5. Case study Langenuen
5.2 Main cable
Alguns sites ou grupos de sites funcionam para ligar nós, clusters e subclusters, e assim estabelecer vias de informação para a gestão da natureza. Serão descritos em
destaque as pontes feitas pelo Greenpeace, Lou Gold e Altino Machado, WWF e pelos clusters menores E e F.
O site da ONG Greenpeace, classificada como nova ecologia, faz uma ponte importante entre todos os subclusters do cluster A, localizada no centro desse cluster. Exatamente como é definida a nova ecologia no capítulo dois dessa tese, trabalha pelo desarmamento e paz, pelo consumo consciente, em defesa dos oceanos e das florestas, pelo fim da energia nuclear e pela agricultura sustentável. Foi fundada em 1972 por um grupo de amigos hippies:
A bordo de um velho barco de pesca chamado Phyllis Cormack, os ativistas queriam impedir que os Estados Unidos levassem a cabo testes nucleares em uma pequena ilha chamada Amchitka, na costa ocidental do Alasca. Para levar adiante tal empreitada, o grupo tentou arrecadar fundos com a venda de broches. Verde (Green) e Paz (Peace) eram as palavras de ordem, mas não cabiam separadas no broche. Nascia assim o nome Greenpeace. (GREENPEACE, 2010,on-line)119
Seus discursos incluem também a economia verde (geração de energia sustentável, biosoluções etc.). Em relação ao fortalecimento da identidade da ONG e do seu regime de informação, a estratégia do Greenpeace é alimentar simultaneamente 55 sites separados (FIG.25), hospedados no mesmo domínio, com o mesmo design e organização da informação, mas com conteúdos que diferem de acordo com o território. Fundamentalmente, a história que agrega identidade para unir os adeptos é uma velha profecia indígena e se intitulam os guerreiros do arco-íris:
Um dia a terra vai adoecer. Os pássaros cairão do céu, os mares vão escurecer e os peixes aparecerão mortos nas correntezas dos rios. Quando esse dia chegar, os índios perderão o seu espírito. Mas vão recuperá-lo para ensinar ao homem branco a reverência pela sagrada terra. Aí, então, todas as raças vão se unir sob o símbolo do arco-íris para terminar com a destruição. Será o tempo dos Guerreiros do Arco- Íris. (GREENPEACE, 2010,on-line)
Guerreiros do arco-íris não têm um território específico, qualquer nacionalidade pode aderir à identidade simbólica transcendental. Essa identidade, de guerreiro, é reforçada em processos de semiose nos quais as campanhas internacionais ganham uma versão local.
119
GREENPEACE. O surgimento do Greenpeace. 2010. Disponível em:
FIGURA 25 – Sites do Greenpeace, em diferentes idiomas
Telas do site do Greenpeace em outros idiomas. Fonte: GREENPEACE120
Em 2011 o Greenpeace arrecadou 240 milhões de euros de doações no mundo inteiro, sendo que somente no Brasil foram gastos mais de 15 milhões de reais no mesmo ano, divididos entre informação pública e difusão, campanhas, pesquisa de campo, organizacional e relacionamento com colaboradores.
Todas essas informações denotam transparência e fortalecem a crença em torno do trabalho do Greenpeace nos processos de convencimento para a doação. Valores e números de arrecadações são dados muito valorizados nas arquiteturas de informação, não somente dos sites de quem paga como também nos de quem recebe, como signo de legitimação mútua.
120
GREENPEACE International. 2012. Disponível em: <http://www.greenpeace.org/international/en/>. Acesso em: 21 abr. 2012.
Essa receita possibilita, entre muitas outras ações, que ativistas façam vídeos em lanchas indo ao encontro a barcos que matam baleias no Japão (no caso do Greenpeace). A narração do sujeito que sai em aventura, a sensação de risco que ele transmite ao sujeito informacional, o perigo, o confronto, o sangue vermelho das baleias, o vento no cabelo, o alto mar, são signos cujos objetos colaboram para a formação da crença: alguém está indo à luta contra as injustiças ambientais. Então o processo de semiose se completa na terceiridade, quando o usuário faz a doação, motivado por uma sensibilização publicitária. Doar dinheiro, enquanto ação, é um tipo de processo de semiose onde a aceitação da crença atingiu o lado financeiro, é a aceitação que motiva colaborar com a luta. Isso se justifica pela existência de uma batalha onde guerreiros do arco-íris precisam salvar a terra. Pagar gera conforto espiritual, significa se alistar em uma guerra necessária, mas sem os constrangimentos físicos do combate militar.
Voltando ao papel dos actantes pontes, dois destaques são Lou Gold e Altino Machado, que fazem a conexão de C e A. Ambos moradores do Acre, Machado é jornalista, uma das mais articuladas fontes de informação da Amazônia:
O weblog do Altino Machado é o veículo de comunicação mais temido e bem informado do estado. Quando o governador quer que alguma notícia repercuta além da imprensa oficial, é para Altino que ele liga, apesar de eventualmente levar uma cutucada de seu blog. (informação verbal)121
Segundo o contador disponível na barra lateral, mais de dois milhões de pessoas visitaram seu espaço desde 2004, que não tem registro no PageRank nem no Alexa. Tem 816 seguidores. Embora seja comprovadamente uma via de informação entre A e C, como nos outros blogs citados de a1, a organização da informação é confusa. Mistura relatos pessoais com posts de política e ambientalismo.
