2. Materials and Methods
2.3 Data collection
2.3.2 Sub-sample analysis
O trabalho com a arte teatral, que é ao mesmo tempo subjetiva e complexa, existe alguma característica que o profissional usa como certa premissa, e que deve ser considerado fundamental ao desenvolvimento do trabalho. No caso de Brook, que é um encenador com um trabalho sólido, ao conceber uma obra, existe algo que considera essencial para que seja possivel a realização desta.
Para ele, “a essência do teatro reside num mistério chamado momento presente” (Brook, 1999: 68). É um momento surpreendente, que traz em um
átomo de tempo (Brook, 1999: 69) um universo inteiro contido em sua infinita
pequenez e que, ao seu ver, libera no presente o potencial coletivo de pensamentos, imagens, sentimentos, mitos, enfim todo um potencial oculto e denso. Tal liberação proporcionada pelo teatro faz dele próprio uma atividade potencialmente perigosa (Brook, 1999: 69).
34 Importa o momento que o teatro é capaz de proporcionar: “O aspecto da realidade que o ator está evocando deve despertar uma reação na mesma área em cada espectador, fazer com que, por um momento, o público viva uma impressão coletiva” (Brook, 1999: 70).
Com o foco na realidade do momento presente, Brook observa, por um lado, que nele se abstrairia a noção de tempo. Por outro lado, considera que cada momento estaria relacionado ao anterior e ao seguinte numa corrente incessante e infinita: “Assim, em todo espetáculo teatral, deparamo-nos com uma lei inevitável: o espetáculo é um fluxo que tem uma curva ascendente e descendente” (Brook, 1999: 70).
Para o encenador, a aceitação do mistério é fundamental. Por isso o homem deve manter o sentimento de assombro sem o qual a vida perde o sentido. Afirma, porém, que o ofício do teatro não pode ser misterioso, há sempre um degrau a mais para ser escalado, alçando um passo na direção de seu objetivo. Os degraus da escada encontram-se, segundo ele, nos detalhes que são percebidos com maior intensidade no espaço vazio (Brook, 1999: 64).
Brook expõe o pensamento de que o mistério que cerca o teatro é a busca de uma significação para torná-lo significativo para os outros (1999: 49). Então, essa busca teria como objetivo criar uma identificação, ou envolvimento, para quem o faz e para quem o assiste, fazendo com que o mistério não seja uma questão a ser desvendada e sim algo com um movimento constante de significação e significados. O intuito é gerar formas e significá-las. Segundo o encenador, tal proceder traria o invisível à tona. E, como a criação do mistério tem relação estreita com o invisível, afirma que o invisível não precisa ser manifestado:
O problema é que o invisível não precisa se tornar visível. Embora não tenha que se manifestar, o invisível pode surgir em qualquer lugar, em qualquer tempo, por meio de qualquer um, desde que as condições sejam propícias (Brook, 1999: 50).
Quando Brook afirma que é fundamental haver condições propícias para que o invisível se manifeste, refere-se a todos os aspectos que
35 instauração do espaço vazio junto à relação de cumplicidade estabelecida entre o espectador e os atores. No entanto, destaca que o estado do ator deve ser de receptividade, e que este teria relação direta com o sagrado e com a sphota. Ao afirmar que seriam essas as condições propícias que possibilitariam a presença do invisível, e ao relacioná-las com o ator, percebe-se a necessidade de ter esse elenco preparado na perspectiva de Brook, e em perfeita sintonia, sendo fundamental que todos possuam a consciência do “momento presente” (Brook, 1999: 50). Esse momento está relacionado ao fato do ator atingir um estado de consciência presente, sem divagar, e, assim, alcançar um estado de atenção, prestes a ser preenchido pela criação. Como o próprio Sotigui Kouyaté, ator africano que trabalhou durante anos com Brook, comenta em entrevista a Larissa Elias: “[...] estar presente no que acontece e isso é muito importante para as pessoas, estar presente na cena, no espaço, não com um conceito, com a presença” (Elias, 2004: 164), considerada como o ato de conseguir vivenciar o que está acontecendo no momento. No entanto, para os ocidentais, pelo movimento dispersivo geral e natural da nossa cultura, deve-se exercitar esse estado, pois por vezes estamos distantes de alcançar tal objetivo: a permanência no “momento presente”, o exercício da presença.
