1. Introduction
4.7 Part 2: New opportunities
4.7.3 Yes, please, I would like to have some mattak
Para a extração do ouro tanto nos aluviões quanto nas rochas, os mineradores precisavam empregar ferramentas, maquinários e demais apetrechos que auxiliassem a mão-de-obra escrava no maneio das lavras. Com o intuito de identificar quais eram os instrumentos mais freqüentes e mais comuns na lide mineratória, bem como aqueles que podiam ser utilizados pontualmente por um ou outro minerador, foi necessária uma maior aproximação do universo material das lavras, o que se deu por meio da pesquisa em documentos diversos, porém de forma mais incisiva nos inventários e testamentos dos mineradores setecentistas.
Para tanto, foi selecionado um grupo de 68 mineradores, sendo 13 para o termo de Vila Rica, 17 para o termo de Sabará e 38 para o termo de Vila do Carmo/Mariana323. O período abarcado pela amostragem estende-se ao longo do século XVIII, tendo como marcos
323
Um trabalho mais sistemático com esta amostragem de mineradores é apresentado no capítulo 4 desta dissertação.
Fig. 18 – Lavage du minerai d’or pres de la montagne Itacolumi. Johann Moritz Rugendas, 1835 (ano da publicação).
A imagem acima é especialmente rica por apresentar diferentes momentos do cotidiano nas lavras auríferas de Minas Gerais. A cena ao lado foi selecionada aqui por retratar o trabalho de extração em uma mina. Como pode ser observado na movimentação que a cena sugere, os escravos transitam por pontes improvisadas, ora descendo com o material retirado no interior da galeria, ora subindo com os carumbés vazios. O perigo iminente neste trabalho fica evidente no temor manifestado por um negro que hesita subir o caminho até a boca da mina, mas que é coagido a fazê-lo pelas ameaças do chicote de um (provável) feitor. A mão-de-obra feminina na atividade pode ser atestada pela presença de, pelo menos, duas negras com seus carumbés sobre a cabeça. Outro momento, retratado no canto esquerdo (do detalhe), reproduz o trabalho de trituração de grandes blocos de pedra retirados do interior da mina ou de suas imediações. A areia assim formada seria depois apurada em lavadouros especiais. Por fim, cabe mencionar que, neste caso, ao que parece, o escoamento de água se dava pela própria inclinação da galeria.
cronológicos os anos de 1722 e 1798. Cabe observar aqui que o avanço no recorte temporal, originalmente delimitado para a pesquisa, teve o propósito de verificar os recursos técnicos utilizados pelos diversos mineradores durante o auge da atividade minerária, comparando-os com aqueles usados em um contexto marcado pela decadência da produção.
A seguir, é apresentada a TAB. 1 com os resultados das ferramentas e aparelhos de minerar encontrados. A coluna “Ocorrência” corresponde ao número de mineradores que possuíam o instrumento dado e a coluna “Total de unidades” traz a soma de todos os instrumentos registrados.
Uma última observação a ser feita refere-se a uma forçosa imprecisão dos dados coletados, oriunda da própria forma como as informações foram – ou não – disponibilizadas nos documentos. O maior problema enfrentado nesse sentido está relacionado ao fato de os inventários terem sido produzidos para interlocutores de uma mesma época histórica, falantes de uma linguagem comum, e que por isso dispensava explicações minuciosas, por vezes tão valiosas ao ofício histórico. Assim, em vários documentos foram encontradas referências sem maiores detalhes e especificações, como no caso do minerador que possuía “vários serviços de minas e buracos neste morro de Santa Ana e as ferramentas necessárias”324. Outras vezes, as datas minerais foram simplesmente declaradas “com todas as suas pertenças” ou “todas as ferramentas de minerar”.
Ainda que nesses casos, os tipos de ferramentas e apetrechos pudessem ser inferidos com base nas informações encontradas em outros documentos, contudo, não puderam ser computados, fazendo com que alguns dos dados apresentados estejam, de certo modo, subestimados. Da mesma forma, a imprecisão das informações encontradas pode ter levado a superestimação de alguns outros dados. Seja como for, isso não impediu o objetivo originalmente proposto, qual seja, o de rastrear as principais ferramentas e aparelhos usados na faina mineradora.
