Nada mais vale do que um cérebro bem instruído. Eclesiastes (Séc. III a.C.)
Todo homem vive em um contexto social com características próprias. E por menos evoluído que seja este contexto, sempre há a comunhão de idéias ou costumes.
Na sociedade atual, a utilização de inúmeros saberes, construções e evoluções conquistadas pelo homem tornam a vida mais dinâmica. Desfruta-se de tecnologias e praticidades que a Ciência proporciona graças à capacidade de muitos homens de socializarem suas experiências e, principalmente, de um constante movimento na procura por respostas a determinados questionamentos, fator este que impulsiona o desenvolvimento do conhecimento.
É sob este prisma de transformações, de mudanças, de evolução, de conhecimento e, especialmente, de busca de resposta a questionamentos que se enfoca o sentido da palavra pesquisa em sala de aula.
Sendo assim, o pesquisar, como resposta a questionamentos e avanços, vê- se imbricado ao processo dialógico, visto que através da linguagem estabelece-se a comunicação, oportunizando a argumentação, aspecto este crucial no ato de pesquisar.
A argumentação pode parecer intrigante a muitos leitores. Veicula-se, então, a idéia concebida por muitas pessoas, entre elas alunos e professores, de que pesquisar evoca a prática de procurar determinado assunto em livros ou
enciclopédias e, ali, obter a resposta pronta e acabada, ou seja, cópias e resumos, o que vem em sentido contrário à argumentação. Logo, esta concepção nada tem a ver com o verdadeiro sentido de pesquisar.
Através da prática de cópias e resumos não há troca de idéias, não se analisa, não se pensa sobre o assunto em foco, logo não há aprendizagem. Ao passo que a pesquisa enriquecida pela argumentação constrói e aprimora o já construído como assegura Demo: “Aprende-se do que já se aprendeu, por reestruturação, reciclagem, até porque somos seres com passado, memória, sentido. É impossível inventar um texto sem contexto, pois este vem sempre antes, como condição intrínseca.” (2002b, p. 52-53).
Sendo assim, pesquisar não se limita a cópias e resumos, mas sim a uma forma de construção e reconstrução do conhecimento.
A construção do conhecimento através da pesquisa em sala de aula implica uma nova significação na atuação do aluno e do professor. A prática pedagógica passa a ser dinâmica e dialógica. Os alunos questionam, buscam respostas, trocam idéias, tornam-se sujeitos críticos, argumentativos, pensantes e capazes de criar. Professor e alunos aprendem juntos.
Entretanto, desenvolver uma prática pedagógica voltada à pesquisa em aulas de Matemática, em especial nas 1ª séries do Ensino Médio, é desafiador, haja vista as inúmeras problemáticas apresentadas neste nível, sejam sob aspectos sociais, econômicos e principalmente do conteúdo matemático em si.
Saliente-se que não existe uma receita ou uma abordagem a ser copiada para desenvolver a pesquisa em sala de aula. O fator essencial para a sua prática é a disposição e criatividade do professor em construir ou adaptar idéias que possam contribuir para a sua aplicabilidade, a fim de abortar a rotina existente nas aulas de Matemática e evidenciar o verdadeiro sentido do pesquisar.
Relata-se a seguir uma prática de pesquisa em sala de aula, desenvolvida na disciplina de Matemática pela pesquisadora em sua atuação docente. As falas apresentadas no texto são dos alunos da pesquisadora, isto não implica serem estes sujeitos da pesquisa, mas sim tomadas devido a relevância que possuem.
A atividade que segue foi proposta na 1ª série do Ensino Médio. O conteúdo principal a ser desenvolvido foi função exponencial. Este conteúdo é geralmente trabalhado no início do terceiro trimestre letivo, onde as condições climáticas favorecem a atividade em foco; aqui, ‘o crescimento do feijão’.
Aproximadamente uns vinte dias antes do início do conteúdo propriamente dito, o professor propõe aos alunos que plantem alguns grãos de feijão no algodão ou na terra, como lhes fosse melhor, contanto que pudessem trazê-lo para a apreciação dos colegas e professor, quando pronta a atividade.
O principal objetivo é acompanhar o crescimento, relatando as medidas para uma construção gráfica. A partir do 4º ou 5º dia depois de plantados, dependendo das condições em que o foi, inicia a germinação. Então, cada aluno acompanha o crescimento, medindo de dois em dois dias a altura adquirida pelo vegetal (no mínimo 5 medidas). Com as variáveis, dias e medidas, constrói-se o gráfico correspondente ao crescimento do feijão.
Já durante as explicações de como proceder para desenvolver a atividade surgiram muitos questionamentos: Duvido que vá nascer no algodão! Precisa de água? Onde colocar para germinar? Como vou medir? Isso não vai dar certo! Neste momento, trocam-se idéias, alguns relatam que já realizaram esta tarefa nas séries iniciais, que colocaram na janela para pegar claridade, etc.. Muitas possibilidades foram apresentadas.
O professor reforça: Cada um cuidará da sua plantação como lhe convier!
