1. Introduction
4.4 A good day in Nuuk
4.4.1 From Nintendo to hunting
A “mineração de cascalho” praticada pelos antigos mineradores caracterizou-se pela exploração do ouro nos depósitos aluvionais. Estes depósitos auríferos correspondem, na realidade, às jazidas secundárias, originárias da decomposição da rocha matriz.
A ação constante das águas pluviais e fluviais durante séculos, penetrando nas fraturas das formações rochosas auríferas facilmente erodidas, fez com que o ouro pouco a pouco fosse transportado para fora da rocha matriz, indo depositar-se finalmente no leito de rios e córregos juntamente com as areias e seixos rolados pelas águas.
As grupiaras249, por sua vez, encontradas nos vales de rios e nas encostas das montanhas, correspondem ao sedimento aluvional depositado quando o rio ainda cavava o seu leito e corria numa altura superior. Com o rebaixamento das águas, aqueles primeiros aluviões foram postos a seco, ficando acima do nível das águas.
Em todos esses depósitos, “o que buscavam era o cascalho, formado de seixos redondos e lisos nos veios e tabuleiros, e angulosos e ásperos nas grupiaras, por terem sido menos rolados pelas águas”250. Em todos estes lugares o ouro podia apresentar-se em grãos, em folhetas e em pó. Os métodos e técnicas de exploração então adotados variavam, dentre outros fatores, de
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INSTRUÇÃO que leva o Brigadeiro João Lobo de Macedo, 28/07/1718. APM-SC, códice 11, f40v-41v. apud ANDRADE. A Invenção das Minas [...], p. 276.
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Por vezes são encontradas nos documentos as formas gráficas guapeára, gupiara ou guapiara. Entre os mineradores de Goiás, segundo as informações do padre José Manuel de Sequeira, estes depósitos auríferos eram conhecidos como “batatal”. SEQUEIRA. Memoria q’ Je. Mel. de Seqrª. Presbº Secular Professor Real da Filosofia Racal e Moral da Vª do Cuyabá [...]. apud HOLANDA. Monções. Rio de Janeiro: Livraria-editora da Casa do Estudante do Brasil, 1945. Coleção Estudos Brasileiros da CEB. p. 220-240.
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FERRAND, Paul. O Ouro em Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro/CEHC, 1998. p. 97. (grifos do autor). Esta obra foi publicada em francês pela primeira vez em 1894, pela Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais.
acordo com o tipo de ocorrência aurífera, isto é, de acordo com o local onde o ouro encontrava- se assentado.
Como já mencionado, os leitos dos rios e ribeiros – conhecidos pelos mineradores como “veios d’água” – e suas margens – denominadas “tabuleiros” – foram os primeiros depósitos sistematicamente procurados pelos descobridores paulistas, uma vez que eram nesses locais que o cobiçado metal podia ser facilmente extraído.
Dentre os métodos de extração nos leitos dos rios empregados pelos primeiros descobridores, certamente encontrava-se o chamado “faiscar”251. Por esse método, simples e facilmente praticado, os faiscadores entravam na água e colocavam nos pratos de estanho – e nas bateias – o cascalho virgem252 a ser lavado. Por meio de movimentos circulares, pouco a pouco a areia e os seixos eram despejados, ficando o ouro concentrado no fundo do recipiente. Em seguida, era recolhido em sacos de couro ou canudos de taquara253 presos à cintura do faiscador. Para facilitar o trabalho, muitas vezes faziam pequenas barragens com estacas, pedras empilhadas e ramagens254 de modo a romper o curso da água e obrigar as matérias arrastadas a se depositarem, sobretudo depois das chuvas. Em seguida, com a água até os joelhos, enterravam a bateia no sedimento acumulado e, mantendo-a sob a superfície da água, agitavam os seixos soltos de modo que, juntamente com outros materiais estéreis, fossem carreados pela água, ficando o ouro concentrado na bateia.
Outro modo simples de extrair o ouro nos veios d’água era o “mergulho”. De acordo com Calógeras, “o mergulhador atirava-se no poço que se queria explorar, com a batêa na mão; em chegando ao fundo, enchia-a rapidamente de cascalho e areia e voltava á superfície”255. A semelhança que esta técnica apresenta em relação à forma pela qual os africanos também
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Na definição de Eschwege, “a lavagem de cascalho nos rios e córregos por uma pessoa sozinha denomina-se
faiscar, quem executa este trabalho chama-se faiscador”. ESCHWEGE. Pluto Brasiliensis, v.1, p.170.
