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Um dos modelos teóricos que fundamenta esse trabalho baseia-se nos princípios de uma análise discursiva. Portanto, o ponto de partida será o estudo das condições de produção de um enunciado ou discurso. Procuraremos compreender o sentido da língua não como sistema, mas como prática de linguagem, ou seja, da linguagem em funcionamento, produzindo sentidos. Sendo assim, é no discurso que se aliam as noções de sujeito, história e ideologia.

O discurso não é simplesmente a transmissão de informação dentro de uma linearidade automática, em que o transmissor transmite uma mensagem para um receptor passivo. Num processo de interlocução ou no funcionamento da linguagem, sujeitos e sentidos são elaborados. Daí afirma Brandão (1998, p. 89) que o “discurso é o efeito de sentido construído no processo de interlocução (opõe-se a uma concepção de língua como mera transmissão de informação.”

Das possibilidades ilimitadas de exemplificação da tipologia do discurso, podemos falar de discurso político, literário, teatral, filosófico, cinematográfico, etc. Sinônimo de enunciado em termos lingüísticos, o discurso constitui-se por um conjunto de frases logicamente ordenadas, de forma a comunicar um sentido. Nesta acepção, a frase é considerada hoje uma unidade do discurso e é susceptível de ser analisada na forma como se combina com outras frases para constituir um discurso.

Retomando os princípios de Bakhtin, a Análise do Discurso de linha francesa propõe o princípio da heterogeneidade, pois diz que o discurso é tecido a partir do discurso do outro, que é o “exterior constitutivo, o já dito sobre o qual qualquer discurso se constrói” (BARROS, 1997, p. 230).

A palavra do outro, portanto, passa a ser a condição para a constituição de todos os discursos, uma vez que o discurso não opera sobre a realidade das coisas e sim sobre outros discursos.

Com o passar do tempo, o termo discurso tem sido entendido de diferentes modos. No século VI, o discurso era “aquele ao qual seria preciso submeter-se, porque ele reinava; era o discurso pronunciado por quem de direito e conforme o ritual requerido; era o discurso que pronunciava a justiça e atribuía a cada qual a sua parte.” (FOUCAULT, 1996, p. 15). Percebemos que nesse período o discurso era pronunciado por quem tinha o poder, pois quando falava, era dito a verdade, que não lhe podia conflitar, mas somente aceitar.

Já no século XVI e XVII, Foucault (1996, p. 10) diz que

apareceu uma vontade de saber que, antecipando-se a seus conteúdos atuais, desenhava planos de objetos possíveis, observáveis, mensuráveis, classificáveis; uma vontade de saber que impunha ao sujeito cognoscente (e de certa forma antes de qualquer experiência) certa posição, certo olhar e certa função (ver, em vez de ler, verificar, em vez de comentar); uma vontade de saber que prescrevia (e de um modo mais geral do que qualquer instrumento determinado) o nível técnico do qual deveriam investir-se os conhecimentos para serem verificáveis e úteis.

Nesse período observamos que na busca da verdade, escondia-se o desejo e o poder, e, para tal certamente buscava-se a exclusão de alguns tipos de discurso. No entanto, nota-se que o ouvinte estava mais atento à verdade, pois esta deveria ser provada.

No século XX, com os estudos de Bakhtin, a idéia de discurso toma um novo significado. Ele afirma que

por mais monológico que seja um enunciado, por mais que se concentre no seu objeto, ele não pode deixar de ser também, em certo grau, uma resposta ao que já foi dito sobre o mesmo objeto, sobre o mesmo problema, ainda que esse caráter de resposta não receba uma expressão externa bem perceptível. (BAKHTIN, 1997, p. 317)

Desse modo, para Bakhtin, o enunciado ou o discurso estão repletos de outras vozes - muitas vezes longínquas e anônimas ou outras vezes marcadas pelo presente -, que se cruzam, produzindo uma rede de novos efeitos de sentidos, sem

apagar os já existentes. É no discurso, lugar em que o lingüístico e o social se articulam, que as vozes se farão ouvir ao dirigir-se a um interlocutor, impondo-lhe uma atitude dialógica, permitindo que os vários sentidos distribuídos entre as vozes venham à superfície. Brandão, dentro desse conceito diz:

a linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas de instrumento de comunicação ou suporte de pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação, e um modo de produção social; ela não é neutra, inocente e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia. (BRANDÃO, 2005, p. 11)

Diante dessa perspectiva, o discurso passa a ser objeto de análise, entendendo-se que o sentido do discurso não está somente no que é dito, mas também na forma como se diz, o contexto em que se diz e a quem se diz. Estas questões são o que chamamos de enunciação. O enunciado é produzido por sujeitos dentro de um contexto sócio-histórico. Assim, Bakhtin não só coloca o enunciado como objeto dos estudos da linguagem, como também, dá à situação da enunciação o papel de componente necessário para a compreensão e explicação da estrutura semântica de qualquer ato comunicativo.

