Além do trabalho que realizam internamente ao Congresso Nacional, através do monitoramento e proposição de projetos, participação nas comissões, fundamentação integrada para seus posicionamentos, a Frente Parlamentar Evangélica desenvolve, desde 2007, ações externas, através das chamadas Jornadas Nacionais em defesa da Vida e da Família183. Trata-se de
182 Entrevista realizada em dezembro de 2012.
183Muitas vezes, esses eventos recebem o nome de “Encontro Regional (ou estadual/nacional)
de lideranças evangélicas”. Quando estive em Brasília, em novembro de 2013, tive a oportunidade de participar do Encontro Nacional de Lideranças Evangélicas, que ocorreu em um dos auditórios do Congresso Nacional. Foram dois dias (28 e 29 de novembro) de intensos debates e palestras, sempre muito acalorados e com a participação de parlamentares evangélicos. Os principais temas tratavam da liberdade religiosa, ameaçada pela “ditadura gay” que o PLC 122/2006 tentava implementar no Brasil, a desconstrução da heteronormatividade e a consequente destruição da família brasileira, imposta pelo PNDH III e pelo Ministério da Educação que, através dos livros didáticos que apresentam diferentes modelos de família, na visão dos evangélicos, busca impor a homossexualidade para as crianças. Além disso, também se discutiu sobre o “infanticídio indígena”, com a presença de pastoras indígenas, os programas de redução de danos do Ministério da Saúde que visam, através das suas cartilhas ensinar/estimular as crianças a usarem drogas e praticarem relações promíscuas, etc. O evento contou ainda com uma palestra especial realizada no sábado (30/11) pela manhã na igreja Sara Nossa Terra, onde vários evangélicos foram lançados pré-candidatos ao Congresso Nacional e também ao governo do Acre, finalizando com um almoço em homenagem ao dia do
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um evento realizado pela Frente Parlamentar Evangélica fora do Congresso Nacional, reunindo pastores e lideranças religiosas em diferentes localidades pelo Brasil. Segundo assessores e parlamentares, a ideia surgiu como estratégia para aproximar a sociedade dos debates na Câmara dos Deputados e, na fala de um deles, para ajudar “a construir a legislação, interagindo, pressionando”.
O movimento inicia em 2007, saindo do Congresso em direção aos municípios para apresentar seus projetos, argumentos e, com isso, tentar angariar apoio da sociedade:
São as Jornadas Nacionais em defesa da vida e da família. Nós estamos em um novo momento, a Frente Parlamentar Evangélica está saindo do Congresso e está indo para as cidades falar o que acontece aqui e pedir o apoio do povo, e esse apoio tem resultado na interferência aqui no Congresso, por exemplo, saiu o relatório de que 100% das pessoas que ligaram no Congresso Nacional são a favor do Estatuto do Nascituro, porque a gente orienta as pessoas, instrui, né.184
Há, portanto, um movimento para interagir politicamente com as lideranças religiosas e, essas, repassarem suas informações e argumentos aos seus fiéis os quais, por sua vez, acabam investindo seus votos em parlamentares ligados às igrejas evangélicas. Essa decisão impacta na composição que hoje temos dentro do Congresso Nacional. A assessora Daniela (IEQ) complementa explicando como funciona o processo desde o início:
Igreja Evangélica sentiu a necessidade de ter a sociedade participando dos debates na Câmara, ajudando a construir a legislação, interagindo, pressionando, é assim ó:.o Congresso têm alguns canais de comunicação, um deles é o 0800, 619619 que as pessoas ligam de qualquer lugar do país, é uma ligação gratuita, e se manifesta sobre um assunto, qualquer assunto. Então a gente começou a trabalhar isso dentro da Igreja Evangélica: “se manifeste” (...) “você pode participar desse processo, você pode ligar no Congresso Nacional, você pode mandar um e-mail”, que nós também temos o 0800@camara, a gente começou a divulgar os e-mails dos parlamentares. Aí as pessoas começaram a interagir, então isso tem
Evangélico (feriado em Brasília) e com a participação de todos na gravação do Festival
Promessas à noite, na Esplanada dos Ministérios.
