Para Jean-Martin Rabot, a pós-modernidade é caracterizada pela pluralidade, é um reforço do arcaísmo mítico vitalista, de que fala Maffesoli, que, segundo este autor, rejeita a «perfeição do uno» e o «monismo totalitário» de Durand, o processo de unidade histórica também é negado por Vattimo. Assim sendo, Fullat considera a Pós-Modernidade, uma negação
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das ideias absolutistas pré-concebidas/estereotipadas acerca do Homem, de Deus ou da Razão. A pós-modernidade incapacita a autodeterminação, o voluntarismo, o desejo de conquista do homem, onde o republicanismo é identificado como numa Instituição de pertença o «ser-em- conjunto» na revelação do que está aqui. O cidadão deixa de fazer parte de uma democracia participativa, em que o sujeito cidadão se demite da sua função, é um Peter Pan, uma «eterna criança», onde o político dá lugar ao fusional (Rabot, cita Maffesoli, 2005:149-151).
Segundo o Professor Doutor Albertino Gonçalves, a sexualidade pós-moderna é incorpórea e pode ser latente, grupal, manifesta, real ou virtual, pode ser encontrada nos agregados futebolísticos ou nas audiências televisivas. A pós-modernidade conduz-nos, na opinião de Ellul, a «um apagamento do futuro» Para James Hillman, 1977:210-11, há um abandono de um monoteísmo religioso/ psicológico em que se “interpenetram diversos deuses: Javé, Zeus, o eu ou o si”. Na opinião de Deleuze, existe uma barroconização do sujeito munido de uma socialidade múltipla, em que se destacam as ondulações do barroco mas não se destaca o corpo, em que o sujeito não se encaixa no todo mas nas partes.
Passamos agora as críticas à pós-modernidade e ao politeísmo apresentadas por Rabot. Boaventura Sousa Santos, alerta para a falência dos alicerces triangulares da sociedade: o Estado, a Sociedade e o Mercado. Nesse sentido, este autor fala de «pós-modernidade de resistência no campo da arte, da política e das ciências (Rabot, cita Sousa Santos, 1995:91). O autor considera ainda que a Pós modernidade é uma «passagem do capitalismo para o socialismo» Todavia, Giddens considera-a um estilhaçamento do modernismo onde reaparecem as mitografias pré-modernas, daí não reconhecer o vocábulo pós-modernidade. Por sua vez, Touraine afasta este conceito. Por considerar que o mesmo conduz a uma desfragmentação do sujeito e da cultura que se torna particularizada e aliada a uma economia estandardizada, padronizada. Touraine considera que esta desfragmentação do sujeito, está na origem das seitas religiosas fanáticas. David Miller, considera que a sociologia se deve harmonizar com o seu tempo. O politeísmo social, político e religioso, logo necessita de uma teologia politeísta. Seguindo esta tendência, a religiosidade pós-moderna sofreu alterações. Como dizia Weber, o homem dos nossos tempos é um receptáculo de Deus e nesse sentido, tal como referiu Simmel (1988:26), «a religião é criada pela religiosidade». Por isso, E.Poulat fala de “cristianude”
quando se refere a um cristianismo que se enquadra na ordem do “habitus”, mas não pelos
dogmas teológicos. Importa ainda realçar que o cristianismo nunca se libertou dos efeitos do mundo mágico. “ Na Idade Média, Santos/as católicos/as, coexistiam com os cultos pagãos”
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(Rabot,). “O sagrado era irremediavelmente encurralado no profano. O povo possuía imagens da virgem cuja barriga de abria para ver a trindade (Huizinga, 1980:159 e 161). Deus pode ver a sua omnisciência retratada de forma retórica, irónica, e estética e mesmo em kitch, todavia para Orñate: 179, esta não pode ser experimentada. O que reforça um paganismo com uma eficácia existencial. Maffesoli relembra que Hegel considera que a oração do homem moderno é o jornal. Por sua vez Maffesoli, considera, por analogia, que a ligação à internet é a oração do homem pós-moderno em que esta partilha do ser-em-conjunto é reforçada.
