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1. Introduction

4.5 Different ways of seeing

4.5.2 The Danes drink more than us

Como se procurou mostrar, no momento inicial das descobertas e explorações, os mineradores, em especial os paulistas, dedicaram-se sistematicamente à busca dos depósitos aluvionais dos cursos d’água, uma vez que, facilmente explorados, garantiam maiores proveitos sem grandes riscos. Todavia, o acúmulo de gente nos principais núcleos urbanos, a expansão dos serviços nos rios e o esgotamento das melhores jazidas logo configuraram duas alternativas aos mineradores já instalados ou que ainda continuavam a chegar à região aurífera. Assim, podiam partir para lugares mais afastados e despovoados, buscando descobrir novos rios e ribeiros ou podiam dedicar-se à exploração de outros tipos de jazidas. Neste último caso, os esforços se direcionaram para as formações rochosas que apresentavam nas suas camadas e fraturas ouro disseminado.

Na mineração dos morros, os mineiros buscavam a rocha matriz, as jazidas primárias, rochas ricas em quartzo296, atravessadas por esses filões/veios, destacando-se principalmente o filito, o itabirito e o quartzito.

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RELAÇÃO das ordens sobre terras mineraes,que, por copia, foi enviada ao Conselho Geral da Província de Minas Geraes. Provisão das Águas, 24 de fevereiro de 1720. In: RAPM, ano I, out.-dez., 1896. p. 692-693.

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De acordo com SAD, J. H. Grassi: “Mineral transparente, de aspecto vítreo, constituído por silíco e oxigênio. Ocorre em cristais bem formados (prismas hexagonais, por exemplo), em grãos justapostos, etc.” FERRAND. O

O filito é uma rocha friável, isto é, de fácil decomposição, de coloração avermelhada e ferruginosa, apresentando geralmente na sua estrutura numerosos veios de quartzo auríferos. O itabirito, por sua vez, é uma rocha constituída por “alternâncias (lâminas) de quartzo com óxido de ferro (hematita e/ou magnetita)”297. Nele o ouro pode ser encontrado disseminado na areia de quartzo, apresentando fina granulação, ou simplesmente infiltrado na rocha, formando verdadeiras linhas de ouro. A alteração superficial desta rocha freqüentemente forma uma carapaça dura de revestimento denominada canga, mais conhecida pelos antigos mineradores como a tapanhoacanga, que quer dizer “cabeça de negro”. Quando, porém, o itabirito, sob ações do intemperismo, encontra-se em processo de decomposição, podendo ser facilmente desagregado, é conhecido como “jacutinga”, nome que provém da semelhança com uma ave galiforme negra (ferro) com asas manchadas de branco (quartzo).

Já o quartzito, como o próprio nome indica, apresenta o quartzo, de estrutura finamente granulada, como o elemento predominante. Pode apresentar-se cortado por veios deste mineral de diferentes espessuras. No entanto, somente foram explorados por aqueles mineradores os veios pouco compactos, de estrutura friável e de pouca espessura; os veios mais compactos e espessos, por apresentarem grandes dificuldades de extração, na maioria das vezes eram abandonados e dessa forma só raramente foram explorados.

Da mesma forma como observado nas explorações dos depósitos aluvionais, na mineração dos morros, os métodos e técnicas empregados na extração variavam de acordo com a localização das jazidas.

Assim, quando essas jazidas auríferas situavam-se nos vales montanhosos, em lugares onde a água não podia ser encaminhada (abaixo do nível das águas), a exploração se fazia pelo método das “catas”, o mesmo adotado para as explorações dos tabuleiros. Entretanto, como este método exigia grandes esforços e envolvia muitos riscos, a exploração nos vales se dava quando a massa rochosa podia ser facilmente escavada e sobretudo quando as sondagens no local convenciam os mineiros de que a riqueza dos filões compensava.

A cata era aberta com formato afunilado, podendo apresentar “banquetas”298 para aumentar a resistência das paredes cortadas na rocha friável. O talude podia ser também sustentado com estacas e cipós trançados de modo a evitar o corrimento da terra para o fundo da escavação. Todavia, tais medidas de segurança nem sempre eram suficientes para evitar os acidentes com desmoronamentos em que se perdiam escravos, ferramentas e equipamentos.

