• No results found

Anskaffe kapabiliteter gjennom oppkjøp

2.3 Teorier om disrupsjon

2.3.10 Anskaffe kapabiliteter gjennom oppkjøp

O trabalho doutoral de Rodrigues (2006) contempla análise de práticas e de necessidades de formação, cuja gênese, explicada à introdução do trabalho, é possível desta maneira defini-la:

A gênese do presente estudo insere-se nas coordenadas da nossa actividade profissional que ao longo de duas décadas ligada à formação de professores, nos foi fortalecendo a convicção de que o conhecimento das necessidades de formação dos professores permitia melhorar não só as práticas de formação,

56

mas, sobretudo, os efeitos destas sobre as práticas dos professores. (RODRIGUES, 2006, p. 9).

A autora situa-nos em relação ao contexto em que este estudo se deu, fazendo destaque para as formas como as análises de necessidade têm acontecido. Ela diz logo no início do seu texto:

A análise de necessidades de formação tem vindo emergir do debate que a formação contínua de professores suscita, como um tema recorrente, quer sob a forma de uma crítica – “a formação não se ajustou ou não corresponde às necessidades dos formandos”, quer sob a forma de uma recomendação projectiva – “deverão ser tidas em contas as necessidades dos formandos”. (RODRIGUES, 2006, p.10, grifos da autora).

A propósito do seu interesse pela realização deste estudo, a autora informa-nos ainda, dizendo ou pontuando da seguinte forma:

[...] sublinhamos que o nosso interesse não se dirige, pois, a desvendar um objeto com existência independente do sujeito que o observa ou percebe, mas a conhecer metodologias capazes de apreender um fenômeno que é socialmente construído e orientado para finalidades – as necessidades de formação. (RODRIGUES, 2006, p. 13).

Compreendemos que aqui a autora já delineia um conceito do que é/são necessidade(s), quando expressa o seu objetivo, que é, na verdade, “conhecer metodologias capazes de apreender um fenômeno que é socialmente construído e orientado para finalidades”, e ao explicitar esse fenômeno, caracteriza-o ou destaca-o como “as necessidades de formação”.

Vieira (2010) faz o seu trabalho de pesquisa doutoral, orientando-se por Rodrigues (2006), e vivencia nessa pesquisa a metodologia da investigação-ação sobre necessidades de formação de professores do ensino fundamental de uma escola municipal de Ceará- Mirim/RN. A autora tem como objetivos investigar necessidades de formação de professores do Ensino Fundamental da escola pública acerca dos conhecimentos subjacentes ao desenvolvimento de uma prática pedagógica de ‘alfabetização na perspectiva do letramento’ e (re)construir, com os professores participantes da pesquisa, conhecimentos relativos ao processo de ‘alfabetizar letrando’, a partir de suas necessidades.

Conhecer os trabalhos de Rodrigues (2006) e Vieira (2010) permite-nos adentrar nessa compreensão do conceito de necessidade, porque elas o discutem pelo estudo dos mecanismos da construção das necessidades. Rodrigues (2006) diz tê-lo feito assim: “[...] questionando o

seu estatuto ontológico, bem como as perspectivas epistemológicas e metodológicas que a investigação objectivista e a investigação interpretativa têm proporcionado.” (p. 14). Estes trabalhos ampliam a discussão em torno desse tema, por revelarem a reflexão das autoras sobre formação contínua de professores, quando destacam algumas das problemáticas e perspectivas que convergem para a conceptualização dos objetos de estudos. As partes finais dessas obras documentam as práticas de análise de necessidades de formação, conforme ressaltam Rodrigues (2006) e Vieira (2010):

Na sua essência é constituído por um trabalho de análise e reflexão sobre práticas de análise de necessidades de formação realizadas no âmbito da formação de professores, pelo estudo dos mecanismos da construção das necessidades, interrogando o seu estatuto ontológico, bem como pela discussão do estatuto epistemológico e metodológico da sua identificação e análise. (RODRIGUES, 2006, p. 12).

Por sua vez, Vieira (2010) diz que o seu estudo se caracteriza, como descreve abaixo:

O nosso estudo se inscreve na lógica de formação pela investigação, a partir da reflexão da prática dos professores e o seu eixo principal é o estudo das necessidades de formação de professores alfabetizadores, construídas e conscientizadas no decorrer desse processo formativo. Desse modo, a análise das necessidades torna-se parte integrante da formação, sendo o formando compreendido, não como mero objeto da formação, mas como um sujeito que tem um lugar privilegiado nesta. (VIEIRA, 2010, p. 27).

