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In document Ekornes: Stressless (sider 69-0)

11 Methodology

11.10 Survey findings

11.10.7 Information search

Nos discursos da escola frequentemente vinha a relação entre preconceito e bullying. Por vezes, alguns alunos tratavam como sinônimos, outras como um prolongamento,

como se o preconceito fosse mais “geral” e o bullying mais “específico”. Inegável o quanto existe uma onda discursiva a respeito desse fenômeno. Neste sentido, o preconceito parece causar menos impactos e o bullying mais, já que no segundo pode existir alguma situação violenta e opressora.

O bullying é uma denominação inglesa surgida na Noruega em 1970, tendo sido uma expressão utilizada em vários países tantos nos estudos acadêmicos quanto na mídia (ANTUNES e ZUIN, 2008). Para Lopes Neto (2004), a definição do termo compreende atitudes agressivas, sendo intencionais e repetidas adotadas por um ou mais estudantes contra outros, causando dor e angústia dentro de uma relação desigual de poder.

Ainda assim, podemos afirmar que o bullying é uma das retóricas da moda que surge de tempos em tempos para explicar o mal-estar e o desassossego social, já que de uma forma geral essa questão engloba a violência. No entanto, a violência ocorre há muitos anos ocorre nas escolas. Em torno disso, existem várias receitas que propõem identificar e combater o bullying. Dessa forma, este termo tem sido tratado como uma subcategoria da violência, tendo que ser intencional, persistente e degradante (BARROS, 2014).

Esse deslocamento da emergência da categoria bullying ocorreu na transição do século XX para o XXI, pois a violência deixou de ter foco apenas nas depredações e furtos, passando a ter foco nas agressões verbais e físicas entre pares dentro da escola. Além disso, algumas marcas do neoliberalismo e o consequente desmantelamento de diversas políticas públicas alteraram os desafios na escola. A partir deste período, aumentou a quantidade de crianças nas escolas públicas, porém a qualidade do ensino e do trabalho continuou precária, trazendo uma série de problemáticas que veio a trazer complexidade para as relações (BARROS, 2014).

Em suma, o bullying ganha cada vez mais espaço dentro das escolas, sendo amplamente discursado tanto pelos alunos quanto por professores na escola pesquisada, porém, como pontuado anteriormente, parece haver uma relação entre este fenômeno e o preconceito, sendo o primeiro muito mais criticado e combatido do que o segundo, que é mais aceito pois

faz parte da “natureza” do homem, como diz Fabrícia: “olha, eu até aceito que a pessoa tenha

preconceito, mas bullying não tem condições não, não dá porque machuca, agride”. O primeiro passa então a ser uma consequência do segundo, como diz Luan: “tipo, você tem preconceito, e com esse preconceito você faz bullying”.

Para Luan, o bullying pode estar em um âmbito individual do agressor. Para Antunes e Zuin (2008), este fenômeno é uma forma de violência que envolve aspectos culturais, sociais, políticos, econômicos e individuais. Esses fatores individuais, fazem referência ao desenvolvimento do sujeito em um ambiente, e os culturais, se referem a um socius que exige certas normas e direcionamentos específicos. Assim, o bullying se aproxima do conceito de preconceito:

principalmente quando se reflete sobre os fatores sociais que determinam os grupos- alvo, e sobre os indicativos da função psíquica para aqueles considerados como agressores. Essa proximidade leva à hipótese de que o que atualmente tem sido denominado bullying é um fenômeno há muito conhecido pela humanidade, mas que ganhou nova nomeação pela ciência pragmática que se ilude ao tentar controlá-lo via classificação e aconselhamentos (ANTUNES e ZUIN, p. 36, grifos nossos). Para tanto, falar do bullying como um conceito que apenas se refere a culpabilização do agressor e a proteção do agredido, é deixar de lado a problematização do próprio conceito que acaba adquirindo uma essência estática. Assim, é preciso discutir o caráter descritivo e a ilusão de ordenação e de controle deste fenômeno. Bullying e preconceito são conceitos diametralmente opostos, pois a tipologia do primeiro trata o que é dinâmico como estático (ANTUNES e ZUIN, 2008).

Neste ínterim, para os alunos e os professores, o bullying é um problema que precisa ser resolvido e combatido. Existe uma necessidade em controlar esse fenômeno, que aparece na escola e aterroriza os alunos. Para o bullying, controle. Para o preconceito, conscientização. Assim, o bullying é agressivo e absurdamente temido, como diz Sabrina: “Eu conheço uma menina que sofreu tanto disso que mudou aqui da escola, eu morro de medo”. E um pouco mais, Fabrícia disse:

“Alguém pegava as coisas dela e jogava no lixo. Mandava cartinha para ela dizendo que todo mundo odiava ela. Tinha uma menina de outra sala que odiava ela. Dizem o povo, mas ninguém conseguiu descobrir quem era, aí ela se mudou de colégio por causa disso”

Os alunos, petrificados, disseram que temiam o agressor. Sabrina corroborou:

“Eu soube que fizeram uma cartinha com letra de revista ameaçando ela”; e Fabrícia completou: “Eque iam fazer coisa ruim para ela. Aí ela se mudou de colégio”. Bullying traz

medo, enquanto o preconceito parece ser algo naturalizado no cotidiano e impossível de escapar, como podemos perceber quando o professor Gabriel diz no curta-documentário “Viver

em mundo sem preconceito”:

“Historicamente a gente vem carregado de preconceitos, dentro da nossa formação seja intelectual, ideológica, de uma determinada maneira de ver o mundo que exclui outras maneiras diferentes de ver”.