Lou Gold é autor do photoblog Visionshare, criado em 2007. Professor de ambientalismo nos Estados Unidos, 73 anos, resolveu viver a aposentadoria no Acre, na fronteira do Brasil com o Peru. Lou é personagem de artigos publicados no blog ambientalista do jornal New York Times, o Dot Earth.
Ele mista mensagens religiosas e xamânicas, plenas de signos da magia da floresta amazônica, com denúncias do desmatamento pelas construções de estrada no Acre e Peru, reportagens sobre política internacional e direitos dos povos indígenas.
Os padrões informacionais encontrados nos dois (florestas, magia, jornalismo ativista) os colocam à margem dos clusters onde estão mais próximos (Lou está na fronteira de C e Altino na fronteira de A).
121
Comentário de André Vieira (Rolling Stone) no blog de Altino Machado. Disponível em: <http://altino.blogspot.fr/>. Acesso em: 20 dez. 2012.
O site do WWF não se encaixa nem no cluster de economia verde nem no de ecologia social. Classificado como ecologia profunda, faz uma importante ponte de entre os clusters A e B.
O WWF possui uma rede de mais de cem sites diferenciados, com domínios diferentes, adaptados à localidade, que representam seus ambientes virtuais com signos do território e cultura de cada país, ao contrário de outros sites de ONGs transnacionais, como Greenpeace, que produz sites em idiomas diferentes, mas com mesmo domínio (por exemplo, o ‘greenpeace.org/país’) e mesmos conteúdos. Representado por mais de cem nós (trabalha em mais de cem países e faz um site personalizado para cada), o WWF provocava uma desarmonia enorme no desenho (GRAF.20), pois criava um quarto grande cluster que atrapalhava visualizar a complexidade da rede.
Assim, optamos por utilizar a ferramenta de mesclar atores, do Gephi, e todos os nós do WWF foram unidos em um só. Outras ferramentas do Gephi foram utilizadas para dar um formato mais inteligível na rede, como o Forced Atlas 2 e a aplicação de variação de tamanho para os sites mais referenciados. A imagem abaixo ilustra a rede em abril de 2012, quando ela ainda não tinha sido lapidada por essas ferramentas e nem haviam sido
GRÁFICO 20 – Rede apreendida em abril de 2012
Fonte: Dados da pesquisa
O WWF é um actante representativo das características da gestão da natureza pela Ecologia Profunda. Desde 1961 sua “missão é construir um futuro em que as pessoas vivam em harmonia com a natureza”122. Alegam que o bem-estar das pessoas, vida selvagem e meio ambiente estão intimamente ligados. Tem o suporte de 5 milhões de pessoas, doadores pessoas físicas e jurídicas e tem mais de cinco mil funcionários no mundo todo.
Sua especialização é a gestão de áreas de conservação, turismo para pessoas de elite e o lobby para governos declararem mais áreas protegidas. No site há reportagens sobre intervenções militares (FIG.26) nos parques, que reportam que o presidente do Camarões enviou tropas para combater assassinos de elefantes, a pedido da WWF, dentro de áreas protegidas.
FIGURA 26 – Site do WWF
Fonte: WWF, on-line
Em destaque no site do WWF internacional tem o banner Kill the trade that kill the Tiger (Mate o comércio que mata o tigre), onde Take action now significa basicamente curtir a página no Facebook e enviar emails para os governantes até doar para a instituição. A WWF possui mais de 1300 projetos, desde salvar os orangotangos, pandas (sua logomarca), elefantes, tartarugas marinhas e tigres; seus princípios políticos são independentes e não partidários; disponibilizam listas de espécies ameaçadas e relatório anuais; pedem doação e engajamentos principalmente relacionados a mudança de hábitos cotidianos, alimentação e uso de energia. Nas campanhas publicitárias, por exemplo, adote um rinoceronte, você paga uma taxa mensal e recebe um kit de rinoceronte de pelúcia e cartões com imagens do animal. Pauta cenários internacionais do meio ambiente, desde o anúncio de um grupo de tartarugas marinhas identificados às questões opinativas sobre política. O usuário pode financiar a ONG com quantias pequenas ou se tornar doador do grupo de doadores principais ao fundo Trust Nature, com direito a viagens internacionais pelos parques de conservação e ‘observações de campo’.
As viagens dos grupos de elite aos parques são apresentadas no discurso da ONG como importantes para sensibilização dos doadores sobre a importância das áreas protegidas. Por outro lado, em um processo de semiose inverso, se eles pagam se sentem ‘donos’ (embora não proprietários), ou seja, têm acesso ao que não é permitido às populações nativas.
