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4.2 E XPLORATORY ANALYSES

E entender como se faz a representação da prática narrativa dos professores surdos, como salienta a pesquisadora:

Assumir tal compreensão exige, então, que, ao se realizarem análises culturais, atente-se para o modo como o discurso constrói, de forma sistemática, versões do mundo social e natural e para o modo como ele posiciona os indivíduos nas relações de poder, dimensão que os trabalhos acima citados têm considerado. Por outro lado, admitir isso implica, também, complexificar a noção de representação. Como destaca Hall, em uma abordagem analítica que utilize semiótica, as representações atuam, essencialmente, na produção de significados- a preocupação analítica direciona-se como da representação-, a sua poética; já tem em uma abordagem discursiva, “os significados e as práticas significativas são vistos como construídos no discurso” (1977, p. 45), deslocando o interesse “para os efeitos e conseqüências da representação- a sua política” (idem, p.6). (WOORTMAN, 2002, p. 85).

Quando se coloca a temática do presente trabalho, necessariamente remete-se a percepção de políticas culturais da diferença, "de lutas em torno da diferença, da produção de novas identidades e do aparecimento de novos sujeitos no cenário político"( HALL, 2001, p. 115 ).

O trabalho acadêmico e o ativismo político estão intimamente entrelaçados, não há como fugir desta ligação, e para um trabalho como este é preciso ser um intelectual específico que, no sentido político, faz uso de seu saber, de sua competência, de sua relação com a verdade nas lutas políticas, ou seja, segundo o pesquisador:

O problema político essencial para o intelectual não é criticar os conteúdos ideológicos que estariam ligados à ciência ou fazer com que sua prática científica seja acompanhada por uma ideologia justa; mas saber se é possível constituir uma nova política da verdade. O problema não é mudar a “consciência” das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de produção da verdade (FOUCAULT, 1979, p. 14).

Como uma produção política se incluem as narrativas dos professores surdos nas universidades de acordo com as relações de poder e suas reações são as mais variadas.

68 O desafio foi analisar as narrativas deles relacionando com as questões a serem elucidadas como evidência do interesse nas relações de poder como obstáculos ao desenvolvimento profissional no espaço acadêmico como no caso que não foi enquadrado nas regras do discurso cultural nas universidades, no entanto, o sistema burocrático não se interessa pelas suas histórias culturais? Ou vemos como uma marca de uma cultura surda que não encontra espaço de negociação, enfim, uma consciência a partir de sua produção da verdade.

Podemos refletir sobre os apontamentos nas narrativas desses professores surdos que incomoda agora de repente os alunos de qualquer área das licenciaturas e bacharelado trazer para dentro de sala de aula o uso da Língua de Sinais Brasileira no ambiente acadêmico.

De acordo com a produção das narrativas é importante compreender melhor os conceitos utilizados por cultura, Língua de Sinais Brasileira, relações de poder, resistência, resiliência, pensamento político e negociação27, já que várias são as

orientações teóricas que giram em torno dessas questões.

Como já tive oportunidade de manter ou escrever noutras ocasiões relacionadas com a posição dos professores surdos28 que tem como base a construção da identidade

cultural, como diz a pesquisadora Coracini (2003), porém, a identidade se constitui na base do sujeito, no caso dos professores surdos a partir de sua perspectiva cultural como pertencente à um grupo que utiliza a Língua de Sinais Brasileira e ao mesmo tempo em que se distinguem de outros indivíduos do mesmo grupo que, por sua vez, se distinguem dos de outros grupos tais como as identidades sociais, profissionais, religiosa, etc., mas com confiabilidade científica como diz Coracini sobre o poder:

Esse sujeito – e, da mesma forma, a língua – poderia ser definido como ser totalizante capaz de reunir em si um saber idealmente completo, de que decorre o seu poder (Foucault, 1979), ou melhor, a sua confiabilidade, a sua competência. (CORACINI, 2005, p. 38).

