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As inferências que faremos a seguir são no intuito de compreender os signos da gestão da natureza em seus aspectos estéticos, práticos e linguísticos, determinados pelas influências culturais e sociais.

A seção Pictures of World (Imagens do Mundo), do site oficial da Rio+20, utiliza uma ferramenta de inserção de imagens pelo usuário. O objetivo é fazer um apelo para que as pessoas possam compartilhar a foto mais representativa do que desejam para o futuro do mundo:

Ensuring that our future needs can be met, and balancing our consumption with the environmental limits of the planet, is a collective effort that will impact all levels of society. What do you think that will look like? How would your life be different under a new paradigm of sustainability? What aspects of a sustainable lifestyle would you enjoy? Show us in pictures! (RIO+20, 2011, on-line)163

Se o sujeito informacional faz esse esforço de eleger a imagem mais representativa do futuro, no ato de produzir a foto ou buscar uma existente em seu computador, significa que está aberto a pensar sobre essa questão, reage e interage com a gestão da natureza da ONU. A análise dessas imagens foi útil no sentido de mostrar as

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Assegurar que as nossas necessidades futuras possam ser atendidas, equilibrando nosso consumo com os limites ambientais do planeta, é um esforço coletivo que vai impactar todos os níveis da sociedade. O que você acha que vai parecer isso? Como sua vida seria diferente sob um novo paradigma de sustentabilidade? Que aspectos de um estilo de vida sustentável você apreciaria? Mostre-nos em imagens! (Tradução nossa)

RIO+20. Send your photos! 2011. Disponível em: <http://www.rio20.gov.br/clientes/rio20/rio20/about

características mais marcantes de cada filosofia, visualizar suas representações imagéticas, e inferir sobre quais produções de sentido são possíveis. Separamos as imagens de acordo com os três grandes grupos que sustentam a gestão da natureza nessa tese, relacionadas com o predomínio das categorias filosóficas de Peirce.

A maioria dos estudos sobre os signos peircianos se atém à categorização de três tricotomias para o conceito de signo. Como já citado no capítulo terceiro dessa tese, a primeira relaciona o signo consigo mesmo (representâmen), a segunda é conforme a relação do signo com seu objeto e a terceira relaciona o signo com seu interpretante. Essa divisão segue a lógica de percepção dos fenômenos, que vai da possibilidade, passa pelo desempenho (observância dos fatos) e conclui na certeza, hábito ou lei.

Desenvolvendo a divisão triádica da semiótica peirciana, Charles Morris decompôs a tricotomia entre as vertentes sintática, semântica e pragmática da fenomenologia. A sintaxe é do domínio das relações do signo com o representâmen (qualissigno, sinssigno e legisigno), como a gramática pura, ou seja, expande o conceito de apenas um ramo da gramática linguística, É o estudo das “combinações de signos ou das relações sintáticas dos signos entre si” (MORRIS, 1976, p.27-28). Esse sentido ampliado da sintaxe semiótica se refere às relações entre “signos perceptuais, dos signos estéticos, do uso prático dos signos e dos signos linguísticos” (MORRIS, 1976, p.31).

A semântica é determinada pelas relações do signo com seu objeto, ou seja, possui uma lógica própria que parte da semelhança para a relação real e daí para uma lei (ícone, índice, símbolo). Conforme afirma Moris, “trata da relação dos signos com seus designata (os objetos que eles designam) e também com os objetos que eles podem denotar ou realmente denotam” (MORRIS, 1976, p.38). O autor distingue entre semântica puramente teórica e outra descritiva e subdivide outras classes de signos. Já a pragmática é a retórica, a força do efeito de uma palavra, que compreende as relações do signo com o interpretante (rema, discente, argumento). A capacidade de interpretação é algo amplo, intérpretes são todos os seres vivos “de maneira que a pragmática também trata dos aspectos bióticos da semiose, isto é, de todos os fenômenos psicológicos, biológicos e sociológicos que ocorrem no funcionamento dos signos” (MORRIS, 1976, p. 50).

