indicadores contabilísticos (rendibilidade do activo e rendibilidade dos capitais próprios) do que aos indicadores de mercado (retorno de mercado e crescimento das vendas).
Mackey e Mackey (2007) referem que as medidas de mensuração baseadas no mercado serão mais apropriadas do que as contabilísticas, na medida em que a generalidade dos estudos tende a avaliar em que medida as actividades de RSE podem aumentar ou diminuir os lucros dos investidores. Por seu lado, Griffin e Mahon (1997) evitaram a utilização de medidas de mensuração baseadas no mercado por considerarem que estas poderão avaliar outros resultados para além dos financeiros.
1.6.4. Desempenho Social Empresarial e Desempenho Económico-Financeiro: Investigações e resultados
Diferentes investigações têm sido realizadas, com o intuito de verificarem a existência de relações entre a RSE e o desempenho económico-financeiro. Diversos autores (Wood & Jones, 1995; Pava & Krausz, 1996; Griffin & Mahon, 1997; Waddock & Graves, 1997; Balabanis et al., 1998; Stanwick
47 & Stanwick, 1998; Maignan et al., 1999; McWilliams & Siegel, 2000; Tsoutsoura, 2004; Macedo, Sousa, Sousa & Cípola, 2007; Poddi & Vergalli, 2009;), referem que os resultados obtidos são divergentes. Enquanto alguns indicam uma influência positiva, outros são inconclusivos ou pouco significativos, e outros, ainda, indicam uma relação negativa.
Para Orlitzky et al. (2003), que analisaram diversos estudos que incidiram sobre a relação entre desempenho social e desempenho financeiro, num período de 30 anos de investigação, a tendência encontrada reflecte a existência de uma relação positiva entre ambas as dimensões, tendo em conta diferentes indústrias e diferentes contextos de estudo.
Também as investigações analisadas no âmbito da presente dissertação apontam para resultados positivos ou pouco conclusivos (e.g., Pava & Krausz, 1996; Griffin & Mahon, 1997; Waddock & Graves, 1997; Balabanis et al., 1998; Stanwick & Stanwick, 1998; Maignan et al., 1999; Tsoutsoura, 2004; Macedo, et al., 2007; Poddi & Vergalli, 2009).
Na investigação realizada por Pava e Krausz (1996), os autores compararam empresas identificadas como socialmente responsáveis pelo Conselho das Prioridades Económicas (CEP4), com outras empresas escolhidas de acordo com a dimensão e a indústria, utilizando indicadores de mercado, indicadores contabilísticos e indicadores do risco para a mensuração do desempenho financeiro. Os autores concluíram que as empresas RSE, de forma geral, tiveram um desempenho financeiro pelo menos ao mesmo nível das outras empresas, e em alguns casos melhor. Referem, no entanto, não ser possível afirmar, de forma inequívoca, que as empresas RSE terão melhor desempenho no longo prazo.
Maignan et al. (1999) levaram a cabo um estudo no sentido de verificarem as possíveis correlações entre a cidadania corporativa5, numa óptica de marketing, e os benefícios que poderiam resultar para o negócio. Utilizaram uma amostra inicial de executivos de marketing, tendo realizado um questionário com referência às empresas nas quais trabalhavam. Das várias hipóteses colocadas, uma delas pretendia testar se “quanto mais proactiva a cidadania
corporativa, maior o desempenho do negócio” (p. 59). Concluíram pela existência de uma
correlação positiva entre ambas.
Outros autores, como Stanwick e Stanwick (1998) e Tsoutsoura (2004), também obtiveram resultados positivos. Tsoutsoura (2004), utilizou indicadores contabilísticos para a mensuração do desempenho financeiro e os índices KLD e Domini 400 Social Index para a mensuração da RSE, tendo encontrado correlações positivas significativas. Por sua vez Stanwick e Stanwick (1998) estudaram empresas listadas no índice de reputação da Fortune, no período compreendido entre
4 Do Inglês Council on Economic Priorities.
5 Maignan et al. (1999) utilizaram o conceito de cidadania corporativa que consideraram como a “extensão na
qual o negócio vai ao encontro das responsabilidades económicas, legais, éticas e discricionárias que lhes são colocadas pelos vários stakeholders” (p. 457).
48 1987 e 1992, tendo em conta a dimensão, o nível de rendibilidade e o desempenho ambiental, concluindo por uma forte associação entre o desempenho social e o nível de rendibilidade (mensurado pelo rácio da rendibilidade liquida das vendas). O estudo também sugere que as empresas maiores assumem maiores níveis de desempenho social.
Poddi e Vergalli (2009) tentaram descobrir se certos indicadores de desempenho económico- financeiro poderiam ser influenciados pelo comportamento socialmente responsável das empresas e respectivas certificações. Concluíram que as empresas RSE mais virtuosas, tiveram um desempenho melhor a longo prazo.