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Corresponde aos cascalhos formados por seixos primitivos, que se depositaram juntamente com o ouro no leito dos rios e encontram-se intactos, ou seja, não foram revolvidos e novamente depositados como acontece com os “cascalhos bravos”. De acordo com Eschwege, “o cascalho virgem é tanto mais rico, quanto mais compactamente se assenta um sobre outro [...] quanto mais solto, mais pobre será”. ESCHWEGE. Pluto Brasiliensis, v.1, p.160.
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LIMA Jr. A Capitania das Minas Gerais: origens e formação, p. 65-84.
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Este artifício, com sutis diferenças, era já conhecido pelos mineradores europeus e empregado nas explorações de aluvião em meados do século XVI, tal como nos informa o germânico Georgius Agricola: “Within a distance of four thousand fathoms along the bed of the stream or river below the buildings in which the tin-stuff is washed, the miners do not make such weirs, but put inclined fences in the meadows, and in front of each fence thy dig a ditch od the same length, so that the mud mixed with the fine tin-stone, carried along by tje stream or river when in flood, may settle in the ditch and cling to the fence”. AGRICOLA. De re metallica, p. 318.
255
CALÓGERAS. As minas do Brasil e sua legislação, v. 1, p. 117. Em 1701, o ribeirão do Carmo foi por mergulhos, quando “(...) acharam no rio alguns poucos, digo, itaipavas, que são aquelas paragens em que os rios correm mais espraiados por cima dos cascalhos, com menos fundo de suas correntes, e nestas partes acharam faisqueiras que, fincando estacas de pau em meio das correntes do rio, encostados a eles, pudessem mergulhar com as bateias e tirar debaixo da água cascalho e piçarra, sem ter desmonte que impeça, porque naquelas paragens o rápido das correntes as não deixam parar quando vêm corridos dos montes com as inundações das invernadas”. FURTADO. Notícias [...]. CCM, v. 1; doc 02; p. 180. (grifo nosso).
extraíam o ouro aluvional – já observada na FIG. 1 (cap. 01) –, aponta para as apropriações de técnicas e conhecimentos africanos no espaço das lavras.
Se, na fase inicial das explorações, imediata e simultânea aos descobrimentos, os primeiros mineradores, procurando extrair com proveito e pouco trabalho o mais fácil, faiscavam e mergulhavam em busca do ouro, quando jazidas mais trabalhosas começaram a ser exploradas, exigindo o emprego de métodos mais complexos, “faiscar” será trabalho praticado pelos escravos de mineiros sem condições para maiores investimentos e pelos forros e brancos pobres à procura de algum ganho para seu sustento. Durante todo o período da mineração colonial, e mesmo depois, esse modo de lavar os cascalhos dos rios e córregos foi constantemente praticado por faiscadores.
De fato, o trabalho de catar grãos de ouro ou de lavar pequenas quantidades de cascalho e areia auríferos em pratos e bateias podia apresentar um bom rendimento especialmente quando aplicado em córregos e ribeiros recém-descobertos, de grande pinta e/ou de pequeno volume. No entanto, era incompatível com as condições em que muitos depósitos aluvionais podiam ser encontrados, com camadas estéreis recobrindo os cascalhos virgens, em rios largos e caudalosos correndo em níveis mais elevados, ocultando riquezas em seu leito e margens. Para serem explorados, o minerador precisava então dispor de recursos, pois era necessário estabelecer um “serviço”256, isto é, empregar métodos e técnicas mais elaborados, juntamente com uma maior fábrica de escravos.
Como já discutido em momentos anteriores, não apenas os descobridores paulistas, mas também outros homens práticos – portugueses ou estrangeiros que aqui se instalaram – foram responsáveis pela rápida difusão de conhecimentos técnicos no espaço das lavras auríferas. De modo que, na primeira década do século XVIII, quando Antonil descreveu o “modo de tirar ouro das minas do Brasil e ribeiros delas”257, os mineradores já desviavam os cursos dos rios, construíam cercos e abriam catas, métodos estes que seriam adotados ao longo de todo o setecentos.
