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Neste ponto da leitura bíblica que fundamenta o ensinamento da fé junto à pessoa com deficiência, na perspectiva do seu protagonismo,94 destacaremos algumas perícopes do evangelho de João, Atos dos Apóstolos, Tiago e Cartas Paulinas. O processo de evangelização da Igreja em sua pastoral catequética, quando iluminado pelo jeito de viver a fé dos primeiros cristãos, tem de considerar a forma como aqueles incluíam a todos, indistintamente, na experiência de vida comunitária. A partir deste ponto de vista, a pessoa com deficiência também é sujeito da ação catequética.

1.4.1 Evangelho de João

João desenvolve sua teologia apresentando Jesus – o Verbo que se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1,14) – como aquele que se solidarizou de modo pleno com a realidade humana.95 Para este evangelista, Jesus é o bom pastor para todos, a fim de que tenham vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10b). Partindo desta constatação, compreendemos o amor incondicional de Jesus pelos fragilizados por estarem afastados do rebanho. Teologicamente afirma ser o pecado o fator principal da perda de comunhão com o rebanho, cujo pastor é o Senhor Jesus.

Sabe-se que a condição de pecado ou de graça está para além da natureza física ou intelectual da pessoa. Um homem ou uma mulher podem muito bem ter ou não uma deficiência física ou intelectual, e buscar ou não viver em estado de graça. Uma pessoa com deficiência física, por exemplo, pode ser moralmente boa ou má.96 Infelizmente, no decorrer da história, construiu-se uma ideia que associou deficiência com pecado. A deficiência seria, então, o sinal visível do castigo de Deus pelo pecado da pessoa em questão, ou do pecado de alguém do seu núcleo familiar. Destaca-se, neste estudo, desde o evangelho de João, o não radical e explícito, que Jesus dá a esta concepção religiosa. As atitudes e palavras de Jesus em todos os evangelhos apontam nesta direção, mas em João, capítulo 9, o ensinamento é claro e evidente.

94 ―O Evangelho é a verdade inclusiva por excelência. Jesus sempre convocava a pessoa ao protagonismo (cf. Mt

15,28)‖. Texto-base, CF-2006, n. 175.

95 ―Nosso Deus não é fechado em si mesmo, mas é o Deus voltado para o outro, que se esvazia e vem ao nosso

encontro‖. Ibidem, n. 156.

96―Ter uma deficiência não faz com que uma pessoa seja melhor ou pior do que uma pessoa não deficiente‖.

Numa leitura superficial, a cura do cego de nascença pode parecer apenas mais uma, dentre tantas que Jesus realizou. Porém, como cada uma das outras curas, esta tem o seu particular ensinamento. Vale chamar a atenção, também aqui, para o processo de cura como de substancial valor, pois, durante este processo, Jesus denuncia um modelo religioso deficiente e anuncia aquele que dá condição para o acesso à vida em plenitude (cf. Jo 10,10).

Trazem a Jesus um cego de nascença para ser curado. O texto bíblico parece propor que os que dialogam com Jesus têm como ponto pacífico que essa cegueira é consequência do pecado. Não perguntam se aquele homem está cego porque pecou, mas, já supondo esta realidade, querem saber quem pecou: ele ou algum antepassado seu? Jesus revela, neste encontro, mais um aspecto de Deus. ―Deus é Amor‖ (1Jo 4,16). Não é do seu feitio nem de sua natureza castigar o ser humano que foi criado por amor. Se em vista da finitude da natureza humana criada, aparece a deficiência, que esta seja oportunidade de aceitação dessa fraqueza. Só assim a força e a glória de Deus podem manifestar-se.

No contato com sua condição complexa e vulnerável, ao ser humano coloca-se a oportunidade de construção de redes de relações que o fortalecem. O cego de nascença, do capítulo 9 de João, faz-se sinal profético da dependência de toda pessoa a Deus e aos seus irmãos. Jesus responde a seus interlocutores, afirmando que nem o cego nem seus antepassados pecaram. Mas ele assim vive para que nele se manifeste a glória de Deus.