Essa divisão se decompõe em outras, chamada por Peirce de Dez Classes de Signos, considerando outras numerosas subdivisões. São elas:

1ª Qualissigno: necessariamente um ícone, mas não precisamente uma qualidade pura, sim uma qualidade agindo como signo de essência (por exemplo, uma sensação de verde);

2º Sinsigno Icônico: envolve, no seu processo semiótico, o qualissigno, pois uma ou mais qualidades determinam o conceito de um objeto, como um diagrama individual;

3º Sinsigno Indicial Remático: “é todo objeto da experiência direta na medida em que dirige a atenção para um objeto pelo qual sua presença é determinada” (CP 2.256). O exemplo do autor é um grito espontâneo de susto.

4º Sinsigno Discente: é um signo que, no seu processo de semiose, envolve um sinsigno icônico (2º), para objetivar, corporificar a informação, e um sinsigno indicial remático (3º) para indicar o objeto a que se refere a mesma. Por exemplo, o cata-vento, envolve o conceito de vento (mais icônico) e o conceito de direção (para onde o vento sopra), a sintaxe entre os dois promove a significação;

5º Legissigno Icônico: é regido por lei e tem semelhança com aquilo que denota, por exemplo, o diagrama de uma boneca na porta de um banheiro feminino;

6º Legissigno Indicial Remático: um pronome demonstrativo, por exemplo, um modo geral que foi estabelecido, para atrair atenção para este objeto; 7º Legissigno Indicial Discente: é uma lei geral definida para significar a

informação definida, direta sobre esse objeto. Envolve um legissigno icônico representando a informação e um Legissigno Indicial Remático para determinar a matéria da mesma, como uma cartilha de leis para aplicação de multas de trânsito.

8º Símbolo remático ou rema simbólico: evocando o exemplo de um substantivo, Peirce define esse tipo como conectado ao seu objeto “através de uma associação de ideias gerais de tal modo que sua réplica trás à mente uma imagem a qual, devido a certos hábitos, ou disposições dessa mente, tende a produzir um conceito geral” (CP 2.261). Pode ser algo que não existe, como a palavra ‘curupira’, é um ser da floresta amazônica, protetor das matas e perseguidor dos caçadores, que existe apenas na mitologia e na imaginação popular.

9º Símbolo Discente: como uma proposição ordinária, é um signo que se liga ao seu objeto por convenções gerais, mas que realmente ‘afetam’ a natureza da interpretação, por exemplo, se dissermos ‘ele é brasileiro’, ou ‘ele é estrangeiro’ é um fato concreto.

10º Argumento: é um símbolo, um legissigno, através do qual uma premissa se torna verdade. É o argumento base para o pragmatismo peirciano, o qual iremos aprofundar no próximo item.

A partir desse entendimento, podemos classificar as imagens do site da Rio+20 de acordo com o QUADRO 4:

QUADRO 4 – Filosofias da ecologia política relacionadas às categorias fenomenológicas

Ecologia profunda

Imagens de paisagens, parques, flora, fauna, turistas, esporte radical na natureza etc.

Sintática (possibilidade)

Ecologia social

Imagens de pessoas, trabalhos coletivos junto à natureza, manifestações, reuniões, populações etc.

Semântica (desempenho)

Economia verde e Nova

Ecologia

Soluções de tecnologia verde, cidades e imóveis sustentáveis, transporte sem emissão de carbono, vegetarianismo, movimentos pacifistas etc.

Pragmática (lei)

Fonte: Dados da pesquisa

A ecologia profunda (FIG. 39) é marcada por imagens que evocam sensação de natureza externa ao homem: o banco em um parque, para contemplar o verde, a natureza em uma folha de outono. O homem aparece nesse cenário de maneira exterior, ou como o turista que toca a tartaruga (sensação de afeto), ou ainda o aventureiro de esportes radicais, que se conecta com a natureza (sensação de adrenalina). A noção generalista da natureza, como um todo, se manifesta na imagem aérea da floresta, onde o rio serpenteia; a foto do incêndio na mata, refletido na água, evoca a sensação de perigo, a foto do búfalos atravessando o rio é puro instinto, e para terminar, a foto da pesquisadora que vai com o bloquinho ‘anotar’ a natureza, versão moderna dos naturalistas que iam pesquisar com seu olhar científico, desde Darwin e Humboldt.