324
TABELA 1
Ferramentas e aparelhos de minerar
TERMO: TERMO DE VILA RICA TERMO DE SABARÁ TERMO DE MARIANA TOTAL
Mineradores Período: 13 mineradores 1740-1784 17 mineradores 1722-1779 38 mineradores 1725-1798 68 mineradores 1722-1798 Ferramentas / Aparelhos de minerar Ocorrência Total de unidades Ocorrência Total de unidades Ocorrência Total de
unidades Ocorrência Unid
Alavancas 09 69,2 76 16 94,1 +185 35 92,1 294 60 88,2 +555 Almocafres 07 53,8 75 14 82,4 +263 34 89,5 466 55 80,9 +804
Enxadas 06 46,2 72 13 76,5 +373 33 86,8 539 52 76,5 +984 Cavadeiras 02 15,4 12 03 17,6 17 12 31,6 84 17 25,0 113
Picaretas / Picões / Alviões 03 23,1 06 07 41,2 37 05 13,2 10 15 22,1 53 Marrões 06 46,2 37 09 52,9 +20 21 55,3 70 36 52,9 +127 Marretas 00 00 00 04 23,5 17 01 2,6 03 05 7,4 20 Cunhas 02 15,4 04 04 23,5 15 10 26,3 +24 16 23,5 +43 Brocas 02 15,4 08 02 11,8 02 06 15,8 13 10 14,7 23 Soquetes / Socadores 01 7,7 01 00 00 00 04 10,5 04 05 7,4 05 Carros de minas 03 23,1 +31 00 00 00 03 7,9 05 06 8,8 +36 Carumbés 00 00 00 01 5,9 17 05 13,2 +143 06 8,8 +160 Bateias 00 00 00 01 5,9 03 06 15,8 +56 07 10,3 +59 Gamelas 04 30,8 07 02 11,8 02 10 26,3 +34 16 23,5 +43 Bolinetes / Canoas 01 7,7 02 02 11,8 32 06 15,8 +21 09 13,2 +55 Cacos 00 00 00 00 00 00 01 2,6 01 01 1,5 01 Sarilhos 01 7,7 01 00 00 00 02 2,9 03 03 4,4 04 Barris / Cascos 03 23,1 +12 01 5,9 01 03 7,9 23 07 10,3 +36 Engenhos de socar pedra 01 7,7 01 02 11,8 02 04 10,5 04 07 10,3 07 Rosários 03 23,1 03 08 47,1 16 21 55,3 25 32 47,1 44
Ferro (estoque) 05 38,5 indefinido 06 35,3 indefinido 08 21,1 indefinido 19 27,9 indef. Madeiras (peças, estoque) 01 7,7 indefinido 03 17,6 indefinido 07 18,4 indefinido 11 16,2 indef
Entre as ferramentas usadas para escavar a terra, mover blocos de pedra, solapar massas rochosas, desmoronar barrancos e remexer cascalhos e areias auríferos destacam- se, na ordem de ocorrência nos inventários/testamentos, as alavancas, os almocafres, as enxadas e as cavadeiras.
A alavanca, na definição do célebre Bluteau, correspondia a um “varão de ferro, do comprimento de uma vara de medir, da grossura do pulso de um braço, com uma ponta da feição de cunho, e da outra parte bico. Serve de abalar, e tirar do seu lugar pedras, ou outras cousas de peso. Também há Alavancas de pau”325. A extremidade em bisel servia para desagregar as formações moles e, a em ponta, as duras326. Todavia, a pesquisa revela que nas Minas havia certa diferenciação entre as alavancas, baseada principalmente no peso e tamanho das mesmas.
