Rubens Lopes nasceu a 1o de outubro de 1914361, na cidade de Caieiras, Estado de São Paulo. Filho de Antônio Lopes e Maira F. Lopes, teve três irmãos: Miguel, Antônio e Luiz. Sua família foi bastante envolvida com o trabalho batista no Brasil, pois Antônio dedicou-se ao pastorado e Luiz, ao diaconato.
Tendo sido batizado a 5 de dezembro de 1923, na Igreja Batista de Santos, Rubens Lopes cultivou uma vida assídua exercendo sempre funções de liderança. Lopes bacharelou-se em Ciências e Letras no ano de 1933 pelo Colé gio Batista “Shepard”, no Rio de Janeiro. Graduou-se em Ciências Teológicas em 1936, pela Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Também bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1959, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Lopes foi ordenado ao ministério pastoral a 24 de janeiro de 1938, na Igreja Batista de Vila Mariana, na cidade de São Paulo. Exerceu as funções de evangelista, de pastor auxiliar e de pastor titular na referida Igreja, onde permaneceu durante todo o seu ministério.
Após ter atingido grande prestígio denominacional, Lopes foi Presidente da Convenção Batista do Estado de São Paulo por 28 anos seguidos. Também foi Presidente da Junta Executiva da Convenção Batista do Estado de São Paulo durante 13 anos seguidos. Fundou a Ordem dos Pastores Batistas do Estado de São Paulo e a presidiu por 31 anos
que fundamentou uma “verdade” do Movimento de Renovação Espiritual. In: XAVIER, João Leão dos Santos.
Colunas da Renovação, p. 41 a 70.
360 O hino está transcrito no anexo 10.
361 Rubens Lopes faleceu a 3 de novembro de 1979, enquanto trabalhava em seu gabinete pastoral. Informações obtidas no site da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, Secção São Paulo : http://www.opbb- sp.org.br/web/index.php?option=com_content&task=view&id=25&Itemid=41 – Acesso no dia 13 de janeiro de 2008.
seguidos. Lopes foi Presidente da Convenção Batista Brasileira por 14 vezes. Finalmente, exerceu a vice-presidência da Aliança Batista Mundial 362.
Rubens Lopes foi considerado pela Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, Secção São Paulo, como um dos pregadores mais notáveis de seu período, pois, segundo a Ordem, o pastor Lopes poderia ser considerado o maior pregador batista brasileiro do século em que viveu e um dos mais destacados do mundo 363. Contudo, além do intenso envolvimento denominacional, Lopes foi conhecido por sua capacidade intelectual, por sua boa oratória e pelas campanhas que lançou e dirigiu, entre as quais destaca-se: Campanha de Evangelização de São Paulo e Cidades Adjacentes, em 1962; Campanha Nacional de Evangelização, em 1965; Campanha das Américas, em 1969; Campanha Mundial de Evangelização, em Baden, Viena, a 4 de agosto de 1969 364.
Rubens Lopes teria se dedicado de forma bastante intensa aos preparativos da Campanha Nacional de Evangelização. O tema da Campanha era: Cristo é a Única
Esperança. Desse modo, Lopes teria percorrido todo o Brasil anunciando a referida campanha
e pregando com base no mencionado tema. Tendo percorrido 103.036 quilômetros de avião e 7. 828 quilômetros em rodovias brasileiras, propagou a mensagem a que se propôs a dois Presidentes da República, a saber, Castelo Branco e Costa Silva. Também pregou a todos os Governadores da tribuna de todas as Assembléias Legislativas. Da mesma forma anunciou sua mensagem nas tribunas de todas as Câmaras Municipais das Capitais. Também falou em Tribunais de Justiça e a alguns componentes do Supremo Tribunal Federal. Finalmente, pregou aos Ministros da Guerra, tanto da Marinha, quanto da Aeronáutica e dos comandantes dos Quatro Exércitos, bem como aos comandantes de todas as Regiões Militares 365.
