3. MATERIALS AND METHODS
3.3 P ARTICIPANTS
Mesmo com os auxílios da Câmara Municipal e da comunidade de uma forma geral, considerando também, o esgotamento dos recursos pessoais dos sócios, não houve outra alternativa que se não, contrair um empréstimo junto ao Banco de Crédito Real de Minas Geraes. Para tal, iremos adentrar em uma fonte delicada, trata-se de um manuscrito. Este manuscrito foi de autoria do Sr. Roberto Carneiro, filho de Alberto Carneiro e Arthemia Chaves Carneiro e neto de José Theophilo Carneiro, o patriarca da família Carneiro e integrante do Conselho de Administração da Sociedade. Também era sobrinho de Clarimundo Carneiro, tesoureiro e integrante da Diretoria da Sociedade. Alguns documentos referentes a contabilidade da Sociedade foram guardados por Roberto Carneiro que, posteriormente, foram doados para ao Centro de Documentação em História (CDHIS) da Universidade Federal de Uberlândia, Campus Santa Mônica, que passou a ficar responsável pela preservação dos mesmos.
Neste manuscrito, de sete páginas, Roberto Carneiro fez um breve relato da história da criação do Ginásio Mineiro de Uberlândia, consequentemente, perpassando também, pela história da Sociedade. A importância deste relato, para este estudo, acontece em dois pontos relevantes. O primeiro, pelo fato do Sr. Roberto Carneiro ser neto de um dos sócios que integrou o Conselho de Administração da Sociedade. Este fato, nos fez considerar possível que, de uma forma ou de outra, o Sr. Roberto Carneiro tenha ouvido histórias, oralmente projetadas, sobre a construção do prédio e da Sociedade em si.
Em segundo, temos ainda o fato de que o Sr. Roberto Carneiro manteve a posse dos documentos gerais da Sociedade, conforme consta no Acervo Roberto Carneiro I e II, doados ao CDHIS no ano de 1995157.
Considerando estes dois pontos, encontramos no manuscrito algumas citações de alguns fatos de grande importância na história da Sociedade, a principal delas foi a existência das atas do Conselho de Administração que, se encontradas, revelariam mais uma centena de páginas neste trabalho. Desta maneira, respeitando o processo historiográfico e os dois pontos acima
relacionados, aproveitamos alguns trechos desta importante fonte documental materializada neste Manuscrito.
Até então, sabíamos que a Sociedade estava recorrendo ao Poder Público Municipal, por meio de intervenções da Câmara Municipal para obter alguma forma de recursos, sejam isenções, seja em dinheiro. Paralelo a isso, a Sociedade também buscava recursos através de campanhas a fim de arrecadar donativos para a Sociedade, mesmo assim:
As obras do prédio ultrapassaram o custo previsto e foi necessária a contratação de empréstimos. Como garantia hipotecária, ficando como avalistas e credores hipotecários vários sócios entre os quais o Cel. José Theophilo Carneiro e seu filho José Adolpho. (Manuscrito do Sr. Roberto Carneiro)158
Na reunião do Conselho de Administração do dia 30 de agosto de 1921, segundo Roberto Carneiro, foi exposta a situação de falta de recursos para a
continuação da obra, onde o conselheiro e sócio Cel. José Theophilo Carneiro
pedindo a palavra, pronunciou um parecer onde demonstrava que não seria possível a paralisação das obras, sendo necessário maiores sacrifícios com
tanto que se leve a effeito o fim combinado pela sociedade. Assim o mesmo
sócio propôs que o Conselho em questão, autorizasse a Directoria à promover
a realização do empréstimo de cem contos de réis, dando-se como avalista sócios em número suficientes...
“tendo em seguida tomada a palavra o membro José Theophilo Carneiro que primeiramente fez ver não ser possível a paralização das obras, sendo o caso de se fazerem os maiores sacrifícios com tanto que se leve a effeito o fim combinado pela sociedade. Propos este membro que se autorizasse a Directoria à promover a realização do empréstimo de cem contos de réis, dando-se como avalista sócios em número suficientes...” (Ata do Conselho de Administração)159
158 CARNEIRO, Roberto. Artigo sobre o Ginásio Mineiro de Uberlândia. CHDIS - Centro de
Documentação e Pesquisa em História. Coleção Roberto Carneiro II. Série: Documentos Diversos. Referência 042. Manuscrito. S/D. Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia.
