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Especificamente com relação à pesquisa do cérebro dos adolescentes homicidas da Fase84, a hierarquia interna dos saberes é explícita e enfática na fala desses pesquisadores:

“Nessa análise de como o sujeito se constituiu, entra uma avaliação neurológica

e uma psiquiátrica. Queremos estudar, por meio da ressonância, as respostas aos estímulos emocionalmente relevantes” (RZF-E);

"Na realidade, é um projeto que visa mesmo a ver bases neurobiológicas, neurológicas e genéticas, mas não descuida dos aspectos neuropsicológicos, psiquiátricos, emocionais e sociais" (relato do neurocientista Jaderson da Costa, da

PUC-RS, outro pesquisador da referida pesquisa85).

Chama atenção a expressão “não descuida”, que talvez dê a real dimensão do que é investigado e o que fica em segundo plano, ou seja, as questões emocionais e sociais,

84 Fase – RS: Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul (antiga Febem) – é o

órgão governamental gaúcho responsável pela execução das Medidas Sócio-Educativas de Internação e de Semiliberdade, determinadas pelo Poder Judiciário, a adolescentes autores de ato infracional.

85

Reportagem online de 21 de Janeiro de 2008: “Psicólogos tentam impedir pesquisa com homicidas”. Recuperado em 12 de dezembro de 2010, de http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=53818

que se mostram como variáveis mais difíceis de serem controladas, isoladas, definidas e determinadas como influentes nas causas da delinquência.

Em 2008, esta pesquisa foi duramente criticada por grupos de profissionais, representantes da sociedade civil e entidades sociais, que alegavam que é ilusória a ligação entre patologia médica e comportamento antissocial sem considerar de fato outros atravessamentos que possam interferir na constituição do processo delinquencial. O problema apontado foi que os “pesquisadores do cérebro” consideram que encontrar “traumas psíquicos” e “problemas psicológicos” na biografia ou história de vida que possam ter ocasionado as lesões cerebrais e, logo, o comportamento criminal destes adolescentes é algo simplista e reducionista, pois sugeriria que, pela simples descrição de experiências de vida, se conseguiria chegar diretamente ao dano causado em termos neurológicos e também psicológicos, emocionais e sociais. Esta visão seria um tanto ingênua e cínica, pois desconsidera a particularidade dos estudos das ciências humanas, suas multiplicidades e seus pluralismos metodológicos.

A pesquisa histórica exige outros procedimentos do que a verificação sistemática, métodos hermenêuticos opõem-se aos desconstrutivistas e mesmo no interior de um único modelo metodológico existem divergências consideráveis (Welsch, 2007, p. 241).

Para os pesquisadores do cérebro, as Geisteswissenschaften (ciências do espírito ou ciências humanas) desde o século XIX apresentam um status de pseudociências, sendo compreensivas e brandas em comparação com as ciências naturais, que se instituíram como as representantes da “verdade”, sendo explicativas e duras. Colocando-se como único, o método experimental da ciência natural é que deve ser considerado sempre o mais adequado e aplicado em qualquer contexto, até mesmo quando se trata de questões mais complexas e ambíguas, como as sociais e emocionais, por exemplo. Questionamos esta divisão tão precisa e aparentemente tão nítida, que considera que as coisas e fenômenos humanos podem ser facilmente divididos entre grupos de ciências e de disciplinas. Em contraposição à naturalização das ciências, consideramos que

[...] as Geisteswissenschaften não são nem internamente subdivididas com precisão, nem têm uma delimitação clara em relação ao exterior. Sua interdependência se deve não à referência a um elemento aparentemente unificador – como “espírito” –, mas a diversas sobreposições e parentesco entre as disciplinas (idem).

Porém, em Descartes e na modernidade, as ciências constituíram-se a partir da lógica separatista e diferencial, definindo uma racionalidade em que os saberes devem ser claramente organizados, e suas partes, muito bem delimitadas. Conseqüentemente, as especificidades das disciplinas construíram uma lógica de distanciamento do pesquisador do objeto da pesquisa através do conceito de neutralidade, ou imparcialidade, demonstrando, com o argumento do controle de variáveis, um inevitável isolamento de tudo que implica a análise das relações de poder ou dos agenciamentos políticos de forças múltiplas que possam interferir nos resultados “precisos e assépticos” propiciados pelo método científico.

Assim, no caso da pesquisa em questão, o distanciamento da ciência da prática política e a desconsideração dos efeitos morais e éticos dos seus procedimentos ficam claros quando os pesquisadores ilusoriamente acreditam que a delimitação de uma clientela participante de qualquer pesquisa que mede aspectos criminais, estes claramente considerados negativos do ponto de vista dos valores sociais, não estigmatiza e aumenta preconceitos e discriminações. Como diz Flores:

“Mais estigmatizados do que estar preso na Fase e ser um homicida precoce?

Não, não acho. A pesquisa é anônima” (RZF-E).

Mas que anonimato é este que todos sabem que o adolescente está preso e que é dele que as pesquisas falam? Chama a atenção que, segundo este pesquisador, a retórica do anonimato é suficiente para descolar os preconceitos e discriminações das hipóteses de que quem é homicida tem determinadas lesões cerebrais e vice-versa (atualizando a frenologia). Além disso, tal fala denota idéias de que se eles, os homicidas, já são tão estigmatizados pelo que são e por onde estão e não podem ser mais, então não há por que se preocupar em piorar suas vidas, elas já são as piores possíveis. Outro fator problemático nesta pesquisa é a afirmação:

“Eles serão voluntários. Só alguém muito ingênuo e muito desinformado pode achar que a gente faria algo assim à força” (RZF-E). Nesse caso, parece haver uma

grande ingenuidade e talvez desinformação do pesquisador por considerar que o desejo humano seja algo livre, individual apenas e totalmente autônomo e independente de infinitos fatores, e que os adolescentes privados da sua liberdade, sendo submetidos a um sistema de encarceramento violento e necessitando do apoio de qualquer pessoa para amenizar seus sofrimentos, vão ter total liberdade de manifestar oposição a demandas de poderes judiciais, acadêmicos e sociais sem imaginar que serão prejudicados com isso. Nesta afirmação, há a desconsideração total das questões paranóicas institucionais,

das relações de dominação existentes nestes espaços e das múltiplas forças e demandas que permeiam as posições e desejos dos sujeitos, especialmente destes. Além disso, se este pesquisador se diz determinista e declara que as pessoas não são tão autônomas assim, sendo governadas por cérebros constituídos por fatores externos, como podem os adolescentes selecionados ser voluntários e ter seus desejos manifestados de forma livre, responsável e sem influências externas? Questões contraditórias, ambíguas e paradoxais, tais como muitas destas afirmações “científicas”.