7. The 1980s: Latent Euroscepticism?
7.4. A Changing Community: The Single European Act
Henrique Ruivo nasceu em Borba em 1935 e viveu em Évora até ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (1952), que viria a abandonar quatro anos depois, ao decidir entrar para a Escola de Belas-Artes para seguir o curso de Escultura, vontade que nasceu bem cedo quando frequentou, ainda em 1945, a Missão Estética de Évora. «Em Évora na Missão Estética vejo o fazer, o nascer da peça, com o Pomar, o Vasco da Conceição, o Resende, o Israel Macedo. (…) Aprendi técnicas nessa altura que cheguei a utilizar ao longo da vida. Vi o Pomar fazer as tintas e como não havia dinheiro para comprar tintas comprava-se o pigmento, o óleo de linhaça, o secante, etc. E ali estava a empastar com a espátula. O ver fazer espicaça. (…) Era ainda o atelier antigo, fabricado no momento»2. Ruivo não desenvolveu a utilização destes conhecimentos na elaboração de tintas caseiras, no entanto, nas obras que cria nos anos seguintes, a relação com a materialidade manteve-se.
A opção pelo curso de escultura está relacionada com o gosto pelo tridimensional. Ainda que o seu interesse pela arte tenha sido alimentado desde cedo pela amizade que foi consolidando com um pintor, o seu conterrâneo António Charrua (n. 1925), a escultura atraía-o mais. «Conheci o Charrua depois de estar dois anos em Medicina. Foi uma influência muito grande porque via-o fazer as coisas, os quadros. Nas férias ia para casa dele, passava lá muito tempo. Tinha muitas revistas internacionais e livros de arte (…) Naquela altura grande parte das conversas eram sobre arte. Discutíamos arte, correntes
1 Rafael Alberti, «L’Ultimo Ruivo», in Ruivo, Roma , Galeria Il Capitello, 1971. 2 Henrique Ruivo, entrevista presencial, 7 de Novembro de 2005.
estéticas, novas correntes. Havia uma ânsia de estar informado. A linha do Charrua era o Picasso e o Tamayo. Eu fugia já para outra coisa, para a Arte Bruta e para a arte pobre (…) achei que dominava melhor as três dimensões, um espaço real do que um espaço bidimensional com representações tridimensionais»3.
Ruivo data o início da sua actividade artística de forma contínua, e mais consistente a partir de 1958, altura em que é obrigado a interromper o curso de Belas-Artes para ir para a tropa, pela primeira vez4. Ainda assim pôde acompanhar, sem estar integrado directamente, a Missão Internacional de Arte, também em Évora, organizada pelo pintor Júlio Resende, em que colaboraram, a seu convite, artistas de várias nacionalidades. É sobretudo a via do dripping pollockiano, veiculado pelos pintores americanos Theodore Appleby e Hope Manchester, presentes nesta Missão, que o fascina; não pelo automatismo e gestualidade, mas sim pela liberdade que descobre existir no acto de pintar. Aliás, olhando para os seus trabalhos desse período é interessante notar como passa rapidamente do entornar e pingar de tintas sobre o suporte para a exploração das texturas na superfície do papel, aspecto que caracterizará a sua obra ao longo dos anos seguintes, até à actualidade.
O ambiente de Évora favoreceu o crescimento cultural e artístico de Henrique Ruivo de forma particular no convívio com escritores e poetas como Virgílio Ferreira (1916-1996) ou Júlio dos Reis Pereira (1902-1983), muito mais velhos do que ele, e também com um pequeno grupo de mais novos, nos quais encontramos Álvaro Lapa (1939-2006) e Joaquim Bravo (1935-1990), a que a História da Arte chamará mais tarde o “Grupo de Évora”. Estes encontravam-se, durante as longas férias, no Café Arcada, folheavam as revistas de arte da Livraria Nazaré e discutiam com entusiasmo temas de artes visuais e literatura. Apaixonaram-se pela literatura surrealista e os seus ascendentes, leram Lautréamont, Breton, Éluard, Gracq, entre outros. Ruivo conta que «uma das coisas mais fascinantes no grupo, com o Lapa e o Bravo, era uma grande dose de irreverência. O Virgílio Ferreira era uma pessoa com humor, o Charrua também, mas ainda era um humor politicamente
3 Henrique Ruivo, entrevista presencial, 7 de Novembro de 2005.
4 O percurso académico de Henrique Ruivo é descontínuo. Entra para a Escola de Belas Artes em 1957, interrompe no ano seguinte para cumprir o serviço militar, que termina em 1959. Volta a ingressar no primeiro ano da Escola de Belas Artes. Em 1961 é novamente chamado a cumprir serviço militar, para dar instrução a novos recrutas. Volta para a Escola no mesmo ano. Entretanto adere à greve académica de 62, mas antes da partida para Itália, chega a fazer os exames do 4º ano, o que lhe confere o Curso Geral de Artes Plásticas.
