11 Methodology
11.10 Survey findings
11.10.10 Willingness to buy product extensions
O racismo foi um tema que apareceu com certa regularidade quando discutimos sobre o preconceito, no entanto pareceu incomodar e causar menos estranhamento do que as questões relativas à sexualidade, padrão de beleza e bullying. Ainda assim, a questão racista se configura como um problema na sociedade atual quando, segundo o mapa de Violência de 2014, mais de 60% dos assassinatos cometidos no Brasil são contra jovens, e destes, mais de 80% são contra jovens negros.
Para Guimarães (2002), o racismo é um conceito relativamente recente que deriva das questões relativas a raça. Em seus primórdios, o termo raça designava um grupo de pessoas conectadas por uma origem em comum. No entanto, ao longo dos anos surgiram várias teorias biológicas sobre a raça que deslocaram a significação para tipos de espécie de seres humanos distintas, tanto fisicamente quanto em termos de capacidade mental. Baseadas nessa concepção biológica, o conceito do racismo reduz o cultural ao biológico, e busca explicar um status social por uma característica natural.
Bobbio (2004) diz que o racismo se refere ao comportamento do indivíduo à raça que ele pertence, como também ao uso político de alguns resultados para levar uma raça a ser superior as demais. Este uso busca justificar as atitudes de discriminação e exclusão contra as raças inferiores. Assim, o racismo é uma forma de corroborar para a divisão dos seres humanos, sendo uns superiores, por alguma virtude ou qualidade, e outros inferiores, apartando a sociedade em estratos.
Skliar (2004), por sua vez, coloca várias formas ou expressões em que o racismo se manifesta: o preconceito, a segregação, a discriminação e a violência racial. O preconceito é uma forma de estabelecer e determinar o discurso para não ferir e proteger as identidades consideradas dentro da norma. A segregação é a espacialidade relacional entre o eu e o outro. A discriminação é um tratamento diferencialista que penaliza as minorias. A violência racial é
a materialidade das outras três formas de expressão do racismo, sendo que estas estão em um estado latente e não intencional de uma forma discursiva, enquanto a violência é sua força visível. Ainda assim, essas formas de expressão não explicam como a questão racial acaba se transformando em uma questão racista, ou seja, como em determinado momento histórico um grupo começa a ser um outro minoritário e diminuído.
Para Foucault (2005), o racismo é a aceitação da matança em uma sociedade normatizada e regulada pela homogeneidade. O racismo é um corte entre o que deve viver e o que deve morrer. Como diz o autor:
[...] no continuo biológico da espécie humana, o aparecimento das raças, a distinção das raças, a hierarquia das raças, a qualificação de certas raças como boas e de outras, ao contrário, como inferiores, tudo isso vai ser uma maneira de fragmentar esse campo biológico de que o poder se incumbiu; uma maneira de defasar, no interior da população, uns grupos em relação aos outros (FOUCAULT, 2005, p. 304) .
Assim, o racismo moderno está ligado a uma tecnologia do poder que se distancia da guerra das raças e se aproxima ao biopoder. Neste sentido, o racismo está ligado ao funcionamento de um Estado que utiliza a raça e a sua purificação para exercer um poder soberano do direito de matar. Essa constatação de Foucault traz mais referência aos estados totalitários, como o nazismo. De uma forma ou de outra, o racismo é um dispositivo que utiliza diversas formas e usos do poder (FOUCAULT, 2005).
O que nos chamou atenção na presente pesquisa foi a relação que os alunos fizeram do racismo com a cor da pele: negro ou branco. Os negros seriam alvo de racismo, enquanto os brancos não. Para eles, racismo é discriminação, preconceito e violência contra os negros. Porém, como a maioria da escola é parda e negra, o racismo não se configurou como uma questão, conforme disse Fabrícia: “Aqui tem pouco branco, os brancos sofrem mais preconceito aqui na escola do que os negros, por exemplo ela ali, na frente da gente ela é muito
branca né? É mais fácil ela sofrer preconceito do que a gente”.
Na restituição, questionamos novamente aos alunos: “Vocês disseram que aqui na escola não tem racismo?”. Eles responderam:
“Sabrina: não.
Luan: aqui os negros são todos unidos, se mexer com um... já era, mexe com todos. Marcila: não, tem não, tem umas brincadeiras aqui e acolá mas nunca foi um problema”.
As brincadeiras que os alunos se referem são a utilização de apelidos carinhosos para designar negros, como neguinho ou pretinho. Quando questionado sobre fora da escola, eles disseram que também nunca haviam passado por nenhuma situação racista e que não via problemas. Porém, percebemos que a relação que estabelecem geralmente fica circunscrita ao bairro e a escola, como diz Gabriela: “Eu nunca passei nada disso, mas pensando bem eu saio
pouco de casa e fico mais na escola”. Assim, a convivência geralmente se estabelece com a
comunidade pobre e negra, que acaba sendo a maioria.
Quando discutimos sobre o curta que contava a história de um casal homossexual, um dos alunos disse que era muito mais fácil fazer um curta sobre racismo do que sobre homossexualidade. Questionamos: “Por que é mais fácil?”. Fabrícia disse que a maior parte da escola é contra o racismo, no entanto contra os homossexuais existe uma disparidade, uma parte a favor e outra contra.
Além dos muros da escola o racismo se configura como uma questão nas relações sociais. Dentro dos muros não, principalmente porque o outro da escola não é o negro, não é ele que precisa de um nome, de um espaço, de uma localização. O negro é a mesmidade, é o que já é comum a escola. Não existe mal-estar, não existe distância, não existe necessidade de matar ou excluir, caso contrário toda a escola estaria aniquilada.
A escola não odeia nem maltrata os negros, não separa nem isola, não profana, não
segrega. Pelo contrário: ela evoca, torce, afirma: “Nós somos negros!”. Como diz Skliar (2004,
p.86), “utilizamos o outro para fazer a nossa identidade algo mais confiável, mais estável, mais segura”, no entanto, no caso do racismo na escola, o branco é necessário para fazer o negro ser
mais estável, mais seguro.
Em relação a isso, é muito interessante notar que a história do curta-metragem que trata do racismo, “As Aparências Enganam”, foi produzida em um espaço fora da escola. A história do curta se passa em um bazar e na rua, chamando atenção para os frequentes estereótipos do negro como ladrão, mendigo, vagabundo. No final do curta, o aluno diz: “Você
não pode fazer isso comigo, só porque eu sou negro e mendigo, isso é racismo!”. Enquanto os
outros dois curtas foram passados no ambiente escolar, este não. Assim, para além dos muros da escola, a eliminação racial é um processo dinâmico das sociedades contemporâneas. No interior de países em desenvolvimento, por exemplo, são utilizados grandes operações de purificação racial e eliminação dos indesejáveis. Diversos jovens negros hoje morrem, e essas mortes não podem deixar de serem previsíveis. Elas fazem parte de um planejamento de um biopoder que concede um estatuto de verdade ao que já conhecemos: elimina-se a pobreza por
uma questão política de eliminação dos pobres devido ao fato de pertencerem a raças desfavorecidas. Ainda assim, isso não se constituiu como problema nas discussões na escola.
Dependendo de como se configura as relações de poder dentro de determinados locais, o outro se flexibiliza. Em todo caso, ele sempre vai ser aquele que é necessário para a mesmidade se sentir segura e estável. Nesse jogo de produção do outro, o alívio, o desaparecimento, o aniquilamento, a segurança. Em suma, todo um jogo doloroso e trágico de presenças e ausências, de luzes e de sombras.