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SAD, J. H. Grassi. FERRAND. O Ouro em Minas Gerais. Glossário, p. 338.

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As escavações eram ampliadas ou se aprofundavam de acordo com a potência dos veios auríferos e só eram abandonadas de fato quando o escoamento das infiltrações, através do braço escravo, ou por meio dos rosários, tornava-se impraticável, impossibilitando a retirada do material.

Fig. 15 – Representação ou perfil de hum servº, que fazendo agua se esgotta por pias, e a força de braços. José Manuel de

Sequeira, 1802.

Observa-se a cata infiltrada e o talude com banquetas, onde os escravos se posicionam para fazer o esgotamento com os carumbés. Memoria q’ Je. M.el de Seqrª Presbº Secular Professor Real da Filosofia Racal e Moral da Vª do Cuyabá (...). In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1945.

Fig. 16 – Representação ou perfil de hum serviço e desmontação a seco. José Manuel de Sequeira, 1802.

Nos serviços de cata, devido à própria localização da jazida, a água não era utilizada para ajudar os escravos a desmontar a rocha. A cena acima permite apreender um pouco da organização e do movimento do trabalho escravo. Assim, um deles, posicionado no fundo da escavação, desagrega a rocha com uma alavanca; um outro, agachado, coloca o material em um carumbé, enquanto o restante se desloca entre idas e vindas, ora com o recipiente cheio sobre a cabeça, despejando o conteúdo na superfície, ora vazio, quando descem para enche-lo novamente.

Memoria q’ Je. M.el de Seqrª Presbº Secular Professor Real da Filosofia Racal e Moral da Vª do Cuyabá (...). In: HOLANDA,

A extração nas catas exigia certa quantidade de mão-de-obra para remover a um só tempo toda a camada estéril além da camada aurífera, pois o trabalho não tinha como prosseguir durante a estação das chuvas. O material extraído era então transportado pelos negros com os usuais carumbés até os locais de lavagem e apuração. Todavia, ainda que esta tenha sido a regra, naturalmente algumas explorações poderiam apresentar outras soluções, como apontam as referências ao uso de “carros de minas” encontradas em alguns inventários de mineradores pesquisados299.

O uso predominante da mão-de-obra escrava no transporte das lavras pode ser atestado pelo padre José Manuel de Sequeira, quando sugeria que a condução da terra aurífera fosse feita por meio de carrinhos de mão ou “costados” de boi e bestas “em ordem de poupar braços, porque cada escravo apenas pode conduzir uma arroba de terra por vez, quandoo boi pode conduzir 8 ou 10 arrobas”300.

Na realidade, a preferência pela força escrava nos serviços de extração e transporte do material aurífero estaria ligada ao rendimento das explorações. Pelo menos é o que sugere o barão de Eschwege ao comentar algumas tentativas mal sucedidas, feitas por proprietários de minas, de instalar carrinhos sobre trilhos de madeira nos seus serviços301. A justificativa do engenheiro para o fato dos mineradores não adotarem definitivamente os carrinhos era a de que, sem eles, o trabalho escravo, constantemente supervisionado por feitores e sistematicamente organizado e dividido, apresentava um maior aproveitamento:

Enquanto uns extraem o material, outros enchem os carumbés que serão colocados na cabeça dos carregadores. Estes correm, uns atrás dos outros, não parando nem para despejar a carga e voltam por outro caminho, a fim de apanharem nova carga, já preparada de antemão. Nos serviços diamantinos [e certamente poder-se-ia observar o mesmo para os serviços auríferos que empregavam uma grande fábrica de escravos] observam-se muitas vezes, quatrocentos, quinhentos, até mesmo seiscentos escravos, que, à semelhança de uma diligente correição de formigas, correm em bando, sem desordem e sem estorvarem uns aos outros. Por esse meio, obtêm-se melhores resultados de que com carrinhos e máquinas, razão por que não foram introduzidos nos serviços302.