correcto. No outro grupo [o de Lapa e Bravo] já era diferente… era a irreverência total…»5,
Dentro do universo surrealista e no âmbito das artes plásticas foi pela obra de Max Ernst que Henrique Ruivo se sentiu atraído, sobretudo pelas colagens-romance «La femme à 100 têtes» e «Une semaine de bonté». Mas a identificação com o surrealismo estava intimamente relacionada com um interesse político e ético, que emergia da consciência de que fora de Portugal os criadores que gravitavam em torno deste movimento se encontravam envolvidos em grupos de esquerda, em grande parte contra o sistema repressivo centralista de Estaline6. Ruivo explica que «o Surrealismo, com a ameaça do fascismo, era um grupo de esquerda. Alguns surrealistas envolveram-se no ‘Socorro Vermelho’ para arranjar dinheiro para a União Soviética e para as vítimas do fascismo. Mas houve divisões por causa da rigidez de Estaline. Houve um grupo que ficou fiel a Moscovo, em que estava o Éluard, e um grupo que se revia no Trotsky, libertário e anarco- sindicalista, que era o de Breton. Era uma linha que rompia com o sistema repressivo centralista. (…) Como havia o problema salazarista em Portugal, identificávamo-nos com eles». Naturalmente, a situação política vivida em Portugal estava na origem da sua empatia com o surrealismo, levando-os a sentirem-se uma espécie de «discípulos» que também acolhiam e investigavam as experiências estéticas desenvolvidas pelo movimento internacional. No entanto, Ruivo afirma: «De todo o grupo [de Évora] o único que teve posição e militância em grupos políticos fui eu (…) A política já era uma tradição familiar. Em minha casa discutia-se política de manhã à noite».7
Em 1962, Henrique Ruivo viaja para Roma para visitar o irmão, altura em que fica a saber que o seu nome consta na lista de suspeitos do assalto ao quartel de Beja, a tentativa de golpe militar contra o regime de Salazar que ocorrera a 1 de Janeiro desse ano. Receia o regresso a Portugal, em parte pelo facto de ser colaborador, essencialmente na parte gráfica, da revista com tradição de oposição ao regime Seara Nova e acaba por se fixar em Roma, de onde só regressará após a Revolução de Abril de 1974.
5 Henrique Ruivo, entrevista presencial, 7 de Novembro de 2005. 6 Henrique Ruivo, entrevista presencial, 7 de Novembro de 2005. 7 Henrique Ruivo, entrevista presencial, 7 de Novembro de 2005.
Para Roma leva uma pasta com algumas colagens que tinha iniciado em Portugal. Apesar de várias tentativas, não conseguiu bolsa da Fundação Gulbenkian, ao contrário do que aconteceu com muitos outros artistas da sua geração8 que, desde o final da década anterior, começaram a emigrar para Paris. Por essa razão não se pôde dedicar a cem por cento à actividade artística, tendo necessidade de trabalhar no que lhe permitisse sobreviver materialmente. Numa entrevista ao Jornal de Letras e Artes, Henrique Ruivo afirmava «Neste momento não estou a trabalhar embora esteja cheio de projectos. Sucede que nem sempre tenho dinheiro para os materiais (…) Quando estudante da Escola de Belas-Artes de Lisboa fui bolseiro da Fundação e cá fora já por duas vezes pedi bolsa à Gulbenkian mas disseram-me que não».9 Durante a sua estadia a Roma Ruivo dedicou-se a traduções, ilustrações para jornais e revistas e vendeu alguma da sua produção artística. Ao fim de um ano matriculou-se no curso de Historia da Arte Moderna de Giulio Carlo Argan, na Faculdade Letras da Universidade de Roma, e frequentou o atelier do escultor Nino Franchina. Semanalmente, fazia a ronda das galerias romanas e visitava todos os museus e exposições que podia. Viajou também por diversas cidades italianas onde viu pintura, escultura, arquitectura e artes decorativas de todos os tempos. O que o cativou foi essencialmente a arte pré renascentista, sobretudo a de Giotto, Lorenzetti e Simone Martini, com os quais se identificou: «Eu faço histórias, narrativas como os primitivos. O Giotto influenciou muito os meus relevos, e as cidades dos meus relevos são as cidades do Lorenzetti (…). Por um lado interessava-me a arte contemporânea italiana e a Arte Bruta; mas por exemplo, o Museu Etrusco foi o primeiro que vi e fascinou-me».10
Em Itália, o artista expõe individualmente um conjunto de desenhos e colagens em 1963, na cidade de Cogne. Em 1965, terá uma exposição na Suécia, na Galeria Latina, em Estocolmo, onde apresenta pela primeira vez, também numa mostra individual, os seus relevos, que terão eco na imprensa sueca e portuguesa,11 No ano anterior já havia exposto
8 A Fundação Calouste Gulbenkian é fundada em Portugal em 1956 «num momento em que a situação dos artistas se tornara calamitosa, passada e repudiada também a protecção do Estado» ver José-Augusto França,
A Arte em Portugal no Século XX, Lisboa, Bertrand Editora Lda., 1991, pgs. 533-534. Ver capítulo I, Parte II deste trabalho.
