Chapter 4: Results and discussion
4.2 No strings-attached policy
4.2.1 Why no strings attached?
Abordaremos, inicialmente, a ordem do irrepresentável a partir da releitura de Freud por Lacan; ou, em outros termos, o que é do campo do real que foge às representações. Porém, nos parece necessário partirmos, nesta discussão, sobre o conceito de inconsciente, desde Freud à Lacan, ou, em outros termos, de uma vertente do inconsciente que é absoluta representação simbólica do objeto até outro estatuto para o inconsciente que inclui o que é da ordem do real irrepresentável.
De acordo com Steffen (2007), Lacan é filho de um momento cultural cuja palavra de ordem é a “desconstrução”. Contudo, seu estilo não se justifica apenas por estar mergulhado no espírito da época. Talvez, a principal razão de seu inusitado estilo resida na própria essência do retorno a Freud a que ele se propôs.
Steffen (2007) ainda afirma não parecer ser coincidência o fato de a releitura que Lacan faz dos textos de Freud ter começado, exatamente, pelas obras denominadas por ele de “canônicas”, ou seja, pelas obras que tratam das principais normas do funcionamento do aparelho psíquico, em outros termos, os textos que tratam do inconsciente e de suas formações, são elas: A Interpretação dos Sonhos, O Chiste e sua Relação com o Inconsciente e A Psicopatologia da Vida Cotidiana. Nessas obras, Lacan encontra toda a matéria-prima para formalizar o inconsciente estruturado como uma linguagem, a partir de seus movimentos, formações e sintomas trabalhados incansavelmente por Freud na busca de formalizar o inconsciente, sua grande descoberta.
Steffen (2007), nos chama atenção para o fato de que as formações inconscientes trazem, em seu cerne, além da linguagem particular do inconsciente, um não dito, que se
apresenta na repetição de modo particular, atual e insistente, “[...] constituindo a evidência da sobredeterminação inconsciente que compulsivamente repete, em diferentes variações, sempre o mesmo e irrepresentável cerne de nosso ser”. (STEFFEN, 2007 p. 02).
Tomar o inconsciente como simbólico é ficar no campo dos significantes, das interpretações, dos sentidos, das representações, tecido onde é forjada a matéria-prima do inconsciente. Um campo que se realiza na linguagem de maneira sintomática para cada sujeito. Entretanto, vimos, em nossa discussão anterior, que o campo do inconsciente não seria somente construído por representações e sentidos, haveria, ainda, algo que seria da ordem do irrepresentável, e que nos remete ao que Lacan denominou de gozo.
Com a pluralização dos Nomes-do-Pai, consequência do advento do discurso da ciência, experimenta-se uma nova forma de nomeação que advém do próprio Real. Assim, a nomeação se liga mais ao Real que ao significante. Freud constrói, com seus mitos, a passagem entre a verdade e o pulsional, ou, nos termos lacanianos, entre o Simbólico e o Real, o que também Lacan, em seu ensino, buscou construir com a linguagem topológica e em seguida através dos nós. Essa passagem não trata, unicamente, de um acesso que articule conceitos psicanalíticos, mas também ilustra a passagem realizada por Lacan do ensino freudiano ao ensino propriamente lacaniano.
Lembremos que, para realizar essa travessia entre Simbólico e Real, Lacan parte, inicialmente, de uma teoria que dava primazia ao Simbólico, cujo principal axioma poderíamos pontuar com o inconsciente estruturado como uma linguagem, chegando até uma teoria orientada para o Real, apontando que há um além do pai, ou seja, do Simbólico, que teve seu ápice com a clínica borromeana19.
Ao tornar os registros Simbólico, Imaginário e Real equiparados, e distinguir o Real por ser aquele que, ex-sistindo aos outros, sustenta a amarração entre todos os registros, Lacan (1975-1976/2007, p. 128) evidencia que é o Real que, estando para além da linguagem, torna os outros registros articuláveis: “É o máximo, o que podemos figurar ao dizer que, ao imaginário e ao simbólico, isto é, às coisas que são muito estranhas uma para a outra, o real traz o elemento que pode mantê-las juntas”.
Com o avanço de seu percurso, Lacan revisa, reformula sua teoria, e, assim, alguns conceitos são lapidados. Por exemplo, as evoluções do pensamento de Lacan a respeito do inconsciente freudiano, elaborando-o como Real. Assim, do inconsciente interpretável,
19
Termo utilizado para designar a clínica fundamentada na articulação dos três registros RSI, através do nó borromeano.
Simbólico, descoberto por Freud, Lacan passa a apontar à outra vertente deste mesmo inconsciente, porém, não é articulável no campo da linguística e que ele chamou de inconsciente Real. Um passo importante ao campo lacaniano. Então, muitos conceitos que foram elaborados ao longo do ensino de Lacan, especialmente nesse período da década de 1970, são mais consolidados. Lacan, ao promover o Real à primazia em sua clínica, a clínica do Real, distancia-se cada vez mais do campo do sentido, efeito do par significante S1 – S2, em outros termos, do inconsciente interpretável de Freud.
No seminário XI – Quatro conceitos fundamentais... (1964), Lacan conceitualiza o inconsciente freudiano e, a partir dessas formulações, introduz a ideia do inconsciente como algo não-realizado, uma hiância, um tropeço, um achado, apontando que, no inconsciente, nem tudo pode ser capturado pelo campo dos sentidos. “Ora esse achado, uma vez que ele se apresenta, é um reachado, e mais ainda, sempre está prestes a escapar de novo, instaurando a dimensão da perda” (LACAN, 1985/1964, p. 30). A dimensão da perda aponta para esse algo que escapa ao sentido das significações e representações, insistindo sempre em se repetir como matéria “não lida”, não assimilada ou traduzida pelos significantes.