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Todas as pessoas têm, biologicamente, a capacidade de falar, exceto se tiverem alguma patologia que comprometa o aparelho fonador. Por volta dos seis a oito meses de vida, já verbalizam3 na intenção de se comunicar e expressar seus desejos e necessidades. Elas falam e participam da interação verbal com outras pessoas por meio da língua materna, da língua do lugar em que nascem e do contexto em que são inseridas, adquirindo, assim, a capacidade de se comunicar por meio da linguagem.

Existem muitas linguagens pelas quais as pessoas podem se expressar. Entretanto, será referida prioritariamente nessa discussão a linguagem verbal ─ oral e escrita ─ efetivada de forma competente e consciente por meio da língua, nesse caso, a Língua Portuguesa, oficial no Brasil.

Toda criança inicia a falar ainda bem pequena e, no mundo contemporâneo, a maioria delas já nasce inserida em um ambiente em que a cultura letrada está presente nas mais diversas situações. Dessa forma, grande parte das crianças tem contato com a linguagem oral e escrita desde o seu nascimento. É comum em lares letrados bebês possuírem como brinquedos livros de literatura em material lavável, dobrável de difícil desgaste.

O acesso e participação à linguagem oral vão se ampliando à medida que as crianças interagem com as pessoas do seu entorno, familiares e conhecidos, bem como com aparelhos tecnológicos4, cada vez mais presentes nos lares brasileiros. Por sua vez, a linguagem escrita é acessada no cotidiano das crianças por meio de objetos variados, em casa e nas ruas, como embalagens, placas, livros, jornais, revistas e, ainda, através das tecnologias digitais: televisão, telefones celulares, computadores, entre outros.

A linguagem escrita pressupõe a leitura para ser acessada e compreendida, efetivando as suas diversas funcionalidades dentro de uma sociedade que a utiliza em tantas situações do cotidiano. Assim, as crianças pequenas, mesmo antes de frequentar a escola para aprender a decifrar os mistérios da leitura e da escrita, presenciam, diariamente, atos dos adultos e de crianças maiores em que a leitura se efetiva.

Esses atos, dos quais participam ativamente, vão lhe informando sobre essa ação. Conforme Ferreiro (2001, p. 59, grifos da autora),

A criança que cresce em um meio “letrado” está exposta à influência de uma série de ações. E quando dizemos ações, neste contexto, queremos dizer interações. Através das interações adulto-adulto e adulto-criança e crianças entre si, criam-se as condições para a inteligibilidade dos símbolos. A experiência com leitores de textos informa sobre a possibilidade de interpretação dos mesmos, sobre as exigências desta interpretação e sobre as ações pertinentes, convencionalmente estabelecidas. Aqueles que conhecem a função social da escrita dão-lhe forma explícita e existência objetiva através de ações inter-individuais [sic]. A criança se vê continuamente envolvida, como agente e observador, no mundo “letrado”.

Nessa direção, como se aprende a falar falando, aprende-se a ler lendo, isto é, participando em situações em que a leitura é evidenciada e tratada de forma significativa. Conviver com leitores e produtores de textos escritos proficientes e participar de situações nas quais seja necessário o uso da leitura para um fim específico, contribui na compreensão de grande parte da complexidade do ato de ler. Para Solé (1998, p. 63), “[...] o que mais motiva as crianças a ler e a escrever é ver os adultos que tenham importância para elas lendo ou escrevendo, assistir à leitura em grupos pequenos ou grandes, tentar e sentir-se aprovadas em suas tentativas”.

Os rudimentos de leitura apresentados por uma criança são, inicialmente, imitações de um modelo de leitor a quem elas se habituam a ver e ouvir e, com isso, há grandes chances de tornarem-se leitoras ao descobrir e presenciar comportamentos prazerosos de leitura dessas pessoas. Frank Smith ao tratar da leitura significativa afirma:

[...] as crianças se tornam leitores quando são engajadas em situações nas quais a linguagem escrita é usada de forma significativa, assim como elas aprendem a linguagem falada quando estão em contato com pessoas que usam a fala de maneira significativa. A aprendizagem da leitura é apenas a tentativa de dar sentido ao que se lê, e o esforço para ensinar a ler, portanto, é apenas o de tornar aquela tarefa interessante e compreensível. [...] (SMITH, 1999, p. 6).

Tratando-se da leitura, esse aprendizado não se dá apenas naturalmente pelo contato e manuseio de material escrito e convívio com leitores proficientes. Distinta da linguagem oral, que tem como objeto de conhecimento a própria fala, a escrita é uma representação e, desse modo, requer sistematização para sua aprendizagem, uma vez que se trata de um objeto social, conceitual e complexo. É relevante que haja reflexão acerca da linguagem escrita para que se possa acessá-la e compreendê-la.

A escrita foi criada pela humanidade há milhares de anos e passou por inúmeros processos assistemáticos de aperfeiçoamento, desde as representações por meio de desenhos nas cavernas pré-históricas até o sistema alfabético que se conhece e utiliza hoje. Desvendá-la e decifrá-la requer compreensão de que se trata de um sistema com particularidades e especificidades, as quais vão sendo desmistificadas no contato com material escrito e usuários competentes, bem como no uso e reflexão por parte de quem aprende.

Aprender a ler e escrever, hoje, significa exercer a cidadania e poder participar do mundo social dominado pela cultura letrada da era do conhecimento. Ao se falar de sistematização do conhecimento, então, remete-se à escola, instância, por excelência, responsável pela aprendizagem conceitual. E, se a aprendizagem é a língua escrita, recorre-se à alfabetização, processo em que crianças e adultos não alfabetizados percorrem na aventura de aprender.