As autoras explicitam em seus trabalhos a ambiguidade do conceito de necessidade e o discutem atrelado ao de formação, por isso a expressão: necessidades de formação. Rodrigues (2006) reserva uma parte de sua pesquisa a essa discussão, fazendo-nos compreender o estatuto ontológico desse conceito, isto é, a sua natureza como fenômeno socialmente construído, articulando-o a outro fenômeno que é o da formação contínua. Depois de uma discussão sobre a variedade de definições de necessidade ou de diferentes concepções sobre a abordagem desse conceito, a autora diz partilhar com Barbier e Lesne (1986), Rousson e Boudineau (1981), Bourgeois, (1991) entre outros, o seguinte postulado teórico:

[...] não é possível constatar necessidades objectivas, isto é, necessidades ontologicamente objectivas, dependendo estas dos sujeitos, grupos ou sistemas que as percebem e do contexto onde emergem, dos agentes sociais que as recolhem e detectam (ou colaboram na detecção) e dos respectivos valores e objetivos de referência. (RODRIGUES, 2006, p. 97).

58

A partir dessa posição, a autora passa a detalhar sua concepção de necessidade, explicando o referido estatuto desse conceito, conforme nos referimos anteriormente. Ela argumenta:

A necessidade não é algo que esteja disponível sob uma forma objectivável, pronta para ser identificada ou analisada. Não é uma entidade autónoma que possa ser inventariada, numerada e contada como se tem querido muitas vezes.

[...] A necessidade não tem existência objectiva fora dos limites já apontados – sujeitos, contexto, agentes de detecção e valores e objetivos de referência. É contingente, é sempre uma necessidade de e uma necessidade para alguém. Ou seja, toda necessidade é finalizada (ou funcional) e situada. Neste sentido a identificação de necessidades é um processo que, mais do que antecede a formação, deveria acompanhar o exercício do trabalho docente, território por excelência da sua emergência. (RODRIGUES, 2006, p.97).

A autora sumariza, provisoriamente, sua argumentação, dizendo:

É, portanto, uma entidade relativa, socialmente construída, refere-se a padrões socialmente formados, que podem parecer inquestionáveis, mas que, enquanto produção humana, estão sujeitos à história, sendo mutáveis e irrepetíveis, o que não significa que seja necessariamente apenas uma realidade subjectiva. Mas, a necessidade é também uma construção mental do indivíduo e, por isso, é uma entidade subjectiva.

[...] As necessidades não estão inscritas na natureza das coisas, são representações da realidade produzidas aqui e agora, em determinado contexto, por determinado sujeito. (RODRIGUES, 2006, p. 97).

Rodrigues (2006) prossegue sua argumentação, agora, para precisar mais sua concepção de necessidades de formação. Ressalta que “todas as necessidades são, pois, relativas, reportando-se aos valores ou normas existentes num dado contexto, podendo, contudo, impor-se em diferentes graus à consciência.” (p. 98). Afirma, porém, que alguns autores reforçam esse ponto de vista, quando salientam a relação entre necessidades percebidas e expressas e os fenômenos de moda e de cultura que as induzem e, ainda, quando falam de necessidades autênticas para diferenciá-las das induzidas. Para a autora esta linha de raciocínio não pode ser seguida, o que ela justifica com o seguinte argumento:

[...] todas as necessidades de formação são induzidas – pela situação de trabalho, pela divulgação de teorias pedagógicas, pela introdução de práticas inovadoras, pela “oferta” de formação, etc. – não sendo menos autênticas, menos mobilizadoras da vontade de serem satisfeitas do que outras. O sistema que as faz emergir é que pode ou não estar interessado em satisfazê- las. (RODRIGUES, 2006, p. 98).

Outros importantes argumentos da autora caracterizam as necessidades de formação, por isso nós os destacamos em razão da relação com o nosso objeto de estudo:

As necessidades de formação são ainda entidades dinâmicas, não têm existência estável nem duradoura; têm um tempo vivido que as determina e uma vez satisfeitas desaparecem dando ou não lugar a outra necessidade. [...] No âmbito da formação profissional contínua de professores continuamos a saber e a sentir que há necessidades, que há “coisas” que nos fazem falta, de que precisamos, que gostaríamos de ter, ou que, se fossem possuídas, contribuiriam para a resolução de alguns problemas profissionais, ainda que o grau dessa necessidade e a sua força impositiva possam variar muito. (RODRIGUES, 2006, p. 104).

A autora faz uma revisão dos distintos paradigmas sobre necessidade de formação, para mostrar as crenças básicas de cada um e por em evidência o seu posicionamento epistemológico em relação à necessidade de formação. Ela concebe necessidade de formação segundo pressupostos que filia ao construtivismo. Assume, em seguida, que continuará a utilizar a palavra necessidade para: “[...] designar o que faz falta, ou mais precisamente o que é percebido pelos actores como fazendo falta retirando-lhe qualquer sentido determinista, sublinhando a sua percepção individual e contextualizada, e incluindo desejos e expectativas.” (RODRIGUES, 2006, p.104).

