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O Ensino Médio, como parte final da formação geral (Educação Básica), tem a obrigação de assegurar uma “formação comum, em perspectiva unificadora”, para o “exercício da cidadania”. Costuma ser visto como uma etapa educacional, demarcada por uma dualidade entre o propedêutico e o profissional. As ambiguidades históricas, ancoradas na suposta “demanda do mercado de trabalho por técnicos e na teoria do capital humano”, deixaram marcas que perpassam várias gerações (BRASIL, 2006, p. 14). A teoria do “capital humano” embasa valores neoliberais, que são difundidos pelos pressupostos da “pedagogia das competências”, que objetiva educar o indivíduo pelo princípio da adaptabilidade às mudanças, às incertezas e à flexibilidade do capital (RAMOS, 2011). Um dos resultados questionáveis é que o governo não conseguiu alcançar o ideal de expansão, para responder à necessidade de universalização e democratização do acesso a esse nível de ensino.

Sobre a consideração, pela sociedade brasileira, da importância do Ensino Médio, reconhecem-se avanços. Na esfera política, ao não aceitar a imensa desigualdade educacional. Na esfera social, pela exigência progressiva de maior certificação para as mesmas funções. Na esfera econômica, sobre as novas demandas no mercado de trabalho e em relação à competitividade do país no cenário internacional (KRAWCZYK, 2014, p. 77).

O desafio de definir uma identidade e um papel para o Ensino Médio, convive com uma tensão entre o que a sociedade espera e o que tem conseguido oferecer. A esse respeito, atualmente

nos deparamos com um modelo de Ensino Médio que precisa ser estudado e entendido por muitos, sobretudo, pelo público a quem se destina e sob o prisma destes, pois tão fundamental quanto as contribuições de teorias e modelos educacionais, é verificar a funcionalidade destas (N.D.P. NASCIMENTO, 2011, p. 15).

A coleta de “dados qualitativos” possibilita entender como os jovens estudantes, do Ensino Médio, compreendem essa etapa. A partir desse momento, os jovens estudantes passaram a ser vistos como colaboradores da Escola E. E. M e P. Dr. Elpídio de Almeida. A abordagem possibilitou uma conversa coletiva, que valoriza o jovem como protagonista em um ambiente de proximidade e confiança. Insiro as opiniões dos jovens estudantes colaboradores,

pondo-as em diálogo com as outras perspectivas apontadas, por entender que contribuem significativamente para esta análise.

Uma das conversas pertinentes sobre a identidade do Ensino Médio, partiu da indagação aos jovens estudantes colaboradores do grupo focal, sobre “qual as concepções de Ensino Médio possuem?” Apresento algumas respostas, considerando as que representam posicionamento diferente, as que complementam pensamentos e as que são sínteses de opiniões do grupo. Os nomes originais dos jovens estudantes colaboradores, para preservar seu anonimato, foram substituídos por personagens de cartuns, charges e tirinhas. Esses pseudônimos surgiram de personagens preferidos, revelados durante as conversas no grupo focal e fora dele.

As opiniões apresentadas se assemelham, aparecendo, com maior recorrência, a ideia de que é uma etapa que dá continuidade as anteriores da Educação Básica, com acentuada compreensão de que aprofunda os conhecimentos e conteúdos estudados. A perspectiva de tempo de expectativa, de etapa intermediária para o Ensino Superior, reforça a concepção propedêutica em relação ao Ensino Médio. Há ainda a presença de um discurso de que uma preparação bem-sucedida, nesta etapa, depende de um Ensino Fundamental “bem feito”, significativo e de qualidade. É compreendido também, como a etapa educacional em que é permitido aos jovens estudantes a liberdade para tomar decisões.

Diante da questão “por que cursam o Ensino Médio?” – as respostas obtidas estão expostas a seguir:

Armandinho: É um resumo de todos, de todas as que a gente estudou. Da quinta-série e até quarta- série caiu algumas coisas.

Mafalda: Eu acho que... é tudo continuação, cada vez mais aprofundando os assuntos [...]. O Ensino Médio é [sic] todos esses assuntos que você viu no fundamental I e II, só que mais aprofundados. E se você não fizer um ensino fundamental bem feito no médio, você se ferra.

Mônica: Preparação para o ensino superior.

Armandinho: E a expectativa que você fica de entrar numa universidade, aquele pensamento. Mônica: ...É a liberação para todas as suas decisões.

Mafalda: Para que eu possa aprender e ter um bom futuro. Ingressar no Ensino Superior e realizar meus sonhos.