Em geral, eram simplesmente diferenciadas entre grandes e pequenas, sendo que uma alavanca grande, com a função de “desbarrancar”, tinha em torno de 01 metro de comprimento e pesava cerca de 7-8 kg (16-17 libras), enquanto uma alavanca pequena podia pesar entre 3,5-5,5 kg (8,5-12,5 libras). Entre estas últimas, existiam ainda as pequenas alavancas de “solapão”, cujo peso girava em torno de 2,0kg (4,16 libras). Provavelmente eram ferramentas adaptadas e específicas para se trabalhar no interior de escavações subterrâneas, onde o espaço disponível era menor do que nas escavações a céu aberto, visto que foram encontradas especialmente entre os apetrechos de mineradores que se dedicavam à exploração de minas e buracos.
A distribuição das alavancas entre os mineradores não se dava de forma homogênea. No termo de Vila Rica, por exemplo, dentre as 09 ocorrências encontradas para esta ferramenta, apenas dois mineradores absorviam quase a metade do total das unidades inventariadas. Manoel Dias Guimarães, possuidor de minas e buracos no Morro do Padre Faria, tinha 17 alavancas entre pequenas e grandes, sendo 12 de solapão327; o Capitão Antonio Francisco França, juntamente com seu sócio, o Sargento-mor Antonio Francisco Borim, somava 06 alavancas grandes e 12 pequenas nas suas lavras de veio d’água e grupiaras sitas na paragem chamada Soledade, em Congonhas do Campo328. No restante das ocorrências (07), a quantidade variou de 01 a 12 alavancas por minerador.
325
BLUTEAU. Vocabulário Português e Latino, 2000 (CD-Rom).
326
Da mesma forma, o viajante francês Saint-Hilaire definiu a alavanca como “uma barra de ferro terminada de um lado por uma cunha, e na outra extremidade por uma ponta de pirâmide quadrangular”. SAINT- HILAIRE. Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, p. 111.
327
Inventário de GUIMARÃES, Manoel Dias. CPOP, códice 105; auto 1326; 1º ofício; ano 1784.
328
No termo de Sabará, o abastado minerador Alexandre de Oliveira Braga possuía sozinho 37 unidades, entre “boas e inferiores”, nas suas lavras de tabuleiro no Rio das Velhas, próximo ao morro do Maia329. O minerador mais rico deste termo, Jacinto Vieira da Costa, reunia 33 exemplares nas suas explorações dos aluviões do Rio das Velhas, na freguesia de Roça Grande330. No restante das ocorrências (14), a quantidade de alavancas variou de 02 a 24 unidades por inventário.
Já para o termo da Vila do Carmo/Mariana, a maior quantidade dessa ferramenta concentrou-se no inventário de Mariana Correa de Oliveira que, na sua lavra de talho aberto no Morro da Passagem, possuía 31 alavancas entre grandes e pequenas331. Os outros 34 mineradores que possuíam alavancas entre seus apetrechos minerais, tal como em Sabará, também apresentavam de 02 a 24 exemplares.
Outra ferramenta muito difundida no espaço das lavras era o almocafre, presente em 80,9% da amostragem. É preciso considerar, no entanto, que essa porcentagem não reflete a realidade, pois vários inventários feitos com base em escrituras de compra/venda não discriminaram as ferramentas do minerador. O almocafre era uma espécie de enxada estreita e pontiaguda, com a folha curva em ângulo reto. Este formato peculiar permitia tanto revirar os cascalhos auríferos, quanto retirar o sedimento depositado entre grandes blocos de pedra, difíceis de serem deslocados332.
A palavra também é usada na língua espanhola para designar um “instrumento que sirve para escardar y limpiar la tierra de malas hierbas y para transplantar plantas pequenas”333. A etimologia árabe do termo – abu káff ou al-mihfar – aponta para a origem dessa ferramenta e sugere que a mesma teria sido introduzida na Península Ibérica durante a ocupação árabe334. Ao que parece, o almocafre era empregado também na agricultura. Todavia, nas Minas setecentistas, certo é que se tornou uma ferramenta específica da mineração.
329
Inventário de BRAGA, Alexandre de Oliveira. CBG, CSO I (33) 266, ano 1771.