Dentro dessa análise discursiva, a linguagem é tratada em seu contexto de produção, com a sua significação nas diversas situações de interação social, considerando o momento histórico em que o discurso está sendo produzido, quem está produzindo e para quem. Devemos ressaltar que ele não é individual, pois em sua construção há, pelo menos, dois interlocutores. Essa concepção é confirmada por Fiorin (2002, p.35) quando diz que

o discurso não é, pois, a expressão da consciência, mas a consciência é formada pelo conjunto de discursos interiorizados pelo indivíduo ao longo de sua vida. O homem aprende como ver o mundo pelos discursos que assimila e na maior parte das vezes, reproduz esses discursos em sua fala.

Sendo assim, o discurso pode ser considerado como a manifestação de processos enunciativos e das intenções conscientes ou inconscientes do falante que formam todo o significado. Como sendo o lugar do dinamismo social, de modo a interagir com o mundo em situação de comunicação.

Concretizando a situação comunicativa e explicitando o social, o discurso sempre carrega as intenções do sujeito que o produziu. Tais intenções podem ser marcadas pelo convencimento, pela persuasão ou informação.

Segundo Brandão (2005, p. 32), Foucault concebe “os discursos como uma dispersão, isto é, como sendo formado por elementos que não estão ligados por nenhum princípio de unidade”, ficando a cargo da análise discursiva descrever essas dispersões e estabelecer regras que sejam capazes de delinear a formação dos discursos que se colocam como um sistema de relações entre objetos, tipos, enunciativas, conceitos e estratégias, sendo o discurso concebido como uma família de enunciados pertencentes a uma mesma formação discursiva. Uma das características dos enunciados diz respeito à relação com o sujeito, em que o sujeito fundador abre elucidação da realidade do discurso. Dessa forma, Brandão (2005) diz que analisar o discurso é fazer desaparecer e reaparecer as contradições, ou seja, “mostrar o jogo que jogam entre si”.

Para Foucault embora o discurso seja visto como uma dispersão, ele entende que um enunciado não existe isoladamente, mas faz parte de uma rede de relações que são reveladas quando se tecem comentários. Ele diz:

descrever um enunciado não significa isolar e caracterizar um segmento horizontal, mas definir as condições nas quais se realizou a função que deu origem a uma série de signos (não sendo esta forçosamente gramatical nem logicamente estruturada) uma existência e uma existência específica. Esta a faz aparecer não como um simples traço mas como relação com domínio de objetos; não como resultado de uma ação ou de uma operação individual, mas como jogo de posições possíveis para um sujeito; não como uma totalidade orgânica, autônoma, fechada em si e suscetível de – sozinha – formar sentido, mas como um elemento em um campo de coexistência; não como um acontecimento passageiro ou um objeto inerte, mas como uma materialidade repetível. (FOUCAULT, 1987, p. 125)

Diante de todo exposto, vemos que os enunciados de um discurso não podem ser analisados isoladamente, pois eles estabelecem relações com o contexto e com os outros enunciados que também estão inscritos em uma determinada situação discursiva. Dessa forma, podemos dizer através de Orlandi (2002, p. 21) que

a noção de discurso, em sua definição, distancia-se do modo como o esquema elementar de comunicação dispõe seus elementos, definindo o que é mensagem. (...) Para a Análise do Discurso, não se trata apenas de transmissão de informação, nem há linearidade na disposição dos elementos de comunicação, como se a mensagem resultasse de um processo assim serializado: alguém fala, refere alguma coisa baseando-se em um código e o receptor capta a mensagem, decodificando. Na realidade, a língua não é só um código entre outros, não há essa separação entre emissor e receptor, nem tampouco eles atuam numa seqüência em que primeiro um fala e outro decodifica, etc. Eles estão realizando ao mesmo tempo o processo de significação e não estão separados em forma estanque.

Mediante essas concepções descritas, notamos que um discurso inclui aspectos exteriores a ele. O discurso está ligado a aspectos históricos e sociais, a uma ideologia que representa o real e ele é constituído por enunciados que estabelecem relações. Assim, faz-se necessário discutirmos um pouco sobre a questão da ideologia.