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De acordo com Eschwege, “Os trabalhos mais importantes em que, pouco a pouco, se emprega maior número de pessoas, são denominados serviços de rio”. ESCHWEGE. Pluto Brasiliensis, v. 1, p.170.
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ANTONIL. Cultura e opulência do Brasil, Cap. XIV: “Modo de tirar o ouro das Minas do Brasil e ribeiros delas, observado de quem nelas assistiu com o governador Artur de Sá”. Alice Canabrava, em seu prefácio, sugere que Antonil teria terminado a redação em 1709 e remetido a obra neste mesmo ano à metrópole, visto que as licenças de impressão se registraram em 1710 e a publicação se deu em 1711. Ainda de acordo com a estudiosa, as informações sobre a mineração procederam de mais de uma fonte e em anos diferentes. Especialmente a parte que descreve as técnicas seria anterior a 1707, posto que, “nesta data, os mineiros começaram a utilizar a água corrente para desmonte da terra vegetal dos tabuleiros, aperfeiçoamento que não registra o texto”. p. 24-25. A pesquisadora chega a esta conclusão a partir das Noticias do sertanista Bento Furtado.
Assim, não demorou muito para que diferentes métodos de exploração fossem adotados simultaneamente, variando não só de acordo com a experiência prática do minerador e os recursos que tinha disponíveis para a atividade, mas também com as condições do meio físico em que o ouro era encontrado.
Quando o cascalho aurífero encontrava-se depositado em maior profundidade nos leitos dos rios, para explorá-lo era necessário desviar o seu curso natural. Antes, porém, os mineradores davam um socavão na margem ou barranco do rio para examinar seu rendimento. O material extraído desta pequena escavação era lavado e, se faiscasse na bateia, era sinal que tanto na terra quanto na água havia ouro em maior ou menor quantidade258. Caso a pinta revelasse promissora, dava-se início ao serviço de desvio com a construção de uma barragem com paliçada, pedras, terra ou sacos de areia e de um canal em uma das margens, para o qual a água era então redirecionada. Tal método permitia que maiores extensões do rio fossem remexidas e não apenas pequenas áreas.
Se o trecho do rio a ser explorado fosse em linha reta, o desvio era aberto paralelamente ao seu curso; mas, se o trecho fosse em curva (e os mineiros tinham preferência por estes pontos), o meandro era aproveitado e o “desvio uniria as partes como a corda de um arco”259. O leito assim liberado era revirado pelos escravos com alavancas e almocafres. Do mesmo modo, a margem oposta àquela onde o canal foi aberto tinha suas camadas de aluvião desbarrancadas. Nesse processo, colocava-se de lado os seixos estéreis, enquanto o cascalho e o sedimento aurífero era extraídos e aos poucos transportados na cabeça de escravos para lavadouros especiais – as canoas e os bolinetes – ou apurados diretamente na bateia. Escavava-se as camadas de cascalho até se atingir a rocha dura do leito ou a piçarra260, camada argilosa de coloração amarelada, onde por vezes encontrava-se ouro aderido. Esta base, quando atingida, era raspada e os trabalhos não mais prosseguiam.
À medida que as escavações se aprofundavam, tornava-se necessário esgotar a água que infiltrava através da barragem e das camadas permeáveis do próprio leito onde se trabalhava. O esvaziamento constante era feito manualmente por escravos que passavam os carumbés de mão
258
Conforme o informante de Antonil: “Para se examinar se um ribeiro tem ouro, vendo-lhe as disposições que temos dito entre a água e a terra, se dará um socavão de sete ou oito palmos em quadra até chegar ao cascalho e piçarra; [...]. Nem nestas minas se repartem ribeiros sem serem primeiro examinados com estes socavãos junto da água”. ANTONIL. Cultura e opulência do Brasil, p. 296.
259
GUIMARÃES, Carlos Magno. Mineração colonial e arqueologia: potencialidades. In: Revista de Arqueologia. Rio de Janeiro: SAB (Sociedade de Arqueologia Brasileira), 1996. p. 62.
