Em Mateus 7, 12 lê-se: ―Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas‖. Na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios 10,24 está dito que ―ninguém procure satisfazer aos seus próprios interesses, mas aos do próximo‖. Aos Efésios 2,14, Paulo escreve: ―Ele é a nossa paz: de ambos os povos fez um só, tendo derrubado o muro de separação e suprimido em sua carne a inimizade‖. Muitos outros textos da Sagrada Escritura versam sobre este assunto. No esforço de reflexão teológica por uma Igreja inclusiva, a declaração provisória Uma Igreja de todos e para todos
115 Cf. MASKE, Neli. Deficiência e violência. In: Teologia e deficiência, p. 59. 116 Ibidem, p. 59.
117 Ibidem, p. 59.
118 CETINA, Edesio Sánchez. ―Ninguém busque seu próprio interesse, e sim o de outrem.‖ Teologia bíblica da
– logo na introdução afirma que: ―A Igreja é convidada a ser uma comunidade inclusiva e a
derrubar os muros‖.119
No entender de Cetina, ―talvez um dos temas essenciais para derrubar os muros da marginalização e da exclusão é a consideração do tema sobre a imagem de Deus.120 Ao abordar o homem, imagem de Deus,121 como objeto teológico, apresentam-se como fundamento bíblico importante os capítulos iniciais do livro do Gênesis. Consideremos aspectos do pensamento de Cetina sobre o conceito teológico – imagem de Deus – presente no Gênesis, na ótica da pessoa com deficiência, da alteridade, da diferença.
Em primeiro lugar, nesses textos, a partir de duas perspectivas diferentes, fala-se da origem da humanidade, enfatizando o aspecto da igualdade entre homem e mulher, sem comprometer as diferenças entre ambos. No primeiro capítulo de Gênesis (v. 26-28), afirma-se que o ser humano foi criado à imagem de Deus e que essa imagem só se manifesta na pluralidade, nada homogeneizadora, de homem e mulher. Nessa imagem, que sem dúvida acentua o elemento comunitário do ser humano, elimina-se qualquer ideia de superioridade ou inferioridade de algum dos dois componentes: homem e mulher. Em conjunto se pede a ambos realizarem todas as tarefas que, de acordo com a teologia, lhes pertencem como imagem de Deus. Em segundo lugar, em nenhum desses dois capítulos de Gênesis se mencionam diferenças sociais, raciais, étnicas, linguísticas ou de inteligência. Não há nada neles que coloque algum ser humano, homem ou mulher, acima de outro ou outros.122
Parece estar muito claro no texto da criação do ser humano o fato de a imagem de Deus123 estar dada, não nas características que diferenciam homem e mulher, mas naquilo que os identifica como criados por Deus, o fato de serem igualmente pessoas. Essa base comum desafia a convivência desde a pluralidade de expressões, privilegiando-se o mais frágil, por sê-lo assim, ou ainda por ter sido feito de tal forma. Para a teologia cristã, a consciência da fraqueza é ocasião para a manifestação da verdadeira força. ―No coração da teologia cristã, há uma crítica ao êxito, ao poder e à perfeição, e uma homenagem à fragilidade, ao fracasso e à vulnerabilidade‖.124
119 EDAN – Rede Ecumênica em Defesa das Pessoas com Deficiência. Uma igreja de todos e para todos: uma
declaração teológica provisória. [Tradução Iara Müller e Werner Ewald] São Paulo: ASTE, 2005, p. 7.
120 CETINA, Edesio Sánchez. ―Ninguém busque seu próprio interesse, e sim o de outrem.‖ Teologia bíblica da
deficiência no contexto da Imago Dei. In: Teologia e deficiência, p. 65.
121―Todos os seres humanos, com ou sem deficiência, foram feitos à imagem e semelhança de Deus e por Ele
abençoados (Gn 1,27-28). As deficiências são reconhecidas como parte da natureza humana, como uma realidade da vida, como a tristeza e a alegria, a saúde e a enfermidade, e nunca como um castigo celeste‖. Texto- base, CF-2006, n. 140.
122CETINA, Edesio Sánchez. ―Ninguém busque seu próprio interesse, e sim o de outrem.‖ Teologia bíblica da
deficiência no contexto da Imago Dei. In: Teologia e deficiência, p. 68.
123 ―Deus cria o ser humano à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26), dando-lhe valor e dignidade
incomparáveis, independentemente da sua condição física, mental, psicológica, econômica ou social‖. Texto- base, CF-2006, n. 217.