Ainda assim, o bullying apareceu bem ao lado e praticamente como sinônimo do preconceito, como dizem os professores na restituição quando questionamos o que eles achavam sobre o preconceito na escola: “Eu acho que o maior bullying aqui é desse tema aí” [referindo ao tema da homossexualidade]”; Essa questão do preconceito é um leque muito maior... apesar da gente ter visto aqui o bullying racial, sexual”.

Na segunda oficina com os alunos, após assistirem o filme de “O Primeiro da Classe”, logo fizeram uma relação de que Brad sofria de bullying52. Assim, perguntamos: “Pessoal, do que falava o filme”?, e Márcio disse: “Você sabe, ele sofreu muito bullying,

preconceito.” Quando foram confeccionar os cartazes, os alunos focaram mais no bullying do que no preconceito. Em um dos grupos, Pablo disse: “Eu não sei se isso é bullying, mas eu

estou colocando aqui”. No outro grupo, Sabrina disse: “A Dilma pode sofrer bullying,

preconceito, né, porque dizem que ela é lésbica”. Esses dois últimos trechos denotam uma

dificuldade de diferenciar o preconceito do bullying. Para os alunos, pareceu sinônimos. Importante notar também que, na restituição Judith colocou em xeque a violência escolar e o quanto o bullying pode ser um rótulo que mais auxilia a exclusão do que propriamente a problematização da violência na escola:

“Meu filho teve uma discussão em sala com uma colega. Eles eram amicíssimos, uma besteira que depois quando a gente vai ver é só uma besteira que a professora poderia ter organizado em sala de aula. Dois amigos amicíssimos. Ela [a amiga] pegou uma redação, rasgou e quis colocar na boca dele, ele chegou e pegou nos braços dela para que ela não continuasse com aquele ato. A professora disse que ele era violento. Ele foi suspenso da escola, a amiguinha também. Só que nós, eu como mãe e a mãe da menina, sabíamos que não existia violência nenhuma, eram só amigos, mas quase que chegava a expulsão. E meu filho agora tá no psicólogo, olha, por causa de uma besteira que a professora poderia ter intermediado. Gente vocês são amigos, que

brincadeira besta, mas a partir do momento que você rotula o jovem de violento, de agressivo. Ele agrediu uma menina, olha ele agrediu fulano. Então a escola inteira começa a olhar para aquele jovem de maneira diferente. Como ele é um jovem muito alto para sua idade, então assim a família paga o preço e ele também paga. Então

agora talvez ele saia daquela sede para ir pra outra sede por conta de um rótulo de violência que não existe, o psicólogo fez foi rir, esse menino é violento?

Nesta cena, a professora Judith coloca em xeque o rótulo de violento e agressor, e expõe o quanto às vezes essa nomeação pode ter consequências para a vida do jovem e da família. Dessa forma, observamos o quanto o termo bullying, da forma como ele vem operando no cotidiano, despolitiza os conflitos entre os pares, já que é muito mais fácil rotular, excluir, afastar, do que problematizar, colocar em xeque, entrar nesse espaço de conflito e de luta.

Outro elemento que vale ressaltar é a fronteira entre o bullying e a brincadeira, como pudemos observar no cartaz confeccionado pelos alunos no segundo dia da oficina53 e no

próprio trecho acima. Se por um lado a “brincadeira” pode ser rotulada de “bullying”, por outro ela pode ocultar uma ação que demarca, fere e exclui. Na restituição com os professores, Bianca comentou:

“Às vezes assim também algo que a gente percebe também é que a gente não toma atitude por achar que a turma está integrada de uma forma que a pessoa que no primeiro momento a gente acha que está sofrendo preconceito, bullying. A pessoa

está participando também da brincadeira e a gente acha que se está participando, aceitando está curtindo. E às vezes não é bem assim. Ela entra na brincadeira para não piorar a situação dela, mas ao mesmo tempo ela tá sofrendo e ai a gente não sabe reconhecer quando é que isso acontece. Eu acho que muitas situações em sala de aula acontecem isso, eu percebo isso”.

Assim, qual é a fronteira entre a brincadeira e a ofensa? Como a diretora diz: “Eu vejo que inclusive entre professores a questão do fazer hora com a cara do outro, ah isso é brincadeira. A gente não sabe até quando para o outro isso é brincadeira”. A brincadeira seria outra forma oculta e eufemística de tratar o outro? Seria uma forma de desresponsabilização, de despolitização? “É só brincadeira, nada demais” e assim se abafa? Ou, até mesmo nessa situação que acontece em sala de aula descrita pela professora:

“Gabriela: inclusive eu não sei se vocês já perceberam, mas lá no 8º ano eles tão com uma brincadeira assim, alguns meninos falam uma besteira ai todo grupo dos meninos dá uma tapinha.

Zilda: é uma salga...

Gabriela: teve uma hora que eu brinquei. Aí o J. tava na dele. Um dos meninos falou alguma coisa e todos os meninos bateram no menino. Aí o J. fez algum comentário. Ai um foi e disse: vamos dar nele. Ai outro disse e foi: não ele não está

brincando.

Gabriela: aí eu disse assim como é? Ai ele disse: não ele não tá brincando, a gente

só bate nos que estão brincando, quer dizer bater é uma brincadeira”.

53 Revisitar cartaz no capítulo 2.

Para tanto, podemos observar que um mesmo dispositivo (“a brincadeira”) pode

operar de distintas formas e produzir diversas ações. Os sujeitos, por sua vez, agem sob diversos posicionamentos.

Em suma, o bullying apareceu como um forte analisador que esteve entrelaçado com as práticas de preconceito nesta escola. Seja como sinônimo, como consequência, como deslocamento, ou até mesmo como causa, o bullying esteve presente nas discussões sobre o preconceito.

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