299

Merece especial referência o minerador Manoel Dias Guimarães que, entre os bens minerais discriminados no seu inventário post-mortem, havia 20 carros de minas para os seus serviços no Morro do Padre Faria, bairro de Santana, em Ouro Preto. Inventário de GUIMARÃES, Manoel Dias. CPOP, cód. 105, auto 1326, 1º of., ano 1784.

300

MEMORIA q’ Je. M.el de Seqrª Presbº Secular [...], 1802. apud HOLANDA. Monções, p. 233.

301

As tentativas em questão foram feitas no século XIX, sob o incentivo do engenheiro alemão que se estabelecera em Minas para aperfeiçoar os processos de extração. ESCHWEGE. Pluto Brasiliensis, v. 1, p. 172.

302

ESCHWEGE. Pluto Brasiliesis, v. 1, p. 172. Nas minas européias, pelo menos desde o século XVI, tanto o lombo de animais, quanto o carrinho de mão de uma roda e o sobre trilhos eram sistematicamente empregados para a condução do material extraído. Demonstrando certa preocupação com as condições de trabalho naquelas minas, Georgius Agricola informa: “Pliny is our authority that among the ancients everything which was mined was carried out on men’s shoulders, but in truth this method of carrying forth burdens is onerous, since it causes great fatigue to a great number of men, and involves a large expenditure for labour; for this reason it has been rejected and abandoned in our day”. AGRICOLA. De re metallica, p. 157.

Quando os veios auríferos se encontravam no interior dos morros, a exploração, sempre que possível, se fazia com o auxílio indispensável da água. E, tal como se fazia para os serviços de grupiara, era necessário buscá-la, de lugares não raras vezes distantes, por meio de canais que percorriam as curvas de nível e exigiam muita habilidade e precisão na sua construção.

A água, porém, era conduzida para as partes mais elevadas do morro e não para as encostas, como nas grupiaras. Isso porque o método adotado consistia em abrir uma brecha na formação desde o seu cume até a base, formando de fato um corte perpendicular na rocha. Este tipo de exploração era conhecido entre os mineradores como “cata de talho a céu aberto”, ou simplesmente “talho aberto”, em oposição às escavações de galerias subterrâneas que perseguiam os veios auríferos por debaixo da terra.

De forma geral, pode-se dizer que o emprego deste método estaria ligado a pelo menos quatro fatores intimamente relacionados. Em primeiro lugar, ressalta-se o fato de que este método foi adotado na Península Ibérica desde as explorações romanas e que, portanto, poderia ser conhecido por portugueses e espanhóis já nas suas terras de origem, sendo introduzidos por estes mesmos agentes na América portuguesa. Em segundo lugar, é preciso considerar a riqueza dos recursos hídricos na região das Minas. Tal condição favorecia sobremaneira a adoção do método, visto que, para lavrar um monte a talho aberto, a água era imprescindível. Em terceiro, para que o ouro, disseminado na massa rochosa ou encontrado de forma irregular nos veios de quartzo que perpassavam o seu interior, fosse extraído em quantidade suficiente que justificasse os trabalhos com a exploração, era necessário desmontar e lavar uma quantidade de massa estéril muito maior do que a encontrada sobre os depósitos de aluvião. Finalmente, destaca-se a característica estrutural – a friabilidade – da rocha aurífera a ser explorada.

Com relação a este último fator, os trabalhos de desmontar a rocha eram feitos com maiores dificuldades no itabirito e também no quartzito que, devido à própria natureza dessas formações, exigiam grande quantidade de água para arrastar os elementos mais pesados. Essas formações mais resistentes, com ferro na sua composição e camadas mais grossas e compactas de quartzo, não se desfaziam facilmente somente por meio da água, como acontecia com o filito e a jacutinga. Além do mais, na exploração destas rochas intemperizadas, perdia-se menos ouro aderido nos seixos e fragmentos de rocha, fazendo com que, diante da possibilidade de maior aproveitamento, os mineradores preferissem “por comodidade, o desmoronamento total dessas massas auríferas pela água a uma exploração regular (...)”303.

