2. Basic theories on models and methods
2.2 Hydrodynamic force calculation
2.2.3 Application of Morison’s equation
Examinar a construção de representação acerca de objetos simbólicos sob um enfoque psicossocial requer algumas explicitações de cunho teórico-epistemológico referentes à própria Teoria das Representações Sociais (TRS). Por exigir uma submissão analítica minuciosa da empiria é que atribuímos a este Capítulo, no III Movimento, o andamento Moderato e o caráter de expressão, Delicato. A ideia é a de moderadamente, e delicadamente, anunciarmos algumas reflexões introdutórias às análises que sucederão.
Moscovici (1978), (2003), ao propor a TRS, deduz que há formas de racionalidade na vida cotidiana, como uma forma de conhecimento particular situada entre o social e o psicológico, com o objetivo de intervir na realidade. Portanto, a nosso ver, uma compreensão psicossociológica acerca de qualquer fenômeno social requer primordialmente explicações acerca de três princípios: Redimensionamento sobre os espaços de relação entre sujeito-objeto de conhecimento; Uma reconceitualização da relação entre as categorias indivíduo e sociedade; Um reposicionamento teórico-metodológico do pesquisador frente à análise e ao tratamento dos seus dados.
Considerar fenômenos à luz de uma nova epistemologia implica colocar que as RS seriam, nas palavras de Carvalho (2003), romper com a lógica dicotômica entre homem-meio, sujeito-objeto, instituídas nas visões racionalista e empirista em que uma das partes é destituída de papel ativo na relação (ora o objeto, no racionalismo, ora o sujeito, no empirismo) e também avançar sobre a dialética proposta por Hegel, pois, embora tenha sido reconsiderada a mútua causalidade dessa relação pela introdução da dimensão histórica, ainda permanece idêntica às visões anteriores pela relação direta entre sujeito-objeto. Prosseguindo nessas explicações pela ruptura da relação direta entre estas categorias, como afirma a autora, a dialética marxista explicitou essa historicidade através da ideia de mediação das relações, pressuposto mais realçado por Vygotsky e colaboradores nos anos 20.
Na perspectiva de constituição dos processos psíquicos superiores tipicamente humanos, os mediadores sociais interpostos na relação do homem com o meio, do sujeito com o objeto de conhecimento, indicados pelos instrumentos, pelos signos e pelos “outros”, trazem como função primordial a orientação externa, no caso específico dos instrumentos, refinando as maneiras de agir sobre o meio, e os mediadores internos, os signos, considerados como instrumentos psicológicos, a orientação interna, modificando o funcionamento psicológico do homem, pela ampliação das possibilidades de raciocínio, memória, planejamento e
imaginação. “Aos outros” é designado por Vygotsky o papel de mediador, no sentido de que a apropriação dos instrumentos e dos signos pelo indivíduo ocorrer sempre nas relações interpessoais, de tal forma que o sujeito, a partir dessas, reconstroi internamente as formas culturais de ação e pensamento, as significações, os usos da palavra com ele culturalmente compartilhados mediante o processo de internalização.
Julgar como imprescindível a elaboração de uma análise psicossocial dos licenciandos acerca dos objetos simbólicos aqui estudados, pautando-se no primeiro princípio por nós anteriormente referendado, é antes de tudo rever os espaços da relação sujeito-objeto de conhecimento através da epistemologia das RS. Isto significa considerar as RS enquanto mediadoras psicossociais, pois são elaborações cognitivas dos sujeitos (licenciandos), agora em coletividade, que relacionam seus processos simbólicos e de condutas na reconstrução dos seus objetos de formação (“Física” e “Ensinar”; “Química” e “Ensinar”), tornando-os “a cara deles”, ao mesmo tempo em que com eles se identificam. Conforme as palavras da autora, seria considerar a não separação e o universo externo do universo interno do indivíduo ou do grupo, pelo fato do sujeito coletivo e o objeto não serem forçosamente distintos, pois:
o objeto de representação/conhecimento, portanto, está inscrito num contexto ativo, ao qual pretende o sujeito representante, que se apropria da realidade reconstruindo-a a partir dos sistemas de valores e de sua história [...] nessa linha de raciocínio a representação social não é tomada como simples reflexo da realidade, mas como um sistema de interpretação que rege as relações dos indivíduos com o meio físico e social, um sistema de pré-decodificação, porque determina um conjunto de antecipações e expectativas (CARVALHO, 2003, p. 19).