Dessa forma, vê-se com clareza que o intento de Lopes também era o de pregar para as autoridades, entre as quais destacam-se os militares. Ora, está-se falando de um período pós-golpe militar e, desse modo, também de um período de consolidação da ditadura que se fez presente no Brasil. Portanto, suscita-se uma indagação: estaria Rubens Lopes pregando contra o Governo Militar por não concordar com ele ou estava prestigiando o
362 Dados obtidos na internet: http://www.luz.eti.br/rubenslopes.html - Acesso no dia 14 de janeiro de 2008. 363 http://www.opbb-sp.org.br/web/index.php?option=com_content&task=view&id=25&Itemid=41 – Acesso no dia 13 de janeiro de 2008.
364 Informações obtidas no site da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, Secção São Paulo: http://www.opbb- sp.org.br/web/index.php?option=com_content&task=view&id=25&Itemid=41 – Acesso no dia 13 de janeiro de 2008.
referido Governo por pregar a ele? E ainda: teria Lopes o mesmo objetivo político-religioso de Tognini ou entendia que todos deveriam ouvir sua mensagem?
As campanhas lideradas por Lopes não foram as únicas que aconteceram, pois também o Movimento de Renovação Espiritual propôs e realizou campanhas denominadas Encontros de Renovação Espiritual, que pareciam fortemente vinculadas aos desejos de seus líderes, os quais, por sua vez, se contendiam nas disputas no seio da Convenção Batista Brasileira.
Existem indícios de que a Campanha Nacional de Evangelização tenha sido uma resposta ao golpe militar de 1964:
“Em 1965, foi realizada a Campanha Nacional de Evangelização, como uma espécie de resposta ao golpe de 1964. Seu tema foi “Cristo, a Única Esperança”, implicando que as soluções meramente políticas eram insuficientes. O coordenador da campanha foi o Pr. Rubens Lopes”. 366
Dessa forma, concomitante à ação política de Tognini em favor dos militares no Brasil, estava Lopes e seus liderados pregando a insuficiência das ações políticas. Utilizou- se, portanto, do momento político do Brasil para lançar uma Campanha que visava à evangelização e ao aumento denominacional.
Contudo, segundo Tognini, a “grande campanha dos batistas brasileiros em
1965, presidida por Rubens Lopes, foi um fracasso”. Para o autor, o objetivo da Campanha
Nacional de Evangelização, dirigida por Lopes, era o de alcançar 500 mil pessoas para os batistas brasileiros. Entretanto, apenas 10 mil pessoas, que teriam participado da Campanha haviam se batizado em igrejas batistas, integrando-se a elas367.
“Mas a grande campanha foi lançada com o propósito de acabar com a renovação espiritual. Alguém poderá deter o poder do Espírito Santo? Ninguém detém... é obra santa... nem satã, nem o mundo todo podem apagar esse ardor”. 368
Assim, Tognini parece demonizar a Campanha Nacional de Evangelização, porquanto se coloca como alguém que privilegia as expressões do Espírito Santo e afirma que satã não poderia deter o ardor do Movimento de Renovação Espiritual. Dessa forma,
366 http://www4.mackenzie.com.br/7071.html - Acesso no dia 13 de janeiro de 2008. 367 TOGNINI, Enéas. A autobiografia, p. 95.
entendendo a Campanha como o objetivo de “acabar com a renovação espiritual”, Tognini associa sua ação como a oposição satânica ao mencionado Movimento.