303

Assim, se a água pudesse ser captada de algum lugar, ainda que distante da lavra, os mineradores não pouparam esforços em conduzi-las por “regos” escavados no terreno ou por bicames suspensos em altíssimos jiraus304. Todavia, a canalização da água só podia ser realizada com grande dispêndio de dinheiro, de tempo e de trabalho escravo, o que forçosamente fazia com que este tipo de exploração fosse praticado apenas pelos mineiros mais abastados:

[...] é necessário que tenham um rego d’água, sem a qual se não pode minerar; se a não tem perto, que venha o seu nascimento superior, é preciso buscá-la de maior distância e conduzi-la, abrindo-lhe regos por montes e penhascos, e em muitas partes onde se topam vales lhes formam andaimes de grandes madeiros e, sobre estes, canos de

tabuados para a corrente das águas vencer e chegar à altura de outros montes sobre que a

querem levar, e isto na distância de uma, duas e três léguas de rego, em que se faz uma

grande despesa, a respeito dos grandes jornais que naqueles países costuma ganhar todo o gênero de oficiais. E na mesma forma é exorbitante o preço de todos os materiais, e

nestes serviços de conduzir as águas se gastam muitas vezes dois e três anos, conforme a distância de que ela vem305.

Além dos canais, quando era necessário aumentar ainda mais o volume das águas, fazia- se próximo ao local que seria desmontado um tanque para armazenamento das águas captadas em diferentes pontos e também das chuvas. Estes reservatórios podiam ser construídos em alvenaria ou escavados no próprio terreno, e acumulavam as águas durante a noite para que fossem então utilizadas nos serviços de desmonte durante o dia.

Os escravos, munidos de cavadeiras e alavancas, quebravam a formação e arrancavam as camadas mais frouxas. Se o serviço dispunha de forte corrente de água, deixava-se que a mesma corresse constantemente pelos canais e a operação de desmonte era feita simplesmente debaixo da queda d’água, o que facilitava sobremaneira o trabalho, uma vez que a rocha ficava o tempo todo úmida e amolecida. Se a água chegava ao local da lavra com dificuldade, era então represada e todo o trabalho de desmonte feito a seco. Em intervalos de tempo, lançavam-se os jatos de água sobre as partes da jazida previamente desagregadas.

Quando, porém, no meio dessa massa rochosa encontravam-se camadas mais duras e compactas de quartzo aurífero, os veios eram cuidadosamente extraídos com as alavancas e cavadeiras, para que não fossem também arrastados pela água, e levados para locais especiais onde seriam triturados até virarem areia, depois lavada para se apurar o ouro.

As escavações de talho aberto, à medida que se aprofundavam, tornavam-se mais largas nas partes altas e iam se afunilando, ficando mais estreitas na parte inferior. O formato afunilado

304

Armações de madeira que serviam de suporte para os bicames que conduziam a água.

305

MOREIRA, Tomé Gomes. [Papel feito acerca de como se estabeleceu a capitação nas Minas Gerais e em que se mostra ser mais útil o quintar-se o ouro, porque assim só paga o que o deve]. In: CCM, doc. 53, v. 1, p. 465-504. (grifo nosso).

destinava-se a evitar acidentes com os desmoronamentos, o que, no entanto, nem sempre era possível, pois essas escavações chegavam a formar paredões com mais de 10 m de altura e, além dos grandes blocos de pedra que despencavam, muitos trabalhadores eram soterrados com o deslizamento repentino das massas amolecidas306. Um destes acidentes corriqueiros foi observado pelo médico-cirurgião Luís Gomes Ferreira, quando em 1711 o foi chamado a Vila Real do Sabará para tratar de alguns escravos do capitão-mor Custódio da Silva Serra, visto que “em cima de todos correu um morro de terra e pedras”:

andando os ditos escravos tirando ouro em uma lavra que tinha a parede sessenta palmos de alto ao pé do dito morro; e como mineravam com água que corria por cima da tal parede, se lhe sumiu atrás, e, vendo-se todos sem água na lavra, subiram alguns a ver para onde se tinha desencaminhado, e todos os que subiram ficaram livres e os que ficaram na lavra, que foram treze, ficaram debaixo das ruínas [...]307.

