2. Research designing
2.3 The world and how to gain knowledge about it
A pesquisa de campo foi realizada no Campus Universitário de Miracema e participaram do referido processo 11 alunos, sendo cinco deles matriculados no curso de Serviço Social e seis em Pedagogia. Com este estudo, foi possível registrar alguns acontecimentos que, ao final da pesquisa, julgamos fundamental para o enriquecimento deste trabalho. Foi, então, conhecendo e identificando melhor as suas histórias, mediante a aplicação de questionários e o diálogo por meio das entrevistas e a observação participante que o texto foi sendo constituído.
Aqui se encontram descritas, no entanto, situações vividas por alguns participantes, que, em conversas informais e observações, foram por nós memorizadas, fatos que fazem parte da sua realidade cotidiana em uma dinâmica permanente e que ajudam melhor a compreender um pouco da sua história.
O primeiro contato com os acadêmicos ocorreu na sala de reunião do Campus. Ali se encontravam alguns indígenas, uns em atividades de estudo, outros dialogando com coordenadores do PIMI - Programa Institucional de Monitoria Indígena, ou em outros momentos, com professores que desenvolvem projetos relacionados à questão indígena e no próprio espaço da universidade.
Relembrando um dos momentos, ao adentrar a sala, antes do inicio da reunião, muito embora já fosse conhecido da maioria dos estudantes, uma vez que somos servidor da instituição/Campus, algo chamou-nos a atenção – os olhares assustado, principalmente, no semblante daqueles que ingressaram na universidade naquele período. Mesmo assim, porém, observando o que ali acontecera. Ao final da reunião, convidamos para uma entrevista um dos
participantes, justificando a finalidade da pesquisa. O convite foi prontamente aceito. Buscamos um espaço tranquilo e adequado e ali se deu o diálogo.
Diversos assuntos sugiram até o começo da entrevista. Num dado momento, indagamos: O que mais atrai na universidade? Parou, pensou profundamente e respondeu:
“Eu estou quase no final da minha meta, eu tinha um sonho e hoje estou quase concluindo o curso, hoje já sou um servidor efetivo pelo estado, eu preciso formar para ajudar a minha comunidade”.
Depois de algum tempo, entre tantas perguntas e respostas, terminada a entrevista, começamos a refletir. Esse senhor de quase 40 anos, com tantas dificuldades declaradas em tão pouco tempo, morando tão distante, sem recursos financeiros para se locomover até a cidade, sonha concluir um curso superior e retornar a sua comunidade para ajudá-los – me fez pensar. A sociedade não indígena é um tanto desarticulada na criação dos seus sujeitos. Ao contrário do indígena, apesar das mudanças ocorridas, vivendo naquele momento em um contexto diferente do seu, não perde de vista a sua forma de pensar e ver o mundo, nem o seu compromisso social, nem a sua identidade. Esse mesmo indígena conclui sua fala ressaltando:
“A universidade explica os acontecimentos antigos, o meu pensamento na forma de agir é o mesmo”. Fato curioso nos lembra de que, em eventos direcionados à população indígena, no
decorrer das atividades, a saudade da aldeia lhes tirava o sossego, retornando ao seu locus em meio a atividade.
No dia seguinte, no período da tarde, continuaram as entrevistas, entrevistamos alunos das duas modalidades de curso, licenciatura e bacharelado, para observar como eram direcionados os conteúdos. Em um dado momento, perguntamos; será que os professores na relação com o indígena valorizam sua cultura, sua identidade, dialogando entre o conhecimento indígena e o conhecimento acadêmico? Aquele Xerente nos respondeu.
A faculdade tem se esforçado para compreender e incentivar nós alunos indígenas, o processo tem sido lento. Alguns professores são ótimos, pois acreditamos que de uma forma geral vão entender que a nossa presença na universidade enriquece o ambiente no sentido cultural, educacional e científico. Porque não dar para sair da universidade meio professor. Nós indígenas acreditamos que seremos profissionais competentes, mesmo que nos sacrifiquemos no sentido de estudar longe de nossas raízes. Alguns professores conversam, outros não. (8º PERÍODO DE PEDAGOGIA).
Num outro momento, ao nos referir sobre o conteúdo, o acadêmico desabafa, ressaltando que os textos apresentam uma linguagem técnica e argumenta:
O conteúdo e a linguagem usada pelo professor é muito difícil, leio muitas vezes para entender, não existe um conteúdo específico de interesse dos indígenas. Nossa
região tem muito indígena, só nós, os Xerentes são quase 3.000, a universidade poderia ter uma disciplina próprio do indígena. (8º PERÍODO DE SERVIÇO SOCIAL).
Diante dos argumentos, nos veio a dúvida: será que os questionamentos feitos ao indígena são os mais indicados. Por enquanto, nos contivemos e o registro foi sendo construído pela observação pelo menos até aquele momento de incerteza. Algo nos chamou a atenção no semblante de alguns indígenas, ao percebemos um comportamento de desolação quando estavam a sós no banco da praça da universidade. Aquilo se repetindo por várias vezes, deixou-nos incomodado; ousamos em perguntar: observei o seu comportamento nos últimos dias; percebo uma certa tristeza em seu olhar. Algo que eu possa ajudar? Demorou em responder, porém diante de tanta insistência, resolveu revelar que não havia conseguido aprovação em duas disciplinas e que, com aquele resultado, era certo o acúmulo de disciplinas para o semestre seguinte ou a prorrogação do seu curso. Sem resposta naquele momento, porém refletindo o seu depoimento, orientamos ao acadêmico a dialogar com a Coordenação de curso e com os professores da disciplina, verificando se algo poderia ser feito para minimizar aquela situação.
Nesse percurso, partindo de uma análise mais introspectiva, dentre as contatos que fizemos com esses estudantes, observamos durante a pesquisa, que muitos acadêmicos se reprovam em mais de duas disciplinas e que isto tem de certo modo contribuído para a desmotivação de boa parte dos estudantes indígenas. O interesse demonstrado por alguns funcionários, professores e gestores em conhecer e aprender sobre os indígenas e suas culturas, foi também observado durante a investigação; a UFT/Campus Miracema demonstra uma preocupação por meio de alguns gestores e setores específicos em atender os cotistas em suas dificuldades, principalmente as que contribuam para a permanência destes na universidade.
Foi observada, ainda, no Campus de Miracema, a realização de alguns eventos específicos, embora tímidos, relacionados à questão indígena. Verificou-se, no entanto, uma acentuada ausência de docentes, o que conduz a universidade a repensar ações que possibilitem a interação efetiva de toda a comunidade acadêmica com o estudante indígena.
Com base nesse contexto, todavia, as situações ora apresentadas, talvez possam contribuir e servir como referência para se implementar na UFT/Campus Miracema ações que viabilizem além do acesso/ingresso, a permanência com êxito do indígena no ensino superior, considerando o grau de complexidade, a diversidade e o caráter multidimensional do fenômeno. Além disso, podemos considerar que todas, sem mencionar aquelas que não foram
apresentadas, apontam importantes elementos que devem ser observados na análise desse fenômeno, como, por exemplo, a criatividade dos indígenas, a relevância do tema e outros fatores não intelectivos, tais como o autoconceito, a motivação e a emoção.