“E, com a Grande Campanha de 1965, os Batistas Brasileiros pensaram em liquidar Renovação Espiritual. A movimentação dessa campanha foi gigantesca. Gastaram rios de dinheiro. O resultado desse colossal, e até louvável, esforço não compensou a canseira e os gastos exagerados. O alvo supremo dessa “Campanha” – sufocar Renovação Espiritual, não foi alcançado”. 369
Julgando Tognini que o Movimento de Renovação Espiritual se tratava de
“obra santa”, também parece dizer que ninguém pertencente à Convenção Batista Brasileira,
poderia deter tal Movimento. Da mesma forma, tendo dito que a Campanha Nacional de Evangelização fora realizada no propósito de “acabar com a renovação espiritual”, entende- se que Lopes era opositor ao Movimento e, por isso, havia usado o pretexto da evangelização para ofuscar o referido Movimento de Renovação Espiritual.
No entanto, para Ferreira, houve uma influência positiva de um determinado
“Período de expansão evangelística e missionária” ocorrido a partir da década de 1960 no
seio da Convenção Batista Brasileira.
“Houve clarinadas, reuniões de despertamento, conferências aqui e ali, com pregadores até de outros estados. O âmbito nacional foi também atingido pela Primeira Campanha Nacional de Evangelização. Foi uma grande bênção esse movimento entre os batistas do Brasil, resultado de esforço conjunto de pastores e igrejas, incentivadas pelo Pastor Rubens Lopes, que muito fez para que se alcançasse o alvo desejado”. 370
Em seus textos, Enéas Tognini deixa evidente uma oposição de Lopes e da Convenção Batista Brasileira em relação ao seu ministério e ao Movimento de Renovação Espiritual. Todavia, tendo em vista uma suposta aversão de Lopes em relação à sua pessoa, Tognini também parece deixar claro um sentimento de oposição em relação a Lopes, o que faz por meio da explicitação de sua memória acerca de diversos supostos fatos ocorridos no relacionamento entre os referidos líderes. Portanto, parece haver uma rixa entre Tognini e Lopes:
369 TOGNINI, Enéas e ALMEIDA, Silas Leite de. História dos Batistas Nacionais, p. 161 e 162. 370 FERREI RA, Ebenézer Soares. História dos Batistas Fluminenses, p. 173.
“Era o ano de 1964. Os pastores batistas do Estado de São Paulo se reuniram no acampamento de Sumaré. Compareci, pois continuava ligado à Igreja Batista de Perdizes, portanto, estava ligado à Ordem de Pastores. Após o almoço, Pr. Rubens Lopes, Presidente da Ordem de Pastores, na presença do Pastor Alberto Blanco de Oliveira, que ficou à frente da Igreja de Perdizes, e portanto, era o meu pastor, convidou-me a deixar o retiro, o que fiz na mesma hora”. 371
Desse modo, averigua-se que havia determinada contenda entre Lopes e Tognini, até mesmo por causa das memórias cultivadas por Tognini. Sabe-se que Lopes foi o presidente da Convenção Batista Brasileira, a qual, no período de sua atuação, experimentou o primeiro cisma na história dos batistas no Brasil. Contudo, também se verifica a atuação de Tognini, que parece ter levado a cabo todas as experiências político-religiosas até mesmo com as possibilidades de divisão denominacional, o que ocorreu em 1965 como se descreveu no capítulo anterior.
Entrementes, além das campanhas dirigidas por Lopes, havia campanhas dirigidas por Tognini, os já mencionados “Encontros de Renovação Espiritual”. Ocorreram dois Encontros de Renovação Espiritual bastante decisivos no embate denominacional, um realizado em julho de 1964, no templo da Igreja Batista da Floresta, em Belo Horizonte, e outro, no auditório da Secretaria da Educação, no centro de Belo Horizonte, em julho de 1965
372.
“A finalidade desse primeiro encontro, dizia-se, era uma espécie de conferência teológica sobre Reavivamento Espiritual, aliás, expressão muito em voga naquela década, no Brasil”. 373
Para Fernandes, havia um interesse de fundamentar teologicamente o Movimento de Renovação Espiritual, porém, segundo o autor, o encontro se tornou um lugar de culto interdenominacional, onde todos os grupos tiveram livre acesso à palavra. Segundo Fernandes, o conclave gerou esperanças, mas frustrou grande parte delas, porquanto se tornou um lugar de protestos e embates denominacionais, ocasionando cultos fortemente carismáticos e um “inequívoco saldo de decepções, constrangimento e tristeza” 374.
