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In document Ekornes: Stressless (sider 45-50)

As preocupações em torno da boa forma e de uma beleza aceitável tem acompanhado a sociedade a partir de contextos sócio históricos distintos. Na Grécia Antiga, por exemplo, valorizava-se o corpo nu e exercitado. Na Idade Média, o corpo era proibido de ser exibido devido às questões religiosas. No Renascimento, era preciso apresentar um corpo belo e dançante. Assim, cada época histórica teve uma preocupação sobre o corpo (FLOR, 2009).

Segundo Mendes (2006), Foucault entende o corpo como um ente que compõe carne, ossos, órgãos, isto é, uma matéria física que não é sem vida, mas sim totalmente moldada e remodelada por técnicas disciplinares e biopolíticas. Ao contrário de um sujeito que não existe a priori, o corpo preexiste como matéria. Entretanto, o corpo pode ser objeto de diversas relações de poder e saber que apregoam atitudes corporais e modos de sujeito. Logo, o corpo pode ser um arcabouço para os processos de subjetivação.

Atualmente, podemos observar diversas técnicas e exercícios de poder que se inserem no corpo. Através da mídia temos um veículo de divulgação e construção de padrões de beleza baseados em fórmulas de mercado que atualizam o tempo inteiro práticas coercitivas da materialidade do corpo. Ora, que corpo belo se busca hoje? As mulheres buscam corpos magros e exercitados, rostos impecáveis sem espinhas ou marcas, cabelos lisos. Os homens buscam corpos extremamente musculosos e exercitados (FLOR, 2009).

Qualquer sacrífico é válido para ter um corpo perfeito. E assim, com as inúmeras exigências feita ao corpo, a partir das várias coerções para que ele se torne cada vez mais saudável, jovem e produtor de prazer, o corpo está cada vez mais protegido e resgatado. O cuidado ao corpo seria um modo de afirmar a felicidade e a autoestima. Ter um corpo belo e saudável é sinônimo de se sentir feliz. Contudo, esse resgate ao corpo se desloca de um par controle-repressão para um controle-estimulação, uma vez que ao mesmo tempo que o corpo é controlado em favor das necessidades da economia do mercado, por outro, em um exercício de compensação, cada sujeito tende a criar um espaço de cuidado de si separado do mundo. O corpo-estimulação suscita dois movimentos:

O primeiro é um movimento de expansão externa - impelindo cada corpo a se conectar direta e cotidianamente com as necessidades do mercado global; o segundo, é de expansão interna, incitando cada um a voltar-se para seu corpo e a querer o controle e o aumento dos seus níveis de prazer. Ou seja, no primeiro caso, o corpo aparece intimamente conectado com interesses que em muito ultrapassam a esfera de ação

e de compreensão de cada um. É quando o corpo, com suas singularidades e

potências, tende a desaparecer. Já, no segundo caso, o corpo ganha uma importância

exagerada, porque são multiplicadas as exigências e as sensibilidades que cada

indivíduo tem em relação a si mesmo (SANT’ANNA, 2005, p. 99-100, grifos nossos).

Logo, podemos dizer que a mídia tanto atua de acordo com as necessidades de mercado, quanto atua no exercício de exigências e sensibilidades que cada sujeito tem consigo mesmo.

Na escola pesquisada, o analisador “padrão de beleza” surgiu em diversos momentos da oficina, seja pela altura, pelo peso, ou por utilizar óculos, aparelho, como Márcio

diz: “Sofro preconceito porque eu sou anão. Porque sou muito magro. Sim, e tem preconceito contra gente gorda. Botijão de gás, sabe. Tem o quatro olhos também, tem o que usa aparelho”. Nesta cena, observamos o quanto o preconceito em relação ao corpo é relacionado ao estereótipo: o anão, o muito magro, o gordo, o botijão de gás, o quatro- olho, o que usa aparelho. Ainda assim, não podemos dizer que existe um padrão de beleza do magro versus o gordo, pois o que parece imperar é uma certa utopia de um corpo perfeito, no sentido de ser exatamente nas medidas perfeitas: nem muito magro, nem gordo, na medida certa.

O corpo ideal se debate com o corpo que tenho que mostrar e passear. Esse corpo, mercadologicamente produzido e ao mesmo tempo estimulado por diversas exigências. Nesse sentido, o corpo pode ser um “caminho” para a subjetivação, como diz Mendes (2006, p.170):

“os processos de subjetivação por meio de relações poder-saber, como descritas e analisadas

ia falar em disciplinamento e governo do corpo”. Pois bem, aqueles que não respeitam o contrato social, são controlados por meio de leis sociais, mecânicas e pedagógicas. Isso faz parte de uma tecnologia de poder que age sobre o corpo, atuando naqueles que devem ser punidos. Apesar disto, às vezes a punição é deveras oculta e age muito mais como estimulação do que como repreensão.

