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You Complete Me – Linking, Differentiating, and Othering

4. Collective Identities, Identity Formation in IR, and Beyond

4.2. You Complete Me – Linking, Differentiating, and Othering

Os homens constroem paredes demais e pontes de menos. (D. Pire)

O acelerado dia-a-dia do homem, permeado por avanços científicos e tecnológicos, o fazem esquecer de sua verdadeira essência, de sua conexão com a natureza e de que todos e tudo estão interligados. Por conseqüência, age de forma a transparecer que sua vida ou a maneira como a vive não dependem de fatores muito além de sua redoma rotineira. No entanto, sua qualidade de vida, seu sucesso, seu desenvolvimento quer seja profissional, ou pessoal, dependem, como também, interferem em inúmeros aspectos da sociedade, podendo surtir efeitos imediatos ou a longo prazo. Um exemplo claro que envolve os dois aspectos é a questão ambiental.

Devido ao elo existente entre causa e efeito é observado que o homem não vive fragmentado, mas sim num todo, onde causas e efeitos decorrem de alguma ação.

Assim sendo, pode-se dizer que o mundo movimenta-se de uma forma holística, num todo. Que tudo e todos estão interligados, o movimento de um impulsiona ou retrai o do outro, à imagem da interconexão dos componentes do Universo.

Todavia, esta interconexão naturalmente existente, parece que se perdeu no caminho, e uma grande divisão se arraigou em nossa visão de mundo, na organização social, e principalmente no nosso sistema educacional, o qual é

necessariamente organizado em um sistema curricular. Onde a organização do currículo escolar ‘tradicional’ compõe-se por disciplinas que se justapõem, porém não apresentam uma associação mútua. Decorre então que o esfacelamento do saber e a formação fragmentada do conhecimento é conseqüência de uma dissociação existente entre as disciplinas. O que é claramente evidenciado por Japiassu (1976, p.40): “A especialização exagerada e sem limites das disciplinas científicas, a partir, sobretudo do século XIX, culmina cada vez mais numa fragmentação crescente do horizonte epistemológico.”.

Embora sua fala seja mais focada ao ensino superior, se percebe a nítida relação dessa concepção nos demais níveis de ensino. Logo, evidencia-se a necessidade de uma articulação dos conhecimentos distanciados uns dos outros e da realidade da qual provieram, a fim de promover a superação da visão restrita de mundo, associando conhecimento e prática.

Surge em decorrência dessa necessidade, uma proposta interdisciplinar, a qual pode propiciar um enriquecimento do saber, através de novos enfoques ou de uma incorporação de conhecimentos entre as disciplinas, oportunizando uma intersecção dos mesmos.

Segundo especialistas, a interdisciplinaridade, pode ser compreendida como uma reciprocidade, um ato de troca, uma interação entre as disciplinas. Essa troca pode estender-se como um movimento ininterrupto de idéias, conceitos, procedimentos e atitudes, ou seja, a interdisciplinaridade possibilita o criar ou recriar de novos focos a discutir, o que evidência que nada é isolado, ou existe por si só.

De acordo com esta visão, Lück conjectura que, a “interdisciplinaridade se constitui em um processo contínuo e interminável de elaboração do conhecimento, orientado, por uma atitude crítica e aberta à realidade [...].” (1994, p.67).

E, para Fazenda (1979, p.32), a interdisciplinaridade “deve ser uma lógica da descoberta, uma abertura recíproca, uma comunicação entre domínios do saber, uma fecundação mútua e não um formalismo que neutraliza todas as significações, fechando todas as possibilidades.”.

Para Japiassu, “a interdisciplinaridade caracteriza-se pela intensidade das trocas entre especialistas e pelo grau de interação real das disciplinas no interior de um mesmo projeto de pesquisa.” (1976, p.74).

Sendo assim, a interdisciplinaridade sugere, a partir de uma coordenação geral, um desenvolvimento integrado de objetivos, planejamentos, atividades e

procedimentos, com o intuito de propiciar o diálogo, a troca, o intercâmbio, o conhecimento conexo e, não mais, fragmentado, visto a interconexão das disciplinas.

Diante do significado da interdisciplinaridade, como vivê-la em sala de aula, especialmente na 1ª série do Ensino Médio?

Antes, porém, convém destacar as características que diferenciam multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade e transdisciplinaridade de interdisciplinaridade.

De acordo com a concepção de Japiassu (1976), o termo multidisciplinaridade evoca muitas disciplinas propostas simultaneamente, entretanto sem demonstrar as relações que podem existir entre elas. Ex.: Geografia + Matemática.

Quanto à pluridisciplinaridade, é a justaposição ou aproximação de várias disciplinas, geralmente tidas num mesmo nível hierárquico, agrupadas de forma a transparecer a relação entre elas. Aqui, um único tema é desenvolvido por mais de uma disciplina, todavia com objetivos diferentes, o tema não é unificador, não há integração das disciplinas. Ex.: Gráficos na Matemática e na Física, tratados de forma compartimentada, cada um na visão da sua disciplina. O mesmo ocorrendo com as coordenadas geográficas, na Geografia, e coordenadas cartesianas na Matemática.

