Muitos têm depositado esperanças de que tanto o setor administrativo quanto o de serviços hão de absorver maciçamente os trabalhadores dispensados dos meios industriais, todavia, subestimam o fato de que tanto as novas tecnologias quanto a reengenharia têm conseguido espaços significativos nestes dois nichos. Assim sendo, podemos compreender tratar-se a crise de empregos, uma crise de enormes proporções, a qual não pode ser contida por meras fronteiras. Trata-se de um processo aparentemente irreversível de mudança nas relações econômicas e sociais do mundo que nos cerca.
Em contraste, porém, Castells (2001) afirma ser o setor de serviços, líder no crescimento de emprego, o grande responsável por absorver o excedente da indústria em declínio. Da mesma forma, Antunes e Alves (2004) consideram o setor de serviços como em franca expansão, incorporando os alijados do mundo produtivo. No entanto, Niskier (2006c) diz que, paralelamente ao aumento da absorção de profissionais por parte do setor de serviços, também tem sido expressivo o aumento de oportunidades nas áreas envolvidas com tecnologias e globalização, as quais exigem constante requalificação mediante o advento da educação continuada e da flexibilização dos recursos humanos.
Rifkin (2004) assinala que, inicialmente, a mão-de-obra dispensada por conta do advento das máquinas era incorporada pelas áreas ainda não informatizadas. Hoje, no entanto, a realidade é diferente, haja vista o fato das novas tecnologias estarem tomando espaço em quase todas as áreas da vida. Isso faz com que os setores tradicionalmente receptores de mão- de-obra excedente de outros setores acabem por também dispensar grandes quantitativos de trabalhadores de seus quadros, gerando, assim, grande impacto na inserção de jovens no mercado de trabalho.
Até mesmo o setor agrícola tem sido afetado pelo advento das novas tecnologias. São tecnologias para o preparo da semente e do solo, para o plantio e para a colheita. São técnicas de manipulação genética que modificam as características da semente e do animal, proporcionando maior qualidade ao produto e menos riscos de pragas. São estudos para viabilização de plantio em ambientes fechados.
Pode-se afirmar, categoricamente, que todas as áreas de atuação dos trabalhadores manuais serão afetadas, acarretando menor quantidade de empregos. Castells (2001) destaca o crescente declínio do setor agrícola como uma tendência mundial, tanto nos EUA quanto no Japão.
De que forma poder-se-ia solucionar o problema crônico do desemprego? A premissa básica é de que, à medida que desaparece o emprego no meio industrial, surgem oportunidades de emprego em outras áreas de atuação. Todavia, todas as demais áreas têm sido afetadas pelo desaparecimento do emprego. Emprego novo tem surgido sim, mas em menores quantidades, com a exigência de escolaridade elevada, o que acaba por excluir a grande maioria dos trabalhadores desempregados, pois, além de ser elevada a quantidade de trabalhadores desempregados, muitos deles não possuem sequer qualificação viável para operar as novas tecnologias.
Inicialmente, acreditava-se que a solução era o governo tomar para si a responsabilidade direta, para viabilizar a contratação de trabalhadores por meio da criação de frentes de trabalho, na perspectiva de injetar dinheiro no mercado, aquecer o consumo e viabilizar o crescimento da indústria e, dessa forma, contratar novos trabalhadores. Todavia, nos dias de hoje, as indústrias já possuem produtividade garantida, mediante as novas tecnologias, a um custo mais baixo do que teria ao contratar mão-de-obra.
Para Nathanael (2006a) é necessário que as relações de trabalho sejam flexibilizadas, uma vez que hoje existe claramente uma redefinição das formas de trabalho e até mesmo uma compreensão diferente do que vem a ser trabalho. Para tanto, destaca Nathanael (2006a) que é preciso maior mobilidade profissional.
Segundo Bridges (1995b), o trabalhador deveria buscar alternativas empreendedoras, investindo na abertura de negócio próprio ou partir para iniciativas informais, caminho pelo qual muitos têm optado, com baixo custo de montagem e reduzido volume de trâmites burocráticos. Pochmann (1998) identificou em sua pesquisa que, no tocante à composição das ocupações na década de 90, era possível observar que o trabalho por conta própria se encontrava em expansão.
Gentili (2002) admite que, na sociedade atual, cabe ao indivíduo definir suas próprias opções, de forma a competir no mercado de trabalho. Entretanto, Crestani (2001) defende que a afirmativa de ser o sujeito senhor de seu destino demonstra desconhecimento de que o homem é subordinado às conjunturas que se formam ao seu redor, ou seja, trata-se de um ser histórico e social que tanto influencia o meio como é influenciado por ele.
Rifkin (2004) aponta duas vertentes básicas para responder à necessidade de redução da taxa de desemprego. Em primeiro lugar, defende a redução da carga horária de trabalho do empregado, o que já tem sido feito em várias partes do mundo. Em segundo lugar, destaca a importância das iniciativas do Terceiro Setor, ou seja, das entidades ou organismos sem fins lucrativos, que trabalham em prol do bem estar social e da melhoria da qualidade de vida. Enquanto o aumento da produtividade acarreta maior nível de produção com menor nível de trabalho humano, Rifkin (2004) defende a importância de se reduzir a carga horária de trabalho, tendo em vista o aproveitamento de maior quantitativo de trabalhadores na produção. Para tanto, far-se-ia necessário o estabelecimento de subsídios governamentais, via redução de impostos empresariais e encargos trabalhistas. Os trabalhadores, por sua vez, ao passo que viessem a usufruir maior tempo livre, poderiam gastar mais.
