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No período histórico estudado por Elias, não havia um poder social central punitivo suficiente para obrigar as pessoas a se controlarem. Conforme aponta o autor, a sociedade francesa do século XIII não bania ninguém do meio social por conta de “explosões de crueldade”. De certa forma, “o prazer de matar e torturar era socialmente permitido”, sendo, muitas vezes, até encorajado. (ELIAS, 2011, p. 185).

A vida social da época, com exceção de uma pequena elite, parecia girar em torno de batalhas, saques, pilhagens e mortes. O futuro da classe guerreira na Idade Média era incerto. O “vitorioso de hoje” poderia ser o “derrotado de amanhã”. A própria estrutura social e de personalidade eram baseadas na “necessidade vital” de guerrear, fazendo com que o comportamento violento parecesse mais vantajoso. Elias chama a atenção para as diversas

rixas entre famílias burguesas, ressaltando que a raiva, o ódio e o prazer em promover sofrimento aos outros também ocupavam um lugar central na vida da população urbana. Conforme o poder de uma autoridade central aumentava em uma determinada região, “a modelação das emoções e os padrões da economia dos instintos lentamente mudavam.” (ELIAS, 2011, p. 191).

Uma vez tivesse o monopólio da força física passado a autoridades centrais, nem todos os homens fortes podiam se dar ao prazer do ataque físico. Isso passava nesse instante a ser reservado àqueles poucos legitimados pela autoridade central (como, por exemplo, a polícia contra criminosos) e a números maiores apenas em tempos excepcionais de guerra ou revolução, na luta socialmente legitimada contra inimigos internos ou externos. (ELIAS, 2011, p. 191).

Assim, a economia emocional da era medieval se apresenta de uma maneira mais desinibida, livre e direta do que na sociedade contemporânea, “para quem tudo é mais controlado, moderado, calculado, em quem tabus sociais mergulham muito mais fundamente no tecido da vida instintiva como forma de autocontrole.” (ELIAS, 2011, p. 190).

De acordo com Elias, o prazer de infligir dor em outrem e de matar possuem um espaço específico e legitimado no seio da “sociedade civilizada”. Esportes que envolvem lutas, tais como o MMA144 e o boxe, são socialmente permitidos, atraindo uma relevante quantidade de espectadores que testemunham a liberação de impulsos de “agressividade” e de “crueldade” em um ambiente controlado. O autor atesta que o ato de vivenciar emoções assistindo ou somente ouvindo algo se tornou característico do homem civilizado. Este aprende a sentir prazer com os olhos desde a infância. Nesses termos, “o olho se torna um mediador do prazer precisamente porque a satisfação direta do desejo pelo prazer foi circunscrita por grande número de barreiras e proibições.” (ELIAS, 2011, p. 192).

A satisfação visual do homem ocidental em observar atos de crueldade é exemplificada por Elias através do relato de um costume comum entre os parisienses do século XVI de queimar gatos vivos nas festividades do dia de São João Batista145, comemorado em 24 de junho. Nessas ocasiões, os moradores se reuniam em praça pública, ascendiam fogueiras, em torno das quais cantavam e dançavam alegremente, e, por tradição, também apreciavam torturar gatos, amarrando-os dentro de sacos, os quais eram suspensos no

144 Mixed Marcial Arts, que, em português, corresponde à Artes Marciais Mistas.

145 Esse costume também é comentado por Robert Darnton no livro O grande massacre de gatos e outros

episódios da história cultural francesa, no qual o autor analisa narrativas aparentemente insignificantes da

história francesa, mas que, na verdade, apresentam visões de mundo pouco conhecidas e valorizadas pelos historiadores que seguem um pensamento formal. A tendência etnográfica marca a perspectiva da História Cultural adotada por Darnton, que opta por estudar “a maneira como as pessoas comuns entendiam o mundo”, procurando compreender sua cosmologia e “mostrar como organizavam a realidade em suas mente e a expressavam em seu comportamento.” (DARNTON, 1986, p. XIV).

topo de um poste envolto por uma grande pira. À medida que os sacos iam queimando, os gatos caíam na fogueira e morriam incinerados.

Tal espetáculo era um costume social bem aceito pelo padrão de controle emocional construído na era medieval, assim como acontece hoje com o MMA e o boxe. No entanto, o mero relato do ato de torturar animais vivos provoca no homem ocidental contemporâneo uma reação de nojo, enquanto que os esportes de luta são considerados divertimentos “normais”. Logo, é possível inferir que, às vezes, o que antigamente despertava um prazer visual no homem ocidental, hoje causa repulsão. Segundo Elias (2011, p. 193):

[...] os divertimentos criados pela sociedade para seu prazer materializam um padrão social de emoções dentro do qual todos os padrões individuais de controle das mesmas, por mais variados que possam ser, estão contidos. Todos os que caírem dos limites desse padrão social são considerados “anormais”.