330
Inventário de COSTA, Jacinto Vieira da. CBG, CSO I (21) 189, ano 1760.
331
Inventário de OLIVEIRA, Mariana Correa de. CSM, códice 46, auto 1050, 1º ofício, ano 1748.
332
O almocafre tinha a lâmina achatada e curva, com a largura diminuindo da base (arredondada), em direção à extremidade (pontiaguda). GUIMARÃES, Revista de Arqueologia, p. 59.
333
Diccionario de la lengua española da Real Academia Española. Disponível em www.rae.es. De acordo com este dicionário, a palavra é originária do árabe hispânico abu káff e este, por sua vez, do árabe clássico
abũ kaff, que significa “el de la mano”.
334
O dicionário de Raphael Bluteau não traz nenhuma referência ao termo almocafre. Já o dicionário Aurélio da Língua portuguesa define o termo como originário do árabe al-mihfar que significa “enxada”; “sacho de ponta usado na mineração; almocafo”. Novo Dicionário Aurélio Eletrônico - século XXI. Versão 3.0, 1999 (Cd-Rom).
Presente em ambos os espaços – lavras e roças – encontrava-se a enxada, não por acaso a ferramenta em maior quantidade nos inventários e testamentos pesquisados. Sua função ia desde a limpeza/capina de terrenos até o ajuntamento e deslocamento do material extraído das escavações.
As cavadeiras, por sua vez, consistiam em uma peça de ferro com gume, adaptada à extremidade de um bastão de madeira, tal como as enxadas. Serviam, dentre outras coisas, para os desbarranques, afrouxar terrenos argilosos e abrir buracos.
Assim como observado para as alavancas, a distribuição dos almocafres, das enxadas e das cavadeiras não se dava de forma homogênea entre os mineradores. Obviamente, a maior ou menor concentração de ferramentas estava condicionada a dois fatores: a quantidade de mão-de-obra que o minerador possuía e a sua condição para comprar ferro e pagar pelo trabalho dos ferreiros na feitura e conserto das mesmas335.
335
Em 03/02/1713, a Câmara de Vila Rica acordou que “se seguia grande prejuízo aos moradores o muito grande preço que os oficiais de todos os ofícios levavam pelas obras que faziam, e que era muito conveniente o por se lhes taxas e darem se lhe regimentos”. Para se ter uma idéia dos preços cobrados em um momento de prosperidade da produção aurífera, reproduzimos o regimento dos oficiais de ferreiros: “-Por calçar uma alavanca de ambas as pontas, dando o dono o aço para ela, pataca e meia e, pondo o oficial o aço, lhe deitará uma libra e levará oitava e meia e de a apontar sem aço, meia oitava; -De fazer um almocafre, pondo o oficial o ferro, oitava e meia e, dando-se o ferro pataca e meia; -De apontar um almocafre meia pataca; -De fazer uma enxada nova, pondo o oficial o ferro, sendo de marco, levará três oitavas e, sendo enxada pequena, levará três oitavas, digo duas e, dando-se o ferro para elas, pelas grandes levará oitava e meia e pelas pequenas uma oitava e, de a empenar, levará oitava e meia, dando o oficial ferro e dando-se-lhe, pataca e meia; -De feitio de um marrão, dando-se ferro para ele, sendo de meia arroba para cima, seis oitavas; -Por uma foice levará três oitavas; -De calçar uma foice, pondo ferro e aço, o ferreiro levará oitava e quarto e, dando se lhe ferro, levará uma oitava; -Levarão, por um machado novo, três oitavas e de o calçar, pondo aço para ele o ferreiro, uma oitava e, de o empenar e calçar, oitava e meia; -Por uma dúzia de pregos caixares,
Além disso, a distribuição e a proporção de ferramentas em relação ao plantel de escravos de um minerador sugerem a divisão do trabalho nas lavras. Para melhor compreensão, veja-se o exemplo de Domingos Alves Velho, morador no Córrego Seco, freguesia de Itaubira.
