtidas nos questionários. Esta abordagem, também conhecida como grupos-alvo ou focus
groups, em inglês,
[...] é na realidade uma técnica especial de entrevista dirigida a mais de uma pessoa ao mesmo tempo. O principal interesse é que seja recriada desse modo uma forma de contexto ou de ambiente social onde o indivíduo pode interagir com os vizinhos, deve às vezes defender suas opiniões, pode contestar as dos outros. (LAVILLE e DIONNE, 1999, p. 194)
Entre as desvantagens do grupo focal, Laville e Dionne (1999, p. 194) argumentam que é preciso “[...] permanecer consciente do caráter artificial de tal contexto e das diversas influências às quais a pessoas que compõem o ambiente estão sujeitas e que vêm tingir suas reações”, alertando ainda para o papel decisivo do líder, que não deve indevidamente influenciar as respostas, evitando “[...] manifestar explícita e demasiadamente suas opiniões ou expectativas através de suas perguntas ou comentários”.
“Em compensação,” em um grupo focal, “também se podem encontrar participantes que, encorajados pelo depoimento dos outros, acharão mais fácil emitir suas ideias” e as discussões estabelecidas e as reações suscitadas, assim, “[...] podem ser significativas e traduzir, pela espontaneidade que aí se manifesta, os sentimentos e opiniões das pessoas [...]” (LAVILLE e DIONNE, 1999, p. 194). A escolha por tal metodologia revelou-se acertada, posto que, no decorrer das discussões, foi possível aos alunos elaborar e reelaborar conscientemente seus próprios percursos de formação, em relação às aprendizagens de percepção musical, sendo incentivados a desenvolver argumentos para sustentar suas próprias opiniões e, consequentemente, clarificando seus posicionamentos a partir da necessidade de se contrapor à opinião de outros participantes, ou do grupo como um todo.
No início de todas as sessões de grupo focal, destaquei ainda que as visões de todos os alunos teriam grande contribuição e validade para a pesquisa, encorajando-os a exporem seus reais pontos de vista, e evitando expor minhas próprias opiniões. Busquei enfatizar ainda que o grupo focal não tem como objetivo
definir um consenso, mas que se constitui em um espaço para a exposição de pontos de vista que podem ser opostos ou contraditórios.
Para a realização das sessões de grupo focal, foram previamente elaborados roteiros, tendo como ponto de partida a análise e categorização inicial dos dados dos questionários. As questões foram abertas, pois o objetivo era, antes de tudo, permitir que as pessoas se expressassem livremente, e a ordem das perguntas foi adaptada ao andamento particular das discussões de cada sessão.
De forma geral, solicitei que os alunos falassem sobre seus processos de aprendizagem musical, expondo facilidades e dificuldades, e incentivando-os a comentar e encontrar semelhanças e diferenças entre si. Quis saber, também, em que momento estes músicos começaram a estudar teoria e percepção musical e, principalmente, por que buscaram o desenvolvimento das habilidades a ela relacionadas: se as procuraram apenas pra fazer o vestibular, se o interesse surgiu de uma necessidade particular anterior, se as aulas vinham no pacote com outras aulas de instrumento, entre outras possibilidades (que não foram verbalizadas por mim, mas apenas consideradas como hipóteses). Pretendi conhecer também quais as dificuldades encontradas nos processos de aprendizagem desses conhecimentos, e se é possível perceber impactos destes sobre suas práticas musicais.
Busquei conhecer também as características de uma aula ideal de percepção musical, nas perspectivas dos alunos, e também o que mais valorizavam na formação de um músico. Ao longo do processo, discutimos ainda sobre o interesse em fazer uma faculdade de música, a escolha por um curso de música popular e a preparação para o vestibular, e também o que deveria ou não ser avaliado nesta prova, em suas opiniões (isto é, considerado como pré-requisito). Paralelamente, surgiram discussões sobre preferências musicais, envolvendo a ideia de música “boa” e “ruim” e o estabelecimento de critérios objetivos e subjetivos para a definição de qualidade – o que conduziu oportunamente a uma discussão mais ampla sobre a inclusão (ou exclusão, para alguns, como se verá) de dimensões relacionadas à subjetividade, na aula de percepção musical.
De forma geral, todos os alunos participaram intensamente do grupo focal. Em vários momentos, as discussões se tornaram acaloradas e as conversas tenderam a se espalhar paralelamente em duplas ou pequenos grupos, sendo necessário intervir para garantir que o processo de transcrição pudesse se realizar
efetivamente. Tal aspecto demonstrou-me que o tema era tão instigante para mim quanto para a maior parte dos alunos e refletir sobre sua própria formação também pareceu ser, de forma geral, prazeroso e interessante para os alunos.
As discussões foram filmadas, resultando em aproximadamente 5 horas e 30 minutos de gravações. Após transcritas literalmente, as discussões ocuparam o espaço de 153 páginas21. Neste trabalho, as citações das falas dos alunos estão o mais próximo possível de suas elocuções reais, preservando repetições, pausas e interlocuções (como “né”, “aí” ou “então”), índices importantes a serem considerados na análise de seus discursos.