O formato afunilado das escavações também tinha a função de facilitar que todo o material precipitado e arrastado pela água fosse conduzido para um “canal de recepção” 308 situado na parte inferior do morro onde se fazia a exploração. Esse canal deveria ser inclinado para arrastar a lama aurífera e, ao longo do seu curso, podia apresentar degraus cuja função era aumentar ainda mais a precipitação da água que tendia a perder velocidade à medida que a lama tornava-se mais densa.

Como as águas carregadas de areia, lama e fragmentos de rocha desciam em “turbilhões tumultuosos”, o canal precisava ser construído de forma a resistir aos impactos. Assim, quando aberto num terreno mais duro e compacto apresentava largura em torno de 2m, com profundidade variável de acordo com as condições do local em que era escavado e com a quantidade de material que carreava. Já nos terrenos mais macios, o fundo do canal podia ser calçado com pedras e suas paredes, revestidas de argila.

Como dito anteriormente, para a extração do ouro das rochas muitas vezes era necessário desmontar grande quantidade de matéria antes de se chegar ao veio aurífero propriamente. Com isso, muito ouro em pó também acabava arrastado pela força das águas, indo depositar-se nos leitos dos rios.

306

Assim observou Pohl, como outros viajantes do século XIX, sobre o serviço em um morro próximo a Vila Rica, no qual eram empregados cerca de 60 escravos: “Devido a tal sistema de mineração, que absolutamente não se pode considerar adequado, acha-se a serra tão rasgada, que por todo lado assomam medonhas paredes de pedra solapadas pelas águas que, a cada momento, ameaçam desmoronar-se e soterrar os trabalhadores”. POHL. Viagem no interior

do Brasil, p. 403.

307

FERREIRA, Luís Gomes. Tratado IV: Das deslocações; Observação III: Feita em vários doentes escravos do Capitão-mor Custódio da Silva Serra que ficaram debaixo de um morro, desgraça grande. Erário Mineral [1723]. Belo Horizonte: FJP, CEHC / Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2002. p. 479.

308

Com o intuito de aproveitar ao máximo esse ouro perdido, os mineiros geralmente construíam na extremidade inferior dos canais de recepção grandes mundéus para a acumulação da lama aurífera. A preocupação lógica e ao mesmo tempo prática dos mineradores em facilitar o processo de apuração final do ouro, reduzindo as impurezas do material já ao longo do processo de extração, fazia com que antes mesmo de chegar aos mundéus a lama passava por um simples refino: no canal de recepção, abriam-se buracos cobertos com barras de ferro ou madeira, de maneira a formar um fundo em escoadouro que coava toda a lama misturada com o ouro, a qual era então conduzida por um sistema de canais laterais até os mundéus309. Assim, quando um reservatório estivesse completo, passava-se para o preenchimento dos outros, caso existissem. E, quando os mundéus encontravam-se cheios, os trabalhos de desmonte eram interrompidos para se iniciar o processo de apuração da lama aurífera. Os blocos de pedra retidos nas grades eram recolhidos pelos escravos para serem triturados e assim recuperar parte do ouro que se encontrava aderido ou infiltrado nestes fragmentos.

Nos mundéus, as partículas de ouro contidas na massa rochosa se precipitavam pelo processo natural de decantação. Esses reservatórios caracterizavam-se por uma saída em fenda vertical, que era vedada com pranchas de madeira. Durante a fase de apuração, as pranchas eram retiradas de cima para baixo, à medida que o nível da lama baixava, até chegar na última camada, a mais rica. Para que grande quantidade de ouro em pó não fosse perdida durante a “deslamagem”, instalava-se, na saída dos mundéus, uma outra estrutura denominada “canoa”, que consistia na associação de um fosso com um plano inclinado. Nestes, couros de boi eram estendidos com o pêlo voltado no sentido contrário ao da corrente, de forma que as partículas sobrenadantes ficassem retidas.

Estes reservatórios, localizados geralmente no flanco ou no sopé dos morros, podiam ser retangulares ou semicirculares e variavam de tamanho de acordo com uma série de fatores,