Entre os seus bens minerais constavam “uma lavrinha velha da outra banda do Ribeirão da Itaubira”, com dois ranchos de capim e outra “lavra velha no morro de Santa Rita que verte para o córrego do morro do Papo”. Com seu sócio Manoel Afonso da Rocha tinha mais uma “lavrinha velha sita na [Cata?] Branca”, com rancho de capim e senzala. Essas lavras foram as que restaram ao minerador quando do seu inventário de demência em janeiro de 1770. Mas os créditos declarados indicam que este homem fora um minerador de posses consideráveis, tendo vendido, no mesmo dia 30 de julho de 1769, uma lavra com escravos a João de Benavides no valor de 545$193 réis e outra lavra com negros a Francisco Martins da Cruz, no valor de 1:045$693 réis336.
O seu plantel era formado por 36 cativos, sendo 9 mulheres e 26 homens. Do total, 24 escravos, de ambos os sexos, estavam em idade produtiva337 (neste caso, entre 12 e 55 anos). Quanto às ferramentas minerais de uso individual, foram arroladas 12 alavancas, 13 almocafres, 4 enxadas, 4 cavadeiras, 2 marrões e 2 picões338. Somando-se todas, tinha-se um total de 37 ferramentas. Naturalmente, se todos os escravos estivessem trabalhando, algumas dessas ferramentas seriam sobressalentes. No entanto, só havia 12 alavancas para 24 escravos, o que forçosamente impedia que todos eles fossem empregados, simultaneamente, em tarefas que dependiam desse instrumento. O mesmo se observa para o restante. Assim, se todo o plantel do minerador fosse utilizado nos seus serviços minerais, alguns escravos usariam alavancas, outros almocafres, uns enxadas e cavadeiras, de acordo com as atividades que realizassem. Tal constatação permite confirmar as idéias já aludidas na iconografia quanto à divisão do trabalho nas lavras. E
meia oitava; -Por uma dúzia de pregos ripares, meia pataca; E que nas mais obras de miudezas se não fala, que se deixa avença das partes, pois se trata só das nomeadas por serem ferramentas minerais e, desta sorte, houveram o dito regimento por acabado que se não poderá alterar e se guardará, na forma aqui declarada [...]”. ATAS da Câmara Municipal de Vila Rica (Regimento dos oficiais de ferreiro). In: RAPM, 1937. v. 25, fasc. 1, p. 3-166.
336
Este minerador também obtinha rendas do aluguel de imóveis, visto terem sido inventariadas 5 moradas de casas no Arraial e freguesia de Itaubira. Entre os créditos, consta ainda que havia vendido umas casas a Serafim Rodrigues, em 1766, e um sítio a Antônio Pereira, preto forro, em 1764. Inventário de VELHO, Domingos Alves. CPOP, códice 38, auto 460, 1º ofício, ano 1770. O minerador morreu em abril de 1772.
337
Consideramos “idade produtiva” a faixa etária entre 12 e 60 anos.
338
Havia ainda 1 machado, 1 enxó velha, além de 1 arroba e 13 libras de ferro e mais “26 libras de ferro em vários ferros velhos”. O valor intrínseco dos objetos de metal, que poderiam ter sua matéria-prima reaproveitada nas tendas dos ferreiros, é o que justifica a preocupação dos mesmos serem sempre avaliados nos inventários, ainda que sem condições de uso por estarem “velhos”, “muito velhos” ou “gastos”. Inventário de VELHO, Domingos Alves. CPOP, códice 38, auto 460, 1º ofício, ano 1770. fl 4-11.
isso se faz ainda mais evidente quando se considera que grande parte dos mineradores se dedicava à outras atividades econômicas, fosse para a simples subsistência e manutenção da sua unidade produtiva, fosse para a comercialização de excedentes nos mercados internos.
Outro tipo de ferramentas identificado nos inventários corresponde às picaretas, picões e alviões. Embora relacionadas à cantaria ou ao ofício de pedreiro, essas ferramentas também podiam ser usadas nas explorações auríferas, servindo para arrancar e quebrar pedras, perfurar e cavar. Todavia, não foram encontradas em grande quantidade, como atesta o total de apenas 53 unidades.
