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Todos os membros do GTAAB tinham concluído o ensino superior. Dessa formação acadêmica surgiram questões e posturas que foram importantes na atuação deles/as.

As conversas realizadas, sobretudo, com Anike e Azeviche revelaram que dessa formação acadêmica surgiram questões sobre as relações étnico-raciais que ela não possibilitava responder, mesmo porque faltavam interlocutores nos espaços (universidade, congressos, eventos em geral) de formação acadêmica.

Diante dessa situação/constatação, havia possibilidade de utilizar o conhecimento oferecido pela área de formação para atuar no combate o racismo, ou seja, articular a formação acadêmica com a postura de combate ao racismo. Sobre essa possibilidade, Anike diz que:

eu sempre soube que eu ia para a área biológica; eu tinha isso nítido há muito tempo; muito jovem, eu já tinha isso [...] uma coisa ficou em mim que não importasse aonde eu estivesse trabalhando, fosse num gabinete, fosse numa assessoria, e eu fui para muitos órgãos da Secretaria de Educação quando termina os 100 anos da abolição [...] E 89 veio bastante confuso, tem... perde toda aquela vontade política daquele momento histórico, tudo mais e também os próprios membros também foram, cada um, seguir o seu caminho. Mas eu tinha, antes de entrar no Grupo durante e depois, que eu não importasse aonde eu estivesse atuando que eu levaria sempre um fio da biologia, não importa. Então, em todas as áreas, por exemplo, eu fui para Secretaria da Agricultura; eu fui para Secretaria da Saúde; eu fui para as escolas técnicas agrícolas; eu fui para indústria, sempre levando, de qualquer forma, a questão da biologia, e também sempre levando, naturalmente, esse olhar de uma mulher negra, bióloga, essa especificidade [...] o tempo inteiro [...] Era o que eu podia..., eu acho que quando você vai para um discurso que é um discurso da questão de preconceito, de discriminação, de racismo, um discurso, uma conversa sobre a questão étnico-racial, se você

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pode aproveitar, e, inclusive, acho que dá profundidade a essa conversa, a sua formação; aquele segmento que você teve a possibilidade de aprofundar um pouco mais é muito benéfico, ajuda muito, ser da área biológica, em todos os projetos que eu fiz e escrevi em relação a questão étnico-racial me ajudou por uma questão que as pessoas tem em mente que é algo que também o Douglas27 fez essa reflexão no trabalho dele que é esse discurso

biológico que ele é o menos contestado quando você está em algum tipo de discussão. Na época, [...] como o discurso biológico que deu tanta credibilidade a posturas tão racistas, eu percebi que o meu, muito simples, é muito..., é local, mas que ele podia também fazer o contrário; que eu podia utilizar também, de uma maneira, a minha fala que ao contrário, desta tamanha credibilidade, quando eu saísse da palestra todos ali, ou todos queriam, de qualquer forma, algum lugar para colocar a proteína melanina, ou todos estavam extremamente, pelo menos, sensibilizados. Era uma tática (ANIKE).

A formação acadêmica na área da biologia propiciou uma série de indagações e como não encontrava interlocutor nessa área formação, então, por meio de sua participação em grupos do Movimento Negro, Anike foi procurando as respostas para aquelas questões. E acrescenta :

quando eu comecei a participar de todas essas questões de Grupos de movimentos sociais; o MNU, ele já estava se [...] abrigando outros grupos específicos, e como eu te disse o meu interesse inicial era realmente que fosse..., eu queria discutir a questão da biologia; eu não tinha alguém, não tinha interlocutor, eu precisava..., e eu tinha uma angústia grande porque eram tantas questões que eu havia visto na faculdade e eu também queria discutir; e a discussão era muito mais historia; para mim foi ótimo porque eu aprendi e como eu era da dança. Então, como eu estava ligada já; eu era da dança; eu fiz a vida inteira dança. Então, quando eu começo a participar dessa historia toda [...] eu fui para, realmente, ficar mais próxima dos grupos que, além das discussões teóricas, também exerciam alguma atividade prática, cultural [...] Todos no Grupo de Assuntos Afro- brasileiros, todos nós tínhamos alguns contatos importantes que nós trouxéssemos [...] quando houve possibilidade para que se juntasse ao nosso trabalho. Então, eu vejo a minha relação com os outros grupos era total (ANIKE).

Dulce era professora da Rede de Ensino e tinha experiência maior com o ensino médio e com o magistério. Nesse trabalho com o magistério, ela já utilizava muito material sobre a cultura negra; montava o trabalho que seria utilizado nessa formação de professores primários. Para isso, lia e estudava muito para elaborar um material que “permitisse uma abordagem diferente da rede”. Ainda para montar esse material, ela se valia de conversas com seu irmão e com sua amiga que a havia

27 Mesma pessoa da Nota 22.

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indicado para o GTAAB, as quais tinham experiências de militância em grupos do Movimento Negro.

A formação em história na USP também ajudou Dulce na sua atuação como professora porque foi nessa ocasião que ela fez um curso de História da África ministrado por um professor que era especialista em Ásia. Então, foi um curso de muita pesquisa porque, como o professor não tinha muita experiência em África, o curso foi construído pelo referido professor em conjunto com os estudantes. Essas experiências forneceram “alguns elementos que me permitiram pensar um pouquinho mais profundamente a questão da educação da criança negra” (DULCE).

Azeviche concluiu a universidade em Pedagogia em 1978 e não havia decidido se seria professora dos anos iniciais ou do magistério. Na verdade, ela não tinha uma vontade muito grande de estar dentro da sala de aula e “ficava se perguntando: 'pra quê?'. A partir da convivência em grupos que discutiam questões étnico-raciais, Azeviche concluiu que a escola poderia ser um espaço, em que era possível, além de alfabetizar as crianças, “discutir a questão racial”. No início, ela dividia a militância com a educação e “depois elas foram se somando...”.

Essas articulações de conhecimentos oferecidos pela área de formação com os oferecidos pela participação em grupos do Movimento Negro são importantes para a formação intelectual dos/as assessores/as educacionais, porque é por meio dela que a prática de combate ao racismo vai se delineando e se consolidando tanto no/para esses grupos como na/para a própria Rede de Ensino, que era o foco do GTAAB.