Waddock e Graves (1997) concluíram que o desempenho social está positivamente associado com o desempenho económico-financeiro precedente, suportando a teoria de que a disponibilidade de recursos financeiros está relacionada de forma positiva com o desempenho social. Concluíram também que o desempenho social está positivamente associado com o desempenho económico-financeiro futuro, suportando a teoria de associação positiva entre a boa gestão e o desempenho social. Os autores consideraram que a boa gestão e o bom desempenho social, no fundo, poderão ser o mesmo, se o desempenho social for medido de forma apropriada, tendo em conta o relacionamento com os principais stakeholders.
Outros autores, como Macedo et al. (2007), obtiveram resultados pouco significativos. Os autores efectuaram uma investigação, pretendendo comparar dois grupos de empresas brasileiras: Empresas cotadas no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE6), da Bolsa de Valores de São Paulo (BOVESPA); e Empresas representativas do mercado, escolhidas entre as 500 listadas pela revista Exame, em 2006, como sendo as maiores e melhores. Tiveram como objectivo verificar se as empresas cotadas no ISE, que se evidenciaram na adopção de práticas socialmente responsáveis, apresentariam um desempenho, em termos de liquidez, endividamento e rendibilidade, superior, comparativamente com as empresas representativas do mercado. Concluíram pela inexistência de diferenças significativas no desempenho contabilístico e financeiro das empresas socialmente responsáveis, relativamente às empresas do mercado em geral, com uma excepção, registada no sector do papel e da celulose, com referência aos rácios de endividamento, que indicaram um desempenho estatisticamente superior, das empresas socialmente responsáveis. Alegam não ter sido possível verificar a existência de vantagens significativas, em termos de liquidez, endividamento e rendibilidade, da adopção de práticas socialmente responsáveis.
6 O ISE foi criado em 2005 pela BOVESPA e inclui critérios económicos, sociais e ambientais, sendo
constituído por empresas que se destacam relativamente à RSE, procurando estimular as boas práticas nesta área (Macedo et al., 2007).
49 Também Balabanis et al. (1998) no estudo que efectuaram obtiveram resultados pouco significativos. Os autores testaram as possíveis correlações entre a RSE e o desempenho económico, considerando uma amostra composta por 56 empresas britânicas, de grande dimensão, cotadas na London Stock Exchange, e classificadas em termos da sua actuação RSE pela Organização Britânica de investigação e interesse público NCG. Neste caso, Balabanis et al. (1998) reportaram a avaliação do desempenho económico a três períodos: antecedente (1984- 1987); decorrente (1988-1989); e subsequente (1990-1994). Testaram diversas hipóteses, tendo concluído que os resultados indicaram que o desempenho económico (antecedente, decorrente e subsequente) estava relacionado com o desempenho da RSE e com a divulgação da RSE. Dos resultados apresentados salientam-se as correlações positivas verificadas entre o rácio da rendibilidade bruta das vendas e a divulgação da RSE, e entre a filantropia e o rácio da rendibilidade bruta das vendas e o Excess Market Valuation referentes ao período passado. Os autores consideraram, no entanto, as correlações verificadas como fracas e inconsistentes, sugerindo para futuras investigações que se tenha por base o modelo de gestão dos stakeholders, e que em adição aos investidores, outros grupos como os clientes e fornecedores sejam também incluídos.
As investigações nesta área frequentemente utilizam os conceitos de avaliação do desempenho da RSE e de avaliação da divulgação da RSE, como é o caso da investigação efectuada por Balabanis et al. (1998). De acordo com Ullmann (1985, citado por Balabanis et al., 1998), deve-se efectuar a distinção entre ambas, uma vez que existe uma grande diferença entre aquilo que as empresas divulgam e o que verdadeiramente fazem. O autor argumenta que as empresas, por diferentes motivos, tendem a ocultar determinadas informações ou a criar uma imagem muito positiva nos seus relatórios.
Outros autores como Griffin e Mahon (1997), alertam que os estudos neste âmbito se deverão centrar numa indústria específica. Os autores estudaram as inconsistências das metodologias utilizadas para analisar a relação entre desempenho social e desempenho financeiro, tendo concluído que, individualmente, as indústrias operam em contextos distintos, com diferentes preocupações sociais e ambientais, e diferentes padrões de relacionamento com os stakeholders, o que, segundo os autores, reforça essa necessidade. Para os autores essa opção poderá ajudar a identificar os padrões específicos de desempenho social de um determinado sector, e de envolvimento com os respectivos stakeholders, e permitirá também distinguir o desempenho individual das empresas dentro desse sector.