159 Esta ata foi citada em: CARNEIRO, Roberto. Artigo sobre o Ginásio Mineiro de Uberlândia. CHDIS - Centro de Documentação e Pesquisa em História. Coleção Roberto
Carneiro II. Série: Documentos Diversos. Referência 042. Manuscrito. S/D. Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia
No Diário da Sociedade, foi encontrado o lançamento deste empréstimo em 31 de Agosto de 1921, ou seja, um dia após a reunião do Conselho de Administração. O valor lançado foi de 104:330$600 (cento e quatro contos, trezentos e trinta mil e seiscentos réis), somado o empréstimo mais os juros correspondentes. Contudo, considerando que o primeiro aluguel recebido pela Sociedade referente ao prédio construído foi em agosto de 10 de agosto de 1921 e que não existiram lançamentos após esta data, de mão de obra, material de construção ou qualquer outro evento relativo a construção ou reforma do prédio, nos colocamos na posição de que o empréstimo foi realizado na intenção de quitar dividas ativas da Sociedade. Assim foi autorizado o pedido de empréstimo pelo Conselho de Administração da Sociedade e a Diretoria o fez, conforme descreve o próprio Roberto Carneiro:
A proposta foi aprovada e o empréstimo obtido junto ao Banco de Crédito Real, mediante aval do proponente e de outros membros do conselho, mediante garantia, dos mesmos, pela hipoteca dos bens da Sociedade. Eles ficaram devendo ao banco e a Sociedade, a eles. (Manuscrito do Sr. Roberto Carneiro)160
Este empréstimo teve como avalista 33 nomes dentre sócios e simpatizantes. Cada um assumiu uma cota do valor, totalizando um total de 115:215$000 (cento e quinze contos, duzentos e quinze mil réis), quitado em 21 de março de 1923 com o último pagamento feito por Antônio Alves Pereira no valor restante de 215$000 (duzentos e quinze mil réis).
Quadro 10: Empréstimo Bancário: Avalistas da Sociedade (1925). Empréstimo da
Sociedade Anonyma Progresso de Uberabinha
Nome dos avalistas Valor
(em Contos de Réis)
José Resende dos Santos 3:800$000
João Severiano Rodrigues da Cunha 3:800$000
José Villela Marquez 3:800$000
Francisco Cotta Pacheco 3:800$000
Antônio de Rezende 3:800$000
160 CARNEIRO, Roberto. Artigo sobre o Ginásio Mineiro de Uberlândia. CHDIS - Centro de
Documentação e Pesquisa em História. Coleção Roberto Carneiro II. Série: Documentos Diversos. Referência 042. Manuscrito. S/D. Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia
Agenor da Silva Pereira Bino 3:800$000 Antônio Evaristo Alves dos Santos 3:800$000
Aniceto Pereira 3:800$000
Vigilato Orozimbo Pereira 3:800$000
Epiphanio Alves Pereira 3:800$000
José dos Santos 3:800$000
Benjamim Alves dos Santos 3:800$000
Carmo Giffoni 3:800$000
Octávio Rodrigues da Cunha 3:800$000 Virgilio Rodrigues da Cunha 3:800$000 Constantino Rodrigues da Cunha 3:800$000 Dr. Ignácio S. Paes Leme 3:800$000
Clarimundo F. Carneiro 3:800$000
José Theophilo Carneiro 3:800$000
José Carneiro 3:800$000
Joaquim Marques Povoa 3:800$000
Adolpho da Fonseca Carneiro 3:800$000
Manoel Alves dos Santos 3:800$000
Ly Alves Pereira 3:800$000
Eugênio de Paula Silveira 3:800$000
Antônio Alves Pereira 3:215$000
Américo de Mendonça Ribeiro 3:000$000 Rivalino Alves dos Santos 3:000$000 Manoel Alves dos Santos, digo Pereira 3:000$000
Marciano d‟Ávila Júnior 3:000$000
Oscar Machado 2:000$000
José Alves 2:000$000
Gil Alves dos Santos 1:000$000
Fonte: Extracto do Banco de Crédito Real de Minas Geraes.