260
“E, tirado este cascalho, aparece a piçarra, ou piçarrão, que é duro e dá pouco, e este é um barro amarelo ou quase branco, muito macio, e o branco é o melhor, e algum deste se acha que parece talco ou malacacheta, a qual serve como de cama aonde está o ouro. E, tomando com almocafres nas bateias esta piçarra, e também a terra que está entre o cascalho se vai lavar ao rio [...]”. ANTONIL. Cultura e opulência do Brasil, p. 293-94.
em mão até serem despejados, ou por meio dos “engenhos de roda”, vulgarmente chamados de “rosários” pelos mineiros.
Os serviços de desvio eram feitos de preferência durante a estação seca (nos meses de abril a setembro) pois, com o menor volume das águas, ficava mais fácil desviá-las para o canal lateral. Além disso, evitava-se as inundações causadas pelas cheias e, conseqüentemente, a destruição das barragens, dos equipamentos e das escavações feitas ao longo de vários meses. Dessa forma, muitos trabalhos chegavam a ser interrompidos durante a estação chuvosa e os esforços se concentravam na apuração do material extraído.
Quando, porém, não havia espaço suficiente em um dos lados para onde as águas pudessem ser conduzidas, quando as margens eram escarpadas ou os rios muito largos e caudalosos, o represamento era feito pouco a pouco, por trechos estancados denominados cercos. Estes espaços fechados, encravados no leito do rio, eram feitos com “paus mui direito, deitados uns sobre outros com estacas bem amarrados, feito em forma de cano por uma e outra parte, para
Fig. 10 – Modo de minerar pª se tirarem Diamtes. Autoria não identificada. Minas Gerais, século
XVIII.
Os desvios foram feitos tanto para a exploração do ouro quanto do diamante. Na imagem acima, o nº 6 corresponde ao canal lateral para onde as águas do rio Jequitinhonha foram redirecionadas de forma a permitir o trabalho no seu leito original. Observa-se o uso do rosário, movido por uma roda hidráulica, para o escoamento das infiltrações. No interior da escavação, dois escravos extraem o sedimento enquanto o restante realiza o transporte até o paiol de armazenamento para sua posterior apuração. As duas atividades – extração e transporte – são supervisionadas por dois homens brancos, possivelmente os proprietários ou feitores.
In: BELUZZO, Ana Maria de Moraes. Um Lugar no Universo. São Paulo: Metalivros, 1994. O Brasil dos Viajantes, vol. 2.
que se possa entupir de terra por dentro [...]”261. Em geral, os cercos não apresentavam grandes dimensões, pois além de esgotar as constantes infiltrações, os mineradores deveriam construí-los e explorá-los antes do período das chuvas.
O material aurífero extraía-se da mesma forma: o cascalho “bravo” (estéril e mais superficial) era retirado e descartado; o cascalho virgem, formado por seixos maiores e mais bem assentados, era escavado até se atingir a base do leito do rio. Depois de retirado todo o cascalho rico do cerco o minerador podia construir outro ou buscar as camadas pedregosas entranhadas na margem contígua ao mesmo cerco. Todo o material explotado era então colocado nas bateias para ser lavado no próprio rio ou transportado nos carumbés para os lavadouros.
Contudo, devido ao grande trabalho que demandava, a construção dos cercos justificava- se somente quando o leito do rio prometia rendosas bateadas e as condições do meio e/ou do minerador não permitiam que seu curso fosse completamente desviado. Este parece ter sido o caso do Rio das Velhas, durante a primeira metade do século XVIII, pois vários registros de datas encontrados nos livros da Guardamoria do período atestam a difusão deste método de exploração262. Também os rios circunvizinhos a Ouro Preto e Mariana foram explorados por meio dos cercos.
Como observado, com o fim de se evitar os prejuízos causados pelas cheias dos rios, as explorações nos veios d’água eram realizadas preferencialmente durante a estação das secas,
261
ANTONIL. Cultura e opulência do Brasil, p. 294.
262
Ver, por exemplo, LIVRO de Guardamoria (Sabará e Rio das Pedras), 1746-1755. APM-CMS, códice 18. É interessante observar que nas pesquisas feitas sobre os métodos de exploração aurífera adotados pelos romanos nenhuma menção foi feita à construção de cercos nos cursos d’água. Do mesmo modo, o tratado de Agrícola, referência constante neste trabalho, nada menciona sobre esta forma de exploração nos rios e ribeiros. Diante disso, uma hipótese aventada é a de que os cercos tenham sido desenvolvidos nas explorações das Minas Gerais.