Em outras palavras, a explicação psicossocial para o fenômeno que este estudo propõe sedimenta-se na compreensão de que no espaço de relação entre os licenciandos e seus objetos simbólicos estão interpostos mediadores psicossociais, sistemas interpretativos do qual os novos objetos “Física”, “Ensinar”, “Química”, “Ensinar” são transformados em saberes úteis que tem uma função na tradução e compreensão da realidade pedagógica. O que os leva a construírem representações sociais a respeito dos objetos simbólicos aqui em análise, segundo Moscovici (1978), (2003), é o fato dos licenciandos, mesmo diante de práticas pedagógicas envolvendo situações diversificadas (pressão a inferência), possuindo interesses desiguais em relação ao objeto (focalização), e tendo defasagem e dispersão de informação sobre este, necessitam construir códigos comuns para classificar e nomear de maneira unívoca as partes de seu mundo, de sua história individual e coletiva. Desta forma, os
licenciandos garantirão o consenso de opinião sobre os objetos representados “Física”, “Ensinar”, “Química”, “Ensinar”, como também a comunicação entre seus pares e guia para suas condutas.
Do mesmo modo que são construídas pelos determinantes sociais da pressão à inferência, da focalização, da defasagem e dispersão de informação acima citadas, as RS são construídas e elaboradas a partir de dois mecanismos denominados por Moscovici (2003) de Ancoragem e Objetivação. A Ancoragem é designada pelo processo de inserção do objeto ou das novas informações, das novidades que irrompem a realidade social, aos conceitos e imagens já formados anteriormente, na tentativa de torná-los familiares. Quando os sujeitos ancoram algo estranho e perturbador, sempre o fazem arraigando-o a um sistema particular de categorias preexistentes, comparando-o com um paradigma de uma categoria que pensam ser apropriada. Nesse momento, o objeto ou ideia adquire características dessa categoria, reajustando-se para que se enquadre nela. “Ancorar é classificar e dar nome a alguma coisa. Coisas que não são classificadas e que não possuem nome são estranhas, não existentes e ao mesmo tempo ameaçadoras” (MOSCOVICI, 2003, p.61). Só assim, mediante o processo de classificação e nomeação do objeto até então inclassificável e inominável, é que os sujeitos podem imaginá-lo e representá-lo. Portanto, esse dois princípios, o de classificação e de nomeação, são aspectos da constituição da Ancoragem. A classificação é efetuada mediante comparações de ideias e conceitos a um protótipo geralmente reconhecido como representante de uma classe, onde as primeiras (ideias e conceitos) são definidas através da aproximação e da coincidência com o último (protótipos). Tomando as palavras do autor, quando explica o processo de classificação na Ancoragem, afirma:
se é verdade que nós classificamos e julgamos as pessoas e coisas comparando-as com um protótipo, então nós, inevitavelmente, estamos inclinados a perceber e a selecionar aquelas características que são mais representativas desse protótipo [...] isso concretamente significa que ancorar implica também a prioridade do veredicto sobre o julgamento e do predicado sobre o sujeito. O protótipo é a quintessência de tal prioridade, pois favorece opiniões já feitas e geralmente condiz a decisões superapressadas (MOSCOVICI, 2003, p. 64).
Percebemos, contudo, que o processo de classificação é interdependente da nomeação. Quando algo é nomeado, é liberto de um anonimato perturbador e incluso em um complexo de palavras específicas na raiz genealógica de categorias. O exercício cultural de nomear possibilita a construção pelos sujeitos envolvidos de uma malha de significações de tal modo
oferecendo-lhes a possibilidade de representar a realidade. Afirmamos, então, que o vocabulário científico apreendido no universo reificado dos licenciandos acaba por ancorar-se no vocabulário cotidiano, tornando-se socializado. Ou seja, tudo o que era incômodo e enigmático na transposição das teorias científicas para o universo consensual transmuta-se em linguagem comum, pois são dados sentidos ao que antes não tinha. De acordo com Moscovici, é uma tendência nominalista decorrente da necessidade de identificar seres, coisas, ajustando-os em uma representação social predominante.