3.1.1. Rabot e o politeísmo de valores na Pós-Modernidade
Para Rabot, a socialidade pós-moderna é politeísta, pois emana de uma união que resulta de um reconhecimento amoroso comovedor. Como diria Maffesoli, é um novo «ser-em- conjunto». Esta socialidade pode ser encontrada nas «raves», nos concertos «techno», nas procissões, nos aglomerados futebolísticos. Principalmente nas telenovelas, que são uma eucaristia do povo devido à «representação do seu ego na vida quotidiana». A religiosidade destes tempos é marcada por relações de atracão/repulsão, unidade/separação, conjunção/disjunção, de aliança/rompimento, a pluralidade de valores que jamais atingem o consenso. Esta religiosidade é permissiva, tolera a coexistência de vários deuses. Importa salientar que (Condorcet:191), considera que as posturas erróneas de origem moral e política têm na sua génese erros filosóficos e naturais, o que levou Marx a defender um desalinhar social e Comte a salvaguardar a regeneração social. Rabot aponta, seguindo o fio condutor de alguns sociólogos de referência, as consequências da desorganização social, significa a anomia para Durkheim, a pobreza para Saint-Simon, a anarquia da produção em Marx, e dos Valores em Valadier. A noção de ordem é a génese e o remate de toda a estruturação social.
O homem necessita da sua animalidade, como afirma Morin, para resistir e manter a ontologia humana. Contrariamente ao que pensaram Nietzsche e Foucault, o homem não é domesticável, não sendo o seu instinto sublimado, ao ponto de um guerreiro de elite se transformar num fidalgo bem-nascido. A nossa sociedade assenta numa trindade laica segundo Maffesoli: “ Progresso, Razão, Trabalho”. Contudo, nesta sociedade, em que o cimento que une os homens é tão efémero quanto a sua urgência, contra uma facção surge uma contra facção; os “malucos de Deus” são contrariados pelos “malucos da laicidade”; em oposição, surgem as campanhas contra todos os tipos de comportamentos de risco, aparecem os que fazem do excesso da adição o seu modo de vida; este esfacelamento do sujeito origina aquilo que Freud
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designou de “violência gratuita ou dos sobrealimentados.” As filosofias da história excluíram as paixões, os sentimentos, os humores, contudo a natureza humana pode ser avessa à rectidão, tal como dizia Dostoievski, o homem pode escolher a volúpia e não almejar a sua salvação como disse Miguel Unamuno. Para Freud, o instinto de morte pode suplantar o da vida e o mal pode significar felicidade na óptica de pessoa.
Em relação à ciência, Spengler, Weber e Comte, chegaram aos seguintes perfazimentos: os mundos científicos são superficiais, despojados de alma, a ciência não conduz a comportamentos correctos, e o positivismo tem, por fim, uma sinergia e uma simpatia humana, a doença pode ser inspiradora, ou a mortandade de um campo nazi pode ser vista como um estado de graça. Pessoas como Diana de Gales, Zidane e Beckam, rodeados de luxo, glamour, simbolizam uma androginia social e só por isso são mistificados e idolatrados. Talvez porque os mistérios de um coração humano são insondáveis e têm em si os germens da redenção ou da perdição. Nesta ordem de ideias, diversos sociólogos dedicaram-se ao retorno do religioso, sendo que a figura de Dionísio foi símbolo deste movimento. Maffesoli aponta o “reencantamento”, Durand fala de um ressurgir da mitologia e de uma inspiração orientalizada sobre a forma de totem. Durkheim fala de uma renovação de representações sociais em povos que não contribuíram para a sua formação.
Rabot, refere que a palavra entusiasmo significa ter Deus dentro de si, e, hoje em dia, as pessoas constroem a sua sexualidade e a sua religião, misturando diversas crenças, o que levou Lipovetsky a falar em «bricolage» e Schlegel a falar em «religions à la carte». Para Rabot, a palavra central da “modernidade é a participação cósmica e mágica ao social que Durkheim qualificava de divino» (Rabot: 9).
3.1.2. O Sincretismo na Pós-Modernidade
Rabot classifica o sincretismo como uma mistura/mescla de culturas já epistemologicamente significa «frente unida de cretenses» contra um inimigo exterior feita através da absorção contínua de migrantes. O sincretismo é intrínseco a qualquer religião ou cultura, devido à impossibilidade de estas manterem a sua pureza original. Os cátaros revivificaram o cristianismo com a introdução da divisão, no seu seio, de duas classes distintas: a da perfeição e virtude dos santos, e a da liberdade dogmática dos crentes. Na opinião de Pareto, as religiões têm de fazer uma absorção das influências externas e modificando-se de
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acordo com tendências rivais. Tal como aconteceu na religião crista que bebeu influências pagãs e orientais.
Roger Bastide provou que, aparentemente, os negros pareciam abraçar o cristianismo. Mas eles utilizavam a panteão católico, para adorarem os seus próprios deuses de uma forma funcional e utilitária. G. Balandier refere o simbolismo da cruz em Angola e no Congo. Esta é utilizada na magia e no culto dos mortos e simboliza os quatro elementos. Todas as culturas adaptam-se às novas realidade que a elas se apresentam ou com as quais são confrontadas.