A picareta se caracteriza por sua forma de martelo pontiagudo de ambos os lados. A mesma definição é encontrada para o picão que, na documentação consultada, por vezes apareceu identificado como “picão de moinho”339, usado exatamente para picotar a pedra do moinho o que, no entanto, não impedia seu uso para outros fins340. Já o alvião parece ser um instrumento mais versátil, com uma extremidade pontiaguda, como a picareta, e a outra terminada em gume, como a enxada.
Na realidade, o uso dessas ferramentas na mineração pode ser há longa data atestado e remonta ao tempo dos romanos341. Já no século XVI, Georgius Agricola apresentou algumas das ferramentas mais comuns nas lavras européias, cuja semelhança com aquelas encontradas nas Minas setecentistas é facilmente perceptível.
339
No inventário de Antônio da Rocha Lima foram “4 picões de ferro de picar as pedras do moinho” e “13 picões” sem fim especificado; João de Lima Curado tinha 3 picaretas entre suas ferramentas e Manoel das Neves Ribeiro 4 alviões de ferro. LIMA, Antônio da Rocha. CBG, CSO I (25) 221, ano 1768. CURADO, João de Lima. CBG, CSO I (01) 06, ano 1726. RIBEIRO, Manoel das Neves. CBG, CSO I (08) 89, ano 1744.
340
No dicionário de Bluteau há as seguintes definições: PICÃO: Instrumento de Canteiro, agudo de ambas as partes. PICARÊTE: Instrumento de ladrilhador a modo de martelo agudo de ambas as partes. Serve para quebrar as extremidades dos tijolos, ou azulejo. Também há picareto, instrumento de Cabouqueiro. BLUTEAU. Vocabulário Português e Latino, 2000 (CD-Rom).
341
“Como útiles de arranque, en los trabajos mineros subterráneos romanos se introduce el uso generalizado de herramientas de hierro frente a los útiles de piedra y hueso de épocas anteriores, de menor capacidad de penetración, consiguiendo con ello aumentar sustancialmente los rendimientos. Se utilizan cuñas metálicas o de madera, martillos diversos, picos y punterolas provistas de mango de madera para un manejo adecuado de estos elementos, apoyados por rastrillas y palas para cargar el mineral”. MATIAS. Elementos de
Uma das presenças mais expressivas entre as ferramentas minerais eram os marrões e marretas (60,3%) que, juntas, somavam mais de 147 unidades. Os marrões eram grandes martelos de ferro usados para quebrar os blocos de pedra, facilitando assim o transporte, ou para triturá-los, reduzindo os fragmentos em areia para a apuração. As marretas, de menores dimensões, tinham a mesma função. Essas ferramentas, associadas às cunhas, serviam ainda para rachar as pedras e abrir fendas nos paredões e afloramentos rochosos.
O processo de trituração do minério aurífero comumente adotado era simples, moroso e feito manualmente: os escravos, sentados no chão, colocavam entre as pernas uma pedra mais resistente sobre a qual fragmentavam o minério com a ajuda dos marrões e marretas342. A técnica podia apresentar variações, como observou o inglês Johann Pohl que, para pulverizar as pedras, “especialmente as maiores, fazia-se um forro de ervas, quebrando-as por meio de outra pedra. Com esta, esfregava-se o pó e finalmente, por meio da bateia, separava-se a pedra do ouro [...]”343.
Não foram encontradas referências sobre a utilização de peneiras manuais para a separação do minério triturado mais fino, destinado à lavagem. No entanto, uma das técnicas adotadas consistia em colocar o material fragmentado em montes de forma que, no topo, ficasse concentrada a areia mais fina e, em baixo, os fragmentos maiores que seriam
342
ESCHWEGE. Pluto Brasiliensis, v. 1, p. 191. O engenheiro alemão comenta ainda que o trabalho de trituração do minério podia ser facilitado com a instalação de um mecanismo que, movido à água ou manualmente, reproduzia o movimento de vai-e-vem feito pelo escravo na trituração manual. Embora não