Jesus ensina e oferece a vida em abundância, incluindo neste processo de revelação a pessoa com deficiência. Haverá comunidade geradora de vida em plenitude, na medida em que toda pessoa for acolhida na sua individualidade e características. Haverá comunidade de discípulos missionários, na medida em que o foco deixar de ser o legalismo, a procura minuciosa daquilo que é motivo de separação, e passar a concentrar-se, criativamente, naquilo que contribui para o acesso de todos, sem barreiras de nenhum tipo, ao redil do pastor que dá a vida para que as ovelhas tenham vida em plenitude.

1.4.2 Atos dos Apóstolos, Tiago e Cartas Paulinas

A ênfase deste item será colocada sobre o refrão que se repete no Novo Testamento: ―Deus não faz acepção de pessoas‖. O livro dos Atos dos Apóstolos mostra que os doze aprenderam a lição sobre inclusão dada a eles por Jesus. Basta destacar a história narrada nos

At 3,1-10. Esta perícope coloca em destaque como João e Pedro deram continuidade à ação inclusiva de Jesus Cristo.97

Para Collot, os exemplos da atenção preferencial de Jesus pelas pessoas com deficiência, pelos doentes crônicos e pelos pobres marcou o acontecimento judeu de sua época e deu-se início a uma nova era, a era do ―amor inclusivo de Deus‖. Diante de uma cultura, política, tradição e religião excludentes experimentadas pelo Nazareno e seus contemporâneos, o cristianismo nascente emerge com a palavra e a ação de Jesus Cristo, como a fonte de inclusão do Deus-amor, conforme nos define a Primeira Carta de São João 4,8.98

Deus é amor, e manifesta-se como aquele que acolhe e ama a todos, indistintamente. Diversas vezes e em contextos diferentes, a Sagrada Escritura nos recorda que o amor inclusivo do Senhor não faz acepção de pessoas. Em Colossenses 3,11 lemos: ―Aí não há mais grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo, livre, mas Cristo é tudo em todos‖. Em nota, a Bíblia de Jerusalém observa que ―na nova ordem desaparecem as distinções de raça, religião, cultura e classe social, que dividiam o gênero humano desde a Queda (cf. Gn, 3). Refaz-se a unidade ‗em Cristo‘‖.99

Ainda em Colossenses 3,25, Paulo retoma a mesma ideia: ―Quem faz injustiça receberá de volta a injustiça, e nisso não há acepção de pessoas‖. Também aos Romanos o apóstolo lembra – ―Porque Deus não faz acepção de pessoas‖ (Rm 2,11). Aos Gálatas 2,6 – ―E por parte dos que eram tidos por notáveis – o que na realidade eles fossem não me interessa; Deus não faz acepção de pessoas – de qualquer forma, os notáveis nada me acrescentaram‖. E citamos, por fim, Paulo aos Efésios 6,9 – ―E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, sem ameaças, sabendo que o Senhor deles e vosso está nos céus e que ele não faz acepção de pessoas‖.

Paulo, como se vê, em vários contextos, afirma o amor inclusivo do Senhor pelos seus. Em Atos dos Apóstolos 10,34 lemos que: ―Tomando então a palavra, Pedro falou: ―Dou-me conta, em verdade, de que Deus não faz acepção de pessoas‖. Pedro e Paulo, grandes colunas da Igreja, no seguimento de Jesus, apontam e vivem o paradigma da inclusão. Importante registrar ainda a mesma verdade de fé, agora na voz de Tiago 2,1 – ―Meus irmãos, a vossa fé em nosso Senhor Jesus Cristo glorificado não deve admitir acepção de pessoas‖.

97 Cf. COLLOT, Noel Osvaldo Fernández (org.). Como una sola flor seremos – inclusión del tema de la

discapacidad en las Iglesias e instituciones teológicas de Mesoamérica. EDAN, CLAI Ediciones, 2011, p. 30.

98 Cf. Ibidem, p. 30.

Para ser cristão, para colocar em prática algo tão próprio e arraigado no jeito de ser de Jesus faz-se necessário empreender uma transformação radical,100 uma renovação real e efetiva no estilo paulino (Rm 12,2), que comece por uma abordagem teológica, sem a qual não é possível nenhuma outra mudança.101

1.5 ALGUNS PRESSUPOSTOS TEOLÓGICOS PARA O ENSINO DA FÉ JUNTO À