184 Depoimento retirado de entrevista com assessora Daniela (IEQ), realizada em dezembro de
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surtido um efeito muito grande. Nós começamos a trabalhar isso, a bancada evangélica começou com a sua interação a partir de 2007, quando foi fundada a Frente Parlamentar da Família e a Jornada Nacional em defesa da vida e da família. O que a gente faz na jornada? A gente começou a fazer o seguinte: a gente começou a sair pelo país, a falar especificamente sobre uma igreja mudando
uma nação, de que forma a gente pode interagir.185
Os parlamentares e assessores da FPE exprimem assim um entendimento de que devem exercer também um papel de politização das igrejas, o que acontece através dessas caravanas conduzidas por parlamentares da Frente em diversas cidades do país. Nessa ocasião, em reuniões com pastores, cada parlamentar expõe um assunto específico, por exemplo, aborto, infanticídio indígena, pedofilia, casamento homossexual, etc. Dessa forma, acreditam que alimentam os pastores com os elementos necessários para o envolvimento dos fieis nos temas em questão, seu consequente convencimento da “gravidade” de alguns pontos e da importância de se eleger parlamentares que os possam representar no Congresso lutando para que os projetos que, no seu entender, atentam contra a vida, a família e os bons costumes, não sejam aprovados.
Com esse processo de base todo realizado, em época de eleições presidenciais mas, sobretudo nas proporcionais em que têm mais influência, os pastores apresentam-se munidos de materiais que os permite demonstrar a seus fiéis os malefícios e benefícios que cada candidato pode representar, segundo as concepções cristãs da igreja.
Com a realização das Jornadas em defesa da vida e da família, iniciadas em 2007 pela FPE, os parlamentares levam discussões sobre aborto, casamento homossexual, pedofilia186, educação, para dentro das igrejas. A discussão desses temas entre os fieis parte da apresentação do ponto de vista apresentado pela FPE. Esse envolvimento promove também o aumento da
185 Idem. Grifos meus.
186 Cabe destacar que o senador batista Magno Malta (PR/ES) conduziu, no período de 2008 a
2010 a presidência da CPI da Pedofilia no Senado Federal, período em que também viaja pelo país para as Jornadas em defesa da Família e da Vida. As palestras sobre pedofilia ficam a seu encargo, através da sua interpretação religiosa das investigações da CPI. Para uma etnografia minuciosa das atividades dessa comissão ver Lowenkron (2012).
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militância religiosa jovem. Assim, passeatas de jovens contra a maconha, marchas para Jesus e outras mobilizações são citadas como exemplos de demonstração do maior envolvimento da sociedade e, especialmente da juventude, em assuntos que estão em debate no Congresso Nacional. Ainda que tal envolvimento seja apenas de uma parte da sociedade, ou seja, dos fieis de um segmento religioso - os evangélicos, em grande maioria, pentecostais, - os parlamentares da FPE e suas respectivas igrejas ganham apoio dos fieis para suas causas, e a igreja amplia suas perspectivas de atuação na sociedade, trazendo dinamismo para os deputados e fortalecendo suas possibilidades de reeleição. Além disso, esse envolvimento estimula a candidatura de outros fieis, com bandeiras próprias e/ou de suas igrejas. Tal resultado é comemorado: “a gente começa a chegar naquilo que a gente queria, fazer a diferença, ajudar a construir uma nação diferente”.187
A ideia de um projeto de “construção de uma nação diferente”, conforme defendido por parlamentares e assessores da FPE, aponta para um projeto político maior do que a simples representação de um segmento social – o dos evangélicos pentecostais. Tal feito pode ser percebido também com a criação da Frente Parlamentar da Família, em 2006.
De acordo com assessora da FPE, o trabalho de católicos e evangélicos no Congresso até 2006 era efetuado separadamente, ainda que muitas vezes lutassem pelos mesmos temas. Assessora relata o caso do PL 1135/91, de autoria do deputado Eduardo Jorge (PT em 1991), como o mais antigo projeto sobre aborto no Congresso e que, desde então, os evangélicos vêm impedindo sua aprovação. Em 2005, a diferença de um voto apenas teria levado os evangélicos a perceberem que poderiam perder a votação no ano seguinte e, para contar com o apoio dos católicos, criaram a Frente Parlamentar da Família e apoio à vida, atualmente presidida pela deputada federal evangélica Fátima Pelaes (PMDB/AP), unindo parlamentares evangélicos e católicos. Atuam em conjunto com a Frente Parlamentar Mista em defesa da vida – contra o aborto,
187 Assessora da Frente Parlamentar Evangélica, em entrevista concedida em dezembro de
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presidida de 2007 a 2010 pelo deputado espírita Luis Bassuma, à época filiado ao PT, depois ao PV e atualmente presidida pelo deputado católico carismático Salvador Zimbaldi (PDT/SP).
Na última seção deste capítulo, a seguir, analiso as percepções dos membros da Frente Parlamentar Evangélica e também de seus opositores com relação à sua força política enquanto grupo de vigilância e pressão.