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4 Additional objectives

4.3 Innovation

Segundo o ensinamento do papa Bento XVI ―não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva‖.102 Deus

encontrou-se com o ser humano na história da salvação. Nesse processo de encontro, Deus, como um bom pedagogo, usou recursos na comunicação possíveis de serem captados pelos homens. A Sagrada Escritura está repleta de sinais dessa preocupação pela acessibilidade103

100 ―Por isso, o exemplo de Jesus, que se fez ‗servo‘ (Mc 10,45) de todos, e de Paulo, que se fez ‗fraco com os

fracos‘ (1Cor 9,22), mostra por onde vai o caminho da autêntica conversão pessoal e social para a inclusão das pessoas com deficiência‖. Texto-base, CF-2006, n. 169.

101 Cf. COLLOT, Noel Osvaldo Fernández (org.). Como una sola flor seremos – inclusión del tema de la

discapacidad en las Iglesias e instituciones teológicas de Mesoamérica, p. 31.

102 DOCUMENTO DE APARECIDA. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino- Americano e do Caribe. [Tradução Luiz Alexandre Solano Rossi] São Paulo: Paulus, 2007, n. 12, p. 13. 103―O conceito de acessibilidade aparece no início da década de 1960, na área de arquitetura, nos EUA e na

Europa, a partir do conceito de projetos livres de barreiras, focado nos problemas de mobilidade das pessoas em cadeiras de rodas. [...] Devemos considerar a acessibilidade arquitetônica, comunicacional, metodológica, instrumental, programática e atitudinal – ver contrapontos com as barreiras, nas mesmas equivalências‖. Texto- base, CF-2006, p. 139.

no processo autorrevelativo do Senhor. O dar-se a conhecer de Deus enfrenta a quebra de barreiras que impedem essa aproximação. Na plenitude dos tempos, Deus se faz homem (cf. Gl 4,4).

As figuras teológico-pedagógicas do encontro de Deus com os homens, passando pelo chamado dos patriarcas e dos profetas, pelas ilustrações do amor de Deus aos homens a partir do amor humano, seja pela imagem do casamento como em Oséias, ou simplesmente do amor como em Cântico dos Cânticos, têm fundamento no pressuposto de que o encontro coloca em relação o que é diverso. Encontra-se com alguém que, embora tendo semelhanças consigo, é diferente de você. Na diversidade aparece a possibilidade do crescimento, partilhando-se e somando-se o que o encontro pôs em relação. No entanto, ainda ―entende-se ou percebe-se a diversidade como ameaça à integridade ou à própria imagem e identidade‖.104

Essa concepção da diversidade, como ameaça à própria integridade, tem como consequência teológico-pastoral a tendência a selecionar e agrupar os que são mais semelhantes, esquecendo-se de incluir os que apresentam alguma diferença mais notória. Segundo a teóloga Elizabeth Salazar, existe um esforço de compreensão nova do conceito de diferente. É preciso ―restabelecer a diversidade não a partir do modelo básico que determina o outro como ‗o diferente‘, mas entender que a nossa realidade é intrinsecamente diversa e nem por isso negativamente distante e distinta‖.105

Ao concordar com a concepção anterior, afirma-se que, fundamentada nela, a pastoral catequética poderá fazer a inclusão de todos em seu processo de anúncio da boa nova. Admitindo o intrinsecamente diverso dos seres humanos como pressuposto antropológico para a reflexão teológica, ficará claro o sentido de equidade na diferença e haverá possibilidade de superação das relações de poder, que se criam a partir da classificação das diferenças.106 ―A deficiência está relacionada com a própria ideia de normalidade e com sua historicidade. Essa retórica não só delimita a deficiência, mas também regula a vida das pessoas consideradas ―normais‘‖.107

Um desdobramento importante desta postura é chamado por Salazar e outros autores, de ética do cuidado. ―A ética do cuidado chama nossa atenção para o compromisso por sujeitos particulares; não falamos de números e tipologias, mas falamos a partir do outro e

104 SALAZAR, Elizabeth. Talita Cumi: chamados a viver na diversidade. In: COLLOT, Noel Fernández;

MENESES, Alexandra; GIESE, Nilton (orgs.). Teologia e deficiência. [Tradução Roseli Schrader Giese] São Leopoldo: Sinodal; Quito: CLAI, 2010, p. 20.

105 Ibidem, p. 21-22. 106 Cf. Ibidem, p. 22.

107 MASKE, Neli. Deficiência e violência. In: COLLOT, Noel Fernández; MENESES, Alexandra; GIESE,

Nilton (orgs.). Teologia e deficiência. [Tradução Roseli Schrader Giese] São Leopoldo: Sinodal; Quito: CLAI, 2010, p. 58.

outra em sua especificidade‖.108 A função da ação catequética e pastoral, ou da práxis cristã

transita nesta esfera ao se propor, por meio de verdadeiros encontros, a ―personalizar‖ cada pessoa, a derrubar os impedimentos e alienações que a cultura de massa protagoniza.

