Segundo Freire, uma das palavras-chave no processo de educação de adultos é o diálogo139, o qual constitui o primeiro elemento do seu método140. O diálogo é fundamental para o exercício da comunicação. Diálogo é pronunciar a palavra – que é um privilégio de todos os homens; é pronunciar o mundo, é um acto de amor, de coragem. O diálogo pressupõe cooperação e mutualidade na relação entre os homens; é um acto de liberdade contra a opressão que os domina e deixa incapacitados para agir ou decidir; uma opressão que os transforma em seres domesticáveis, alienados. Pronunciar a palavra autêntica, para o autor, é praxis141, isto é, a transformação do mundo. Sem diálogo, o indivíduo
é incapaz de produzir conhecimento crítico, ou fabricar cultura.
Espaços de diálogo por excelência, os círculos culturais142 da educação popular promovem o diálogo sobre temas que projectam as realidades dos sujeitos, potenciando uma “imersão na sua própria vida”, não se atribuindo qualquer relevância ao nível de estudos, idades ou géneros. Desta forma se estabelecem “laços entre o conhecimento científico, desligado das realidades, e o conhecimento do senso comum” (Bertrand, 2001: 161).
Estes círculos são espaços de debate, de “alfabetização social”, isto é, um espaço de problematização e “descodificação” de problemas concretos dos intervenientes e “conscientização” para a cultura e para a necessidade dos sujeitos se envolverem “na construção colectiva e democrática da cultura e da história.” (idem, p. 161)
Neste processo, os sujeitos são agentes e objectos da sua própria aprendizagem, cabendo ao educador a escolha de casos concretos e propor instrumentos de trabalho que promovam a
139 O diálogo é um processo dinâmico de interacção, sendo, para isso, fundamental a criação de um contexto ideal de debate para que todos os envolvidos possam ter a oportunidade de se exprimirem a fim de que as suas opiniões possam ser ouvidas e as suas experiências partilhadas.
140 Romão refuta a ideia de método em Freire, pois entende que, mais do que um conjunto de técnicas, a filosofia subjacente à pedagogia deste autor pressupõe uma “concepção do mundo” (2001: 124)
141 O conceito de “praxis” pressupõe uma relação dicotómica entre acção-reflexão. É um conceito leninista que concerne a uma actividade complexa onde os educandos criam cultura e se consciencializam da sua realidade sociocultural. As características da “praxis” são a autodeterminação, a intencionalidade, a criatividade e a racionalidade.
142 Os círculos culturais são grupos de discussão onde os educadores e aprendizes evocam temas que promovem o diálogo sobre as realidades dos aprendizes: o trabalho, o desemprego, o sofrimento, as suas lutas e esperanças.
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autoformação dos educandos.143 Estes casos concretos constituem-se como temas geradores que, por sua vez, se reduzem a palavras geradoras. Designam-se como geradores porque, eles próprios, originam outros temas e outras palavras, pretendendo responder ao universo de dúvidas, valores, desafios que constituem os sistemas simbólicos dos sujeitos que compõem uma estratificação social e o seu contexto epocal. É a partir da leitura do mundo que os sujeitos tomam consciência das “situações-limites” e as transformam em “inéditos viáveis”, isto é, a superação da alienação, a compreensão crítica da realidade e, consequentemente, uma nova re-leitura do mundo. Tudo isto é possível através da identificação dos temas geradores, que lhes permitem uma visão do contexto em que estão inseridos – codificando e descodificando a realidade, num processo dialéctico contínuo.
Romão (2002), a propósito da pedagogia de Freire, refere que o educador de adultos é um “animador cultural”, que beneficia da aprendizagem dos seus educandos, isto é, ele aprende com os educandos quando lhes propõe determinadas pesquisas, quando os desafia para a descoberta de novos contextos, temas ou palavras geradoras (p. 136).
O educador é, deste modo, um activista do diálogo e da consciência crítica. Contrariamente ao papel do educador tradicional – que estudava os conteúdos e os debitava aos educandos, este educador é problematizador e desenvolve metodologias favoráveis ao debate e reflexão sobre conteúdos significativos ou questões que façam parte dos contextos vivenciais/existenciais dos educandos.
É reflectindo sobre a realidade, ela própria em constante mutação, que os educandos desenvolvem a sua consciência crítica e criatividade para a poderem transformar, tornando-se sujeitos e objectos da história. A relação comunicacional - dialógica144 que se estabelece entre todos os participantes no processo, tem, de igual modo, a finalidade de promover a intersubjectividade e auto- reflexão, sob um interesse prático e emancipatório. Este baseado no auto-conhecimento propiciado pela auto-reflexão, leva-nos a entender como as experiências passadas influenciam a nossa realidade, permitindo-nos assim optar por outras alternativas (Barbosa, 2004: 65).
Sobre diálogo, Barbosa (2004) introduz-nos o conceito de racionalidade comunicativa em Habermas, referindo que é através da linguagem que entramos em contacto com o mundo, tendo como horizonte o entendimento (p. 63). Neste contexto comunicativo, os indivíduos podem exprimir as suas opiniões em condições similares, apresentando ou refutando argumentos tendo em vista um reconhecimento mútuo, a partilha de experiências e a auto-reflexão sobre a realidade envolvente, cujo
143 Dewey (2007) vê a educação como um processo através do qual as pessoas podem agir criativamente sobre a realidade e participar activamente na mudança, segundo o conceito do “aprender-fazendo”.
144 A linguagem é um factor primordial na educação de adultos. Ela é um mecanismo de intervenção, de apropriação de novos sentidos.
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interesse é fundamentalmente emancipatório. Os outros são sempre analisados como potenciais colaboradores no processo para atingir o entendimento, sendo a cooperação um dos aspectos fundamentais desta interacção.
Tal como Freire, Shor (1992, p. 6) entende a educação como uma ferramenta fundamental para dotar os sujeitos de meios para se posicionarem criticamente na sociedade em que vivem. Segundo este autor, educação é sinónimo de empowerment145, isto é, uma educação crítica e democrática comprometida com a mudança pessoal e social dos indivíduos146. Ela ocorre sob a forma de diálogo em que formandos e formadores se envolvem mutuamente na investigação de temas ancorados na vida quotidiana, questões sociais ou conhecimento científico. Através de questões e debates, os formandos tornam-se agentes activos da sua aprendizagem, transformando-se em pensadores críticos, aprendizes inspirados, trabalhadores qualificados e, fundamentalmente em cidadãos envolvidos na construção de uma sociedade “livre”, desalienada e humanizada. Para Shor, a pedagogia:
“(…) inclui as relações entre ensino e aprendizagem. É um processo contínuo de desaprendizagem, aprendizagem e reaprendizagem, reflexão, avaliação e o impacto que estas acções têm sobre o estudante, em particular, estudantes que, ao longo dos tempos, têm sido e continuam a ser ignorados pelo ensino tradicional” (Empowering Education, 129).147