A militância em grupos do Movimento Negro ou o contato com essa militância foi algo que apareceu muito intensamente nas falas dos participantes da pesquisa.
Nessa época, a gente tinha uma militância que não era radical [...] nós não tínhamos enfrentamento com brancos. Não era isso, mas era uma militância radical na ação política de avanço da Comunidade
Educando-se no combate ao racismo e formando-se enquanto intelectuais...
Negra dentro do Estado. Então, era 24 horas por dia. Eu digo isso porque eu era um dos poucos que não estava dentro da máquina do Governo. Eu era advogado da Metal Leve, mas eu saia de lá do meu trabalho e vinha para o Conselho e passava o fim-de-semana... a gente viajava; ia para o interior; eu desenvolvi uma luta em Piracicaba, muito específica. Era o tempo todo! O tempo todo. A gente militava o tempo todo; 24 horas por dia (FREDERICO CLEMENTE).
Azeviche relatou que tinha pouca experiência anterior à do CPDCN com a militância em grupos do Movimento Negro. A sua “trajetória anterior foi muito curta, ela foi muito curta no sentido de uma participação mais de liderança, de estar a frente de um trabalho”. A participação dela tinha como intuito aprender, e ela tinha a “certeza que naquele momento deveria aprender”. Ela acrescentou ainda:
A nossa aprendizagem era oral mesmo, era na, como que se diz, na luta, ouvindo os militantes... Porque quais eram as publicações que nós tínhamos?... Quase nenhuma, 75, 76 eu não me lembro de um grande livro que nós... Eu não consigo me lembrar de obras, eu lembro mais de pessoas, que, por exemplo, do que textos e obras, o Miltão, o Rafael, as pessoas... O próprio Ivair... As pessoas que eu ia ouvindo discutir essa questão. (AZEVICHE).
Essa militância de avanço da Comunidade Negra dentro do Estado se deu por meio da participação em grupos do Movimento Negro, que tiveram um papel importante na consolidação do GTAAB. Isso porque a consolidação do:
Grupo de Assuntos afros como uma referência, isso eu acho que aconteceu até de uma forma bastante rápida e efetiva, e mais uma vez eu coloco que, primeiro, claro, a eficiência, a maneira com que o Conselho Estadual do Negro, os outros grupos também acho que eles são, muito importantes nesse contexto, todos os outros grupos em São Paulo (ANIKE).
Josué Bastos salientou também que a militância desempenhou um papel fundamental para o GTAAB “porque era a militância que dava voz [...] pública e audível para as nossas experiências que poderiam ter sido apenas experiências de gabinete”. Foi por meio da militância que “nós tivemos grandes espaços, grandes aberturas e também grandes ajudas”. Dulce salientou ainda que o GTAAB era muito procurado por várias entidades não só do Movimento Negro, mas fundamentalmente deste Movimento Social.
Ainda sobre essa relação do GTAAB com grupos do Movimento Negro, Anike diz:
Educando-se no combate ao racismo e formando-se enquanto intelectuais...
o GTAAB tinha toda uma relação muito interessante, muito profissional que rendia muitos frutos com os outros grupos, como por exemplo, o Géledes, como o próprio CEERT que tava naquele momento ainda não era..., estava ainda ali se formando, se mantendo; nossa! se eu fosse lembrar também com outras, com outros grupos, outros grupos que até eram voltados para questões culturais mais específicas que fossem de dança [...] Eu acho que o Grupo de Trabalho para Assuntos Afro-Brasileiros, as relações dele com os outros grupos que, naquele momento, naquele contexto que é muito importante aquele contexto, acho que ele é fundamental, era 1987, que os grupos que eram de órgãos também, ou não, estavam se formando e tudo mais, a nossa relação era muito grande com eles, com certeza, eles tiveram uma importância enorme e nos profissionais também que a gente, por exemplo, para fotografia, para alguma área que nós precisássemos de alguém e que daí a questão de verba do próprio trabalho, de qualquer forma, na Secretaria é chamado um profissional mesmo de fora nós procuramos os negros mais bem sucedidos, colocados porque o seu trabalho era um trabalho interessantíssimo e quem não tinham tantas possibilidades, a ideia era essa também (ANIKE).
Como se vê, esse convívio com grupos do Movimento Negro contribuiu para a formação intelectual dos/as assessores/as porque, por meio dele, os membros do GTAAB também tiveram contato e conhecimento de experiências de combate ao racismo desenvolvidas por esses grupos e passaram a incorporá-las em suas ações.
Como dito, os membros do GTAAB já participavam de espaços que discutiam, especificamente, as relações étnico-raciais. Sobre esses espaços, Anike salienta:
na verdade, eu participei não só participei na Comissão de Educação, mas eu participei bem mais em outra..., tinha uma Comissão também de Saúde que havia, e também meus primeiros contatos com as pessoas que estavam ali no Movimento Negro em São Paulo, o primeiro contato meu foi num [...] Congresso de mulheres negras e estava à Doutora Iracema [...] que, infelizmente, no momento, não lembro o seu sobrenome; a Doutora Iracema era uma médica, negra e foi ela a primeira pessoa que falou num Congresso “anemia falciforme”. Ela usou esse termo; eu peguei e falei: “espera aí! eu não conheço esse termo; eu estudei na Universidade de São Paulo não é possível que eu não tenho escutado esse termo” e eu não havia mesmo ouvido falar; e, na verdade, foi ela e eu pensei: “eu tenho que perseguir essa tal da anemia falciforme”. Então, eu comecei mesmo nas reuniões..., eu realmente ia na questão da educação, mas eu procurei realmente mais especificidade que fosse da área biológica para que eu tivesse uns outros elementos onde eu podia circular melhor (ANIKE).
Educando-se no combate ao racismo e formando-se enquanto intelectuais...
Essas estratégias, métodos e atividades de aprendizagens que também o CPDCN promovia foram importantes para os membros do GTAAB, enquanto momentos de educação na prática de combate ao racismo. Isso porque:
Naquela época tinha porque primeiro que nós estávamos todos começando. Então, o Conselho tinha uma reunião mensal e tinham as reuniões de Comissões; quem sabe bem... quem cuidava muito bem disso era o Ivair. Ele tinha essa visão de fazer Comissão; o Hélio sempre foi muito mais dispersivo, mais emocional. Mas o Ivair não, o Ivair sempre foi mais disciplinado sobre isso, nessas questões. Então, ele fazia bem; ele conduzia bem isso aí porque ele era o vice. Mas eu acho que muito do crescimento do Conselho nesse aspecto se deve a ele (FREDERICO CLEMENTE).
Essa participação e/ou contato dos integrantes do GTAAB com a militância do Movimento Negro gerou uma série de embates e, inclusive, alguns conflitos, o que, segundo Josué Bastos, “faz parte de todo processo”.
Esses embates e conflitos eram resultados de uma estratégia, em que os membros do GTAAB tinham “uma ideia do que se discutir”. Em espaços como a Comissão de Educação do CPDCN, era necessário ir e ouvir o que os professores estavam dizendo e propondo, mas “de uma certa forma, éramos nós [do GTAAB] quem decidíamos como” que as propostas seriam articuladas dentro da Secretaria. (AZEVICHE).
Em alguns momentos, algumas pessoas mais envolvidas com a militância perguntavam: “por que não está acontecendo isso?” e os membros do GTAAB respondiam: “mas eles não sabem o que está acontecendo aqui dentro; como é que eles podem pedir isso, ou criticar?”.