Conforme Fernandes, o Movimento de Renovação Espiritual preparou um segundo “Encontro de Renovação Espiritual”, pois queria reparar os danos causados no
371 TOGNINI, Enéas. A autobiografia, p. 93.
372 Cf. FERNANDES, Humberto Viegas. Renovação Espiritual no Brasil, Erros e Verdades, p. 18 e 19. 373 Cf. FERNANDES, Humberto Viegas. Renovação Espiritual no Brasil, Erros e Verdades, p. 18. 374 FERNANDES, Humberto Viegas. Renovação Espiritual no Brasil, Erros e Verdades, p. 19.
primeiro. Segundo Ferna ndes, “ouvia-se, na ocasião, que sua finalidade era corrigir os
equívocos do primeiro encontro” 375. Porém, esse não foi o motivo maior do segundo encontro:
“Um motivo maior, entretanto, sobressaía aos demais: as igrejas batistas que a esta altura já haviam sido desligadas do rol de igrejas cooperantes com a Convenção Batista Brasileira não queriam permanecer isoladas. Era iminente a disposição de se organizarem em Convenção de âmbito nacional, medida, a nosso ver, justa e conveniente, uma vez que o número das tais era bem elevado em todo o território brasileiro. Por não quererem ficar marginalizadas é que se organizaram, posteriormente, em Convenção Batista Nacional”. 376
Portanto, além da Campanha Nacional de Evangelização, também aconteceram os “Encontros de Renovação Espiritual”, estando Rubens Lopes e Enéas Tognini integrados em redes diferentes. Para Fernandes, os encontros promovidos pelo Movimento de Renovação Espiritual marcaram uma rivalidade bastante contundente entre as redes de poder, pois se nota que havia líderes entrincheirados e prontos para as batalhas. Conforme Fernandes, os anos de 1964 e 65 foram bastante “movimentados” devido aos preparativos para a Campanha Nacional de Evangelização, contudo, segundo o autor, as
“chamadas Igrejas da Renovação não queriam participar da Grande Campanha”. Por sua
vez, os líderes da Convenção Batista Brasileira também não queriam que os integrantes do Movimento de Renovação Espiritual participassem, porquanto haviam tomado conhecimento do primeiro “Encontro de Renovação Espiritual”, que fora classificado como pentecostal 377.
Desse modo, Fernandes faz uma declaração que evidencia o belicismo do período, a saber: “uma coisa é participar de uma batalha à distância, outra é participar de
dentro das trincheiras” 378. Os encontros promovidos pelo Movimento de Renovação Espiritual e por Tognini parecem indicar trincheiras e nas campanhas lideradas por Lopes ocorre de igual forma, pois também este não permitiu participação dos integrantes do mencionado Movimento em suas frentes evangelísticas.
A história, sendo considerada como bélica, concede uma amostragem das relações de força que posicionou sujeitos religiosos por detrás de trincheiras muito bem definidas e le gitimadas por ações experienciais. Assim, o embate se travou no seio da
375 FERNANDES, Humberto Viegas. Renovação Espiritual no Brasil, Erros e Verdades, p. 19. 376 FERNANDES, Humberto Viegas. Renovação Espiritual no Brasil, Erros e Verdades, p. 20. 377 FERNANDES, Humberto Viegas. Renovação Espiritual no Brasil, Erros e Verdades, p. 17. 378 FERNANDES, Humberto Viegas. Renovação Espiritual no Brasil, Erros e Verdades, p. 16.
Convenção Batista Brasileira, porque as trincheiras foram bem definidas: conservadores, com Rubens Lopes, seus mecanismos e táticas de ações; renovados, com Enéas Tognini, suas táticas e mecanismos de ações.