Fig. 11 – Desenho esquemático de um
cerco no leito de um curso d´água feito a partir das descrições de Antonil. No detalhe abaixo, técnica construtiva da barragem, reforçada e preenchida com terra, cuja finalidade era aumentar a resistência do estanco, absorvendo a pressão exercida pela água do lado de fora.
uma vez que o menor volume das águas facilitava a instalação dos serviços minerais. Além disso, os mineradores não podiam demorar na construção dos desvios, dos cercos e no esgotamento das escavações, pois tinham que tirar, em um intervalo determinado de tempo, a maior quantidade possível de cascalho que, se não dessem maiores lucros, deveria pelo menos corresponder às despesas feitas com o serviço, o que aliás nem sempre acontecia. Dessa forma, os mineradores tiveram que se adaptar não só as condições locais, mas também climáticas; condições estas que condicionavam o planejamento e o ritmo das suas diferentes atividades, como o cultivo e a pecuária.
Outro método adotado para a exploração dos rios, quando estes eram muito largos e profundos, de difícil represamento, não tornando possível o desvio do seu curso nem a construção de cercos, era conhecido como “pesca do cascalho”. Para isso, de acordo com Eschwege, os mineiros “idearam” um instrumento especial, uma espécie de draga manual, que correspondia a uma “colher de ferro”263 pontuda e vazada em um saco de couro. No mesmo sentido, revelando a criação de técnicas próprias no espaço das lavras, o padre Manoel de Serqueira afirma que o referido instrumento foi inventado nas Minas Gerais.
A primeira referência à pesca do cascalho foi encontrada no Itinerário Geográfico de Tavares de Brito que, em 1732, ao passar pela Vila de São João del-Rei, observou:
À pouca distância desta vila corre o rio das Mortes, cujo fundo se sabe [que é] empedrado de ouro, e dele se tirava antigamente o que podia trazer um negro indo de mergulho arrancar com um almocafre enquanto lhe durava o fôlego. Agora, com novo artifício, se
tira em canoas com grandes colheres de ferro enxeridas em uma comprida haste de pau, as quais artificiosamente vazam em uns [sacos] de couro cru que estão
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NOTÍCIA – 4ª PRÁTICA Que dá ao R. P. Diogo Soares, o sargento-mor José Mattos sobre os descobrimentos do Famoso Rio das Mortes. In: TAUNAY. Relatos Sertanistas, p. 176-178.
Fig. 12 – Ferro inventado nas Minnas geraes, com o qual provão os rios. José Manuel de Sequeira, 1802.
Observa-se ao lado direito a utilização de um sarilho para puxar o instrumento, carregado de sedimento, ao ser arrastado pelo fundo do leito. A invenção desse instrumento tornou mais eficiente a extração no leito de rios profundos do que a técnica do “mergulho”, mencionada acima, limitada pelo fôlego do minerador.
Memoria q’ Je. M.el de Seqrª Presbº Secular Professor Real da Filosofia Racal e Moral da Vª do Cuyabá (...). In: HOLANDA, Sérgio
pendentes pela parte convexa e com umas argolas, pelas quais se puxa da terra com uns sarilhos quanto pode sofrer o fornimento dos cabos, e cheias as colheres se cravam com a haste no fundo e trazem os [sacos] cheio de lodo, areia e pedras, o que
tudo depois se bateia e fica o mais precioso, por se não poderem mover, nem ainda arrancar as pedras de estranha grandeza que estão no fundo para se raspar a piçarra dele, onde o ouro faz seu mais natural assento264.
Ao que parece, a pesca do cascalho não foi um método adotado em larga escala, tendo sido mais usado para fazer as provas nos rios ou, talvez, quando os mineiros não dispunham de muitos recursos para adquirir ferramentas e demais apetrechos. Todavia, ele foi observado em momentos cronológicos distintos, o que, de certa forma, atesta a sua permanência e sua inegável eficiência na atividade minerária.
O naturalista austríaco, Johann E. Pohl, observou processo idêntico no rio Maranhão, em Goiás, quando esteve no Brasil entre os anos de 1817 e 1821265. O viajante acrescentou ainda que os cabos para arrastar o instrumento até a margem do rio eram feitos com fibras de palmeira.