Para a transdisciplinaridade, tem-se que é a gradação pelo multi, pelo pluri e pelo interdisciplinar, ou seja, é o resultado de um objetivo comum num conjunto de disciplinas, onde estas não apresentam mais fronteiras, e a integração passa a ser tanta que, dificulta a identificação do início ou término de cada disciplina. Talvez esta, seja o ‘ápice’ da Educação!

Mas, o interesse aqui, é o campo interdisciplinar e sua correlação com a Matemática.

E, em relação a esta, destaca Japiassu (1976, p.90):

A Matemática aparece como o instrumento privilegiado do interdisciplinar, pois proporciona um aparelho de organização dos conceitos e das estruturas. A primeira condição do interdisciplinar é a possibilidade de confrontar e de harmonizar os vocabulários e as línguas, o que levaria à elaboração de uma interlinguagem.

Como visto em capítulo anterior, a Matemática tem linguagem própria e universal, no entanto, através da língua materna, se pode estabelecer a comunicação pretendida dentro do conteúdo a ser desenvolvido, também se permite relacionar e perceber a Matemática nos mais diversos ramos da Ciência.

E enquanto Kline (1976) vê a Matemática como uma árvore a qual necessita se sustentar em raízes sólidas, Descartes (apud Pires, 2000), vê o conhecimento como uma árvore e a Matemática como seiva desta, que tem por tronco a Física, e por ramos a Sociologia, a Astronomia, e outras áreas. Assim considerada, a Matemática é fonte e condição de possibilidades do saber em qualquer ramo.

Concorda-se com os autores mencionados quanto à estrutura da Matemática, como também quanto à necessidade da mesma nos mais diversos ramos do conhecimento.

Sendo assim, podem-se propor projetos interdisciplinares desenvolvendo a Matemática da 1ª série do Ensino Médio em conjunto com a Física.

Um dos ramos do conhecimento que utiliza a Matemática como ferramenta é a Geografia. E um aspecto de como vivenciar a interdisciplinaridade neste nível de ensino é abordado a seguir, envolvendo as duas disciplinas mencionadas.

Um dos conteúdos desenvolvidos em Geografia na 1ª série do Ensino Médio é o sistema de localização – coordenadas geográficas. Para tanto, é necessário que o aluno identifique conceitos tais como: latitude, longitude, trópicos, meridianos, paralelos e outros. Observa-se que, o aluno, mesmo não sabendo o significado correto das palavras mencionadas, as ouve ou vê freqüentemente em meios de comunicação, por exemplo. Logo, há um pré-entendimento.

Paralelos e meridianos são divididos em graus (Matemática), e através dos paralelos determina-se a latitude (primeira coordenada de um par ordenado, no conteúdo matemático) de um lugar, e por meio dos meridianos a longitude (segunda coordenada de um par ordenado no conteúdo matemático) do lugar.

Coordenadas geográficas servem para localização de pontos ou acidentes geográficos na superfície terrestre, o que implica que não basta apenas saber a posição (norte, sul e demais).

Em Matemática, trabalham-se coordenadas cartesianas. Ora, coordenadas geográficas e coordenadas cartesianas estão intimamente ligadas. Planificando as coordenadas geográficas a associação fica nítida.

Nota-se que, sem a Matemática, este conteúdo de Geografia seria impossível de ser desenvolvido. No entanto, é na maioria das vezes desenvolvido sem ser percebido como Matemática, ou seja, a Geografia apenas usando a Matemática como ferramenta. O mesmo nota-se na Matemática, que trabalha este conteúdo isoladamente, desconectado da realidade onde está inserido, exemplificado aqui pelas coordenadas geográficas.

A atividade proposta envolve Geografia e Matemática conjuntamente, uma completando e complexificando a outra. Ambas atuam na prática, desenvolvendo a teoria, vivenciando-a, exercendo-a.

A atuação da teoria na prática é dada pela linguagem, a qual é um fator crucial para o sucesso da aprendizagem. Fator este fortemente observado por Fazenda: “Nesse processo de fazer, discutir, refletir, refazer, percebi que a interdisciplinaridade é também a prática da fala, da escrita e da linguagem, que são requisitos fundamentais no processo ensino aprendizagem.” (1993, p.17).

Desta forma, Geografia e Matemática, falando a mesma ‘língua’, desenvolvendo seus conteúdos num só, enriquecem-se mutuamente e tornam-se visíveis no dia-a-dia do aluno. Este sente que o que está aprendendo na escola lhe é útil em sua vida, está diretamente ligado à realidade concreta dos investimentos humanos.

É neste sentido que, a interdisciplinaridade atua, possibilitando avanços próprios a cada disciplina, ao mesmo tempo em que constrói e reconstrói o mundo. Em suma, “o que importa não é mais saber por saber, nem tampouco o conhecimento por si mesmo, desinteressado, desengajado. O que realmente conta é um saber para fazer.” (JAPIASSU, 1976, p.107).