Essa punição pode chegar através da mídia, com os corpos perfeitos e exuberantes. Ela pode nos fazer pensar: “A mídia diz que eu posso ser desse jeito.Por que eu não posso ser desse jeito? Eu posso ser46”. E Márcio responde: “Se a gente não se encaixa naquilo a gente acha ruim. A gente acha ruim e fica triste, e fica querendo fazer parte daquilo, torce para fazer parte”47. O “torce para fazer parte” inclui uma diversidade de métodos e técnicas para ascender aquele ideal. Contudo, as alunas disseram:

“Marcila: Eu não acho ruim porque a gente tem que gostar da gente como a gente

é, não é que tem que estar gorda, magra, bonita. Você tem que gostar do jeito que você é. Quando eu estou na praia, de biquíni, numa boa, eu gosto de mim do jeito que eu sou. Eu sei que não sou magra dessas de revista, mas eu gosto de mim”

“Sabrina: Quem tem que gostar de você é você, não os outros”

“Marcila: Eu acho que é errado quem fica falando que é muito magro ou muito gordo,

cada um tem seu estilo, seu jeito de ser. Se é alto ou baixo não é da conta de ninguém. Se é gordo ou magro o que importa, você tem que cuidar da sua vida, não adianta nada ficar tomando conta da vida dos outros...”48

Ao mesmo tempo que uns acham “ruim não fazer parte”, outros discordam dizendo

que não importa os padrões de beleza socialmente impostos. Por outro lado, observamos um

resgate ao si mesmo, “gostar de você pelo que você é”, uma certa essência de ser você mesmo.

Assim, o corpo é um caminho pelo qual a subjetivação se inscreve. Você se torna alguém, com determinadas características específicas que precisam ser veneradas, cultuadas, mesmo que não esteja dentro do padrão.

Ainda assim, quando questionamos: “Vocês estão falando que o que vale é o que você é, independente do que as outras pessoas vão achar, mas na prática é isso realmente que

acontece?”, eles disseram:

“Sabrina: é que aqui o pessoal se importa. Fala. Critica. Todo mundo tem seu jeito, todo mundo é o que você é. Só que se você não tiver o corpo lindo, né. A mídia coloca

uma atriz super linda na televisão, coisas maravilhosas na televisão, aí você não quer ser igual a ela?

46 Transcrição do quarto dia da oficina. 47 Idem.

“Fabricia: Ah, muitas pessoas dizem assim: - ah eu não me importo com o jeito que ela se veste não. Mas sempre tem ali no cantinho que fala assim: - Aquele menino é

mendigo porque ele anda de calça rasgada. Ah eu não tenho nada a ver com a vida das pessoas, ah aquela pessoa vive com calça rasgada, vamos fazer uma vaquinha

para comprar uma calça nova. Sempre tem”

“Márcio: Todo mundo quer ir para escola bem vestido, quer impressionar, não quer ser mal falado. Olha aí essa roupa mó paia. Todo mundo quer agradar todo mundo” “Sabrina: Até com as próprias amigas, algumas andam muito arrumadinhas, muito

preocupadas com a beleza, adoram fazer brincadeirinhas chatas, chama de gorda, feia. Isso machuca muito. Eu chego em casa e fico pra baixo.”49

Anteriormente, Sabrina havia dito que “temos que gostar de nós mesmos”, no entanto depois disse que na escola as pessoas criticam e que a mídia coloca certos padrões de beleza que ela que seguir50. Assim, a mídia tanto faz parte da nossa rotina quanto nos ensina modos de ser e de estar no mundo (MIRANDA, 2007). Por vezes, ela nos desafia, nos faz criar diversas formas de viver e de nos comportar. Também tem efeitos de poder variáveis que tanto nos confronta, quanto nos impele a produzirmos diversos posicionamentos de sujeito, apreciando certos comportamentos, estilos, e, por outro lado, depreciando outros.

Por outro lado, o nosso modo de nomear, localizar e descrever o outro sempre vem muito entrelaçado ao fetiche do estereótipo, como observamos quando Fabrícia diz que se uma pessoa veste calça rasgada é porque é mendigo. A calça é uma marca que posiciona o mendigo, uma marca que o coloca no lugar que dizemos que ele pertence. E já que queremos tanto que ele volte a ser mesmidade, então vamos fazer uma vaquinha. Quantas vaquinhas não gastamos para que o outro volte a ser o mesmo? Ou, quantas vaquinhas gastamos para que nós não sejamos mais o outro? Quantas cirurgias estéticas, roupas na moda, regimes, aparelhos, produtos milagrosos, terapêuticas? As técnicas da disciplina corporal não só criam corpos padronizados, mas subjetividades controladas, como diz Ortega (2002, p.155): “trata-se da formação de um sujeito que se autocontrola, autovigia e autogoverna. Uma característica fundamental dessa atividade é a autoperitagem”. Esta, produz diversos sujeitos preocupados e antenados com corpos belos e determinadas formas de se posicionar no mundo. O corpo, como dito acima, é um dos principais caminhos para formação da subjetividade.