Todavia, a questão da redução da carga horária de trabalho é vista por Frigotto (2002a) como sendo baseada em uma compreensão equivocada de que cada trabalhador deve trabalhar menos, para que todos trabalhem. Compreende, portanto, que nenhum empregador concordará em diminuir o tempo de trabalho, sem uma conseqüente diminuição do salário desse trabalhador. Entretanto, é notório que, mesmo em se aplicando a redução da carga horária de trabalho, certamente não haverá emprego para todos. Para suprir tal lacuna é que Rifkin (2004) aponta o caminho alternativo do Terceiro Setor.
O Terceiro Setor se refere às iniciativas da sociedade civil, identificada como conjunto de entidades e órgãos sem fins lucrativos que prestam serviços sociais e comunitários às
comunidades. Diferentemente do mercado de trabalho tradicional, o Terceiro Setor é marcado pelo trabalho voluntário e comunitário, de forma que o retorno pessoal se dá muito mais no âmbito do social do que do financeiro, sendo estabelecida uma espécie de troca entre as partes. É com base nisto que Rifkin (2004) afirma que a promoção do bem-estar pessoal e comunitário depende de a pessoa entregar de si para os outros.
Já Antunes e Alves (2004), diferentemente, compreendem as iniciativas do Terceiro Setor como limitadas para compensar em sua totalidade os estragos provocados pelo desemprego estrutural. Conseqüentemente, não deve ser compreendido como livre de enganos ou equívocos.
No entanto, para ter êxito, assim como a redução da carga horária de trabalho, o Terceiro Setor necessita de aportes ou subsídios financeiros advindos de verbas públicas. Para tanto, poder-se-ia, por exemplo, tributar diferentemente atividades danosas ao meio ambiente, destinando as receitas à redução da carga tributária sobre a mão-de-obra e a renda.
Ao contrário de Rifkin (2004), Oliveira (2003) atribui à responsabilidade direta pela solução do problema do desemprego ao governo, o qual, no seu entendimento, deveria intervir no processo, atuando de forma efetiva na geração de novos postos de trabalho. No seu entendimento o desemprego tem sido justificado com base na suposta falta de preparo do trabalhador em acompanhar as mudanças; todavia, a verdadeira responsabilidade seria do Estado, que não cumpre seu papel de gerar novos postos de trabalho.
Ao considerar a questão do desemprego em massa, Segnini (2001) acaba por trilhar um caminho semelhante ao de Oliveira (2003), afirmando que o desemprego não é uma realidade vivida individualmente, mas sim de um problema de massa.
Ao abordar o crescente quadro de mudanças estruturais no trabalho e nos empregos, Reich (1994) explicita o surgimento, não de um novo cargo, mas de um novo profissional, não somente adaptado à realidade vigente no mundo do trabalho, mas fruto direto deste.
Denominou este profissional de analista simbólico, o qual trabalha muito mais com a imaginação e a criatividade do que com uma produção industrial tangível, valorizado muito mais pelas aptidões e conhecimentos agregadores de valor do que pela direta lucratividade industrial que venha a acarretar. A lucratividade, por sua vez, deixa de ser o fim em si para ser a conseqüência de uma finalidade maior.
O autor considera o analista simbólico como sendo aquele que se dedica à identificação e solução de problemas e dificuldades, possuindo, ao mesmo tempo, visão ampla do todo e pormenorizada dos detalhes. O analista simbólico dedica-se à busca constante de novas estratégias, de forma a adaptar-se não somente à realidade local, mas até mesmo à realidade mundial da concorrência e da clientela.
Em se considerando a responsabilidade pessoal do trabalhador desempregado no mercado de trabalho, há de se frisar o perfil que Drucker (1993) traça do trabalhador do futuro, que deve ser necessariamente um trabalhador do conhecimento e não um trabalhador essencialmente manual. É preciso, para tanto, investimentos no conhecimento formal do trabalho, visando ao melhor preparo do indivíduo para profissões ainda capazes de absorver parte dos trabalhadores dispensados. O trabalhador do conhecimento é um profissional qualificado, capaz de operar as novas tecnologias de ponta.
Já Nathanael (2006b) afirma a importância da educação continuada ou permanente, proporcionando capacitação de forma a permitir ao trabalhador sua transição de uma área profissional para outra, caso isto se faça necessário. No entanto, para que isso possa ocorrer, Nathanael (2006b) afirma ser preciso que ocorra progressivamente a flexibilização das normas de regulamentação profissional, normas estas que dificultam e impedem a transição de profissionais de uma área para outra. Entretanto, há que se compreender que a educação por si só não é capaz de gerar emprego, pois quem gera emprego é o mercado e não a escola. A educação é sim um fator facilitador, mas não um meio de geração de emprego.