Conforme Santos e Almeida (2005); Nóbrega (2001), o mecanismo de Ancoragem organiza-se sob três condições estruturantes; são elas: atribuir sentido exatamente pelo processo de enraizamento de uma representação, inscrever-se numa rede de significados e, quando articulados e hierarquizados a partir de conhecimentos e valores preexistentes, servem como referência para os mecanismos de classificação e nomeação do novo objeto. A implicação dessa segunda condição estruturante da Ancoragem, o enraizamento no sistema de pensamento pré-existente, permite que os elementos inovadores sejam articulados com aqueles já rotineiros ou mesmo arcaicos, promovendo o caráter criador do que é novo, pois, ao entrar em contato com as modalidades de pensamento mais antigas, acabam por operar sobre elas novas interpretações da realidade. A terceira subjaz a instrumentalidade do saber pela possibilidade de atribuir um valor funcional à estrutura imagética da representação construída, pois não deixa de ser uma teoria de referência para tradução e compreensão do mundo social.
O segundo mecanismo de construção da RS é aobjetivação. Para Moscovici (2003, p. 71), é um processo muito mais atuante que a Ancoragem. Entendida como o processo de materialização das abstrações, da corporificação dos pensamentos, tornando físico e visível o impalpável pela transformação em objeto do que é representado. Nas palavras de Nóbrega (2001), objetivar é descobrir a qualidade icônica de uma ideia, de um objeto ou de um ser impreciso. É reproduzir um conceito em uma imagem.
Há, portanto, algumas dificuldades nesse processo que precisam ser vencidas. Em nossa sociedade há um estoque de palavras que são utilizadas para dar sentido a objetos específicos em circulação. As palavras, quando usadas estarão sempre ligadas a algo, a equivalentes não-verbais para elas, criando uma coleção de imagens.
A dificuldade que mencionamos acima se refere à impossibilidade de nem todas as palavras que constituem esse estoque poderem ser ligadas a imagens, seja porque não existam imagens suficientes facilmente acessíveis, ou porque as imagens que são lembradas sejam tabus. Neste caso, Moscovici lembra que a própria sociedade seleciona quais serão os
conceitos aos quais ela concederá poderes figurativos, isso estando de acordo com suas crenças e com o estoque preexistente de imagens.
Vale à pena pontuar que isso não significa que mudanças subsequentes possam acontecer, pois durante a transmissão de referenciais familiares que respondam gradualmente ao que foi recentemente aceito, provocará mudanças no processo, configurando verdadeiros paradigmas figurativos. Nas palavras de Moscovici,
Uma vez que a sociedade tenha aceito tal paradigma, ou núcleo figurativo, ela acha fácil falar sobre tudo o que se relacione com esse paradigma e devido a essa facilidade as palavras que se referem ao paradigma são usadas mais freqüentemente. Surgem, então, fórmulas e clichês que o sintetizam e imagens, que eram antes distintas aglomeram-se ao seu redor. Não somente se fala dele, mas ele passa a ser usado, em várias situações sociais, como um meio de compreender outros e a si mesmo, de escolher e decidir (MOSCOVICI, 2003, p. 73).
Concluímos que o paradigma figurativo, quando desvinculado de seu ambiente original em razão do seu uso contínuo, adquire uma independência tal, igualmente quando a imagem ligada à palavra ou à ideia se torna separada e é deixada solta em uma sociedade e acabará sendo aceita como uma realidade convencional clara.
Em decorrência disso, Nóbrega (2001), quando assinala sobre a relação do sujeito com o objeto representado, afirma que a objetivação cria uma realidade autônoma dos valores, pois, separado do sujeito, o objeto torna-se afastado do desejo daquele, adquirindo, portanto um caráter de exterioridade ao sujeito. O objeto percebido e o conceito tornam-se intercambiáveis, as palavras acopladas às coisas; o abstrato torna-se concreto e o conceito é transformado em uma imagem ou em núcleo figurativo. Quando isso ocorre, as imagens não ocupam mais aquela posição específica, em algum lugar entre as palavras que supostamente tenham um sentido e objetos reais aos quais somente nós podemos dar um sentido, mas passam a existir como objetos, o que significam.
Como já dissemos anteriormente, as RS são construídas mediante esse dois mecanismos cuja função é tornar o não-familar em algo familiar, portanto a Ancoragem e a Objetivação implicam processos diferenciados em que o primeiro gira em torno de classificação e nomeação e o segundo, como transfiguração do que é abstrato para o concreto por imagens. A Ancoragem é um mecanismo dirigido para dentro, está sempre colocando e retirando objetos, pessoas e acontecimentos que ela classifica de acordo com um tipo e os rotula com um nome. A Objetivação está mais direcionada para fora, para os outros, retira
desse campo conceitos e imagens para juntá-los e reproduzi-los no mundo exterior, “para fazer as coisas conhecidas a partir do que já é conhecido” (MOSCOVICI, 2003, p. 78).