Calvin: Tipo assim, estudo para um futuro melhor, para fazer um curso superior, (pausa), ter um melhor salário, [...] ser independente e ajudar a minha família, meus pais.

Snoop: Ajudar minha irmã, (pausa), pra se [sic] formar em educação física, se Deus quiser. E eu quero também um bom Ensino Médio.

As respostas dos estudantes revelam uma compreensão unânime de que o Ensino Médio é parte de um projeto de vida profissional. Pode-se dizer que envolve um caminho para dar seguimento aos estudos, podendo se inserir no mercado de trabalho. Aparece, claramente, o papel social de ser degrau para uma profissão, que poderá auxiliar na questão financeira pessoal e familiar. Os jovens estudantes colaboradores possuem a consciência de que o estudo e o aprendizado podem gerar um “futuro melhor”, associado com um emprego na área que se identificam, com salários melhores e como um meio de obter um aprendizado que o “acrescenta” como pessoa. Apreende-se que os estudantes valorizam o Ensino Médio e mantém um discurso, que, historicamente, associa a realização pessoal com a profissionalização, mediante o acesso ao Ensino Superior. Apenas um jovem estudante colaborador apontou a opção de cursar um “bom Ensino Médio”.

Ariotti e Sopelsa (2007) obtiveram respostas semelhantes para perguntas análogas, em pesquisa sobre a significação do Ensino Médio para os jovens, realizada no Estado do Paraná. A pesquisa de Leão, Dayrell e Reis (2011, p. 268) também afere a preocupação com o futuro profissional, como detentora das maiores expectativas e a preocupação dos jovens estudantes, bem como ser a razão de forte valorização do Ensino Médio.

No entanto, a sociedade, o governo e os jovens estudantes têm buscado ressignificar o Ensino Médio, embora, a partir de concepções e interesses diferentes, mas com discursos semelhantes. Uso esta afirmação a partir dos dados analisados até o momento, mediante respostas em questionário, apresentadas pela Escola E. E. M. P. Dr. Elpídio de Almeida. Ao indagar sobre “qual a concepção de Ensino Médio que a escola possui”, a direção da instituição de ensino diz que entendem o Ensino Médio como etapa “formadora de cidadãos participativos na sociedade”. Esta concepção está de acordo com o discurso da LDB (1996) e das DCNEMs (2013), refletidos anteriormente, bem como aparece nas falas dos jovens estudantes colaboradores nas pesquisas citadas.

O desafio segue sendo a construção de uma identidade para esta etapa de ensino, que contemple todos os sujeitos nesse processo.

Garfield: Para aprendizagem e... depois entrar na faculdade e conseguir se formar [sic], claro. Conseguir um emprego melhor.

Luluzinha: Eu entrei no Ensino Médio porque eu quero entrar na faculdade, eu quero fazer a faculdade de nutrição, pelo que sou apaixonada.

Mônica: Porque a gente não pode tá parada só num trabalhinho, eu gosto de tentar, querendo aprender algo que acrescenta, que apresenta mais futuro. E eu gosto de enfermagem.

O reiterado foco do Ensino Médio na preparação para a entrada na universidade ou na oferta de uma profissionalização esvaziada também de uma formação humana integral agravam essa situação. [...] Diante disso, entendemos não serem possíveis saídas simples, receitas, roteiros predeterminados, que novamente engessem as escolas de Ensino Médio em fazeres dissociados da compreensão da amplitude da tarefa formativa nesse momento da vida dos jovens e, principalmente, dissociados dos sujeitos jovens que muito têm a dizer de si, dos seus sonhos, dos seus projetos, dos seus saberes (MOLL; GARCÍA, 2014, p. 7-8).

Está claro que as DCNEMs (2013) explicitam a necessidade da disposição de toda a comunidade escolar para mudanças que possibilitem o avanço na perspectiva de uma “educação emancipadora, inclusiva e integral”, que contemple várias dimensões da formação humana.

Uma etapa que obtém sentido de ser “degrau” para a seguinte gera consequências, haja vista que “as idades, tempos de vida, carecem de sentido por si mesmas, logo, tempos humanos desfigurados sem direito à especificidade do viver, pensar, formar de cada tempo humano” favorece a renovação da função propedêutica do Ensino Médio, atrelado às demandas do mercado (ARROYO, 2014(a), p. 70). O autor desafia a reflexão de que o Ensino Médio necessita ser repensado porque o momento histórico é outro e os jovens estudantes que chegam a esta etapa são outros. O que é necessário ensinar e aprender obtém novas exigências e configurações. A estrutura “etapista”, hierárquica e “meritocrática” do sistema educacional brasileiro não atende ao direito do jovem em relação a uma formação significativa.