Tendo problematizado essas questões, o que nos interessa não é investigar a essência de um sujeito, mas sim entender os diferentes modos pelos quais os seres humanos tornam-se sujeitos, sendo produto de relações de poder-saber (FOUCAULT, 1979). Aqui, a

49 Transcrição do quarto dia da oficina em que estávamos dialogando sobre o assunto. 50 Ver trecho transcrito no início da página anterior.

subjetividade é processual, é um vir a ser que não se estabiliza de maneira definitiva. O sujeito é sentido e percebido ao passo que constrói territórios subjetivos desejantes que são campos provisórios de força (DELEUZE, 1988). A construção e a fabricação histórica dos processos de subjetivação trazem uma nova forma de falar sobre o sujeito. Para Deleuze, Guattari e Foucault, “[...] a subjetividade do indivíduo diz respeito menos à identidade e mais à singularidade, isto é, à possibilidade de viver a existência de forma única [...]” (MIRANDA, 2005, p. 38, grifos nossos).

O conceito de singularidade, operado por Guattari, se cruza com os vetores de subjetivação, se ocupando de movimentos heterogêneos através de fluxos e atravessamentos. A singularidade que estamos falando nada tem a ver com a individualidade, pois pode ser vivida por grupos ou instituições (MIRANDA, 2005). Assim, ao contrário de pensar em uma subjetividade individual ou uma identidade, a subjetividade se encontra tanto nos indivíduos quanto no socius, podendo se inscrever de diferentes formas, variando entre dois polos:

de um lado, a sujeição em relação às instituições produtoras de subjetividade: família, Estado, trabalho, mídia, marcada pela conformidade, pela reprodução do idêntico, o achatamento da heterogeneidade, das diferenças, enfim pela massificação do cotidiano, sinalizando uma produção de subjetividade assujeitada; por outro lado, a criação de novos processos múltiplos e heterogêneos, que engendram relações livres e criatividades, onde indivíduos e grupos assumem suas existências de modo singular, criando outros valores, novas formas de pensar e de agir, viabilizando a produção de subjetivação singularizadas. São formas paralelas e concomitantes (MIRANDA, 2005, p. 41)

A discussão sobre como entendemos a subjetividade é importante para que possamos trabalhar o atravessamento do corpo com os modos de subjetivação. Além de um corpo físico ideal, os alunos comentaram sobre determinados modos de ser dentro da escola. Disseram que o sujeito “cool” da escola deveria jogar futebol ou volley com destreza. Contudo, não parece ser somente isso como diz Márcio: “Não é só fazer esportes não, você tem que ser popular, tem que fazer um monte de coisa a mais”. Marília refuta: “Popular é gente que anda de skate, é legal, mas tem o estilo também, tipo rapper ou skatistas, calças apertadas, boné de

aba reta, short xadrez”. Márcio interpela: “Não, você não está entendendo, não é só estilo, o cara tem que ter várias características, tem que ser simpático, conversar com todo mundo, ter um tipo físico legal, ter todo esse estilo de ser”. Então, perguntamos: “E o que não é legal aqui?”. Sabrina comenta: “Ser nerd não é moda aqui! O maneiro aqui é não estudar, você está ali com seu caderno não é maneiro”.

Permeando o território escolar, observamos uma certa estilística de ser em relação aos bonés de aba reta e esse modo meio skatista, meio jogador de futebol. O que é “maneiro”,

fica. O que não é, vai embora. E assim, muitos “guetos” se formam, como afirma Fabrícia,

Marcila e Luan: “Tem o grupo do nerds, dos pirangueiros, dos que jogam futebol, dos

excluídos”; “A maioria das panelinhas não se misturam de jeito nenhum. Mas eu me misturo...

tem gente que se mistura”; “Tem grupo de todo tipo de gente, do futebol, da gandaia, dos

pirangueiros”.

Os grupos não são mais do que um espaço de autorização para que os outros continuem sendo outros, entretanto em um certo espaço de legalidade, de oficialidade (SKLIAR, 2003). Quem estiver dentro do grupo dos nerds serão oficializados e legalizados como nerds. Eles não são maneiros, não tem uma vestimenta cool, não são simpáticos. Os nerds, por vezes, se misturam aos excluídos e formam um espaço de convivência dentro da biblioteca, como diz Sabrina: “Eles vão lá para biblioteca porque sabem que não tem outro lugar para

ir”. Quem disse que aquele era o espaço deles? A temporalidade e espacialidade quem

regulamenta somos nós. Eles não têm espaço na quadra: “A galera do futebol toma conta da quadra, a gente não está nem vendo, não tem nerd que pise aqui” (Márcio). Para cada corpo um lugar, em cada lugar um corpo, como já disse Foucault (2011, p. 138): “[...] importa estabelecer as presenças e as ausências, saber onde e como encontrar os indivíduos, instaurar

as comunicações uteis, interromper outras [...] a disciplina organiza um espaço analítico”

Em suma, o padrão de beleza e os modos de ser foram bastante citados quando conversamos sobre o preconceito. A demarcação do que é bonito ou feio, ou do que é cool e bad, em termos de modos de se vestir ou ser, recaem sobre distintos dispositivos que procuram fazer demarcações e individualizações ao mesmo tempo que também operam generalizações.

In document Ekornes: Stressless (sider 45-50)