FIGURA 39 – Fotos classificadas como ecologia profunda

Fonte: UNCSD, 2012, on-line

Evidenciando as relações do signo com seu representâmen, repletos de primeiridade, as imagens do conservacionismo evocam sensações do instinto mais puro da relação do homem com a natureza, o mundo natural, que podem desencadear processos semióticos em diferentes níveis. O banco na natureza pode ser considerado um qualissigno, no sentido de sua presença oferecer a oportunidade da contemplação da sensação do verde. Já a textura da folha, enquanto um diagrama, é um sinsigno icônico, um foco micro na macro-natureza da paisagem. A adrenalina e a euforia sentidas pelo esportista radical,

na tirolesa por sobre a floresta e o mar, é o sinsigno indicial remático, na medida em que dirige a tensão para foco que determina a experiência. Mas o que dá a esse processo a característica de um legissigno é a experiência controlada e prevista, para provocar uma reação sensorial imediata com segurança, como uma lei, pois já se sabe que essa reação será provocada. Ou o fogo na floresta, também um legissigno de destruição e perigo.

As fotos (FIG. 40) classificadas como ecologia social trazem essencialmente pessoas em atividades na natureza e em trabalho coletivo. Têm predomínio da relação do signo com seu objeto: a ação das pessoas para promover sua relação com a natureza.

Sua força está relacionada a fatos desempenhados no campo semântico, ou seja, aos significados que eles denotam ou podem denotar. Se desdobra nos ícones de dominação da natureza: a moça sorrindo ao segurar o peixe enorme ou a doçura do olhar da criança que domina o pássaro em seu ombro, ou é o pássaro que encanta a criança?

FIGURA 40 – Fotos classificadas como ecologia social

Enquanto índices, as fotos (FIG. 41) das mãos unidas em torno do tronco significa união entre as pessoas, assim como a foto de preparar junto um alimento, são signos que se preparam para se fortalecer na terceiridade, em uma associação geral de ideias. E tanto o trabalho de artesanato em madeira quanto a manifestação teatral na rua, enquanto expressões culturais, são símbolos conectados ao seu objeto porque causam um efeito na mente interpretadora de uma coletividade que os antecede. São determinados por convenção e dependem do fluxo contínuo de informações advindas das experiências colaterais para terem força pragmática.

FIGURA 41 – Fotos classificadas como economia verde e nova ecologia

Os símbolos são signos que têm predomínio de sua relação com o interpretante, já fortalecidos enquanto lei. Nos processos de semiose, são os signos bem sucedidos em formar crenças. A foto da indicação para separação de lixo reciclado é um legissigno icônico. A imagem das crianças atrás do planeta terra apontando para você evoca uma associação de ideias gerais (as crianças = futuro + planeta) que tende a produzir o efeito real de comunicar que cada um é responsável, o símbolo remático.

O mural com a miniatura de todas as fotos dos usuários como textura de fundo para a logomarca oficial da conferência da Rio+20 é um símbolo discente, reforça dizer que a natureza do evento abarca todas as diferenças culturais, afinal a ONU é o órgão global de gestão da natureza por excelência. Essa logomarca tem seu potencial simbólico reforçado pelas inúmeras imagens de grupos posando ao lado do painel na abertura do evento, felizes em frente ao slogan The future we want.

A logomarca Rio+Veg apresenta a união de dois símbolos, o da conservação da natureza aliado à filosofia vegana, um comportamento cada vez mais comum, influenciado pela associação desses dois argumentos. São os signos que surgem quando não há mais conflito, os processos pragmáticos alcançam o hábito, que é a força para manter um comportamento social. Beiram a ser inquestionáveis, como as imagens de andar de bicicleta, construções ecológicas e captação de energia solar e eólica, outras imagens memes nessa plataforma.

Embora a lista de fotos conste 1.206 imagens em 7 páginas, nota-se que muitas imagens são repetidas e, subtraindo essas, chegamos a um total de 711 imagens, que classificamos em quatro álbuns na plataforma do Flickr: ecologia social, com 241 fotos, economia verde, com 93; ecologia profunda, 275; e nova ecologia 96 fotos, o que pode significar uma manipulação dos resultados, de fazer parecer mais participação do que tem na verdade.

5.3.8 O conflito da formatação dos dispositivos na formação da identidade dos