É assim que no livro “Sexual conduct”, publicado pela primeira vez em 1973, Simon e Gagnon afirmar que o sexo, ao invés de ser natural, é, em grande parte, sujeito a “uma modelação sociocultural” (Weeks e Holland, 1996: 4). Tendo sido criada, pelos autores, numa tentativa de conseguir um instrumento analítico capaz de descrever o modo como a pessoas fazem sexo socialmente e de demonstrar a importância dos elementos sociais nas ações sexuais - “no fazer do sexual” (Gagnon, 1998, in Gagnon, 2004: 275), a teoria dos guiões sexuais permite analisar as inter- relações entre: práticas, conteúdos mentais, interações sociais e conteúdos culturais (Bozon e Giami, 1999).
De acordo com Gagnon e Simon (Gagnon e Simon, 1973, in Gagnon, 1991, in Gagnon, 2004: 136), “os guiões estão envolvidos na aprendizagem do significado de estados internos, organizando as sequências de atos sexuais específicos, descodificando novas situações, colocando os limites nas respostas sexuais e ligando significados de aspetos não sexuais da vida especificamente à experiência sexual”. Deste modo, os guiões sexuais relacionam sentimentos de desejo e prazer, ou de desgosto e desintegração, com atividades corporais, como o contacto físico e os sinais físicos de excitação; definem a sequência do que deve ser feito num ato sexual: o que deve ser feito com determinada
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pessoa, em que circunstâncias, em que alturas, que sentimentos ou motivos são apropriados ao acontecimento; guiam a identificação/conhecimento do que é ou não uma situação sexual; e contém os elementos que ligam a vida erótica à vida social no geral. Assim, estes não estão apenas na posse de atores singulares, mas existem como parte da estrutura social (Gagnon e Simon, 1973, in Gagnon, 1991, in Gagnon, 2004).
Os guiões sexuais comportam três níveis65: (Simon e Gagnon, 1986, 1987, in Gagnon, 1991, in Gagnon, 2004): os guiões intrapsíquicos, os guiões interpessoais e os cenários culturais. Os cenários culturais podem ser pensados como guias de instruções que existem ao nível da vida coletiva. Todas as instituições e arranjos institucionalizados (como a família, a escola, a igreja, a lei ou os media) podem ser entendidos como sistemas semióticos através dos quais são dados o requerimento e a prática de papéis específicos. As instruções para os papéis estão inseridas em narrativas - os guiões para papéis específicos, que providenciam o entendimento que faz com que o desempenho dos papéis seja possível. Neste sentido, o indivíduo pode ser tratado como um elemento, mais ou menos ativo, numa audiência para a instrução social, sendo que, dependendo de várias variáveis (como a idade, a classe ou a etnicidade), pode estar/ser mais ou menos recetivo a estas instruções. Os guiões interpessoais operam ao nível da interação social, sendo que a aceitação e o uso destes guiões está na base dos padrões continuados do comportamento social estruturado. Neste caso, o indivíduo é um ator que vai de encontro às expectativas das outras pessoas, e que guia a sua conduta em termos da conduta do outro. O conceito de guião como interpessoal relaciona a interação com a vida mental. Por fim, os guiões intrapsíquicos dizem respeito ao conteúdo da vida mental, em parte resultante do conteúdo dos cenários culturais e das dinâmicas da interação, e em parte independente destes. Os problemas de relacionar o significado (cultura) com a interação (a ação social) são geridos no domínio do intrapsíquico. Os guiões intrapsíquicos têm várias origens, sendo, muitas vezes, versões construídas de cenários culturais que foram improvisadas e, por vezes, permanentemente revistos de modo a irem de encontro às exigências da interação concreta. Em muitos casos a versão ideal do cenário cultural – como o indivíduo se deve comportar e as suas variantes pragmáticas, são mantidas de forma concorrencial na mente dos indivíduos.
A relação entre cenários culturais, guiões interpessoais e guiões intrapsíquicos é complexa, diferindo através de culturas e de épocas, mas também entre subculturas e entre indivíduos dentro de culturas e dentro de subculturas. As relações entre os três níveis são assim dinâmicas e interativas, e se alguns indivíduos reproduzem de forma não problemática os cenários culturais, outros não conseguem ativar os papéis que devem desempenhar (Gagnon, 1991, in Gagnon, 2004). Os indivíduos são socializados para desempenhar determinados papéis, mas à medida que é necessário utilizar os guiões, os atores modificam-nos de modo a que estes possam corresponder às exigências das situações
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Em “The Social Organization of Human Sexuality”, Laumann et al. (1994) acrescentam à teoria dos guiões aspetos relacionados com as teorias da escolha racional e da teoria das redes, de modo a complementar a primeira e a tornar o estudo mais abrangente.
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concretas em que se encontram, tornando-se, deste modo, parte ativa na ativação dos guiões e no desempenho da situação de interação. Estas modificações variam na sua amplitude, podendo ser transformações mínimas quando existe congruência entre as expectativas dos cenários culturais e as circunstâncias concretas; mas podem ser, também, de maior amplitude, por exemplo em situações novas que exijam adaptações (embora sejam feitas sempre a partir de materiais já existentes). Neste sentido, os guiões intrapsíquicos – a atividade mental, são essenciais quando ser-se um ator social adequado ou quando a modificação dos materiais dos cenários culturais se torna difícil (Gagnon, 1991, in Gagnon, 2004). O conceito de guião sexual sugere, então, que um ato sexual deve ser visto como um processo complexo e multidimensional, apesar de este não ser necessariamente experienciado como complexo (Simon, 1996). A confiança dos atores no seu processo de guião leva- os à ação, permitindo-lhes experienciar os desejos sexuais como forças “interiores” poderosas, capazes das preferências mais minuciosas, que podem ser reconhecidas de forma instantânea, sem serem articulados (Simon, 1996).
Alguns dos contributos centrais do trabalho de Gagnon e Simon, foram, então, os de mostrar que o sexo é uma atividade sexual como outra qualquer, que não é imune às normas sociais; dar espaço à agência e à mudança na identidade sexual, na medida em que esta é considerada como constantemente modificada ao longo da vida, devido a um processo de reflexividade, no qual existe um uma relação bidirecional entre passado e presente; distinguir analiticamente género e sexualidade; e mostrar a necessidade de prestar atenção ao facto da conduta sexual poder ser motivada por motivos não sexuais, ocorrer no contexto das nossas vidas quotidianas e ser moldada por instituições sociais mais amplas (Kimmel, 2007; Jackson, 2007; Jackson e Scott, 2010). Ao questionar o estatuto “especial” da sexualidade, Gagnon e Simon permitem recolocá-la como um aspeto da vida social, entre muitos outros (Jackson e Scott, 2010). No entanto, e apesar da sua importância para o desenvolvimento da sociologia da sexualidade, o livro e as teorias de Gagnon e Simon nunca foram tão centrais para o debate teórico e intelectual, como aconteceu com o trabalho de Foucault (Bozon e Giami, 1999).