A diferença como realidade intrínseca do ser humano, o encontro como suporte de fortalecimento da própria imagem e integridade, a ética do cuidado como fundamento da sujeiticidade de cada indivíduo são o tripé sobre o qual se firma e se põe em movimento a interdependência entre os seres humanos. Esta é característica necessária da condição humana. ―A interdependência mostra uma responsabilidade social compartilhada‖.109 Pode-se

parafrasear esta afirmação e propor que a interdependência mostra uma responsabilidade eclesial compartilhada. Como compartilhar essa responsabilidade na prática pastoral, no que diz respeito à pessoa com deficiência? A pergunta de Morales é a seguinte:

Mas o que é a interdependência entendida a partir da deficiência? É, para mim, uma nova lógica de vida, que constrói a partir das suas relações os homens e as mulheres que convivem com ela. [...] Reviver a ordem para um modelo de complementaridade solidária dispõe-nos a novas formas de pensar e de agir.110

A teóloga citada entende a interdependência, quando relacionada à pessoa com deficiência, como complementaridade solidária. ―A alteridade deficiente está determinada pelo modernismo, o qual inventa e exclui esses ‗outros‘ à sua medida, a seu tempo e interesse‖.111 Acredita-se que, convivendo e encontrando, pessoas com deficiências ou sem

elas, é mais fácil construir novas formas de pensar e de agir. Maske sugere que o encontro com

A alteridade deficiente supõe uma reflexão, contemplação e aproximação ao que para mim é diferente, é outro. O outro irrompe, e nessa irrupção nossa mesmice se vê alterada, destituída. Evoca algo novo, diferente e provoca nossa mesmice (o mesmo, o conhecido, o dominado).112 O tema da alteridade é uma opção pessoal;

implica ver ou não no outro o que é como pessoa. Pois bem, se olharmos as pessoas portadoras de deficiência a partir do que NÃO são ou não têm ou lhes falta, então facilmente desenvolvemos e adotamos uma atitude excludente.113 A alteridade

―eficiente‖ leva-nos a visibilizar o próximo e perguntar: E se o outro não estivesse ali?114

108 SALAZAR, Elizabeth. Talita Cumi: chamados a viver na diversidade. In: Teologia e deficiência, 2010, p. 23. 109 MORALES, Débora García. Gênero e deficiência na formação teológica. In: COLLOT, Noel Fernández;

MENESES, Alexandra; GIESE, Nilton (orgs.). Teologia e deficiência. [Tradução Roseli Schrader Giese] São Leopoldo: Sinodal; Quito: CLAI, 2010, p. 38.

110 Ibidem, p. 37.

111 MASKE, Neli. Deficiência e violência. In: Teologia e deficiência, p. 58. 112 Ibidem, p. 58.

113 Ibidem, p. 59. 114 Ibidem, p. 60.

Ao armar sua tenda entre os homens, pela Encarnação (cf. Jo 1,14), Jesus viveu, revelou e ensinou o amor inclusivo de Deus. Deus ama a todos e a cada um de maneira singular. Ele se encontra com cada um, respeitando a sua alteridade como ser completo, porém inacabado. Uma Igreja inclusiva fundada nos ensinamentos ―jesuânicos‖ há de ultrapassar os limites da alteridade deficiente.115 Rompidos os impedimentos eclesiais, todos podem desenvolver-se e contribuir para o desenvolvimento de todos. ―A inclusão do diferente, daquele que incomoda e desacomoda permite-nos compreender e agir de acordo com a cura inclusiva da proposta de Jesus‖.116

Em seus encontros de cura comumente se lê que Jesus pergunta ao seu interlocutor sobre o desejo que o move: ―O que queres? Ou, queres ser curado?‖ Essa pergunta, conforme se argumentou ao ler os textos bíblicos, não atinge somente o indivíduo e seu problema físico. ―Hoje a colocamos em meio a nossas Igrejas. A pergunta de Jesus vai além do problema físico [...]. É uma pergunta à integridade e à totalidade dos que compartilham o mesmo círculo em nossas Igrejas‖.117 Descobrir o ―outro‖, buscar o bem do outro, como diz o apóstolo Paulo, é

mudar posturas teológicas discriminatórias, que consideram a pessoa com deficiência um problema. Acolher posturas teológicas inclusivas implica em derrubar os diferentes muros de marginalização e exclusão, construindo espaços e meios adequados e livres de obstáculos para as pessoas com diferentes tipos de deficiência. Assim haverá condição de dizer para o outro, para a outra: ―Bem-vindo, bem-vinda, preciso de você, enriquece a minha vida‖.118