Esta autora argumenta ainda a propósito da necessidade de formação contínua, para ensejar a ênfase na formação. Vejamos:

No âmbito da formação profissional contínua de professores a necessidade de formação é o que, sendo percebido como fazendo falta para o exercício profissional, é percebido como podendo ser obtido a partir de um processo de formação, qualquer que seja o seu formato e modalidade. Como vem sendo afirmado ao longo deste trabalho, as necessidade de formação não só são dependentes de valores como são construídas em situação (de trabalho, de investigação, de formação, de experiência de vida ...). (RODRIGUES, 2006, p. 104).

Rodrigues (2006) argumenta sobre o significado da expressão análise de necessidades. Destacamos um dos seus principais argumentos:

Trata-se da recolha de representações dos sujeitos sobre o que faz falta e pode ser obtido por via da formação. Isto é, trata-se da recolha da forma particular e pessoal de pensar na transformação do quotidiano profissional ou na resolução de um dado problema desse mesmo quotidiano, por meio de uma estratégia específica, a formação. (RODRIGUES, 2006, p. 104).

60

Vieira (2010), no seu trabalho doutoral de investigação-ação, refletiu sobre esse conceito e expressões a ele relacionadas para a compreensão de necessidades de formação de professores do ensino fundamental, conforme dissemos anteriormente. Ela interpreta as concepções de Rodrigues (2006) e outros autores sobre necessidade, necessidades de formação e análise de necessidades de formação, e aplica-as para vivenciar um intenso ciclo de formação dos professores que voluntariamente aderiram à sua pesquisa. Vieira (2010) ratifica os pontos de vista de Rodrigues (2006) e traz-nos uma importante contribuição epistemológica para os estudos nessa área.

Vieira (2010) se reporta à definição usual de necessidade, para mostrar o seu caráter polissêmico, e destaca que, por essa razão, tal definição é sujeita a várias interpretações, conforme Rodrigues e Esteves (1993). Afirma que “esta palavra é usada para definir fenômenos diferentes, tais como: desejo, vontade, aspiração, querer ter alguma ou alguma exigência ou carência.” Para a autora, a necessidade se caracteriza conforme os termos abaixo:

A necessidade tem existência no sujeito que a sente e é fonte de motivações para desenvolver determinados tipos de atividades. Não existem necessidades absolutas, todas as necessidades são relativas face aos sujeitos, aos contextos culturais em que ocorrem e aos referenciais de que dependem. (VIEIRA, 2010, p. 57).

Dos seus fundamentos em Leontiev (1973; 1988), Vieira (2010) expressa a compreensão que tem do conceito de atividade e da relação deste com o de necessidade. Ela afirma:

Podemos compreender que o conceito de atividade contém elementos definidores da estrutura psicológica dos sujeitos e apresenta os seguintes componentes: necessidade – motivo - finalidade – condições para obter a

finalidade (a unidade da finalidade e das condições que conformam a

tarefa). A necessidade é um fator desencadeador da atividade; ela motiva o sujeito a ter objetivos e a realizar ações para supri-la. (VIEIRA, 2010, p. 60, grifos da autora).

Esta autora faz outras abstrações do pensamento do referido autor, e as aponta, ressaltando que “o ensino e a aprendizagem se constituem em atividades encharcadas de necessidade sociais e individuais. As necessidades representam o sentido da aprendizagem. Se o sujeito não tiver uma necessidade para aprender, essa aprendizagem não acontecerá.” E acrescenta:

[...] o processo de construção de conhecimento é mediatizado pela cultura e os saberes e instrumentos cognitivos se constituem nas relações intersubjetivas, sua apropriação implica a interação com os outros já portadores desses saberes e instrumentos. Em razão disso, é que a motivação e o ensino se constituem formas universais e necessárias do desenvolvimento mental, em cujo processo se ligam os fatores socioculturais e as condições internas dos indivíduos. (VIEIRA, 2010, p. 60, grifos da autora).

Deste modo, a autora destaca a importância da motivação do sujeito, no que diz respeito à sua relação com os outros sujeitos, no ambiente do qual faz parte, e ratifica o seu raciocínio, com o argumento: “[...] é possível dizer que as necessidades para realizar determinada tarefa nascem de um motivo desencadeado numa relação social específica.” (VIEIRA, 2010, p. 62).