27Os conceitos detalhados serão utilizados a partir do capítulo III.

28Como já foi publicado na minha dissertação de Mestrado: “Professor Surdo: A política e a poética da

69 Entretanto, é do ponto de vista cultural que abordo a identidade, como resultante de um conjunto de professores surdos ou representações que conferem ao sujeito surdo características de um ser totalizante, capaz de reunir em si um saber intelectual a partir das suas narrativas. O que os sujeitos, os professores surdos são capazes de narrar sobre si e que é necessariamente construído a partir do outro adquire como uma produção de verdade, ainda que estas não passem de ideologias, de estereótipos que são constituídos a nossa maneira de ser e de ver o mundo e tudo o que nos rodeia. Por essa razão, é melhor conhecer a maneira como atuam os professores surdos nas universidades, portanto, com base nas narrativas coletadas, as relações de poder são evidentes, habitam o professor surdo e constituem fortemente a sua subjetividade.

O que está deferindo a essa abordagem de mapear as narrativas quando se usa a teoria de Estudos Culturais se envolvendo com a metodologia de pesquisa? O método de narrativa frequentemente trata de colher dados narrativos em Língua de Sinais Brasileira feitos pelos professores surdos capazes de entender a realidade da Língua de Sinais Brasileira, identidade e identificação cultural sejam para universalizar seu sentido dentro do seu próprio discurso acadêmico e cultural, seja para acentuar sua crítica interna da universidade, do sujeito surdo. Esta é uma realidade familiar do conhecimento teórico, em que, tendo-se aberto à diferença cultural, metáfora da alteridade29 dos professores surdos deverá conter os efeitos da diferença.

Para observar as narrativas como envolvimento nas relações de poder como disciplina, deve-se garantir que o conhecimento da diferença cultural inclua a visão do Outro; a diferença, alteridade e intelectual tornam-se assim a fantasia de certo espaço cultural sobre a perspectiva ouvintista. De forma narrativa, posso entender que o lugar cultural dos professores surdos pode tornar-se mero fantasma para os outros professores que se envolvem no mesmo espaço principalmente nas discussões em reuniões em que ele próprio não terá espaço ou poder.

Ao aproximar a ideia do pesquisador e amante da cultura, o pesquisador salienta: A narrativa e a política cultural da diferença tornam-se o círculo fechado da interpretação. O Outro perde seu poder de significar, de negar, de iniciar seu

29Neste caso a alteridade surda capturada nas artimanhas do ouvintismo, mas existe também o momento

70 desejo histórico, de estabelecer seu próprio discurso institucional e oposicional. (BHABHA, 1998, p. 59).

Embora a narrativa se mostre como algo que possa ser conhecido de forma impecável, mesmo que ela seja representada de uma forma política cultural que é o nosso caso, ela não nos permite maior abertura para conhecer melhor a teoria de o que é ser surdo e as exigências que recaem sobre nós.

É possível usar abordagem de narrativa dos professores surdos e produzir, transgredir, transformar, compreender a tensão do interior da teoria que se envolvem nas universidades. Pois, a universidade é um lugar de narrativa, mas é também local de demonstrar como atuam os professores surdos nas relações de poder, em meio à dominação cultural dentro da universidade.

Essas narrativas podem ajudar tornar mais claro o fato que já vivemos nas ideias pós-estruturalistas que são opostas a ideia de pós-dominação, podemos sair da modernidade para a pós-modernidade e deixar claro que nós professores surdos muitas vezes somos rejeitados por sermos ativistas e intelectuais. Por outro lado podemos entender as relações de poder e as transformações de valor como parte da modernidade. Esses temas são importantes hoje, temos vários professores surdos efetivos em algumas universidades aqui do Brasil que são pesquisadores30 em prol dos movimentos

surdos na luta pelos direitos dos surdos, o reconhecimento dos professores surdos, as políticas de identidade e tantas outras mobilizações em prol de novas conquistas na Educação Superior.