9 «Inquérito à Nova Pintura – Henrique Ruivo», in Jornal de Letras e Artes, nº261, Abril de 1968, pg. 35. 10 Henrique Ruivo, entrevista presencial, 7 de Novembro de 2005. (fig. 2.27 a 2.28)
11 No «Diário Popular» sai em 1965, a propósito da participação de Ruivo numa colectiva em Estocolmo, uma extensa notícia que dá conta do eco da exposição de Ruivo na imprensa sueca. «Na realidade, a crítica não poderia ser melhor, se atendermos a que Henrique Ruivo é um estrangeiro quase desconhecido dos suecos. Acontece que as artes, como ambiente de aproximação da Suécia com as forças externas, têm sofrido um malfadado complexo. Há uma espécie de recusa em aceitar qualquer forma de promiscuidade com os artistas que aqui chegam e que não tiveram tempo para arranjar um nome de cartaz. Por outras palavras, os
nesta cidade numa colectiva organizada pela mesma galeria. Em Itália voltará a expor individualmente por diversas vezes: em Florença, (Galeria La Soffita, 1967), Ravena (Galeria La Bottega 1968) e Roma (Galeria Arbesco, 1967, Galeria Il Capitello , 1971, Galeria Ariete, 1973).
Numa altura em que os jovens artistas raramente ficavam a dever a sua cultura visual à possibilidade de ver obras ao vivo, mas sim às reproduções que podiam encontrar nas revistas de arte internacionais que por poucas livrarias circulavam, Ruivo tivera oportunidade de ver em Lisboa duas exposições de arte contemporânea internacional. Ambas agenciadas nas salas do Palácio Foz pelo Secretariado Nacional de Informação, uma apresentava a arte italiana recente (1958) e a outra a pintura espanhola dos últimos 20 anos (1959)12. O artista sentiu-se atraído sobretudo pelo informalismo espanhol de Tàpies, Millares, Feyto, entre outros: «Fiquei encantado com toda essa parte de matérias e materiais. Só que a expressão deles não era figurativa. Utilizavam o material como elemento estético e pronto»13. Nesta altura Henrique Ruivo descobriu a sua afinidade com os materiais não nobres, os detritos ou pequenos objectos encontrados a que podia recorrer para a criação de texturas, volumes e modelações da luz. Ainda nesse ano começou a trabalhar numa série de pequenos formatos a que chamou «as areias» (figs.2.1 a 2.3), pequenos quadros em que experimenta a mistura de diversos materiais e a sua aplicação num suporte bidimensional feito de forma improvisada a partir de retalhos de lençol esticado numa grade de madeira. Apesar da fragilidade do suporte, o conjunto dos materiais utilizados ficou a dever-se justamente à preocupação com a durabilidade14. Para trabalhar a superfície criava uma mistura de cré com óleo de linhaça, inspirada na massa de vidraceiro, embora mais estendida, à qual adicionava verniz de madeira, areias e pigmentos de tons ocres adquiridos em lojas de construção civil. «Se a massa de vidraceiro era resistente à chuva e aguentava… eu fazia a massa com o mesmo material: cré e óleo de linhaça. Estendia para não ficar tão espessa e juntava-lhe areia e verniz de madeira, que era o verniz que se usava antes para cobrir os móveis. (…) A cor era pigmento. Cada zona artistas estrangeiros são bem recebidos, mas apenas quando já venceram nos salões internacionais de Paris ou Nova Iorque. Ver «A Crítica Sueca. O pintor português Henrique Ruivo», in Diário Popular, 22 de Abril de 1965, pg. 8.
1210 Anos de Pintura Italiana, Lisboa, Secretariado Nacional de Informação, 1958, e 20 anos de Pintura
Espanhola Contemporânea, Lisboa, S.N.I., 1959.
13 Henrique Ruivo, entrevista presencial, 28 de Abril de 2005.
14 «As “Areias” foram uma surpresa para mim (…) com grande surpresa minha a matéria resistiu bem. (…) Usei uma tela muito fininha, um resto de lençol» (…). Henrique Ruivo, entrevista presencial, 7 de Novembro de 2005.
levava uma mistura e punha o pigmento na própria massa. Eram pigmentos de construção civil (…) comprados em lojas de construção civil, chamados ‘terras’, por exemplo o castanho era óxido de ferro. Eram os pigmentos que se misturavam com a cal para caiar paredes».15 Esta massa era espalhada em cima do suporte com uma espátula e gravada com uma ponta de metal, antes de secar.
Até ao período das «areias» Ruivo trabalhava apenas em papel, devido à falta de espaço para trabalhos de outra envergadura, que só poderia realizar no espaço mais amplo do terraço da casa dos avós em Évora, onde fez também uma série de esculturas com arames, restos de madeira colados e consolidadas com gesso, das quais, dada a sua fragilidade, só uma, já mais tardia, existe actualmente.