O segundo princípio elegido como referencial para uma análise psicossocial acerca da construção de objetos simbólicos refere-se à reconceitualização da relação entre as categorias indivíduo e sociedade. Significa afirmar que a TRS provoca o entendimento da articulação tanto com a vida coletiva de uma sociedade, quanto com os processos de constituição simbólica, nos quais sujeitos sociais lutam para dar sentido ao mundo, entendê-lo e nele encontrar seu lugar, através de uma identidade social. Reconceitualizar as relações dessas categorias é antes de tudo assumir que sujeitos coletivos constroem na relação com o mundo, um novo mundo de significados.
Jovchelovitch (1994) reforça esse entendimento, afirmando que esse espaço entre o indivíduo e sociedade não é outro senão os espaços públicos38, lugar de alteridade compostos de elementos constitutivos na gênese e desenvolvimento de vidas individuais, como também de parâmetros normativos que definem a vida em coletividade.
No trânsito da dialética entre o eu e a internalização de outros, Mead (1934 apud JOVCHELOVITCH, 1994, p. 70) sinaliza a importância da vida em sociedade, evidenciando um “nós” necessário para a construção de cada ser humano, pois, as vidas privadas, individuais, não surgem a partir de dentro, mas a partir de fora, do público.
A análise da relação entre indivíduo e sociedade na perspectiva psicossocial é re- estabelecida, no nosso entendimento, pois as RS enquanto fenômenos simbólicos são construídas coletivamente, fundadas e compartilhadas no social; isto significa dizer que as RS não são um agregado de representações individuais da mesma forma que o social é mais que um agregado de indivíduos. Enquanto estratégias construídas pelos atores sociais no intuito de enfrentar a diversidade e a mobilidade de um mundo que embora pertença a todos, transcende a cada um individualmente. Portanto, afirmamos que as RS configuram um espaço de fabricação comum, onde cada sujeito ultrapassa a sua própria individualidade para entrar no domínio da vida em comum, isto é, no espaço público. Permanecendo com as palavras da autora, é através da ação de sujeitos sociais agindo no espaço que é comum a todos, que a
38 Jovchelovitch ao discorrer seu argumento de que a esfera pública é um lugar de alteridade que fornece às RS o terreno propício para ser cultivada e estabelecida, entende as categorias espaço público e alteridade a partir de Jürgen Habermas e Hannah Arendt. O espaço público (Habermas), significando um espaço em que cidadãos se encontram e falam uns com os outros de forma que garanta acesso a todos, onde o princípio da transparência e prestação de contas se desenvolve. Este mesmo espaço (Arendt) é qualitativamente diferente pela pluralidade e diversidade de perspectivas diferentes, “alter”, onde a ação e o discurso possibilitam a capacidade para os homens falarem e agirem. A autora defende a partir daí que o espaço público e às condições que o ligam à alteridade anunciam um espaço que existe em função da experiência da pluralidade e da diversidade humana em que perspectivas diferentes, via o discurso, podem levar ao entendimento e ao consenso.
esfera pública aparece como o lugar em que uma comunidade pode desenvolver e sustentar saberes sobre si próprios, ou seja, representações sociais. (Ibid,1994,p. 71).
O terceiro princípio, citado para elaborarmos uma análise psicossocial de um fenômeno simbólico, traz a emergência um reposicionamento teórico-metodológico do pesquisador frente à escolha do instrumento metodológico, a análise e tratamento dos seus dados. Como a RS trata de uma estrutura simbólica do pensamento coletivo elaborada na fronteira entre o psicológico e o social, um estudo cuja abordagem é psicossociológica pressupõe, nas palavras de Roazzi, Fredericc, Carvalho (1999), considerar não apenas as estruturas e organizações cognitivas nas suas formas de interação e combinação, mas primordialmente o conteúdo e as origens sociais das mesmas. Sendo assim, tentaremos analisar sob essa perspectiva o pensamento dos licenciandos primeiramente sobre seus campos disciplinares específicos “Física” e “Química”, e posteriormente sobre o “Ensinar”.
As questões referenciais a esse desafio foram alicerçadas a partir da compreensão não somente do que e como representam esses objetos, cujos conteúdos possuem um valor socialmente evidente e relevante para seus grupos, pois estão em processos formativos, mas também, por que e para que o representam daquela forma.
3.2 Procedimentos de Análises Multidimensionais: Análise Escalonar Multidimensional