Atualmente, o regozijo visual em assistir cenas de “crueldade” também se evidencia nas artes (cinema, teatro, dança etc.) e nos meios de comunicação. O apelo crescente à estética do grotesco ganha um grande espaço na programação televisiva brasileira e os programas policiais fazem parte desse cenário. A constante busca por histórias cada vez mais espetaculares faz com que os profissionais desse gênero jornalístico privilegiem a ótica do grotesco e do macabro, desenvolvendo estratégias mais agressivas para garantir a hegemonia da audiência. A fronteira, muitas vezes, invisível entre o telejornalismo e o entretenimento marca o modelo de imprensa sensacionalista, com a qual se convive na contemporaneidade. O gozo com o sofrimento do outro se tornou um dos ingredientes prediletos desse tipo de programa e, por conseguinte, de suas emissoras, que pretendem alcançar fatias de mercado ainda maiores.

Portanto, pensando a comunicação como um campo de disputa simbólica em torno do sistema de classificação da realidade social e o papel de controle social que desempenha, observo que a cobertura jornalística não apenas descreve as ações referentes à violência urbana, mas também é parte integrante dos fatos e dramas sociais que se desenvolvem em decorrência da notícia. Nesse sentido, o discurso proferido pelos jornalistas nas narrativas violentas apresentadas pelo telejornal Barra Pesada aparece na sociedade contemporânea como uma forma de poder ou de controle daquilo que se fala, enquadrando aquilo que pode ser dito e aquilo que pode ser visto. Afinal, como diria Pierre Bourdieu (1983), não há realidade literal antes da mesma ser descrita ou mesmo prescrita, visto que a realidade não existe independente dos meios simbólicos e das formas de relatá-la.

O programa Barra Pesada surge como um desses meios de relato da realidade, elaborando estratégias discursivas para compreender e representar o fenômeno da violência urbana. Seus discursos são performativos, sendo a própria ação de representar a realidade, um ato de investimento moral de intervenção na realidade, contribuindo, assim, para a construção de quadros (frames)146 da realidade social. Esses quadros funcionam como dispositivos morais ao fazer com que os limites entre a civilidade e a incivilidade estabelecidos pelo Telejornal possam ser reconhecidos, passando a reproduzir e, até mesmo, a produzir atitudes sociais frente ao fenômeno da violência. Gaye Tuchman aponta que a análise desses quadros (frame analysis) “pode ajudar no estudo dos princípios de organização que estão na base da seleção e definição dos acontecimentos noticiosos.” (TUCHMAN, 1999, p. 258).

Tais processos de enquadramento criam marcos que são a condição para que se possa inferir algo sobre o real. No caso específico desta pesquisa, o real construído no texto noticioso é a realidade da violência urbana, da moralidade, da fronteira entre a animalidade/monstruosidade e a civilidade. Nesse sentido, o Barra Pesada parece surgir como um “manual audiovisual de civilização”, apresentando, com uma roupagem moralizante, uma visão pedagógica do “bom comportamento”, além de oferecer receitas de coesão social e propor soluções para conter o problema da violência urbana e da insegurança pública.

146 Erving Goffman trabalha o conceito de quadro ou frame no livro Os quadros da experiência social: uma

perspectiva de análise. Segundo o autor, a experiência de cada indivíduo resulta de como ele enquadra a

realidade a seu redor. Sendo assim, os acontecimentos do cotidiano social apenas são integrados à experiência de uma pessoa quando interpretados e codificados como objetos de quadros de referência específicos, isto é, um esquema interpretativo único e pessoal que cada um aplica sobre uma determinada atividade. Logo, o conceito de quadro ou frame pode ser entendido como um ponto de vista particular que atribui significado aos fatos e eventos sociais, enquadrando-os no espaço e no tempo, ao mesmo tempo em que se procura extrair deles algum sentido plausível que possa ser incorporado à experiência individual. Nas palavras de Goffman: “Pressuponho que as definições de uma situação são elaboradas de acordo com os princípios de organização que governam os acontecimentos – pelo menos os sociais – e nosso envolvimento subjetivo neles; quadro é a palavra que uso para me referir a esses elementos básicos que sou capaz de identificar.” (GOFFMAN, 2012, p. 34).