Da reflexão nos autores citados, expressamos nossa compreensão sobre necessidade e necessidade de formação, nos seguintes termos: percebemos a necessidade como um fenômeno que se constrói na relação com a atividade, relação esta que tem origem no tempo e lugar da atividade profissional, isto é, no contexto dessa atividade, portanto subjetiva e social. Se a necessidade diz respeito ao objeto da atividade profissional, ela pode significar, da parte do sujeito, uma dificuldade, uma carência de alguma ordem, ou caracterizar-se como algo (processo psicológico) que precisa ser complementado, reelaborado nas ações que estruturam essa atividade. Desta forma, temos, pois, necessidade de formação.

Pressupomos que essa construção se faz ou se dá quando o sujeito fala de sua prática, enquanto ele pratica ou faz essa prática acontecer e produz representações da realidade na qual se insere, ou quando produz material para subsidiar essa prática, ou seja, no discurso que o sujeito elabora no exercício de sua atividade. Este nosso pressuposto está fundamentado na concepção de linguagem, como elemento básico da Pedagogia da Alfabetização, conforme vimos em Campelo (2001) que caracteriza esse fenômeno com base em Bakhtin (1986). Ela explica:

Como elemento básico da Pedagogia da Alfabetização, a linguagem do professor e dos alunos, na sua forma e conteúdo (instâncias indissociáveis) sofre determinações sociais muito profundas que estão para além das aparências. Dentre tais determinações, destacam-se: o “auditório social” – compreendido pela situação social imediata da relação professor-aluno e o

“horizonte social” – definido pelo contexto mais amplo ou condições de vida da comunidade lingüística do professor e dos alunos envolvidos no aprendizado escolar. (CAMPELO, 2001, p. 81, grifos da autora).

62

Compreendemos, desta forma, as relações de interdependência e as transformações/determinações sociais pelas quais os elementos da referida atividade passam. Se o sujeito não distingue esses elementos nem as relações entre eles, é provável que não tenha consciência de sua necessidade, condição de sua atividade. Diríamos que perceber essa relação de interdependência permite a construção referida anteriormente, ainda que o sujeito possa expressá-la no seu discurso como uma carência, o que faz falta, ou como algo complementar à sua atividade, de forma pouco precisa.

Vimos nesses autores que a sala de aula é o território propício para a manifestação das necessidades de formação, porque é aí que o professor desenvolve as interações verbais com os seus alunos. O seu discurso comporta o saber ou o conhecimento que quer ensinar. Fazendo nossas as palavras de Rodrigues (2006), afirmamos que as necessidades de formação emergem ou são construídas, sobretudo, em situação de trabalho, de investigação, de formação, de experiência de vida. Acreditamos nestas possibilidades.

Fica patente nessa revisão teórica com base, sobretudo, em Rodrigues (2006), a crítica que ela faz às abordagens que asseguram a existência objetiva da necessidade e às formas objetivas de identificá-las. A autora combate essas abordagens, conforme a ela mesma assume, pela crítica fundamentada no conhecimento conscientemente procurado e metodologicamente controlado. Ela julga oportuno afirmar a pertinência da análise de necessidades para a tomada de decisões em educação. (RODRIGUES, 2006, p. 115).

Percebemos que essa concepção de necessidade como fenômeno que se constrói nas situações mencionadas está orientada por fundamentos construtivistas, quando as autoras citadas assumem que é no ato discursivo que esse objeto manifesta-se/constrói-se ou ganha uma identidade própria. Com esta percepção, destacamos abaixo o que afirma Rodrigues (2006) sobre necessidade, baseada em Bourgeois (1991), e que Vieira (2010) ratifica em seu trabalho, quando salienta o modo, o meio, o lugar e o tempo da construção – o próprio discurso:

[...] a necessidade não se esconde atrás do discurso, mas constrói-se no próprio discurso, donde o objecto da análise é o próprio discurso, a expressão da necessidade, e o objectivo da mesma é “reconstruir (compreender), com o sujeito, o sentido que atravessa o discurso na sua singularidade hic et nunc”. (RODRIGUES, 2006, p. 97).

Comungamos com as autoras o conceito de discurso, objetivado nessas pesquisas sobre necessidades de formação: “a expressão da necessidade”. Como dissemos, quando o sujeito fala de sua prática, ou, mesmo no exercício de sua atividade profissional, na

elaboração de materiais e/ou documentos para subsidiar essa prática, ele expressa/enuncia tanto o conhecimento construído/acumulado para compreender o objeto de sua atividade, como pode expressar/verbalizar ou revelar a necessidade de alguma ordem em relação a esse mesmo objeto (de sua atividade): seja a necessidade de atualização ou reelaboração dos conhecimentos teórico-práticos, seja de aprofundamento desses conhecimentos que fundamentam sua atividade, por exemplo.