22 abril 1925. Inventário: Coleção Roberto Carneiro I. (CDHIS – Centro de Documentação e Pesquisa em História, Universidade Federal de Uberlândia)
Mesmo quitando com o Banco, onde cada sócio individualmente era responsável por sua cota, ainda restava a Sociedade devolver este dinheiro a estes mesmos sócios, ou seja, cada sócio contraiu empréstimo junto ao banco. Cada sócio emprestou para a Sociedade o valor contraído com o Banco. Cada
sócio quitou seu empréstimo junto ao Banco. A Sociedade devia para os sócios.
O último balancete, que finalizou o período da construção, foi publicado no jornal A Tribuna em 07 de setembro de 1921, conforme transcrição abaixo, somma este balanço duzentos sessenta contos, quatrocentos noventa nove mil
e trezentos trinta e dois reis (260:499$332).161
Resumo do Balanço da “Sociedade Progresso de Uberabinha” encerrado em 31 de Agosto de 1921
ACTIVO
Antônio Vieira Gonçalves c/cap. 800$000
Amador de Oliveira Guimar c/cap. 200$000
Agenor da Silva Pereira Bino c/cap. 500$000 Alexandre de Oliveira Marquez c/cap. 400$000
Arthur Rodrigues c/cap. 1:600$000
Azarias Ignácio de Souza c/cap. 1:860$000
Belchior Bradamante Toledo c/cap. 100$000
Emerenciano Candido da Silva c/cap. 1:200$000
José Grama c/cap. 800$000
Francisco Ramella c/cap. 160$000
José dos Santos c/cap. 640$000
João Ribeiro Guimarães c/cap. 160$000
João Rodrigues de Castro c/cap. 400$000
João Naves de Ávila c/cap. 120$000
Marciano Saturnino de Ávila c/cap. 600$000
Mizac Rodrigues de Castro c/cap. 240$000
Mário Guimarães Faria (Dr.) c/cap. 800$000
Nestor Rezende c/cap. 800$000
Nicolau Candelor c/cap. 50$000
Oscar Gomes Moreira c/cap. 300$000
Salvino José de Araújo c/cap. 160$000
Tancredo Rodrigues da Cunha c/cap. 400$000
Zacharias Jorge Gomes c/cap. 80$000
Contas Correntes:
Antônio Luiz da Silveira 666$666
José Theophilo Carneiro 666$666 1:333$332
Letras a Receber:
2 Promissórias emittidas pela
Câmara Municipal 11:000$000 Edifício do Gymnasio 235:796$000 Total: 260:499$332 PASSIVO Contas Correntes:
Banco de Crédito Real de Minas
Geraes 104:330$600
Câmara Municipal 438$200
Comp. Força e Luz de
Uberabinha 697$200 105:466$000
Letras Descontadas:
2 Promissórias descontadas
pelos srs. Carneiro & Irmãos 11:000$000
Obrigações a pagar:
Firmada a José Theophilo Carneiro
14:000$000 Idem a C.ª Força e Luz de
Uberabinha 6:000$000 20:000$000 Aluguel do Edifício 1:333$332 Capital 90:000$000 Capital em ampliação 32:700$000 Total: 260:499$332 Uberabinha, 31 de Agosto de 1921.
Carmo Prudente, Guarda Livros
Antônio de Rezende, Vice-Presidente em exercício Clarimundo F. Carneiro, Thezoureiro
Fonte: A Tribuna, 07 setembro 1921. Ano III. n.º 104.
Nesta mesma edição, também foi publicada a versão completa do Balancete Geral da Sociedade (ANEXO X). Nele, podem ser observados com mais detalhes quantos e quem eram os sócios atuais e quais deles estavam em dia com suas respectivas cotas de capitais, quais os tipos de créditos e débitos a Sociedade herdou após construção, descrição do ativo e passivo e outras informações interessantes.
Apesar de todas as dificuldades encontradas, sejam financeiras ou falta de mão de obra ou materiais, a Sociedade conseguiu terminar o prédio que passou a figurar dentre as mais belas construções da cidade de Uberabinha.
Figura 6: Edifício do Gymnasio de Uberabinha (1921).
Fonte: PEZZUTI, Pedro. Município de Uberabinha: história, administração, finanças, economia. Officinas Typographicas da Livraria Kosmos. Uberabinha, 1922. (Arquivo Público
Não faltaram elogios:
Entre as construcções do ano passado figura a do Gynnasio de Uberabinha, o sumptuoso edifício concluído há pouco e que ficara na Praça D. Pedro 2o, perpetuando a tenacidade de alguns homens de boa
vontade, que não mediram sacrifícios pessaes e pecuniários para tão grande emprehendimento cujo custo total eleva-se a mais de 200 contos, obtidos por acções, subscripção publica e por empréstimo. (CÂMARA MUNICIPAL, Uberabinha, Minas Gerais. Acta da sessão ordinária realizada no dia 03
setembro 1921. P. 42/verso.)