Colhi os dados com respeito a quantidade de professores surdos efetivos nas instituiçoes de Educação Superior por contato virtual ou em alguns casos fui pessoalmente às universidades de diversos estados brasileiros para obter os dados, meus registros contam desde o ingresso dos primeiros professores surdos nessas instituições em 1997 até os dias de hoje.

Embora não seja objeto da minha pesquisa, pretendo mostrar as quantidades de professores surdos efetivos nas Instituições Federais de Ensino Superior em cada estado

30Por exemplo, cito uns 3 professores surdos que são pesquisadores que tem publicações sobre o tema que

faz referência como a Dra. Gladis Perlin sobre a política de identidade e reconhecimento dos professores surdos como no caso da pedagogia surda; Ms. Shirley Vilhalva na luta pelos direitos dos surdos e Dra. Marianne Stumpf como nas novas conquistas na Educação Superior.

71 brasileiro, como demonstração de que as instituições públicas têm espaço para professores surdos na área de Educação e Linguística:

QUANTIDADES DOS PROFESSORES SURDOS EM CADA ESTADO

Amazonas 5 Roraima 0 Amapá 3 Pará 5 Rondônia 4 Acre 0 Tocantins 3 Maranhão 0 Piauí 0 Ceará 14

Rio Grande do Norte 7

Paraíba 6 Pernambuco 8 Alagoas 1 Sergipe 1 Bahia 1 Goiás 5 Distrito Federal 7 Mato Grosso 3

Mato Grosso do Sul 4

Minas Gerais 17 Espírito Santo 1 Rio de Janeiro 15 São Paulo 4 Paraná 10 Santa Catarina 21

Rio Grande do Sul 30

FONTE: Flaviane Reis, 2015.

De acordo com a pesquisa feita, são 174 professores surdos efetivos na Educação Superior, sejam em grandes capitais ou no interior os professores surdos tem conquistado seu espaço. Até o dia da defesa de minha tese serão 174 professores surdos efetivos, mas depois de minha defesa caso sejam abertos concursos públicos tenho certeza que este número irá crescer ainda mais.

O pesquisador traz os seguintes argumentos em relação as narrativas surdas:

Ao adotar as narrativas como processo relacional, os surdos colocam em circulação um conjunto de enunciados sobre a sua vida que pode transformar o seu presente. As experiências que ouvimos e narramos têm o potencial de desestabilizar, atualizar e fazer emergir indagações sobre nós mesmos,

72 tencionando sentidos e certezas que guardamos. Portanto, as narrativas que ouvimos e narramos cotidianamente ressignificam as experiências passadas, a partir do ponto de vista do presente. Ao narrar um acontecimento que aconteceu no passado, o sujeito o faz à luz de novas vivências, de outros conhecimentos que adquiriu, de outros significados que foram posteriormente estabelecidos. Isto é, ele narra o acontecimento a partir de novas reflexões sobre a experiência passada. As narrativas, por esse ponto de vista, são processos permanentes de ressignificação. (SILVA, 2009, p. 52).

De acordo com o autor as narrativas surdas levam a perceber que os professores surdos narram suas histórias de acordo com as suas visões narram suas histórias envolvidas no campo universitário, como é o caso do curso de Letras/Libras, curso de Pós-Graduação em Educação, Linguística e Tradução, bem como os cursos onde ensinam a Língua de Sinais Brasileira relacionando essas atuações com as forças de poder, posicionamentos de resistências, cultura surda, rumos a resiliência e novos formas de pensar. As histórias contadas pelos professores surdos são visíveis de uma perspectiva cultural sem dominação cultural no campo universitário nos quais as suas subjetividades os constroem como novos indivíduos, tendo como a primeira língua, a Língua de Sinais Brasileira, e demonstrando através de suas experiências que temos potencial para exercer nossas atividades.