O processo de representação na e pela linguagem do universo do usuário da língua é um processo mediado tanto pela sua própria observação do mundo real, quanto de sua apreensão deste mundo na forma de significações representadas linguisticamente pelo seu agir no discurso. As figuras de ação são uma forma de acessar essas representações.
109 Além desse, há dois projetos semelhantes tramitando no Congresso Nacional para reduzir o conceito de trabalho escravo. O projeto de atualização do Código Penal, por sugestão dos senadores Blairo Maggi (PR-MT) e Luiz Henrique da Silveira (PMDB-SC), e o projeto que regulamenta a emenda 81 (antiga PEC do Trabalho Escravo, que prevê o confisco de propriedades em que trabalho escravo for encontrado e sua destinação à reforma agrária ou ao uso habitacional urbano), por sugestão do senador Romero Jucá (PMDB-RR).
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Atualmente, é impossível se ignorar a importância da comunicação midiática. Também é impossível negar que a presença do homem comum na mídia é parca, insuficiente. Apenas há pouco passou-se a se discutir os efeitos catastróficos trazidos pela midiatização da vida, da tentativa dos seres humanos de se adequar aos padrões midiáticos110. Assim, o homem comum é excluído: “as mídias raramente os colocam em
cena, a não ser para inseri-los em catástrofes ou em acontecimentos insólitos, para atender à sua finalidade de captação.” (CHARAUDEAU, 2007, p. 144).
O trabalhador da cana, homem comum, quando aparece na mídia, é apresentado como um ser sem ação, que precisa ser resgatado de sua condição de escravo, incapaz de agir por si só. Um resgate feito pelas instituições (notadamente o MTE), que são representadas como salvadoras. Veja alguns exemplos:
ONG liberta 2.035 escravos no Sudão (Folha de São Paulo, 09/07/1999, caderno Mundo)
Brasil registra 46 mil trabalhadores libertados em condição de escravos (O globo, 13/05/2014, na seção de ECONOMIA)
MTE resgata 1,6 mil trabalhadores em 2014 (portal Canal Rural, 13/05/2015) Peruanos são libertados de trabalho escravo em São Paulo (Portal R7, 02/11/2015,
Libertados em condição de escravos estão mais velhos e escolarizados (Portal G1, 11/06/2015)
Mais de 300 cortadores de cana são flagrados em situação de escravidão na Bahia (Portal R7, 30/10/2015)
A escravidão hoje é mais cruel do que a dos negros africanos', diz fiscal (Notícias Uol, 27/06/2015)
Alguns casos registram absurdos de desrespeito dos processos de significação representados na estrutura linguística, como o exemplo a seguir
Cortadores de cana atuavam como “escravos modernos” na Bahia (portal Aratu, 01/11/2015)
ou, ainda, parecem abrir vagas exclusivas no mercado de trabalho forma para os grupos oprimidos: pré-requisito para ter o emprego
Obras de infraestrutura abrem vagas para "ex-escravos" (folha de São Paulo, 08/03/2014, caderno Mercado)
110 Exemplos disso se vê claramente na ditadura da beleza que institui a mulher magra e o homem “bombado” como os únicos representantes de todo o universo diverso de corpos que habitam o mundo.
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Todas essas ações são ações de linguagem que, por premissa, interiorizam práticas sociais, e circulam no nosso universo discursivo como a voz social, revestida de conceitos de base legal, como a legislação trabalhista, que busca imprimir justiça nas relações de trabalho. Reproduzem outros tantos discursos que acaba-se por perder a percepção de sua influência para a manutenção das práticas de linguagem (formas básicas do desenvolvimento do homem em relação com os conhecimentos, saberes e desenvolvimento de competências que são relacionadas com o agir e fazer humanos), refletidas nas figuras de ação. As práticas linguageiras não são a única fonte de agir, mas contribuem para as mudanças sociais que se vê ao longo da História.
Algumas ações de linguagem já buscam – como reflexo da mudança – trazer aos olhos da sociedade em geral o cotidiano daqueles que trabalham na cana longe de seus olhos. Inclui-se nessas ações o documentário, as campanhas educativas, a legislação, a divulgação da lista suja e até mesmo as conversas cotidianas que buscam revestir o trabalho de justiça e se insurgem contra a exploração, mesmo que isso pese no bolso. Especificamente na busca de fomentar esse reconhecimento da sociedade quanto ao problema, é preciso que se circunscreva na prática social dos grupos não explorados o universo dos explorados. É preciso trazer para perto de nós os escravos que subsistem com macaxeira dura e falta de água, sem poder tomar banho e dormindo em redes sem lavar. Precisamos vê-los por inteiro.
A busca dessa inserção no nosso cotidiano (não para se banalizar o problema como vimos acontecer com a violência), a presentificação do escravo e de suas mazelas, deve passar pela multimodalidade, pelos processos semióticos de se enxergar o mundo, para causar uma ação efetiva em todos nós, como se viu em todo o mundo com a divulgação do menino sírio morto111, encontrado em praia turca, que simboliza a maior tragédia
mundial após a segunda grande guerra: a crise migratória de 2015.
Algumas ações efetivas buscam trazer esses escravos para perto de nós, nos impactar e fazer refletir e agir (não apenas discursivamente) a respeito do problema. São atividades de texto e de linguagem de ativistas, representantes de organizações sociais de proteção, etc. São atividades que começam a ecoar e a sussurrar em nossos ouvidos
111 A imagem de uma criança morta afogada, encontrada morta numa praia de Bodrum, na Turquia, em 2015, tornou-se central nas discussões sobre e emigração europeia, especialmente aqueles oriundos da Síria. A crise emigratória causou inúmeras mortes. Dados preliminares apontam que, no ano, 220 mil chegaram à Grécia e quase 115 mil, à Itália. Mais de 2 mil chegaram à Espanha e uma centena a Malta. O número no decorrer de 2015 supera o total de 2014, quando 219 mil migrantes tentaram atravessar o Mediterrâneo.
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“você também é culpado”. Ilustro essas ações com duas campanhas (da CPT e do MTE) nesse sentido:
Figura 17Campanha de 2013, da Comissão Pastoral da Terra.
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E circunscrevo este trabalho na perspectiva de trazer para perto de todos nós, o que já está perto de mim. Defendo, como Pinheiro (2012), que a análise textual deve considerar também os múltiplos fatores, cognitivos e discursivos, que entram na sua constituição e na construção do seu sentido, ao que acresço: a análise textual é um momento da análise do discurso que, por sua vez, é um momento da prática social, da qual nós (seres humanos inteiros – inclusive como ser de linguagem) somos apenas um momento (FAIRCLOUGH, 2001, 2003, 2006; CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH 1999).