Ao levar em consideração as condições para que o invisível aconteça
estas – que não seriam iguais sempre – se tornam uma variável que deve
ser de certa forma controlada pelos atores. Eles devem procurar estar em contato com o seu estado interior, o qual segundo Brook, deve ser de receptividade. Identificar a diferença entre o que é propício e o que não o é, se torna uma tarefa complexa e delicada. Por isso, a intuição se mostra na arte um fator fundamental para o desenvolvimento de qualquer trabalho artístico, o diretor procura deixar claro em sua prática o significado e a força do invisível almejado pela encenação, o qual pode aparecer até nos objetos mais simples:
E através de formas totalmente inesperadas, o invisível pode se manifestar. O invisível pode aparecer nos objetos mais simples como numa garrafa de plástico que pode ser impregnada dele e se transformar magicamente em
36 qualquer outra referência de vida, como um bebê ou um gênio da lâmpada (Brook, 1999: 38).
O começo do trabalho seria o momento de se libertar de tudo que seja resposta imediata, pois tudo que aparece neste momento não deve ser colocado no trabalho, as criações que surgem de imediato são as mais superficiais e óbvias. A respeito dessa afirmação o teórico alemão e crítico de teatro e cinema C. Bernd Sucher observa: “Para nos libertarmos delas [as criações imediatas] temos de nos esvaziar. Temos de nos libertar de tudo o que arrastamos conosco. Temos de nos despejar como se desfaz uma mala”
(Sucher, 1999: 326). Por isso referindo-se ao espetáculo L´Homme qui10
(1993), reflete sobre a intuição, que vive no espaço vazio, como um fator decisivo para o teatro e para a criação:
Mas não poderia dizer que o nosso ponto de partida é o teatro Bouffes du Nord, embora tenha feito muitos desenhos e esboços muito diferentes, consciente de que teria que desfazer a mala. Trabalharíamos durante três anos neste projecto e interrompêmo-lo por duas vezes. Trabalhamos com muitos, muitos atores e com o Dr. Sacks. A intuição conduz-nos, vive no espaço vazio. A intuição disse-nos: não pode ser assim (Sucher, 1999: 326/327).
Ainda expõe o significado linguístico da palavra intuição em inglês e em francês e a explicita como algo desprovido de forma: formless. Reforça com veemência a importância da intuição mesmo antes de começar o trabalho, sendo radical no sentido de abandono do trabalho caso esta não exista:
Quando falo de intuição, refiro-me àquilo que, em inglês, se chama the formless haunch. Haunch significa intuição. Em francês diz-se que se trata de um présentiment, um pressentimento. Ainda não é uma ideia, é algo desprovido de forma, formless. Este présentiment é fundamental para
10 Tradução: “O homem que”. O trabalho foi realizado em 1993 e escrito por Peter Brook, Carrière e Oliver Sacks. O último é um neuropsicólogo que tem diversos livros publicados sobre seus casos clínicos em uma linguagem simples, que mesmo o leitor não sendo da área de neurologia ou psicologia, se torna possível de realizar a leitura (Sucher, 1999: 316).
37 mim. Quando ele não surge, está-se perdido. Quando se tem que dirigir uma companhia, precisa-se deste pressentimento. Quando se começa um trabalho teatral, tem que se ter este présentiment, senão não vale a pena começar, pois este sentimento indica o sentido do trabalho, o caminho (Sucher, 1999: 329).
A intuição no teatro constitui para Brook algo tão importante que participa de escolha ou seleção do texto. A intuição é uma percepção e nunca uma ideia. É uma matéria viva, sem forma, uma pré-imagem, como afirma Georges Banu, teórico francês de origem romena, professor da
Universidade da Sorbonne Nouvelle — Paris 3 —, em seu artigo Peter Brook
et la coexistence des contraires:
Assim que decide trabalhar com uma obra, Brook parte de uma percepção e jamais de uma ideia, de uma matéria viva “sem forma” cujo contornos não se podem designar. O seu texto não é mais do que uma “pré-imagem”.
Portanto, o caminho a seguir irá da “intuição sem forma” à
procura de “uma forma”. Adotando esse trajeto, Brook pretende seguir o mesmo itinerário do autor, que parte de uma “pré-imagem”, mas inspirado no real, para chegar à expressão concentrada que é o texto (Banu, 1985: 49 - tradução minha)11.
O resultado final do processo contém essa intuição transfigurada em uma forma concreta, sendo o ator o responsável por excuta-la. No entanto, essa pré-imagem está contida no espetáculo, como um embrião que cresce e se transforma na imagem final.