124 CETINA, Edesio Sánchez. ―Ninguém busque seu próprio interesse, e sim o de outrem.‖ Teologia bíblica da
Permanecendo neste rumo de análise, constata-se o desenvolvimento da teologia bíblica da Imago Dei na metáfora da criança. Colocamos, portanto, com Cetina, em paralelo o tema da deficiência a partir da metáfora da criança como imagem de Deus presente sobretudo no Salmo 8.125
O poeta e teólogo escolhe a criança como paradigma de ser humano, um exemplo ―melhor‖ de imagem de Deus. [...] Não é o homem adulto, grande e poderoso, quem tem a liderança para afrontar a maldade e vencer o inimigo. É a criança. Tanto aqui como na releitura que Jesus faz desse versículo em Mateus 21,14-17, o triunfo sobre o mal e fazer calar o que detém o poder, o hegemônico, se faz usando as crianças como ponto de referência. Nesse mundo, o autor bíblico escolheu deliberadamente a metáfora da criança como paradigma do vulnerável, do anti-hegemônico, de quem dá as boas-vindas ao anômalo, ao ―extraordinário‖, ao fora do normal e ordinário e que, portanto, ameaça a sociedade uniformemente conformada. Exatamente alinhado com o que se afirma no documento inciso 28: ―No coração da teologia cristã, há uma crítica o êxito, ao poder e à perfeição, e uma homenagem à fragilidade, ao fracasso e à vulnerabilidade‖.126
Ao ler os evangelhos sinóticos percebeu-se a predileção de Jesus pelos pequenos e frágeis, figurados na criança. Jesus apresenta a criança como protótipo para a pertença ao reino que ele veio instaurar. Naquela ocasião não se relacionou a criança como metáfora da imagem de Deus presente na diversidade humana por ele assim criada. Cetina constata que ―para Lucas e Mateus, o evangelho de salvação começa com o Deus criança‖.127 Na opinião
de Salazar, com a qual concordamos, admitindo ser um bom fundamento teológico para a prática pastoral e catequética,
Solidariamente, Deus opta por sua criação, reafirma-a como sua imagem e a inclui nessa Nova Criação. Já não é mais possível pensar na Igreja com o espaço que reúne os perfeitos convidados e convidadas para o casamento, mas a imagem que nos apresenta a parábola de Lucas 14,15-23 conduz para uma Igreja aberta ao serviço, diversa, que sem distinção tem convidados e convidadas, onde esses sujeitos são os que dão significado à celebração.128
Com base nesse pressuposto da Imago Dei e na presente realidade dos espaços eclesiais faz-se urgente ―ajudar a nascer uma nova Igreja, em que pessoas com deficiência participem e não fiquem isoladas‖.129 Para tanto, é necessário
Criar uma teologia e uma hermenêutica que vêm da experiência de ter uma deficiência. Nós desejamos uma teologia que envolva nosso corpo assim como ele é,
125 Cf. CETINA, Edesio Sánchez. ―Ninguém busque seu próprio interesse, e sim o de outrem.‖ Teologia bíblica
da deficiência no contexto da Imago Dei. In: Teologia e deficiência, p. 68.
126 Ibidem, p. 69. 127 Ibidem, p. 70.
128 SALAZAR, Elizabeth. Talita Cumi: chamados a viver na diversidade. In: Teologia e deficiência, 2010, p. 28. 129 MÜLLER, Iára. Deficiência e gênero. In: COLLOT, Noel Fernández; MENESES, Alexandra; GIESE, Nilton
(orgs.). Teologia e deficiência. [Tradução Roseli Schrader Giese] São Leopoldo: Sinodal; Quito: CLAI, 2010, p. 33.
não tentando nos fazer ter um corpo perfeito para assim somente caber na imagem de Deus.130 Por isso vejo a urgência de fazer perguntas que ajudem a formular
alguns objetivos pedagógicos inclusivos: Como estão distribuídos os espaços físicos que permitam o acesso a pessoas portadoras de deficiência em nossas instituições? Que preparação as pessoas relacionadas com a docência teológica estão tendo a respeito? Quais didáticas da deficiência podemos assumir na docência? Que dimensão litúrgica da deficiência estabelecemos em nossos momentos na capela? Mas, para ir ainda mais longe, como discernir Deus na presença da deficiência? Como reconhecemos a imagem de Deus (Imago Dei) presente nas pessoas portadoras de deficiência?131
Como se vê a pessoa em si, no seu ser, em especial a mais fragilizada, identifica-se com a imagem querida por Deus. A história da revelação atinge seu ponto mais profundo na fragilização do Filho de Deus, como o homem Jesus de Nazaré (cf. Fl 2,6-11). As deficiências intelectuais, motoras, sensoriais, físicas não são impedimentos teológicos para que todos sejam acolhidos como imagem de Deus. É importante partir da prática teológica de Jesus, com o propósito de construir comunidades inclusivas que superem os preconceitos e tabus sobre a deficiência.132 Esta reflexão deve possibilitar a convivência em meio à diversidade e ao reconhecimento da pessoa humana, como imagem e semelhança de Deus, dotada de dignidade e valor.133