Na aula seguinte, já vinham relatando quantos grãos plantaram e como o fizeram. A cada aula uma história: O meu não está nascendo. O que fiz de errado? Será que grão de pacote não nasce, está velho, seco? É transgênico? O meu está crescendo para baixo (se referindo à raiz, sem se dar conta do que era)!
Um aluno explica o crescimento para baixo: O meu! Antes de ir para cima, precisa de raiz par sustentar o pé, então, é a raiz que está indo para baixo, o que irá para cima é o caulezinho! Riam e aprendiam.
Quando não conseguiam clarificar as dúvidas, era-lhes sugerido que procurassem em livros, que lessem a respeito, que perguntassem a outros professores, como por exemplo, os de Biologia e Geografia. Assim o fizeram, foram à busca. Com o transcorrer da atividade, muitos perceberam que não faziam nem idéia de como era um pé de feijão e muito menos como se produzia o alimento. Um aluno perguntou: Um pé de feijão dá só um grão? Como o grão fica no pé? Na aula seguinte vieram com gravuras e textos explicativos acerca dos questionamentos; os professores de Biologia e Geografia contribuíram com a indicação bibliográfica.
Percebe-se que pode ser desenvolvido com naturalidade um trabalho interdisciplinar, abrangendo praticamente todas as disciplinas.
Quanto às questões diretamente ligadas à Matemática, alguns não acreditavam nas medidas realizadas, duvidando do crescimento tão rápido. Confirmavam o procedimento com o professor. Repetiam as medidas, alguns adaptaram uma régua junto à planta para não haver ‘perdas’ nas medidas. Outros foram anotando a medida relativa a cada prática, ou seja, o crescimento final; uns anotaram somente o crescimento em cada intervalo. Ambos os procedimentos são válidos. Ao construírem o gráfico, os que tinham alguma dificuldade buscavam ajuda.
Assim que cada aluno concluía as cinco medidas, traziam o pé de feijão e o gráfico representando o respectivo crescimento em um papel milimetrado. A entrega era registrada com fotos, sentiam-se orgulhosos em pousarem ao lado do seu feijão e do gráfico.
O dia de ‘ensinar o conteúdo novo’ é chegado, e para realização do professor, trabalhar função exponencial foi apenas dar a complexificação e a nomeação formal ao conteúdo. Os alunos já tinham a prática, pois observaram e acompanharam o crescimento do vegetal, o qual cresce exponencialmente. Os educandos construíram o conhecimento. Tinham a visão na prática de uma função exponencial crescente; quanto a decrescente, não houve dificuldades.
Em relação à idéia de construção do conhecimento, assegura Paulo Freire: “É preciso saber que ensinar não é transferir conhecimentos, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou construção.” (1997, p.52).
A teoria e a prática atuaram simultaneamente. Os alunos realmente aprenderam. Partiram de questionamentos, argumentações, trocaram saberes, fizeram uma construção gráfica a partir do real, ampliaram o conhecimento para além da Matemática.
Ao professor foi possibilitado ampliar seus conhecimentos em outras áreas, reaprender como trabalhar função exponencial, estimular as novas empreitadas e, principalmente, proporcionou conhecer melhor seu aluno e entender o porquê de muitas limitações em entender Matemática.
O professor, além de orientador, foi um companheiro no processo.
Convém ressaltar que esta atividade foi previamente pesquisada e desenvolvida pelo professor, assegurando o sucesso da mesma. E segundo Demo: “Vale como regra que não se pode fazer nada em sala de aula que não tenha sido antes devidamente pesquisado e formulado.” (2002a, p.45).
Observa-se que, na atividade desenvolvida, embora fosse uma prática individual, houve a cooperação mútua, ao discutirem, apresentarem possibilidades e responderem aos questionamentos uns dos outros.
Percebe-se, ainda, que os questionamentos foram uma constante durante o período e que produziram conhecimentos e argumentações condizentes. O saber ampliou-se a partir de um ponto central expandindo-se em rede entre teoria e prática.
Através da construção e reconstrução do conhecimento, o aluno passa de objeto a sujeito, segundo Schwartz (2002), uma vez que, neste processo, há a participação plena do aluno, o que implica uma aprendizagem significativa para o mesmo.
Nessa perspectiva, os alunos trilham o caminho da sua independência e emancipação como sujeitos, pois o aprender de fato ocorre.
“Aprender, portanto, é um ato criativo através das elaborações do aprendente; é um ato interativo com a realidade; e é um ato social, porque tributário dos conhecimentos dos outros.” (SCHWARTZ, 2002, p.168).
Fica evidente que atividades, que iniciam com questionamentos e dúvidas podem estimular a busca pelo saber; proporciona a troca de informações e conhecimentos entre professor e alunos; se estende para além do conteúdo em si; estrutura o saber na relação dinâmica entre teoria e prática; desenvolve a criatividade, criticidade e o pensar; transforma o aluno em partícipe do seu aprendizado.
Esta prática, com essas perspectivas, é o que se entende por pesquisa. A atividade desenvolvida corresponde a uma pesquisa em sala de aula. Comprova-se, assim que a verdadeira pesquisa em sala de aula é possível. E se é possível em aulas de Matemática, a idéia estende-se aos demais componentes curriculares.