Ao conhecimento do diagnóstico da infeção por VIH está subjacente uma variedade de reações, que vão desde a surpresa à confirmação de uma suspeita. Contudo, a experiência de mudança individual é quase universal, e este momento configura-se com uma série de ramificações psicológicas significativas (Remien & Mellins, 2007).
As repercussões psicológicas associadas ao VIH/SIDA variam dependendo do estádio da infeção, do curso da doença, das característica individuais da pessoa infetada, bem como de aspetos psicossociais (Guerra, 1998), afetando também familiares ou outros significativos na vida da pessoa (Remien & Mellins, 2007).
O avanço da terapêutica antirretroviral proporcionou o aumento da esperança de vida das pessoas infetadas, mudando deste modo a forma delas lidarem com a doença que passou de doença severa que leva à morte em pouco tempo, para uma doença crónica (Remien & Mellins, 2007; Froerer & Smock, 2009). Contudo, o impacto psicológico da doença não foi eliminado, pois estas pessoas continuam a ter que lidar com a incerteza da sua saúde no futuro e com o estigma, que se mantém como o desafio
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psicológico mais difícil e que afeta várias áreas da vida da pessoa infetada e das pessoas afetadas pelo VIH (Froerer & Smock, 2009).
Os desafios psicológicos que surgem às pessoas que vivem com VIH são variados, e como diz Guerra (1998) “(...) se cada ser humano tem a sua individualidade própria, é provável que se encontrem reações diversas (...)” (p.33), ou seja o impacto do diagnóstico na vida de cada pessoa infetada varia de acordo com a pessoa, com a sua realidade e com a sua circunstância. Contudo, há temáticas que acabam por ser transversais a todas as pessoas infetadas e que se configuram como altamente desafiantes do seu bem estar. Um dos primeiros desafios diz respeito à revelação do diagnóstico. Apesar da perspetiva social acerca da doença ter mudado ao longo dos anos, o preconceito ainda está presente. Neste sentido, o medo da discriminação será um dos fatores que torna a decisão de a quem revelar um diagnóstico de seropositividade tão difícil. Se por um lado, sabemos que o suporte social e emocional é importante na adaptação à doença crónica, por outro temos as consequências que a discriminação pode acarretar para estas pessoas e para as suas famílias. Possivelmente, é por essa razão que o diagnóstico de seropositividade de um individuo se transforma, muitas vezes, num segredo de família, para que todos os seus membros estejam protegidos da discriminação, mas, ao mesmo tempo, menos acessíveis ao suporte social e comunitário (Bravo, Edwards, Rollnick, & Elwyn, 2010; Remien & Mellins, 2007). Esta temática da discriminação é tão importante que constitui um dos objetivos da Organização Mundial de Saúde para o novo biénio acabar com a discriminação associada ao VIH/SIDA.
A perceção das pessoas que recebem um diagnóstico de seropositividade para o VIH/SIDA, sobre a sua capacidade de lidar com o stress e com os julgamentos dos outros depois do diagnóstico constitui-se como um fator de risco de suicídio (Carrico, 2010; Schlebusch & Vawda , 2010). Vários estudos (Bravo, Edwards, Rollnick, & Elwyn, 2010; Parker & Aggleton, 2003) demostram que uma grande parte das pessoas a viverem com VIH já experimentou algum tipo de discriminação por causa do seu estado serológico, e que esta discriminação resulta em menor qualidade de vida, num maior isolamento e consequentemente no risco aumentado de suicídio. Esta noção de autoeficácia também está intimamente ligada com a depressão e a ansiedade usualmente presentes nas pessoas a viverem com VIH e que podem estar relacionadas com a progressão da doença para fases mais avançadas e com a maior mortalidade (Jones et al., 2010).
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Para além do que já foi referido, temáticas como a vivência com a incerteza, as alterações físicas e a gestão da dor durante a progressão da doença, as perdas (de amigos, familiares, companheiros, emprego, etc.), o estigma ou a discriminação, entre outros (Bor, Miller, & Goldman, 1992), são comuns surgir quando se conhece um diagnóstico de seropositividade para o VIH/SIDA e podem tornar-se relativamente incapacitantes de um saudável funcionamento. Estes factos reforçam a necessidade de aconselhamento e/ou apoio psicológico a todas as pessoas que se defrontam com o conhecimento de que são portadoras de uma doença com a dimensão do VIH/SIDA. Este apoio e/ou aconselhamento, para além de resignificar o projeto de vida destas pessoas, potencia uma maior adesão à terapêutica, e também se envolve de grande importância para a prevenção da infeção de outros ou reinfeção do próprio, na medida em que providencia educação sobre os riscos de transmissão e promove a mudança de comportamentos de risco (Deninson, O'Reilly, Schmid, Kennedy, & Sweat, 2008; Bor, Miller, & Goldman, 1992).
No entanto, o aconselhamento, não se restringe especificamente ao diagnóstico de seropositividade para o VIH/SIDA. O seu formato varia de acordo com o tempo em que se realiza, isto é, antes ou depois do teste, e no pós teste varia de acordo com o diagnóstico (positivo ou negativo).
Relativamente ao aconselhamento pré-teste, alguns estudos demonstraram (ONUSIDA, 1997) que o aconselhamento prévio à realização do teste é eficaz na tomada de decisão de realização do mesmo, aumentando, desta forma, a probabilidade de realização do despiste do VIH/SIDA. Para além disso, o aconselhamento pré-teste prepara as pessoas para a realização do teste, explicando as suas implicações (resultado) e permite a discussão sobre estratégias e recursos para enfrentar o estado serológico. Por outro lado, envolve o esclarecimento sobre temas como a sexualidade, as relações, os comportamentos de risco e a prevenção da infeção, contribuindo para a desmistificação e correção de algumas informações sobre a doença (ONUSIDA, 1997).
Contudo, o aconselhamento constitui uma prática preventiva ampla que extrapola o campo da deteção do VIH/SIDA, constituindo-se como uma mais-valia para o aumento da qualidade das ações de educação para a saúde, e que deveria ser implementado em vários contextos e momentos, não se restringindo à realização do teste de deteção do VIH/SIDA. Este aconselhamento deveria constituir-se como um processo contínuo e de boas práticas nas atividades de todas as unidades de saúde.
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