Com o prédio concluso, a Sociedade deixa de ser notícia nos periódicos locais, passando a figurar em apenas algumas chamadas esporádicas, sobretudo, de publicidade paga162. Porém foi fato perceber que a tônica do jornal A Tribuna, o mesmo que até agora tinha noticiado a Sociedade, fez uma transição para um novo assunto. Este novo assunto foi, se não, “o mesmo assunto”, porém com um novo ator principal, o prédio do novo Fórum. Da mesma maneira, com interesses semelhantes, começa a “batalha” para mobilizar Uberabinha pela importância de se construir um novo prédio para o Fórum. É impossível não notar o mesmo pano de fundo, o mesmo cenário, as mesmas aspirações progressistas, os mesmos coadjuvantes, a mesma cidade e... Um novo ator principal, o prédio do novo Fórum.
[...] São innumeros os bellos palacetes que se ostentam em nossas ruas e praças, alguns de valor superior a 100 contos; o Paço Municipal é elegante e distincto, com acommodações suficientes ás suas repartições; o edificio do Gymnasio, ainda em construcção, é amplo e magestoso na austeridade das suas linhas; o Grupo é confortável; o telegrapho é bem installado, de maneira que o casebre do Forum, com as suas salas acachapadas anti-hygienicas, soalhos e forros esburacados, paredes a cahir, janellas e vidros sem fechar, telhado vergado sob o pezo dos annos, attesta ao visitante o desleixo da administração pública. [nosso grifo] (A Tribuna, 08 maio 1921. Ano II. n.º 87)
Após pouco mais de dois anos de construção, o prédio da Sociedade foi terminado. Uberabinha tinha um prédio construído pela sua própria comunidade, que acreditava em seu potencial e que estava investindo e acreditando no desenvolvimento da sua cidade.
162 Conforme consta no Diário da Sociedade (03 Setembro 1921, p. 91.), foram gastos pouco
mais de 100$000 (cem mil réis) em publicidade com o periódico local, Orgam de Publicação
Figura 7: Grande Hotel Central, Gymnasio de Uberabinha e Praça Pedro II – Praça ainda não construída. (1919).
Fonte: Praça Adolfo Fonseca, Grande Hotel e Ginásio Estadual. INVENTÁRIO da Coleção
“João Quituba”. Série: Fotografias. Uberlândia, 1989. Referência <JQ-0442>, p. 30. (CDHIS – Centro de Documentação e Pesquisa em História, Universidade Federal de Uberlândia)
Figura 8: Grande Hotel Central, Gymnasio de Uberabinha e Praça Pedro II – Praça já construída. (1950).
Fonte: SOUZA, Velso Carlos de. Inventário da Coleção “Uberlândia”. Série: Fotografias.
Praça Adolfo Fonseca, vê-se: o Colégio Estadual de Uberlândia, o Grande Hotel. Uberlândia, 1950. Referência <Udi-284-1>, p. 12. (CDHIS – Centro de Documentação e Pesquisa em História.)
4. O PRÉDIO ESTÁ PRONTO!
O prédio ficou pronto em Agosto de 1921 e custou oficialmente 235:796$000 (duzentos e trinta e cinco contos e setecentos e noventa e seis mil réis) à Sociedade, ocupando uma área de 935m2 dos 4.150m2 da área total do terreno.
O prédio conseguiu imprimir grande parte do que se esperava desta edificação: situado na zona urbana, sem vizinhança, entorno arborizado e de frente a uma praça. As ruas no entorno do estabelecimento eram de pouco movimento e de menor risco de atropelamentos. Não havia perto do prédio, fábrica ou qualquer outra instalação que produza ruído ou fumaça. Terreno plano e de fácil escoamento da água, não apresentando riscos de erosão, conforme podemos observar no relatório para equiparação do Gymnasio
Mineiro de Uberabinha ao Collegio D. Pedro II, de outubro de 1934, assinado
pelo Inspector Federal Dr. Heitor Augusto Montanday:
ELUCIDÁRIO PARA A FICHA DE CLASSIFICAÇÃO: