5.2 C ONTEXT IDENTIFICATION
5.2.2 Activity 1.2: Specification of the target of evaluation
O currículo é o centro da escola, é nele que o trabalho pedagógico acontece, é por meio dele que se busca atingir as metas e objetivos escolares. Atualmente o currículo escolar tem uma organização fragmentada dos seus processos: o conhecimento é dividido em disciplinas, o tempo de ensino é a aula, o espaço fundamental das aulas é a sala de aula, a concepção de sujeito é dualista (corpo e mente), analisa-se, experimenta-se o conhecimento por partes, mas não há tempos e espaços para a síntese, para religar as partes que compõem o todo.
Ao lidar com o conhecimento em frações, o aluno perde a visão do todo e consequentemente o sentido do processo escolar. O sentido daquilo que se faz/que se aprende é fundamental, a perda da visão/entendimento do todo é uma prática de alienação que não condiz com os propósitos fundamentais da escola.
Se a lógica da organização do currículo em disciplina é fragmentária, também o é a organização dos tempos e espaços escolares. A unidade fundamental de tempo escolar é “a aula”, geralmente de 50 minutos, e o conjunto de aulas, cinco ou seis diariamente, conformam o período escolar diário. Durante o período escolar diário cada professor, especialista de sua disciplina, prepara sua aula, sem considerar o conteúdo específico das outras disciplinas, das características dos alunos. São momentos isolados da vida orgânica da instituição e do indivíduo.
Os espaços também são fragmentados na medida em que cada disciplina tem seu lócus de aprendizagem específico. Espaços estanques denotam que o conhecimento se inicia e se encerra em espaços específicos, faz acreditar que o conhecimento científico está no laboratório, os saberes sobre a leitura estão na biblioteca, e que o movimento se faz em jogos na quadra ou no tempo de recreio e/ou intervalo. Esta concepção fragmentada de espaço dificulta a relação/transposição do conhecimento para os espaços de convivência dos alunos, como a casa, a cidade, o rio, o estádio de futebol, os locais da vida cotidiana dos alunos.
Neste contexto de espaços estanques é difícil entender que a química está na cozinha de casa, no preparo das refeições diárias, que o organismo se movimenta para subir escada, e que
60
ambos se relacionam com a hipocinesia, o gasto energético, o sedentarismo e a obesidade, temas atuais que passam despercebidos na escola porque aparecem de maneira fragmentada em diferentes disciplinas, em diferentes momentos e contexto, mas que afetam diretamente a vida cotidiana das pessoas/alunos de maneira concreta e única.
Outro aspecto que denota a fragmentação curricular é a concepção de sujeito implícita no currículo. Na atual organização da grade curricular, há evidências de que o conjunto de disciplinas herdado da ciência moderna trata do conhecimento intelectual (mente) e que a Educação Física trata das questões do corpo (material), conformação que denota o dualismo psicofísico nos processos escolares e que simplifica o movimento a processos naturais como visto anteriormente.
Ao pesquisar a característica do conhecimento da Educação Física para alunos da Educação Infantil, Mariz de Oliveira, Marchioreto e Oyama (1999a) ouviram afirmações do gênero: “eu estudava português... eu estudava matemática. Nas aulas de educação física o que você estudava? Estudar a gente não estudava, a gente só fazia brincadeira.... Nas outras aulas a gente estuda; nas aulas de Educação Física a gente aprende a se divertir”, em uma alusão as outras áreas onde se estuda conceitos, procedimento e atitudes (intelectual) e a Educação Física fica com o papel de entretenimento ligado às “coisas” do corpo, mecânico, automático, que precisa ser domesticado, disciplinado, eficiente, corroborando com a ideia de que a escola trabalha com a concepção do dualismo psicofísico.
Ainda sobre o tema, a própria denominação “Educação Física” também remete ao dualismo psicofísico. Nenhum outro componente se utiliza do termo educação na sua composição. Segundo Mariz de Oliveira (1991) esse fato já elimina um problema sério: se se fosse relacionar a área de Educação Física com a área de Física, e se utilizasse o mesmo pensamento seria difícil entender a que Educação Física estaria se referindo. Outro problema que diz respeito ao nome, já que o físico, relacionado à matéria, não se educa, é o indivíduo (indivisível/único) quem passa pelo sistema educacional escolar e aprende.
Todas estas evidências, da fragmentação corpo e mente, adquirem no contexto escolar um aspecto de dualismo animista em que a relação entre ambas está em uma relação hierárquica em que a mente controla o corpo, o que dificulta sobremaneira o fundamental para o entendimento de um monismo psicofísico (Cf. BUNGE, 1980; DAMASIO 1995, 2011), e sua organicidade sistêmica (Cf. BATESON, 1986; BERTALANFLY, 1975).
Outro problema do currículo escolar fragmentado é a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade, de lidar com as questões complexas que entraram na agenda de temas escolares, dentre os quais a saúde, a nutrição e o meio ambiente. Tentativas de lidar com os
61
temas complexos para dar-lhes sentido foram emprestados da ciência, assim como também foi emprestado o modelo disciplinar que para a escola contemporânea é um modelo superado (Cf. JACOMELI, 2006).
Atualmente o aluno individualmente tem que articular os conteúdos de todas as disciplinas. Os temas transversais mesmo trabalhados de maneira interdisciplinar, não garantem a abrangência necessária, Palharini (2007, p.37-8) ao estudar a relação entre o modelo disciplinar e a educação ambiental afirmou que: “se a discussão sobre meio ambiente no espaço escolar é baseada no conhecimento científico de forma a não escapar do estado disciplinar, podemos pensar, então, que fica comprometida toda proposta de compreensão desse tema”.
Com esse quadro apresentado fica claro que os conteúdos escolares estão distantes do cotidiano dos alunos, e com a falta de significado deixam de ter interesse e consequentemente de serem aprendidos.