O regime informacional da ecologia profunda, representado pelo WWF, faz essa ponte importante entre os clusters A e B e representa uma aproximação entre esses discursos. Embora com predominância de uma abordagem principalmente conservacionista, o WWF incorpora também os conceitos da economia verde e transfere essa informação ao cluster da ecologia social. Porém, o contrário não foi verificado.
A partir do site do Conselho Maior da Mudança Climática da ONU, o WWF estabelece uma ligação curiosa com o pequeno cluster F de desmilitarização, composto, entre outras, pela No to Nato123, uma rede de mais de 650 organizações, em 30 países, que promovem o desarmamento. Nato Free Future124, outro actante, promove eventos pela paz. O Nation Of Change125, site de jornalismo para a ação positiva progressiva, é ligado ao movimento de Occupy Wall Street, que produz informação contra o sistema capitalista, que segundo eles, causa a crise mundial. Isso comprova a função da ponte do WWF, que além de ligar os clusters A e B, possui também conexão com comunidades anti-violência, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, patrocina a vigília militar dos parques naturais na África.
O actante-ego dessa pequena comunidade é a ONG Desmilitarize, que promove o Dia Mundial da Ação contra o gasto militar e conseguiu arrecadar, só em 2011, 1,74 trilhões de dólares para investir em ação humanitária. Na seção ‘Encontre um evento perto de você’, são anunciados mais de 140 eventos em 41 países. Na Rio+20, participou da manifestação organizada pela Cúpula dos Povos e desfilou um tanque falso coberto de pão (FIG. 27). Uma manifestação predominantemente de caráter da nova ecologia.
FIGURA 27 – Protesto na Rio+20
Fonte: Dados da pesquisa
123 Disponível em: <www.no-to-nato.org>. Acesso em: 13 dez. 2012. 124
Disponível em: <www.natofreefuture.org>. Acesso em: 13 dez. 2012.
Mas, a ponte mais importante, que faz a conexão entre A, B e C é a revista Nature, uma das publicações científicas mais antigas do mundo (desde 1869). Classificada como ecologia profunda, especialmente, porque a maioria dos seus artigos científicos são pelo aquecimento causado pelo homem, tem relação semântica com a ‘economia verde’, termo corrente em muitos artigos. Entre as palavras relacionadas ao aquecimento global em artigos publicados, estão mitigação e ativismo ambiental126.
A palavra mitigação provavelmente é o termo que mais une economia verde e ecologia profunda. É tema constante de congressos e eventos sobre aquecimento global, como no congresso da IUCN, actante central do pequeno cluster D, que liga B e C. O site do congresso da IUCN, pelos assuntos abordados, foi classificado como economia verde. Ocupa um papel central na rede. Já o site da IUCN, oficial, foi classificado como ecologia profunda e está em uma posição marginal na rede, abaixo e à esquerda do cluster da Economia Verde.
Outro site que promove a conexão entre os clusters C e B é o Effects de Terre, do jornalista francês Denis Delbecq, classificado como ecologia profunda, ator chave do cluster M. Sua importância se deve à localização chave, de fazer uma ponte entre os clusters de ecologia social e economia verde. O site é uma versão independente do blog que Delbecq animou entre 2005 e 2007 no jornal francês Libération sobre mudanças climáticas e ambientalismo. Atualmente ele escreve artigos para vários jornais da imprensa francesa e estrangeira, como autônomo.
Quando saiu do Libération, em 2007, Delbecq criou seu próprio site: “tive propostas de outros jornais para hospedar o blog”, ele disse, “mas me coloquei a questão, finalmente, será que meu interesse e minha força não eram a minha independência?” Ele pensa que isso, de não pertencer a uma empresa, é importante para continuar sendo fonte confiável de outros jornalistas especialistas.
Após cinco anos escrevendo sobre o mesmo sujeito, mudança climática e ambientalismo (o que comprova uma via informacional firme, habituada a transferir esses tipos de informação que dão consistência ao regime da Ecologia Profunda), ele diz perceber que há menos interesse do público no debate. “Quando há catástrofes, as pessoas se interessam mais”. O desastre de Fukushima, por exemplo, “embora não seja uma catástrofe sanitária”, levanta a questão sobre energia nuclear na França, o que evidencia a formação de um processo de semiose. Ele conta que, quando ocorre uma catástrofe, os jornais
126
Disponível em: <http://www.nature.com/nclimate/journal/v2/n8/full/nclimate1532.html>. Acesso em: 3 ago. 2012.
querem comprar mais matérias sobre ciência do que sobre ambientalismo, “90% aposta em uma cobertura de ciência e 10% de ambientalismo”, disse ele. Mas ele reage contra isso, diz defender a imparcialidade e tenta fugir do catastrofismo:
Meu site tem uma particularidade, primeiro, que é um blog de jornalista, mesmo me dando a liberdade de dizer o que eu sinto. Eu tento ser imparcial, eu penso que ninguém pode dizer, pelos meus artigos, se eu sou contra ou a favor do nuclear, eu tento explicar as coisas, relativizar as coisas, mostrar todos os lados. (informação verbal)127
Ele diz que Fukushima não ameaça a credibilidade de indústrias nucleares francesas (que são mais de 50 a vender energia para a Europa).